domingo, 30 de setembro de 2007

Música domina o cérebro humano, diz neurologista

O GLOBO ENTREVISTA
Oliver Sacks


De todos os animais, o homem é o único dotado de ritmo, capaz de responder à música com movimentos.
É também o único a apresentar um cérebro adaptado para compreender complexas estruturas musicais e ainda se emocionar com elas. Músicos apresentam alterações em regiões cerebrais jamais vistas em outros profissionais. Para o neurologista britânico Oliver Sacks, a musicalidade é tão primordial à espécie quanto a linguagem e entender a relação entre música e cérebro é crucial para a compreensão do homem.

Em seu mais novo livro, “Alucinações musicais” (Editora Companhia das Letras), o especialista relata casos de pessoas que reagem à música de formas incomuns. Há os que simplesmente não conseguem ouvi-la. E há os que a ouvem o tempo todo, mesmo quando nenhuma melodia está tocando.

Há gente que passou a ouvir os sons de forma diferente após ser submetido a uma cirurgia cerebral. E mesmo os que desenvolveram um incomum talento musical. Nesta entrevista, Sacks conta que há um vasto caminho ainda a percorrer para que se possa entender completamente esses fenômenos. Mas uma coisa, diz, é fato: “A música se apossou de muitas partes do cérebro humano.”

Roberta Jansen


O GLOBO: O senhor concorda com Charles Darwin quando ele diz que a música teve um papel importante na evolução? Especificamente na seleção sexual, como um atrativo a mais para o sexo oposto? OLIVER SACKS: Como o comportamento e as suscetibilidades não deixam registros fósseis, é difícil saber como nossos ancestrais se comportavam.
Mas estou inclinado a pensar que a música surgiu muito cedo na espécie humana, tão cedo quanto a linguagem. Linguagem e música são fontes de comunicação primordiais.

O senhor discorda, portanto, de Steven Pinker e de outros especialistas que sustentam que a música é um subproduto do aparato sensorial, prazerosa mas dispensável? SACKS: Sim, discordo de Pinker.Não vejo a música como algo acidental e trivial, como um subproduto da linguagem.A música está presente em todas as culturas e apresenta, nos seres humanos, aspectos únicos que não têm paralelo na linguagem. Falo do ritmo, do fato de respondermos à música com movimentos. Nenhum outro animal faz isso. É preciso ver o ritmo como algo primordial na evolução humana.Porque todos os seres humanos respondem a ele. A música une as pessoas. E há conexões específicas no cérebro para isso.

 Unir as pessoas poderia ser uma vantagem evolutiva? SACKS: Não posso dizer que a musicalidade humana se desenvolveu para unir as pessoas.Mas algo surgiu, se mostrou vantajoso e houve a seleção dessa característica. É claro que a musicalidade é uma vantagem evolutiva. Nenhum outro animal dança com ritmo, mas qualquer criança o faz. Isso pode ter sido um fenômeno quando surgiu, todos esses pequenos seres dançando.

 De que forma isso é marcado no cérebro humano? SACKS: Muitas partes do cérebro se desenvolvem com a percepção, o aprendizado e a imaginação do ritmo. De novo, nenhum outro animal tem a capacidade de ouvir e analisar sons complexos, com tons, semitons, ritmos, palavras.Essa habilidade é especificamente humana. Mesmo pessoas que sofrem de mal de Alzheimer ou tiveram um derrame respondem à música.Várias estruturas do cérebro se relacionam a isso.

 De que forma? SACKS: A música se apossou de muitas partes do cérebro humano. É possível ver como o cérebro se modifica em resposta à música. Estudos com imagens do cérebro já comprovaram a ampliação de determinadas regiões no cérebro de músicos. Vendo imagens de cérebros, não dá para dizer quem é matemático ou escritor. Mas dá para dizer facilmente quem é músico quando essas estruturas ampliadas aparecem.

 Há alguma parte do cérebro especialmente voltada para música? SACKS: Não há uma só parte do cérebro. A música está em todo mundo, por todo o cérebro, envolve várias partes desse órgão e não necessariamente as mesmas. Isso é que é o mais incrível.

 Mas há também os que não respondem de forma alguma à música, não é?
SACKS: Sim, há algumas pessoas que não percebem musica e ficam muito impressionados com os relatos. Há outros que não ouvem determinados tons ou semitons. Essas amusias ocorrem em razão de danos no cérebro. Parte da rede que está faltando.

 E as alucinações musicais? Até que ponto elas poderiam ser interpretadas como um problema psicológico? SACKS: Quando uma pessoa tem alucinação musical (ouve música que ninguém mais está ouvindo), a primeira coisa que pensa é que ficou louco, que está ouvindo coisas. Mas é um processo completamente diferente de ouvir vozes como os esquizofrênicos. Eles recebem ordens, é bem diferente e as pessoas enfatizam isso. Alucinações musicais são bem comuns, são como velhas memórias que tocam na mente. Não é uma doença mental.

 Por que a música muitas vezes provoca uma reação emocional? Como o cérebro é capaz de diferenciar uma melodia triste de uma alegre? SACKS: Um dos maiores poderes da música é controlar emoção, desenvolver, provocar respostas emocionais. Anatomicamente, podemos dizer que algumas regiões do cérebro afetadas pela música estão perto daquelas ligadas às emoções, envolvidas nas percepções dos cheiros que despertam memórias. Mas ainda não está claro como essas respostas emocionais ocorrem.
Não se sabe ainda o quanto depende da cultura.

3 comentários:

Savya disse...

Olá! Sou a Dra. Savya, faço parte de um grupo de pesquisadores de alucinações musicais do HCFMUSP gostaria de saber se alguém tem alucinações musicais e perda auditivas? O O. Sacks é expert no assunto e nós aqui no Brasil estamos começando a pesquisar isso também. Aguardo respostas.

Laura disse...

Dra . Savya

Sinto algo que acho meio estranho.
� algo meio recente.

Quando fico ansiosa v�m em minha mente sequ�ncias de m�sica, repetitiva.

N�o � sempre a mesma m�sica, s�o pequenos trechos mas isso me deixa mais ansiosa.

Comevcei h� tempos atr�s, tamborilar os dedos, sem perceber, com a sequ�ncia.

Depois consegui conter o tamborilar, ma as sequ�ncias continuam.

Na segunda-feira passada fui � uma homeopata, por sinal muito boa, e comentei o fato. J� havia falado disso com o psiquiatra pois estou numa fase de ansiedade.Mas ele n�o fez coment�rio algum e disse que isso era coisa para terapia.

Achei que ele ou n�o tinha feed-back para rseponder ou n�o � atencioso.

J� a homeopata, quando comentei falou do livro Alucina�es Musicais e vou compr�-lo para ver se entendo esse processo.

Acho que se eu compreender o porqu� tenho isso, pode passar.

Laura disse...

Dra . Savya

Sinto algo que acho meio estranho.
É algo meio recente.

Quando fico ansiosa vêm em minha mente sequências de música, repetitiva.

Não é sempre a mesma música, são pequenos trechos mas isso me deixa mais ansiosa.

Comevcei há tempos atrás, tamborilar os dedos, sem perceber, com a sequência.

Depois consegui conter o tamborilar, ma as sequências continuam.

Na segunda-feira passada fui à uma homeopata, por sinal muito boa, e comentei o fato. Já havia falado disso com o psiquiatra pois estou numa fase de ansiedade.Mas ele não fez comentário algum e disse que isso era coisa para terapia.

Achei que ele ou não tinha feed-back para rseponder ou não é atencioso.

Já, a homeopata, quando comentei falou do livro Alucinações Musicais e vou comprá-lo para ver se entendo esse processo.

Acho que se eu compreender o porquê tenho isso, pode passar.