sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Pesquisas comprovam: as mulheres estão mais cansadas e os homens mais felizes

Renata Cabral - O Globo Online

RIO - De segunda a sexta-feira, as mulheres acumulam tarefas em casa e no trabalho: em meio aos compromissos familiares sobra pouquíssimo tempo para elas cuidarem de si. Essa mudança de hábitos causa transtornos físicos, para além do estresse, e um sentimento de culpa constante, por querer fazer tudo a um só tempo. Por outro lado, o avanço delas no mercado de trabalho parece ter aliviado as obrigações de seus parceiros. O efeito dessa inversão de papéis foi comprovado recentemente por pesquisas internacionais que avaliaram o modo de vida moderno e seu impacto para ambos os sexos. Resultado: as mulheres estão mais cansadas e os homens, mais felizes.

Segundo estudo britânico encomendado pela revista Top Santé, realizado com 2 mil mulheres com idade média de 35 anos, 85% delas queixam-se de cansaço freqüente e mais de 75% não conseguem dormir mais de seis horas por noite todos os dias. Por outro lado, os homens parecem estar conseguindo equilibrar melhor as esferas pessoal e profissional e se dizem mais felizes do que as mulheres: hoje, eles conseguem gastar menos tempo com atividades de que não gostam do que elas. É o que indicam duas pesquisas norte-americanas, uma da Universidade de Princeton e outra da Universidade da Pensilvânia.

" Historicamente, a mulher ficava com o poder privado e o homem com o poder público. Hoje, ela quer ser uma ótima profissional sem abdicar do controle doméstico "

Para a psicanalista e professora de Psicologia da PUC-Rio, Silvia Zornig, a inserção feminina no mercado de trabalho provocou uma mudança nos papéis tradicionais atribuídos à mulher. Hoje, o casal compartilha mais as funções na família. O que não mudou foi a exigência da mulher em se ocupar e desempenhar bem tantas tarefas ao mesmo tempo:

- Historicamente, a mulher ficava com o poder privado e o homem com o poder público. Hoje, ela quer ser uma ótima profissional sem abdicar do controle doméstico. Mas ainda não temos uma sociedade estruturada para que as mulheres entrem no mercado de trabalho e desempenhem sua função em casa de forma bem equilibrada. Até em saúde pública, o número de creches que oferecem conforto e segurança para as mães ainda é insuficiente. Além disso, aquelas que não têm com quem deixar os filhos e são provedoras da família acabam cumprindo jornadas imensas de trabalho. Essa pluralidade de papéis, sem contrapartida social acaba causando um certo desnível entre o que ela pode realizar e o que consegue na prática.

Quando o corpo responde ao trabalho excessivo
" Ninguém 'morre' por trabalhar muito. Os grandes problemas são a agressividade e a tensão excessivas a que as pessoas são submetidas, decorrentes do estado de atenção freqüente "

Segundo o médico Cyro Masci, para as mulheres, mais perigoso do que o excesso de tarefas é a tensão que contamina o ambiente de trabalho:

- Ninguém 'morre' por trabalhar muito. Os grandes problemas são a agressividade e a tensão excessivas a que as pessoas são submetidas, decorrentes do estado de atenção freqüente. O trabalho feito dessa maneira é muito desgastante e gera uma mudança hormonal, chamada de estresse, na primeira fase. Numa segunda etapa, ocorre uma liberação excessiva do hormônio cortisol, que pode levar a aumento de peso, diminuição da resistência física e imunológica, além de problemas de memória.

Não há respostas certas para o que poderia promover o equilíbrio nas relações entre homens e mulheres. Mas a psicanalista Silvia Zornig propõe um questionamento:

- Hoje, o mundo contemporâneo pede uma diversidade de papéis, de identidades e estimula a interação em rede. Isso é algo que, nós, mulheres, sabemos fazer muito bem: enquanto os homens recebem uma educação para desenvolver objetivos mais focados, somos multifuncionais, multimídia mesmo. Por que não reconhecer nossas necessidades e buscar apoio no parceiro e na sociedade? - indaga Silvia Zornig.

Tudo ao mesmo tempo

A gerente de compras Lana Schneider, que há apenas dois meses retornou ao trabalho após uma licença-maternidade, conta que aprendeu a equilibrar melhor o tempo que dispensa à carreira, à família e a ela própria. Mas certas exigências de sua profissão a fazem ficar conectada ao trabalho 24 horas. Ela encontrou na terapia o momento que precisava na semana para refletir, já que seu dia-a-dia não lhe permite; encaixa as idas ao pediatra na hora do almoço; e quando não consegue chegar para o jantar, não dispensa o café-da-manhã em família. Para Lana, as mulheres precisam aprender a delegar mais tarefas e a se cobrar menos.

- Estou sempre atenta ao celular e me desdobro. O fato de termos ido para o mercado de trabalho não diminuiu nossas responsabilidades em casa. Apesar de sentir que os companheiros reconhecem, não sei se isso se reflete em ações na prática. Acho que o homem não tem um questionamento natural em relação às responsabilidades com a família. Não quer dizer que ele não se preocupe, mas, em geral eles são mais firmes com suas escolhas individuais e mais generalistas, enquanto nós somos condescendentes e detalhistas - destaca Lana Schneider.

" Hoje, as mulheres trabalham tanto quanto o homem num ambiente hostil e agressivo a que não estavam acostumadas. Isso tem suas conseqüências "

Segundo o psiquiatra e médico ortomolecular Cyro Masci, o desequilíbrio de comportamento entre os sexos pode ser também atribuído ao fato de que as mudanças biológicas não acompanharam a transformação social ocorrida nas últimas décadas. Segundo o especialista, desde os tempos mais remotos, o homem desempenhava o papel de provedor e a mulher de "cuidadora". E, até pouco mais de 30 anos, essas funções não haviam mudado de forma significativa:

- Biologicamente, a mulher é mais apaziguadora do que guerreira, até por influência do hormônio ocitocina, presente em maiores níveis no organismo feminino. Hoje, as mulheres trabalham tanto quanto o homem num ambiente hostil e agressivo a que não estavam acostumadas. Isso tem suas conseqüências - defende Cyro Masci.

Eles também mudaram

Para a psicanalista Silvia Zornig, os homens podem estar se sentindo mais à vontade para selecionar as atividades que os agradam por terem perdido a obrigação de serem os provedores em casa. Como eles historicamente conquistaram o poder, estão confortáveis em relação a isso. E agora podem ser mais sensíveis, afetivos e dividir com as mulheres a questão financeira e profissional.

Segundo a psicóloga Ana Claudia Deschamps, é possível que a pressão social e pessoal exercida sobre as mulheres para cumprir todos os seus papéis - estar bonita, sensual, ganhar dinheiro e conquistar o sucesso - possa estar deixando os homens um pouco mais livres:

- Hoje, a mulher que não trabalha não é valorizada. A sensação é de que ela não tem o direito de falhar - destaca a psicóloga.

Separada, a pediatra Cibeli Carvalho tem dois filhos e conta que assume a casa por inteiro. Ela teve de trabalhar excessivamente por necessidade, mas começa a desacelerar o ritmo agora que seus pequenos já são formados e trabalham. Hoje, ela se policia para encaixar na agenda momentos de lazer e de cuidado pessoal.

- Brinco que, se saio para fazer partos de madrugada, por que também não posso agüentar jantares até mais tarde? Hoje, muitos homens dividem igualmente as tarefas de casa, mas sempre há aqueles que se encostam - brinca Cibeli Carvalho.

Um comentário:

Marciel disse...

Até é compreensivel que as mulheres estejam mais cansadas... Além do trabalho doméstico, ainda estão assumindo a posição de empregadas lá fora.
Não é de se estranhar.
PS: Valeu o seu comentário quanto as matérias sobre a sujeira que o Serra está fazendo em SP. Lamento muito que uma pessoa como ele esteja fazendo tudo pensando na presidência em 2010.
Se quiser, leia mais o meu blog.
Valeu!