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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Pílula do dia seguinte é ‘inaceitável’, diz CNBB

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Millôr

Blog de Josias

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) decidiu engrossar o coro do arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, contra o uso da pílula do dia seguinte durante o Carnaval. Em nota veiculada no sítio do órgão máximo da Igreja, a Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família classificou a distribuição do medicamento aos foliões de providência “moralmente inaceitável”.

O texto é assinado pelo bispo auxiliar do Rio de Janeiro, dom Antônio Augusto Dias Duarte. Médico de formação, ele sustenta que o medicamento que será distribuído por prefeituras pernambucanas é abortivo. “Trata-se de um recurso usado para interceptar o desenvolvimento do concepto após uma relação sexual dita ‘desprotegida’, isto é, quando não foi usado um método anticoncepcional e se supõe que houve uma fecundação e o início de uma gravidez.”

Anota, de resto, que a pílula contém “altas doses” de hormônios femininos (estrogênio) e masculinos (progesterona). E afirma, em timbre de alerta: “O uso desses hormônios em alta dose pode acarretar sérias complicações à saúde da mulher, como os tromboembolismos.”

Segundo dom Dias Duarte, a pílula do dia seguinte provoca “um aborto químico”. Que, na opinião dele, é “tão gravemente imoral quanto o aborto cirúrgico”. O religioso arremata: “Por tudo isso, o uso da pílula do dia seguinte é moralmente inaceitável, ainda mais quando sua distribuição é feita de maneira indiscriminada e com o uso do dinheiro público.”

A manifestação da Pastoral para a Vida e a Família da CNBB veio a público nesta quarta-feira (30), mesmo dia em que que o juiz José Viana Ulisses Filho, da 6ª Vara da Fazenda Pública de Recife, negou o pedido de liminar contra o uso da pílula do dia seguinte em Pernambuco. Com a decisão, manteve-se inalterado o plano de distribuição do medicamento em quatro municípios pernambucanos: Recife, Olinda, Paulista e Jaboatão.

A ação que resultou na decisão do juiz Ulisses Filho fora movida pela Aduseps (Associação dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde). Antes, dom José Cardoso Sobrinho, o arcebispo de Olinda e Recife, tentara, sem sucesso, convencer o Ministério Público de Pernambuco a tomar providências judiciais contra a distribuição do contraceptivo.

Ao apoiar a posição de seu representante para a região de Olinda e Recife, a CNBB compra briga com o ministro José Gomes Temporão. O titular da pasta da Saúde classificara de “lamentável” a posição do arcebispo. É por posicionamentos como esse, dissera Temporão, que cada vez mais os jovens se distanciam das paróquias.

“A prefeitura está correta e a Igreja está equivocada, mais uma vez”, afirmara Temporão. “A prefeitura está fazendo uma coisa que está dentro do protocolo do Ministério da Saúde. A pílula do dia seguinte é usada apenas sob prescrição médica, por orientação médica. Aí é uma questão de saúde pública e não religiosa.”

“Eles estão corrompendo a juventude, desviando a juventude da lei de Deus”, respondera dom José Cardoso Sobrinho. “Qualquer problema humano é também religioso.” Para o arcebispo, a distribuição das pílulas “viola os direitos fundamentais e induz a população a praticar o mal”.

PS.: Ilustração via sítio do Millôr Fernandes.

Escrito por Josias de Souza


terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Presidenta"


É bom se acostumar, sim!

Cristina Kirchner tem razão em exigir o uso do termo presidenta e não é brincadeira, nem autoritarismo, nem chilique. É parte do longo processo no qual as mulheres pioneiras abriram o caminho para reduzir a desigualdade de gênero.

Não é uma questão só de gramática, a linguagem evolui e se enriquece com a própria evolução da sociedade, mas os adversários desta evolução no sentido da igualdade entre os dois componentes do gênero humano se camuflam também na ironia ou na lingüística.

Trata-se de introduzir a feminilidade na política, pondo as mulheres em pé de igualdade com os homens, numa esfera em que a dominação do gênero é notória e até introjetada como "natural" por uma parte do eleitorado, incluso feminino.

Cristina exige termo 'presidenta'

O Estado de São Paulo

Ela rejeita documentos com outra grafia

“Presidenta! Comecem a se acostumar. Presidentaaa...e não presidente!” Era desta forma, esticando a letra “a” para destacar a feminilidade da palavra, que a então candidata presidencial argentina Cristina Kirchner deixava claro, em seus comícios de campanha, que faria questão de ser chamada de “presidenta” se vencesse as eleições presidenciais.

Na época, políticos e funcionários públicos consideraram que as declarações da então primeira-dama não passavam de uma brincadeira. No entanto, desde que assumiu o governo em dezembro, a decisão de Cristina fez com que a Casa Rosada - sede da presidência argentina - rejeitasse no último mês mais de 300 documentos que a chamavam de “presidente”.

No final de 2008, a Argentina completará 25 anos da volta à democracia e, pela primeira vez em sua História, é governada por uma mulher eleita nas urnas. Embora o país esteja longe de estar em uma situação de igualdade dos sexos, a presença de mulheres na estrutura do poder político aumentou de forma gradual e persistente. Dessa forma, nas últimas eleições, o tradicional machismo argentino deu sinais de que está encolhendo, já que 68% do eleitorado votou em mulheres.

Gramáticos indicam que “presidente” está correto, mas que, por questões de costume, nos últimos anos, a palavra “presidenta” tornou-se aceitável. Analistas políticos, porém, afirmam que a insistência fora do comum de Cristina com a palavra é mais uma amostra do autoritarismo do casal Kirchner do que uma preocupação gramatical.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Bissexualidade feminina não é só uma fase de indecisão

girlskissgirls's photo de 08/12/07

REUTERS e AGENCIA ESTADO


NOVA YORK - Um estudo psicológico recém-publicado afirmou que a bissexualidade feminina não é uma fase de transição entre o heterossexualismo e o lesbianismo, mas sim uma orientação sexual específica.

Pesquisadores estudaram 79 mulheres não-heterossexuais ao longo de uma década e observaram que as bissexuais mantiveram-se com atração tanto por homens quanto por mulheres durante todo o período.

"Esta é a primeira pesquisa que realmente acompanhou mulheres homossexuais por um período de tempo tão longo, e enterra de vez, acredito, a idéia de que se trata de uma fase de transição", disse a psicóloga Lisa Diamond, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, que conduziu o estudo publicado na revista Developmental Psychology.

"Porque, se fosse, devia ter se resolvido num período de dez anos. Em vez disso, observa-se que esses padrões de desejo não-excludente são bastante estáveis. As mulheres podem mudar de relacionamento, podem mudar o modo como se identificam, mas esse padrão básico de desejo se mantém."

Diamond entrevistou mulheres que tinham entre 18 e 25 anos quando o estudo começou, e que se autodenominavam lésbicas, bissexuais ou inclassificáveis.

Ela observou que as bissexuais e as sem classificação tenderam mais que as lésbicas a mudar de identidade sexual, mas a mudança era entre bissexual e sem classificação, em vez de se estabelecer como lésbica ou heterossexual.

"É incrível o quão persistentes são alguns dos estereótipos negativos sobre a bissexualidade. Ainda existem até pesquisadores, além de leigos, que não têm certeza de que ela exista, que a encaram como uma fase de transição no caminho para o lesbianismo, ou que a vêem como nada mais que algo que heterossexuais confusas afirmam sobre si mesas", explicou Diamond numa entrevista.

A pesquisa também afirma derrubar o estereótipo de que as mulheres bissexuais são incapazes ou não querem se comprometer a relacionamentos monogâmicos de longo prazo (de mais de um ano). No décimo ano da pesquisa, 89 por cento das mulheres que se autodenominavam bissexuais estavam envolvidas em relacionamentos monogâmicos de longo prazo, assim como 85 por cento das que preferiram não adotar rótulos.

"Até agora era difícil refutar esses estereótipos porque não havia dados suficientes. O que é ruim para a sociedade, mas também é ruim em termos de assistentes sociais, terapeutas e pessoas que têm contato com bissexuais. Eles precisam saber, por exemplo, que seria inadequado dar conselhos como: 'Sabe, você acha que é bissexual, mas provavelmente não seja"', acrescentou Diamond.

(Reportagem de Stefanie Kranjec)

Uma nova diferença entre os sexos

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Fernando Reinach*

Apesar de todo ano estudantes de Medicina dissecarem centenas de cadáveres, ninguém acredita que ainda é possível descobrir estruturas no corpo humano. De tão estudada, a anatomia humana se tornou uma ciência moribunda. Mas, agora, três antropólogos identificaram um detalhe em nossa anatomia que havia passado despercebido.

O interessante é que eles não fizeram a descoberta dissecando corpos, mas partiram de considerações sobre a evolução humana. Desde que nossos ancestrais se tornaram bípedes, nosso centro de gravidade, que se localizava entre as patas anteriores e posteriores, passou a se localizar sobre a bacia. Nos homens, o centro de gravidade não se altera ao longo da vida, mas nas mulheres ele se desloca para frente durante a gravidez ou quando a fêmea carrega o filho.

Para compensar esse desequilíbrio, as mulheres curvam a parte inferior da coluna vertebral e acentuam a lordose (aquela curva na coluna logo acima das nádegas). Essa modificação de postura, chamada de lordose fisiológica, pode ser observada em praticamente todas as mulheres grávidas, e tem como função deslocar para trás o centro de gravidade, restabelecendo o equilíbrio.

Se durante milhões de anos as mulheres passaram grande parte de suas vidas grávidas ou carregando os filhos, isso deve ter favorecido a seleção de características morfológicas que facilitam a transição entre a situação sem lordose (entre gestações) e a situação com lordose (durante a gestação).

Os antropólogos, convencidos que essa pressão provavelmente favoreceu alterações nos esqueletos das mulheres, compararam minuciosamente os esqueletos de mulheres e homens. O que descobriram foi uma pequena diferença na forma das vértebras lombares. Nos homens, essas vértebras têm aproximadamente o formato de um cubo, de modo que as superfícies que entram em contatos com as vértebras imediatamente acima e abaixo são paralelas. No caso das mulheres, essas vértebras têm o formato de cunha e as mesmas superfícies em vez de serem paralelas, formam um pequeno ângulo.

Essa sutil diferença entre homens e mulheres, que nunca havia sido descrita, explica a facilidade com que as mulheres curvam a base da espinha e provocam a lordose necessária para manter o centro de gravidade sobre a bacia. Se essa modificação foi causada por mecanismos de seleção natural, ela deveria estar presente somente nos nossos ancestrais que assumiram a postura ereta. Foi exatamente isto que os antropólogos encontraram quando examinaram as vértebras dos esqueletos fossilizados de outros hominídeos. Nos que assumiram a postura ereta, os esqueletos de fêmeas têm vértebras em forma de cunha.

Essa “nova” diferença entre os sexos ajuda a explicar por que os machos da nossa espécie, mesmo quando desenvolvem enormes barrigas por causa do consumo de cerveja, são incapazes de desenvolver uma lordose fisiológica, enquanto as fêmeas jovens, mesmo antes de engravidar, são capazes de forçar a lordose, arrebitando as nádegas.

Como Darwin já havia observado, as características sexuais secundárias acabam sendo usadas para atrair o outro sexo. Não podia ser diferente no caso da lordose.

Mais informações em Fetal load and the evolution of lombar lordosis in bipedal hominins, na Nature, vol. 450, pag. 1.075, 2007.

*Biólogo - fernando@reinach.com

domingo, 13 de janeiro de 2008

Simone de Beauvoir nue...


Posté par Easywriter l

...Se retourne t-elle dans sa tombe ?

Si c'est pas Google friendly ça je ne m'y connais pas. Avalanche de commentaires outrés ou à l'inverse de mots de soutien pour le Nouvel Observateur qui a publié la semaine dernière une photo de Simone de Beauvoir nue, shootée par le photographe Art Shay en 1952. A son insu ?

L'hebdo assure qu'elle aurait simplement lancé un "vilain garçon" à l'artiste. Pour sa défense l'Obs indique que Beauvoir a justement toujours provoqué la société bourgeoise et les bonnes moeurs. L'hebdo des instits et cadres de gauche abuse un peu, car si la photo pouvait être jugée un rien scandaleuse dans les années 1950, elle fait surtout penser un demi-siècle plus tard aux nues qui servent à vendre des yaourts ou des bagnoles.

D'ailleurs, le Nouvel Observateur aurait fait retoucher la photographie selon des critères très marketing. Voici ce qu"a relevé le blog du désordre : "Eclaircissement à la pastille de tout le haut du corps, notamment les bras, rendus plus fluides, des rides aux épaules sautent, de même que ce qui paraît être des tâches de rousseur sur l’image orginale d’Art Shay. 5. L’éclaircissement, toujours à la pastille, des fesses et du haut des cuisses permet d’une part de les rendre plus visibles, mais aussi de gommer un peu la largesse des hanches et du haut des cuisses. 6. De même avec les jambes. 7. Sur la fesse droite, quelques boutons disparaissent sous quelques coups de tampons de clônage. 8. Et dans la cuisse droite, un peu au dessus du pli du genou, quelques coups de tampons de clônage permettent également de débarrasser cette pauvre Simone de Beauvoir qui n’en demandait décidément pas tant d’un peu de culotte de cheval."

Respect de la Dame que d'en faire un objet tout beau tout propre ou sexisme ordinaire sous couvert de respect de la modernité ? Les deux photos que publie l'ARV semblent confirmer le propos du blog sus-mentionné.
A Mille-Feuilles, où règnent d'odieux phallocrates encore émoustillés par les attributs fessiers de Simone de Beauvoir on suspend son jugement...

Simone de Beauvoir est née le 09/01/1908

A reinvenção da mulher

Simon de Beauvoir no Cafe Les deux magots - foto Robert Doisneau
No centenário de nascimento, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, autora de O Segundo Sexo, é lembrada como pioneira do feminismo moderno

Gilles Lapouge

O Estado de São Paulo

Simone de Beauvoir, morta em 1986, teria completado 100 anos em 9 de janeiro de 2008. Ilustre, companheira de Jean-Paul Sartre, filósofa e escritora, mais célebre na América que na França, ela continua sendo a autora que dividiu em duas a história das mulheres, em 1949, quando disse ao planeta estupefato: “Não se nasce mulher. Torna-se.” Está em seu livro O Segundo Sexo, que será relançado pela Nova Fronteira em março, seguido de Os Mandarins, abrindo a série de reedições da obra da autora, com novas traduções. “A verdadeira mulher é um produto artificial que a civilização fabrica como outrora se fabricavam os castrati. Seus pretensos instintos de coqueteria, de docilidade, lhe são insuflados como ao homem é insuflado o orgulho fálico.” Na Paris efervescente, exaltada e embriagada do pós-guerra, desaba subitamente essa obra filosoficamente poderosa (Beauvoir ficou em segundo lugar no concurso para professora-adjunta de filosofia, atrás apenas de Jean-Paul Sartre, em 1929). O livro foi recebido com vociferações de ódio ou de devoção.

François Mauriac ficou indignado. “Doravante”, disse ele a um colaborador da revista Les Temps Moderns, “eu sei tudo sobre a vagina de sua senhora.” Os comunistas não foram mais inteligentes: O Segundo Sexo provocaria muitas gozações dos operários de Boulogne-Billancourt, eles disseram. E Albert Camus, o amigo Camus, um verdadeiro falocrata impenitente, resmungou: “Ela quis desonrar o macho francês.” A esse concerto de bobagens responde um outro concerto, o de muitas mulheres para as quais O Segundo Sexo abriu a porta da esperança. Vinte mil exemplares vendidos em uma semana. Traduzido para o hindi, o chinês, o russo. Ele se tornou o livro de cabeceira das mulheres, ao lado do admirável Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf.

Quarenta anos se passaram. A violência desse livro se evaporou pela boa razão que o mundo não é mais o mesmo e que a posição da mulher na sociedade, embora ainda esteja longe da igualdade, não é tão aviltada como em 1949, em parte, talvez, graças a Beauvoir. Mesmo as feministas mais radicais de 2007, embora falem com indulgência de “mami Simone”, admitem, como a autora de Queer Zones, Marie-Hélène Bourcier: “Isso não impede que Simone de Beauvoir tenha sido a primeira a mostrar que a masculinidade não estava restrita aos homens, que ela é um signo racial e cultural acessível a todos. E isso é absolutamente revolucionário.” Curiosamente, a figura de Beauvoir permanece em 2008 totalmente iluminada por seu sexo. As pessoas costumam esquecer que ela foi uma romancista de mérito (O Convidado, Os Mandarins, etc.), uma combatente política ainda que tardia (porque, como Sartre até 1945, e apesar da guerra, ela sobrevoou a política sem compreender nada dela), tardia mas corajosa, às vezes, até delirante e tola (URSS, Cuba, Mao Tsé-tung, etc.).

Mais paradoxal ainda: essa mulher, que tantas mulheres louvaram por desvelar o império falocrata de um mundo rudemente masculino, é pela sua qualidade de “apaixonada” que ela hoje irradia. E, primeiro de tudo, apaixonada por Jean-Paul Sartre com o qual forma, ainda muito jovem, um casal fascinante: ela tão bela e tão inteligente, ele tão feio e tão genial. E esse “pacto”: Sartre e Simone decidem que eles vivem um “amor necessário”, mas que isso não os impedirá de ter “amores contingentes”.

Em termos filosóficos, isso está bem formulado para exprimir que eles se deitam a seu bel-prazer, sem ofender o outro, mas com a promessa de contar tudo um ao outro. Por muito tempo esse pacto foi interpretado como algo que beneficiava o homem. Como em filosofia e em literatura, com freqüência se quis fazer de Beauvoir “a sombra de Sartre”, emprestou-se a Sartre uma liberdade sexual desregrada, enquanto a antiga jovem burguesa Simone, por mais revolucionária que fosse, ficaria paralisada por seus interditos e princípios.

Sua maneira de ser já o sugere: bela, mas “vestida como o ás de espada”, com aquele turbante nos cabelos, aqueles tecidos ásperos, aquela voz seca, desagradável. Tudo indica a ascese, o recato, o rigor moral, a austeridade. Nenhuma vertigem, nenhum romantismo.

Nada mais falso, porém. Curiosamente, depois de sua morte, uma nova Beauvoir se revela. É o caso de dizer: uma mulher “apaixonada”. Ela vive oito anos com Claude Lanzmann, autor de Shoah, fica louca pelo “pequeno Bost”, um antigo aluno de Sartre. E tem uma aventura americana com o belo Nelson Algren, o escritor de Chicago que ela “ama com todo seu corpo” e que não compreende nada dessa casuística dos “amores necessários e dos amores contingentes”. “Por aqui, as prostitutas chamam isso simplesmente de programa”, ele resmunga. Bobo ele não era...

Ela, ligada por completo à sua presa, promete a Algren, nos anos 1950 (muito depois de O Segundo Sexo, portanto): “Serei boazinha. Lavarei a louça, eu própria irei comprar os ovos e o bolo com rum, não tocarei em seus cabelos, em suas faces ou seus ombros sem autorização. Jamais farei coisas que você não gostaria que eu fizesse.” A gente esfrega os olhos. Será a autora de O Segundo Sexo, aquela que despertou milhões de mulheres, que as desvairou, que as lançou na liberdade e na revolta, a mesma que escreveu essas frases de costureirinha, de esposa boa e obediente? Sim. É a mesma. Pasmo geral.

E isso não é tudo. Simone, longe de se contentar com amores masculinos, muitas vezes agiu como uma amazona, ávida pelos corpos de mocinhas. Ela ensinara filosofia. Uma professora dos sonhos. Ela se interessa pelas boas alunas, contanto que fossem bonitas. Olga é seduzida, depois Wanda, depois Bianca. E depois... Será que ela as amava? Ou será que vivia aqueles “amores contingentes” para agradar ao “amor necessário”, a Sartre? Uma delas mais tarde se vingou: “Descobri que Simone de Beauvoir pescava nas suas classes de garotas uma carne fresca que ela provava antes de a entregar, ou seria o caso de falar ainda mais grosseiramente, antes de arrastar para Sartre... No fundo, eles eram voyeurs.” Nada brilhante. Mas essa frase talvez seja a vingança de uma amante rejeitada. Mas esse gosto pelas mocinhas é incômodo da parte de uma Simone de Beauvoir que sempre negou ser homossexual ou bissexual. Essa omissão, essa negação, é lamentável, sobretudo partindo de uma pessoa que sempre se jactou de nunca mentir, de estar acima da mentira, e que sempre aceitou passar por “escandalosa”. Por que esse silêncio sobre as garotas? Tudo isso compõe uma figura vasta, cheia de contrastes. Admirável e heróica até, poderosa, muito frágil, marcada por uma divisão, loucamente tolerante e ciumenta até a loucura, austera e desvairada.

Compreende-se que um quebra-cabeça com tantas peças possa causar perplexidade. Sobretudo para as mulheres. E entre as mulheres, sobretudo para as feministas, algumas das quais rendem homenagem eterna àquela que situam no limiar mesmo da revolução feminina do século 20, enquanto outras a tratam como uma “boa mulher” ultrapassada. Diz Antoinette Fouque, das Éditions des Femmes: “Se ser feminista é querer ser um ‘homem como outro qualquer’ como queria, de fato, Beauvoir, então não, eu decididamente não sou uma feminista.” Uma foto levou ao auge o furor de algumas feministas. Le Nouvel Observateur publicou um retrato de Simone. Uma Simone nua, totalmente.

Cólera de algumas variantes de feministas. Vergonha sobre Simone de Beauvoir. Nós a vemos de costas, no banheiro de um hotel de Chicago (na época de Algren) nos anos 1950. Diante de seu espelho, de costas. Ela levanta seus cabelos. O talhe é fino, arqueado, elegante. Para mim, ela pareceu muito bela, mas, claro, trato de ficar quieto.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

Políticas reclamam que têm pouco espaço


Senadora aponta bloqueio; Erundina critica machismo

O Estado de São Paulo

A bênção do eleitorado se justifica. As mulheres não apenas acham que talvez possam melhorar o Brasil - elas têm certeza. Quase unânimes, elas fazem coro com o eleitorado: o Brasil será melhor se for comandado por mulheres. “O mundo é comandado pelas gravatas”, protesta a escritora Nélida Piñon. “As mulheres no poder reduziriam a corrupção”, assegura a atriz Beatriz Segall, concordando com a manifestação popular.

Uma lei obriga os partidos brasileiros a dedicarem 30% das vagas a que têm direito em cada eleição a candidatas mulheres. Mas o mundo político tem outra dimensão. No Senado, elas são 10, em 81 vagas (12,3%); na Câmara, são 45, em 513 deputados (8,8%). Uma mulher nunca participou da Mesa Diretora da Câmara nem nunca presidiu as mais importantes comissões técnicas Casa, a de Constituição e Justiça e a de Economia.

DISTANTE DO PODER

O governo Lula aumentou o número de mulheres dirigindo ministérios e secretarias, mas nos dois casos a deputada Luíza Erundina (PSB-SP) atesta que a idéia central é manter a mulher longe do poder real: “Tirando a Dilma (Rousseff, chefe da Casa Civil), vai olhar o orçamento das outras”, exclama.

Ministra Dilma Roussef e a governadora Yeda Crusius.
Foto: Jefferson Bernardes/Divulgação

Tem mais. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) denuncia que as poucas mulheres que chegam ao Congresso enfrentam uma barreira invisível: são sempre tangidas para áreas dos “assuntos de mulher” - questões femininas, dos jovens e da infância, educação. “Duro é entrar no debate que interessa, a discussão dos temas econômicos”, constata Kátia, que conseguiu furar o bloqueio e foi relatora da medida provisória que prorrogava a CPMF.

A ascensão das mulheres tem dois fortes estímulos, explica a historiadora Mary del Priore, da USP: “De um lado, os Legislativos horrendos que temos; de outro, o exemplo que vem de fora.” Ela entende que, diante do “papelão” dos políticos homens, o povo está olhando para a mulher, que historicamente cumpre o papel de mãe e de controle da casa. “Daí para entregar-lhe em caráter quase messiânico o posto de mãe de todos e de gestora da grande casa, o Estado, é um pulo.”

Deputada Maria do Rosário (PT-RS)
Quando passou a disputar o mercado de trabalho e o espaço político, a mulher não abandonou o seu papel de gestora da casa e da prole, complementa a deputada Maria do Rosário (PT-RS), que luta dentro do seu partido para sair candidata a prefeita de Porto Alegre. Essa missão histórica é que gera a expectativa da sociedade de que, na vida política, ela será mais dedicada. A honestidade vem daí, diz Rosário: “A mulher se doa. Se tem pouco alimento à mesa, ela não será a primeira a comer.”

Mas é sempre mais difícil para a mulher lutar pela ocupação dos espaços políticos: “O homem é educado para ocupar os espaços públicos e a mulher é treinada para ocupar os espaços privados”, diz Erundina. Nélida vai na mesma toada: “A mulher é treinada para manter-se reclusa e exercitar a pequena moral familiar é que a faz íntegra.” Mas Beatriz acredita que aos poucos o preconceito vai se reduzindo e o País se tornará mais maduro.

Erundina se queixa, ainda hoje, de que os caciques do PT lhe deram pouco apoio em 1988: “Lula nem foi à minha posse.” O passado da ex-prefeita atesta uma reclamação atual de Rosário: os partidos de esquerda são tão machistas quanto os de direita. No entanto, a presença da mulher na política é essencial para colorir a democracia, atalha a ex-deputada Denise Frossard (PPS), agora candidata à prefeitura do Rio.

“A mulher tem outra percepção das coisas. E tem uma vantagem: no mundo inteiro, participa da política sem se envolver muito com a corrupção”, diz. Ela reconhece que a mulher, às vezes, não sabe fazer o jogo do poder. “Um homem diz que vai fazer o metrô até a lua. Já a mulher não tem coragem de fazer demagogia.”

Maioria acha que mulheres podem melhorar a política

Foto de passeata nos anos 60 com cartaz do Ziraldo: Vai calar a boca da mmm...

"Eva Tudor, Tônia, Eva Wilma, Leila, Odete e Norma, mulheres do meu tempo, liderando uma passeata em 1968. Minha maior produção são os cartazes de protesto, da retomada dos sindicatos (as famosas Chapas Dois), dos shows estudantis, as camisetas, as marcas e slogans políticos que fiz às centenas, em preto e branco, durante vinte anos que se perdem por aí. Essa foto resgata um deles: um símbolo para mim." Portal do Ziraldo



Maior aceitação da presença feminina deve-se à gestão Lula e a figuras de destaque internacional, diz analista

Carlos Marchi - O Estado de São Paulo

Existe um amplo espaço na política para ser ocupado pelas mulheres: 67% dos brasileiros acham que uma presença mais forte do público feminino melhoraria o nível da política no País, segundo pesquisa Estado/Ipsos. Num cenário de decepção com os rumos políticos, 58% dos eleitores brasileiros acham que a participação da mulher na política é “menor do que deveria ser”. Em universo similar, 57% dizem que já votaram em alguma candidata. “Nas eleições municipais de 2008 as mulheres terão uma chance especial”, afirma a analista de pesquisas Fátima Pacheco Jordão.

Há um processo de maturação em curso, constata ela, apontando para a gradual aceitação das mulheres no topo do poder. Esse fenômeno, segundo Fátima, é resultado de duas influências. Uma, a atribuição de muitos cargos de poder às mulheres pelo governo Lula; outra, o destaque de mulheres que disputam e, em alguns casos, ganham o poder em seus países, como as presidentes Michelle Bachelet, no Chile, Cristina Kirchner, na Argentina, e a primeira-ministra Angela Merkel, na Alemanha. Mas a influência maior vem da candidata Hillary Clinton, nos Estados Unidos.

A lenta redução do velho preconceito tem, também, uma importante razão, destaca Fátima: o desencanto com as representações políticas dominadas pelos homens nos três Poderes . A pesquisa revelou, no entanto, pontos que mostram aspectos preservados do preconceito. Se 68% dos brasileiros rechaçam o velho chavão de que “política é coisa pra homem”, 31% dos eleitores do País, quase um terço do eleitorado, ainda endossam o velho ditado e formam o epicentro do grupo de rejeição às mulheres na política.

O VOTO NELAS

Votar ou não numa mulher, para o eleitor brasileiro, depende do nível do cargo: 80% votariam numa mulher para vereadora, mas o porcentual se reduz para cargos mais importantes: 78% votariam numa mulher para prefeita; 76%, para deputada estadual; 75%, para deputada federal; 73%, para senadora; 72%, para governadora de Estado; e, finalmente, 69%, para presidente da República. Ao revés, 19% ainda negam o voto a uma mulher candidata a vereadora e 30% dizem que não votariam numa mulher para presidente.

O cenário coletado pela pesquisa mostra um espaço potencialmente vazio entre os 57% que disseram já ter votado numa mulher e os 69% que admitem votar numa candidata a qualquer cargo, de vereadora a presidente. “Há uma faixa de tolerância que é maior do que a prática eleitoral já provada. Há eleitores que nunca votaram numa mulher, mas que se dispõem a fazê-lo”, constata Fátima.

Para ela, a pesquisa demonstra que o País não está inteiramente maduro para aceitar a plena participação da mulher na política, mas há elementos que apontam para uma progressiva superação do preconceito. “Muitas barreiras foram vencidas”, diz Fátima, “mas ainda existem eleitores que não votam numa candidata simplesmente porque ela é mulher.”

MAIS HONESTA

Acima de todos os preconceitos, os eleitores brasileiros - homens e mulheres - acham que na política a mulher é mais honesta que o homem: enquanto 43% não distinguem gêneros e acham que o grau de honestidade é igual entre políticos homens e mulheres, 48% entendem que a mulher é mais honesta que o homem e só 6% pensam que o homem é mais honesto. Importante: 44% dos homens acham que a mulher é mais honesta. “Se pedirmos ao eleitor para citar dez personalidades envolvidas com corrupção na política, dificilmente aparecerá um nome de mulher nessa lista”, explica Fátima.

Talvez porque mulheres ainda não ocupem espaços expressivos no comando do poder, ressalva ela. Mas a percepção do eleitor também premia a competência da mulher: 49% acham que o nível de competência é o mesmo entre homens e mulheres, mas 35% afirmam que a mulher é mais competente e apenas 14% premiam os homens no quesito. Como tradicionalmente a mulher ocupa poucos espaços de poder, essa concepção só pode vir de uma projeção do estereótipo de gênero - a mulher como gestora da prole e da casa - sobre o estereótipo do poder, diz Fátima.

A especialista diz que a pesquisa mostra um cenário que favorece as mulheres nas eleições municipais de 2008, até porque estarão em disputa os cargos de menor importância na hierarquia do Estado brasileiro - prefeitos e vereadores - e que, por isso, se situam num arco maior de tolerância à participação da mulher.

A pesquisa ouviu 1.000 eleitores numa amostra representativa do eleitorado, entre 11 e 17 de dezembro, com margem de erro de 3 pontos porcentuais.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Carta a Simone de Beauvoir


Eu sei que o texto é longo e está em castelhano, porém vale a pena fazer o esforço e ler esta magnífica carta desmistificadora e cheia de amor por Simone de Beauvoir. Um percurso feroz sobre a vida e as obras deste ícone do feminismo. Boa leitura.

Aniversario Precursora del feminismo

A cien años del nacimiento de la autora de El segundo sexo (1908-1986), la escritora argentina, Alicia Dujovne Ortiz, analiza la obra literaria y el pensamiento de su colega francesa con ironía y duro espíritu crítico no exento de gratitud

J.P. Sartre e Simon de Beauvoir

Sábado 12 de enero de 2008 Publicado en la Edición impresa adncultura*com

Chère Simone:


Es evidente que no le escribo para obtener respuesta. No solo porque usted está muerta desde 1986, sino porque, si viviera, me contestaría inevitablemente como acostumbraba hacerlo, instándome en dos líneas, secas pero amables, a “proseguir por ese camino”. Algo similar a lo que respondía su colega Victoria Ocampo -cuyo nombre no sé si le suena o si le hubiera sonado en vida-, cuando un autor desconocido le mandaba un libro y ella se apresuraba a responder con la consabida fórmula: “Gracias, lo leeré con atención”. De todos modos, y por motivos distintos, a ninguna de las dos, mientras formaron parte de este mundo, les he escrito jamás.


Mi verdadero problema es haber llegado tarde. Y no precisamente por mi edad: usted ha tenido una influencia decisiva en cientos o miles de mujeres de mi generación, para quienes tanto El segundo sexo como sus obras autobiográficas han sido la revelación de sus vidas. ¿Por qué no lo han sido para mí? Porque no yo, sino mi madre, Alicia Ortiz -escritora feminista y comunista que influyó en mi formación de modo tan determinante como usted en la de mis compañeras de la Facultad de Filosofía y Letras de Buenos Aires, la de Viamonte al 400-, fue su apasionada, aunque crítica lectora desde los años cuarenta. Mientras muchas de esas chicas, en los años sesenta, se disfrazaban de usted con turbante y todo, así como los muchachos se disfrazaban de Sartre con la pipa en la boca, para mí Simone de Beauvoir resultó una lectura de segunda mano. En esto no hay virtud, ni tampoco pecado: me limito a comprobar que así fue. Quizás haber podido desprenderme de los tabúes de la burguesía tal como usted lo ha hecho, y admirarla por eso, me habría facilitado la vida al permitirme compartir descubrimientos y rupturas dentro de mi propio tiempo. Pero la que se adelantó a desprenderse de esos tabúes fue mi mamá.

Los últimos días la he estado releyendo con un objetivo concreto: establecer con usted una relación personal, ya no por vía materna sino cara a cara, para tratar de percibir los motivos por los que nunca la he querido. Esto se lo puedo decir de frente: usted ha sido la primera en dejar a un lado todo guante blanco en la expresión de los sentimientos, haciendo públicos los detalles de su propia vida como parte de una empresa ejemplificadora que quería decir: “Mujeres, libérense, hagan como yo”, pero también los pormenores del horroroso cáncer intestinal de su madre en Una muerte muy dulce , o los de la penosa senilidad de Sartre en La ceremonia del adiós . Desde el momento en que usted misma decidió contar las cosas con absoluta brutalidad, sin tomar en consideración el efecto que su franqueza podía producir en los otros, nos ha dado permiso para acabar, al menos a su respecto, con ese otro tabú que significa el temor a causar pena. Puedo entonces declararle sin ambages que usted no ha estado nunca en mi corazón, y que esta relectura me ha permitido comprender por qué.

Mencionar los tabúes de la burguesía equivale a decirlo todo. En sus Memorias de una joven formal , que abarcan sus años de infancia y juventud, usted describe un mundo codificado que no deja margen para la improvisación. También el surrealismo de los años veinte y treinta había surgido como reacción frente a la previsibilidad burguesa. El existencialismo sartreano de los años cuarenta y cincuenta enarboló nuevas banderas; pero ninguno de los dos habría podido nacer en el seno de pueblos desprolijos. Ambos provinieron de una existencia tan encorsetada, que la única salida, para seguir con la imagen, consistió en irse arrancando las ballenitas de la faja sin perdonar ni una. No soy una adoradora ferviente de Fidel Castro ni mucho menos, pero debo reconocer que cuando Sartre y usted fueron a visitarlo a Cuba, los captó en un relámpago. Creo que usted nunca supo lo que él opinó acerca de la pareja revolucionaria que agitaba el oleaje de la liberación a través del mundo: “Burgueses de París”.

Algunos rasgos de su personalidad que aparecen en esas Memorias… merecen análisis. Desde su más tierna infancia, usted estuvo convencida de ser “la Única”. Es así como lo escribe, con mayúscula y con un leve atisbo de autoironía que nunca va muy lejos. Cuando nació su hermanita, Hélène, apodada Poupette, usted sintió que ese bebé le pertenecía, pero sin contrapartida posible: usted no era poseída por él. Aunque Hélène, destinada a ser pintora (y a quien la tierra se le abrió bajo los pies cuando la publicación de los escritos póstumos de su célebre hermana mostraron el poco aprecio en que ésta la tenía), le haya quitado el rango de hija única, nunca logró moverla del merecido sitial en donde la familia la había colocado a usted. Su inteligencia superior la elevaba por encima de toda regla. En ese universo regido por un orden estricto, la pequeña Simone (usted misma lo cuenta como si el recuerdo aún la deleitara) poseía a los otros. Para que ese dominio quedara claro, a la menor contrariedad se alzaban unas tremendas rabietas a las que nadie ponía límite. Apenas si una vez un tío, harto de sus alaridos, le encajó uno de aquellos sopapos que las señoras de barrio (me refiero al barrio porteño) llamaban “santo remedio”. En efecto, al menos aquel berrinche se acabó como por arte de magia. Sin pretender rendir honores a una educación basada en semejantes medicinas, acaso sea de lamentar que ese tío no haya frecuentado su casa más a menudo.

A los quince años ya sabía que iba a ser una escritora famosa. Sus padres habían sufrido un revés económico (a causa de la quiebra de su padre, la dote de la madre se había evaporado sin dejar rastros) que condenaba a las hermanas Beauvoir a hacer estudios en vez de casarse tranquilamente como cualquier jovencita bien… dotada. Georges de Beauvoir, abogado y aficionado al teatro, no era ningún ignorante. Para él no había oficio más bello que el de escritor, y su hija mayor, la inteligente, que, con toda evidencia, ejercería esa envidiable profesión, le parecía tan extraordinaria, que solía dispensarle el máximo elogio: “Tienes un cerebro de hombre”. Si bien usted no compartía sus gustos (él adoraba a Maupassant, al que usted detestaba), contaba con la admiración y con la bendición paternas para continuar sus estudios hasta el grado más avanzado. Diplomas de literatura, de griego, de latín, de matemática, de filosofía, a su padre todo le parecía lógico tratándose de usted; más lógico que a la madre, que sentía una mezcla de vanidad y de rivalidad en relación con esa hija demasiado estudiosa. ¿Entonces por qué, apenas unos años más tarde, ese mismo padre que se enorgullecía de sus éxitos comentaba con despecho: “Simone anda de farra en París”?

La respuesta figura al trasluz en la primera de sus obras que la llevó a la fama de modo tan súbito como fulgurante: La invitada , publicada en 1943. Un texto de ficción, de inspiración autobiográfica, cuya protagonista, Françoise, joven intelectual emancipada que frecuenta los bares de Montparnasse, rodeada por un grupo de amigos y amigas a los que ella posee , invita a una pobre chica provinciana “inexistente” a compartir su vida en París. Cuando, al comprender que ha sido usada, la pequeña Xavière, que se ha dejado seducir por dos amantes de su temible protectora, reacciona como cualquier persona con derecho a enojarse, Françoise se pregunta “cómo puede existir una conciencia que no sea la suya”. Si la otra existe, entonces ella misma deja de ser. ¿Qué solución puede quedarle, sino elegirse a sí misma, eliminando físicamente a Xavière?

Los lectores de esta carta, a los que ruego no asustarse más de la cuenta (a diferencia de Françoise, usted nunca asesinó a nadie, al menos que se sepa), quizás lo hayan adivinado ya: uno de los personajes masculinos de La invitada representa a Jean-Paul Sartre, al que usted conoció en la Sorbona y con el que viviría una relación mítica hasta el final de sus días. Sartre era el hombre ideal: un igual, léase un genio, aunque dos años mayor y ligeramente más avanzado que usted en el terreno intelectual, “como un atleta algo más entrenado”. Con un hombre como ése podía firmarse un pacto, perdón, un Pacto. El fue el “amor necesario”. Los otros y las otras (salvo el norteamericano Nelson Algreen, al que usted le escribió trescientas cartas que se cuentan entre lo más sincero y divertido que salió de su mente, por no decir de su alma) fueron “amores contingentes” que el Pacto permitía, mejor aun, estimulaba. Entre la necesidad y la contingencia, el grupito de alegres camaradas, autodenominado “la familia” y unido por los lazos de la inteligencia y del sexo, se complacía en desarrollar las mismas figuras coreográficas que poco antes habían imaginado Picasso y los surrealistas durante sus vacaciones en la Costa Azul. Sin embargo, la “familia feliz” de Picasso y sus amigos estaba formada por hombres creativos desde todo punto de vista y por mujercitas que, como Xavière, se sometían a una moda: el intercambio de parejas. Una moda según la cual los celos representaban un sentimiento antediluviano. Mientras que plegarse a ese comportamiento ultramoderno significaba para ellas tragarse las ganas viscerales de armar escenas como en la época de las cavernas, para usted, chère Simone, tener una “familia” significaba ser la directora, o pensar que lo era.

Claude Lanzmann, Simone de Beauvoir y Jean-Paul Sartre, ante la imponente imagen de la Esfinge
Foto: Bettmann / Corbis


La invitada , publicada en plena guerra (cuando el Dôme, La Coupole o el Select de Montparnasse, y el Flore o el Deux Magots de Saint-Germain intentaban resistir, oponiendo al nazismo la libertad de costumbres), representó la actitud vital de una juventud desengañada que deseaba embriagarse probando lo más diversos alcoholes (con cierta malignidad podríamos decir que la resistencia de esos jóvenes, a diferencia de otros que fueron al maquis , para no mencionar a otros más que fueron a Auschwitz, consistió en hacer fiestas donde por toda cena comían porotos). Pero su gran obra, El segundo sexo , vino cinco años después, en 1949, y surtió el efecto de una bomba. Una bomba poderosa, más de lo que lo habían sido las alemanas que, de todas maneras, y Vichy mediante, nunca llovieron sobre los techos de París.

Es necesario colocarse en una perspectiva histórica para medir el impacto de El segundo sexo . La frase parece sacada de un manual de literatura pero resulta cierta. Nunca hasta ese momento, un libro sobre las mujeres escrito por una mujer había conocido semejante repercusión. Desde los años treinta, en Francia se estaba desarrollando una política familiar que impulsaba la natalidad. Tanto la izquierda como la derecha se declaraban natalistas. Y de pronto salía usted a echarlo todo por tierra, no solo con su defensa del aborto (que sería legalizado en los años setenta por su tocaya, la ministra Simone Veil), sino con su negación del instinto maternal que, a su entender, aliena a la mujer, y con su discurso claro y preciso sobre la ignorancia de la sexualidad en que vivían las jóvenes de su tiempo; las burguesas, se entiende. Usted se atrevía a hablar en voz bien alta de “esas cosas” que las chicas solo se murmuraban al oído. Usted osaba decir: “Si hoy ya no hay feminidad, es que nunca la hubo”; “No se nace mujer, se lo deviene; el conjunto de la civilización elabora ese producto intermedio entre el macho y el castrado al que se califica de femenino”; “La mujer no es víctima de ninguna fatalidad misteriosa: no se debe concluir que sus ovarios la condenan a vivir eternamente de rodillas” o bien “En sí misma la homosexualidad es tan limitativa como la heterosexualidad; el ideal debería ser poder amar tanto a una mujer como a un hombre, a cualquier ser humano, sin experimentar ni miedo, ni presión, ni obligación”.

Como no podía ser de otra manera, el mundo se desencadenó en su contra o le abrió los brazos. François Mauriac escribió a Les Temps Modernes , la revista que usted había fundado junto a Sartre, para manifestar un machismo troglodita del que no se lo creía capaz: “Ahora lo sé todo sobre la vagina de su patrona”. Otros la amaron. Imposible mantenerse equidistantes. Aun en la hora actual, esas frases de El segundo sexo , conciten o no nuestra adhesión, nos espeluznan por su coraje. Sin duda pronunciarlas fue necesario, no porque todas ellas contengan la verdad, sino por su potencia renovadora, por el sacudón que significaban, por su incitación a pensar tal como nunca se había pensado antes. Ese fue su gran libro, Simone, su batalla ganada. Si lo pongo en pasado, es porque tal vez la evolución de las costumbres, lograda en buena parte gracias a él, le haya jugado en contra. Es un libro al que ahora le miramos la fecha. Ya en las décadas del sesenta y del setenta muchas feministas lo habían comprendido. Por eso reaccionaron valorizando “lo femenino”, que no es ni lo castrado, ni lo sometido a la envidia del pene de la que hablaba Freud. Hoy resulta difícil acompañarla a usted en su idea de que no se nace mujer, de que la sociedad distribuye papeles y a algunos de nosotros nos toca ese. Más seguras de nosotras mismas de cuanto lo estuvieron aquellas verdaderas víctimas consagradas a la maternidad como único destino, que vieron en su libro abrirse una ventana, las que podemos hacerlo hemos integrado un feminismo que lucha por la igualdad de oportunidades, pero que también tiene ovarios.

Su empresa autobiográfica comenzó en 1958 con las memorias ya citadas y continuó con La plenitud de la vida y La fuerza de las cosas , por no mencionar sino esos. Libros en los que me es todavía más difícil seguirla, cincuenta años después. Ilustrar con su propia vida lo que se debe pensar sobre el sexo no es el mejor camino para lograr adeptos definitivos. Su famosa frase sobre la bisexualidad, preferible, en su opinión, a la hetero o a la homosexualidad, caracteriza la soberbia que recorre la totalidad de su obra. Usted era bisexual, de acuerdo. ¿Pero por qué no admitir que las otras dos opciones también existen, y que cada cual elige la que mejor le cae? Bien mirado, la “imitación de Simone”, en el sentido en que se dice la “imitación de Cristo”, obliga a inclinarse ante una ley bastante menos libre de lo que pareciera.

La estoy sintiendo sonreír desde su altura, Simone. ¿Acaso supone que mis palabras están dictadas por la moralina? Desengáñese: lo que las dicta es, en primer lugar, el respeto por una sexualidad espontánea que no necesita notas aclaratorias al pie de página, y, en segundo, la escasa estima por las experiencias sexuales de tipo voluntarioso. Antes que usted, Colette hizo de su preciosa vida lo que le vino en gana. Lo hizo con gracia y con deseo. Un auténtico deseo, igual al de Marguerite Duras, con su existencia tormentosa que ella vivió como pudo, en carne viva y a los saltos, sin volverla doctrina; o al de Marguerite Yourcenar, gran señora y apacible ama de casa que cohabitó con su amiga en una isla de la costa norteamericana, sin pretender dar lecciones de homosexualidad. Tres mujeres libres así nomás, porque sí, más ejemplares aun puesto que al ser estrellas, no fueron dogmas vivientes. Aquí debo agregar algo que quizás le borre la sonrisa. Toda comparación es odiosa, pero la libertad de estas tres -la sensualidad de Colette, la solidez de Yourcenar y el aliento entrecortado de Duras- ha dado por resultado obras insuperables dentro de la literatura del siglo XX. Quién sabe si no será que a ellas las amo porque escribían maravillosamente, y si en el fondo mi reproche para con usted no consiste en que ni una sola de sus páginas me llena la boca de esa saliva deliciosa que a veces provoca la escritura.

Imposible no aludir a sus cartas, en especial las dirigidas a Sartre, publicadas después de su muerte por su hija adoptiva, Sylvie Le Bon, en las que usted, con una arrogancia típica del peor sexismo, se burla de las amantes compartidas. Equipararse con el hombre supuestamente querido, y ciertamente admirado, subiéndose a su mismo pedestal para observar desde arriba a esas pobres mujercitas a las que ambos despreciaban por su debilidad, creyendo salvarse así de la “condición femenina” (y de paso, impidiendo que Sartre se le fuera de veras con alguna de ellas), ¿es eso ser feminista? En la pluma de un hombre, sus mismas observaciones llenas de detalles humillantes sobre las características íntimas de esas mujeres deshumanizadas y vueltas objeto serían insoportables; escritas por usted, resultan casi patéticas, como si dibujaran por el reverso una verdad escondida que pugna por ser dicha. ¿Pero la verdad de qué? ¿De un dolor? Al final de su carrera, en uno de sus últimos libros de los que, por desgracia, no puedo dar la referencia (quizás la aterradora La ceremonia del adiós) , usted escribió: ” J ai été flouée “. He sido engañada o he caído en la trampa. ¿En cuál? ¿En la de Sartre? ¿En la de su propio orgullo? Sea como fuere, Simone, por esa sola confesión usted merece que se le saque el sombrero.

Escrita en 1968, La mujer rota es una novela de tesis sobre la abnegada esposa que sufre y espera, donde por instantes asoman acentos de convincente desesperación. ¿Los imaginó usted o los vivió en carne propia? La pregunta no cabe, sobre todo referida a esa fecha temprana: si alguna vez, ya por aquellos años, usted se hubiera sentido ” flouée “, no se lo habría dicho ni a su almohada. Su relación con Sartre debía aparecer a ojos de todos como “el más perfecto de los éxitos”, y su Pacto le prohibía sufrir. Así pues, quizás para endilgarle los sentimientos bochornosos que en usted misma rechazaba, eligió como protagonista a una de esas mujercitas a las que nadie habría podido confundir con usted.

Basada en un esquema demasiado visible, la historia es más un alegato sobre la estupidez femenina que un relato creíble. La heroína, de cuarenta y cuatro años, no ha hecho otra cosa en su vida que ocuparse de su marido y de sus hijas. No tiene profesión. Las hijas ya se han marchado. El marido tiene una amante y se lo dice. Las amigas le aconsejan aguantar con una sonrisa y ella lo hace. “Ya va a volver”, le aseguran, y ella sigue aceptando lo inaceptable y esperando lo imposible. Minuto a minuto, marido y mujer negocian las vacaciones en la montaña, los fines de semana, las horas del día y de la noche que les tocan alternadamente a la esposa y a la amante. Y la esposa va cediendo terreno hasta que ya no le queda nada.

Moraleja: la única, perdón, la Única a la que esas cosas no le pasan es la que se ha librado de la fatalidad ovárica, dirigiendo la batuta de las infidelidades en lugar de sufrirlas. La idea de que la infidelidad no sea inevitable, o de que tampoco lo sea el soportarla, con o sin batuta, a usted ni se le ha pasado por las mientes, Simone, por la sencilla razón de que la infidelidad formaba parte de su medio. Su madre la aguantó hipócritamente con la sonrisa de marras. Usted la instrumentó con un gesto de domadora que tuvo la virtud de la franqueza, pero también un defecto, para mí grave: el de cosificar a sus rivales para evitar que lo fueran. Si me permite una opinión, discutible como todas, hay amores más sanos y soluciones más dignas, que consisten en cortar… por lo sano. Es cierto que esto lo escribo en los albores de 2008, cuando en la mayor parte de los países a los que consideramos avanzados, y que realmente lo son en relación con el tema, un alto porcentaje de divorcios es solicitado por la mujer. ¿Cómo negar que usted, en ese proceso, ha tenido una inmensa intervención, pero también cómo cegarse ante el hecho de que los ejemplos que nos presentaba carecían de ese elemento “antediluviano” al que no he vacilado en llamar dignidad?

Esa mujer rota de solo cuarenta y cuatro años se siente vieja. Es que el tema de la decadencia física y mental a usted la ha obsesionado desde siempre, Simone. Así llegamos a uno de sus libros más terribles, La vejez , escrito dos años después de la citada novela y donde se siente como nunca la ausencia de ese otro elemento al que llamaré cariñoso. La falta de cariño la conduce a subrayar lo repugnante. ¿Una gran escritora, situada tan por encima de nuestras cabezas, cómo habría podido aceptar la chochera de Sartre ni la abyección de la ancianidad? Semejante crudeza vuelve su ensayo agudo y, a la vez, injusto. Su descripción de la decrepitud se limita a ser exacta, lo que, del modo más curioso, empobrece las ideas y hasta les resta veracidad. Esa realidad que usted pensó poseer a partir de una visión sin concesiones, de una crueldad quirúrgica, se niega a ser entendida a fuerza de escalpelo.

A esta altura de los acontecimientos me pregunto si responder al llamado de sus vísceras no bajará los humos (cosa que yo, personalmente, celebro). Aunque ni la maternidad, ni ese placer al que considero espontáneo cual margarita silvestre obedezcan al mínimo dictamen, acaso permitan, entre muchos otros caminos posibles, alcanzar cierto nivel de sabiduría de naturaleza no doctrinaria. Una relación teórica con el cuerpo, como no dudo ni un instante que haya sido la suya, solo le permitió gritar su indignación porque un buen día, su genial compañero cometió la infracción de babearse la corbata (bonita forma de escapársele por la tangente, tan luego a usted), o porque los viejos son feos y se hacen en los pantalones.

¡Ay, Simone! Hay que haberse vuelto un poco más humilde para percibir en el viejo o en el débil la chispa de humanidad. Es claro que a usted no se le puede pedir lo mismo que a su otra tocaya, Simone Weil (no la mujer política, sino la filósofa judía convertida al cristianismo, que murió de hambre durante la guerra por compartir las privaciones de los obreros). En la Facultad de Filosofía donde Weil también cursaba sus estudios, la futura autora de La gravedad y la gracia apenas si le concedió una mirada sobradora en la que usted leyó, sin saberlo, la misma palabra de Fidel, varios años después: “burguesa”. No, Simone, usted nunca fue mística ni tuvo por qué serlo; pero sospecho que si jamás se ha experimentado en la propia osamenta una pizca siquiera de lo que sufren los otros, debe costar ponerse en su lugar, sobre todo cuando incurren en la intolerable flojera de ponerse achacosos. Aunque, seamos justos: dado que usted ya no era joven cuando escribió ese libro, debemos concluir que su dureza para con los demás fue la misma que empleó para con usted misma, porque la rigidez de sus principios no la dejó ser tierna ni con Simone de Beauvoir.

En el discurso que pronunció el día de su entierro, tan multitudinario como el de Sartre, Elisabeth Badinter, que más tarde sería ministra de Justicia, exclamó: “Mujeres, ustedes se lo deben todo a Simone de Beauvoir!”. Estas palabras leídas hace poco me han dejado pensando. ¿Serán ciertas o no? Y de pronto me doy cuenta de una cosa: el exceso de furia que me ha atacado contra muchas de sus actitudes tiene que ver con un sentimiento de familia. No de la suya, la sexual, sino de la ideológica en su sentido más vasto. Es por sentirla próxima y no ajena que reacciono con rabia. Una rabia similar a la que se siente por una tía gruñona y cascarrabias a la que tuvimos muy cerca, demasiado, tanto que nuestra máxima ambición ha consistido en desembarazarnos de ella. Ahora que ya está; ahora que hemos escuchado a los budistas cuando aconsejan “matar al Buda”; ahora que, en una palabra, nos la hemos sacudido de encima, supongamos que usted regresara a la vida y que tuviera acceso a las estadísticas actuales sobre la violencia familiar, sobre las mujeres golpeadas y masacradas en el mundo entero, y no solo en las sociedades tradicionales sino en las avanzadas, en España, en Francia, en Inglaterra. Supongamos asimismo que su renacimiento hubiera tenido lugar el mismo día en que termino de escribir estas líneas, 27 de diciembre de 2007, cuando un barbudo fundamentalista asesinó a Benazir Bhutto.

A lo mejor la comprobación de nuestro retroceso la haría morir de nuevo. Pero si se aguantara la amargura de comprobar hasta qué punto su prédica ha obtenido resultados contradictorios, inimaginables durante los tumultuosos encuentros feministas en la Mutualité de París, que en este preciso instante miro desde mi ventana, ¿de qué lado estaría usted, sino del nuestro, el de las mujeres que, parafraseando sus cartas, “proseguimos nuestro camino”, a menudo aplastadas por una feroz rivalidad masculina que justamente se crispa y se exacerba porque dicho camino va para arriba? Chère Simone, esta carta plagada de improperios no tiene otra intención que la de darle las gracias. Por todo: por sus aciertos, por sus errores, por el empujón que nos dio, y que ojalá pudiera darnos todavía con más fuerza que nunca, que buena falta nos hace.

Sincèrement . Alicia.

Por Alicia Dujovne Ortiz
Para LA NACION

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Barreira sexual pesa mais que a racial


Gloria Steinem*

A mulher em questão tornou-se advogada depois de alguns anos como organizadora comunitária, é casada com um advogado de corporação e mãe de duas garotinhas de 9 e 6 anos. Ela é filha de mãe americana branca e pai africano negro - neste país preocupado com raça, ela é considerada negra -, serviu num Legislativo estadual por oito anos e se tornou uma voz inspiradora da unidade nacional.

Honestamente: você acredita que essa é a biografia de alguém que poderia ser eleito para o Senado americano? Após menos de um mandato ali, acredita que ela poderia ser uma candidata viável para presidir a nação mais poderosa da terra?

Se respondeu não às duas perguntas, você não está sozinho. O gênero é, provavelmente, a força mais limitadora na vida americana, seja na questão de quem deveria estar na cozinha ou quem poderia estar na Casa Branca. Os EUA estão mal posicionados na lista de países que elegem mulheres e, segundo um estudo, polarizam papéis de gênero mais do que uma democracia média.

É por isso que a primária de Iowa estava acompanhando nosso padrão histórico de mudança. Homens negros receberam o direito ao voto meio século antes de mulheres de qualquer raça terem permissão para marcar uma cédula eleitoral - e, em geral, eles ascenderam a posições de poder antes de qualquer mulher.

Se a advogada descrita aqui fosse tão carismática quanto Barack Obama, mas se chamasse, por exemplo, Achola Obama, ela já estaria liquidada há muito tempo. Aliás, nem ela nem Hillary Clinton poderiam ter usado o estilo público de Obama - ou de Bill Clinton, tampouco - sem ser consideradas emotivas demais pelos figurões de Washington.

Então, por que a barreira do sexo não é levada tão a sério quanto a racial? As razões são tão difundidas quanto o ar que respiramos: porque o sexismo ainda é confundido com natureza, como o racismo foi um dia; porque tudo que afete os homens é visto como mais sério do que qualquer coisa que afete “somente” a metade feminina da raça humana; porque os filhos ainda são criados principalmente por mulheres, de modo que os homens tendem a sentir que estão regredindo à infância quando lidam com uma mulher poderosa; porque o estereótipo racista de os homens negros serem mais “másculos” prevaleceu por tanto tempo que alguns homens brancos consideram a presença deles uma afirmação de masculinidade (desde que não sejam muitos); e porque ainda não há uma maneira “certa” de ser uma mulher no poder público sem ser considerada você sabe o quê.

Não estou defendendo uma competição sobre quem enfrenta a maior dureza. Os sistemas de casta de sexo e raça são interdependentes e só podem ser extirpados juntos. É por isso que Hillary e Obama precisam tomar cuidado para não permitir que um debate saudável se transforme no tipo de hostilidade que a mídia adora. Ambos precisarão de uma coalizão com pessoas de fora para vencer uma eleição geral. Os movimentos abolicionista e sufragista progrediram quando se uniram, e foram debilitados pela divisão.

Estou apoiando Hillary porque, como Obama, ela tem experiência em organização comunitária, mas também tem mais anos no Senado, o fato sem precedente de oito anos de treinamento na Casa Branca, nenhuma masculinidade a provar, o potencial de explorar o imenso reservatório de talento deste país com seu exemplo e, agora, até mesmo a coragem de quebrar a regra que não admite lágrimas. Não sou contra Obama; se ele for nomeado, serei voluntária. Aliás, se olharmos suas votações nos dois anos em que ambos compartilharam o Senado, elas foram idênticas mais de 90% das vezes. Além disso, para limpar a confusão deixada pelo presidente George W. Bush, podemos precisar de dois mandatos da presidente Hillary e dois do presidente Obama.

O que me preocupa, porém, é que ele é visto como unificador por sua raça enquanto ela é vista como uma divisora por seu sexo. O que me preocupa é que ela é acusada de “jogar a carta do gênero” quando cita grupos de favorecimento, enquanto ele é visto como unificador ao citar confrontos pelos direitos civis. O que me preocupa é que os eleitores masculinos de Iowa foram vistos como imparciais sobre gênero ao defenderem o seu, enquanto as eleitoras mulheres foram vistas como parciais se o fizeram e desleais se não.

O que me preocupa é que os repórteres ignoram a dependência de Obama do velho - por exemplo, as freqüentes comparações de campanha com John F. Kennedy, embora Teddy Kennedy esteja apoiando Hillary -, enquanto não questionam a calúnia de que as políticas progressistas dela são parte do status quo de Washington. O que me preocupa é que algumas mulheres, especialmente as jovens, esperam negar ou escapar do sistema de casta sexual; assim as mulheres de Iowa acima de 50 e 60 anos, que apoiaram desproporcionalmente Hillary, provaram uma vez mais que as mulheres são o único grupo que fica mais radical com a idade.

Este país já não pode dar-se ao luxo de escolher líderes de um reservatório de talentos limitado por sexo, raça, dinheiro, pais poderosos e diplomas universitários. Já é hora de termos o mesmo orgulho por quebrar todas as barreiras. Precisamos ser capazes de dizer: “Eu a estou apoiando porque ela será uma grande presidente e porque ela é uma mulher.”
*Gloria Steinem é co-fundadora do Women’s Media Center

domingo, 30 de dezembro de 2007

Royal et Clinton, jumelles en politique?

La socialiste française et la démocrate américaine ont des parcours étonnamment proches, mais des méthodes différentes.

Ségolène Royal et Hillary Clinton (Daniel Joubert, John Gress/Reuters).

Une femme en tête des primaires de son parti, une candidate qui provoque des réactions épidermiques, admirée ou haïe… "Ca nous rappelle quelqu’un", nous ont déjà écrit certains d’entre vous à propos des chances d’Hillary Clinton de se faire élire à la maison Blanche.

"Ségolène" et "Hillary", deux femmes devenues des prénoms en politique ont certainement des points communs. Toutes deux sont très polarisantes, Madame Clinton au delà de tout ce que l'on peut imaginer. Selon des chiffres de l'institut de sondage Zogby, 50% des Américains affirment qu’ils ne voteraient "jamais" pour Hillary Clinton. Un autre sondage USA Today lui donne 51% d’opinions favorable et 48% de défavorables: autrement dit, tout le monde ou presque a un avis sur elle.

Hillary Clinton comme Ségolène Royal ont provoqué des interrogations sur le fonctionnement de leur couple (encore que, notait Salon en novembre 2006 "contrairement à la version américaine, dans ce couple, c’est la femme qui a le charisme"). Toutes deux ont été traitées d’ambitieuses (comme si les hommes candidats se présentaient aux élections par abnégation).

Une "bonne" éducation... qu'elles ont toutes deux rejetée

Toutes deux, avant de basculer à gauche, ont été élevées dans le terreau conservateur et religieux de familles bourgeoises. Fille d'un chef d'entreprise de l'Illinois, Hillary avait participé, comme bénévole, à la campagne du républicain Barry Goldwater aux élections présidentielles de 1964, avant de passer à gauche dans le contexte du Vietnam. Fille d'un lieutenant-colonel d'artillerie de marine, catholique, Ségolène Royal a assigné son père en justice pour l'obliger à financer les études de ses enfants. De cette jeunesse, l'une et l'autre ont gardé une certaine raideur, signe de leur "bonne" éducation.

Les points communs flagrants s’arrêtent là. "Ce qui me frappe c’est que la campagne d’Hillary, c’est une primaire gérée alors que Ségolène se gérait", note Dick Howard, professeur de philosophie politique à Suny Brook University. En comparaison de la solitude de Ségolène Royal, l’"Hillariland", comme s’est auto-surnommé l’équipe de la candidate, est célèbre pour son extrême discipline et sa fidélité (beaucoup sont des conseillers de longue date, des années de la Maison Blanche de Bill, voire de l'Arkansas). Ne pas s’attendre à une gaffe ou un aveu.

L'une est vue comme incontrôlable, l'autre comme trop contrôlée

La sénatrice de New York en route vers la présidentielle prend peu de risque, pèse ses positions. "Ségolène n’était pas contrôlable alors qu’on reproche à Hillary d’être trop contrôlée." D’où une réputation froide et calculatrice. (Voyez comment le Daily Show se moque de ses difficultés à rire naturellement, les dernières secondes sont les meilleures.)

Les rires d'Hillary Clinton au Daily Show.

Autre différence de taille, "Ségolène a eu recours à la base du parti", souligne Dick Howard, quand Hillary est la candidate de l’establishment démocrate et de l’élite du parti. La mobilisation du web pour la candidate du PS évoque plutôt la campagne de Barack Obama. "Ségolène Royal doit beaucoup aux médias qui lui ont accordé de l'importance alors qu'elle n'était pas encore très accomplie", note William Keylor, professeur de relations internationales à Boston University.

Estimée plutôt qu’aimée, Hillary n'est pas portée par un mouvement grassroot. Un sondage réalisé en juillet par le New York Times indiquait que 70% des femmes considéraient qu’elle était un bon "modèle" pour les femmes; elle vient aussi de se classer en tête des femmes pour lesquels les Américains ont le plus d’admiration. Mais les sondages du Pew Center lui donnent aussi les plus mauvais scores des trois grands candidats démocrates quand on demande qui est le plus sympathique.

Contrairement à Ségolène Royal, Hillary Clinton prend peu de risques

En terme de programme, les deux femmes se sont montrées des adeptes de la triangulation, chassant les électeurs sur les terres de leur adversaire, la sénatrice de New York allant jusqu'à adopter les positions les plus faucons face à l'Irak puis l'Iran, comme le rappelle William Keylor:

"Toutes les deux ont essayé d'attirer le centre du parti et se sont aliénés une partie de la gauche les accusant de trahir les principes du parti."

Royal a eu sa croisade contre la violence à la télévision, Clinton s’est indignée de celle des jeux vidéos. Royal a dit souhaiter que tous les Français aient un drapeau tricolore chez eux, Clinton a soutenu un amendement interdisant de brûler le drapeau américain.

Mais pour la candidate américaine, ce positionnement centriste supposait un moindre grand écart avec le reste du pari. Car, note Dick Howard, "le PS n’a toujours pas fait sa réforme". Le recentrage du parti démocrate remonte, lui, aux travaux du Democratic Leadership Council à la fin des années 1980. "Ségolène aurait eu besoin d’un Bill Clinton", note le politologue.

A plusieurs reprises pendant sa campagne, l’entourage de Royal avait laissé entendre qu’une rencontre avec Clinton était imminente. Dans l’International Herald Tribune, l’éditorialiste John Vinocur y a vu un effort de Ségolène Royal pour profiter de la réputation de compétence et d’expérience d’Hillary Clinton, qui, contrairement à la Française, a rarement été accusée de manquer de substance et de mal connaître ses dossiers en politique internationale. La campagne d’Hillary Clinton a vite fait savoir qu’aucune rencontre de ce genre n’avait jamais été au programme.

Hillary Clinton ne se pose pas en victime des hommes politiques

Autre terrain de divergence: la façon dont les deux se vivent femmes en politique. Hillary Clinton a impressionné des employées du Congrès en entrant dans l’hémicycle en pantalon. Plutôt que de féminiser son discours, elle a choisi de muscler son profil sur les questions de défense en demandant à siéger au comité des forces armées. A la différence de Royal, l’ex-première dame mentionne rarement le fait d’être une femme en politique.

Certes, elle s'est plainte que ses coiffures aient été disséquées. Lors du débat du 30 octobre, lorsque ses adversaires Barack Obama et John Edwards ont sorti l'artillerie lourde, elle s'est défendue d'un "the boys are piling on" ("les garçons me chargent"). Bill a approuvé: "Les garçons ont été durs avec elle ces derniers temps, mais elle sait encaisser." L'argument a vite été mis de côté. Seulement 11% des Américains estimaient qu'Hillary faisait l'objet d'attaques injustes parce qu'elle était une femme.

Ceci dit, note Dick Howard. Les deux candidates essuient les mêmes conséquences lorsque leur conjoint fait un faux pas. "Quand François Hollande a évoqué une hausse d’impôt pendant la campagne de Ségolène Royal, les journalistes s’en sont saisis", note t-il. Tout comme Hillary s’est fait épingler sur le thème de sa malhonnêteté lorsque Bill Clinton a assuré (en toute mauvaise foi) qu'elle a toujours été opposé à la guerre en Irak. "Les erreurs des maris de candidates ont beaucoup plus de poids dans la campagne que ce que peuvent dire les épouses des candidats", conclut-il.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Clinton Makes Closing Argument to Women


Democratic presidential hopeful, Sen. Hillary Rodham Clinton, D-N.Y. introduces her daughter Chelsea Clinton, and mother Dorothy Rodham during a "Moms and Daughters Making History with Hillary" campaign event in Manchester, N.H., Saturday, Dec. 22, 2007. (AP Photo/Jim Cole)
(Jim Cole - AP)

By PHILIP ELLIOTT The Associated Press
The Washington Post

MANCHESTER, N.H. -- Democrat Hillary Rodham Clinton on Saturday made her closing argument to female voters in a message that could be reduced to three words.

You. Go. Girl.

Clinton, standing in a lobby of a YWCA, told undecided mothers and their daughters that her agenda for families and children is the most aggressive to help them. She touted her family care and child care tax credits designed to lessen the burden on working women.

"We can do a better job in supporting families than we do right now," Clinton said. "We give a lot of lip service to family values, but we've never really valued families in a way that we can."

Clinton, on the last of a two-day trip to this early voting state, tailored her message and appearances to female voters with whom she enjoys a sizable lead in the contest for the Democratic presidential nomination. She bests rival Barack Obama, 42 percent to 25 percent among women in the latest CNN-WMUR poll conducted by the University of New Hampshire. She leads overall in that poll, 38 percent to 26 percent.

A separate New Hampshire poll, released Friday from USA Today and Gallup, showed Clinton and Obama tied at 32 percent each of Democrats overall. Her outreach to women underscores the tightness of the race in this first-in-the-nation presidential primary state and the support she is trying to cement in case she falters in Iowa's three-way race.

Iowa's presidential caucuses are Jan. 3, followed by New Hampshire's primary on Jan. 8.

One voter, a self-described feminist, asked Clinton later in Keene if she thought it was acceptable to support her based solely on her gender.

"Of course I do," Clinton said with laughter. "I'm not asking you to vote for me because I'm a woman. ... But the fact that I am a woman gives this election extra significance."

With daughter Chelsea and mother Dorothy Rodham in tow, Clinton's four-event schedule highlighted what could be a history-making nomination. As her campaign released a list of 3,500 female supporters, she said there are too many challenges facing working mothers.

"We put so many burdens on families trying to do the right thing, trying to take care of their families," Clinton said.

She cited her time as a young mother in Little Rock, Ark.

"When I was a young lawyer and also a mom, I learned how difficult it was for a lot of the other women who worked in the law firm _ the secretaries, the paralegals. At 3 o'clock every day, they'd all be on the phone, whispering to make sure their children were there safely. ... It was just such a time of tension and concern to make sure they got home."

Clinton highlighted her proposals to help working women with young children or who _ like Clinton _ take care of their parents.

"She's going to hit the ground running," said Barbara Marzelli, a mother whose son benefited from a children's health program Clinton supported. "She has the experience, the strength and the commitment _ and above all, a heart _ to lead the country."

Throughout the day, Clinton's supporters invoked history.

"It's been 220 years and we do not have a woman as a leader of this country," state Sen. Molly Kelly said during a mostly women's meeting in Keene. "My mother passed away this past year. She was 80. I think about that. Only seven years before she was born did women have the right to vote and we take that for granted."

The history wasn't avoided by Clinton.

"As the first mom who would ever be president, I want to set an example that, you know, being a mom and being a daughter and taking care of your family is one of the most important obligations any of us have. You shouldn't have these really false choices presented to people: We can either be good workers or you can be a parent. You can be both," Clinton said in Keene.

Clinton also turned back to her book, "It Takes a Village." She said families have to work together to strengthen their relationships.

"It sounds incredibly old-fashioned, but having a meal together really makes a difference. It stabilizes your children during the day. It gives them a chance to interact with the family," she said. "That kind of investment is every parent would like to be able to do, but so many parents can't."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Adeus, companheira Heloneida Studart


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O Brasil está de luto. Morreu hoje de manhã, um dia depois de ter sido eleita presidente do Diretório Zonal do PT de Copacabana, a ex-deputada estadual, militante petista e história militante da luta das mulheres, Heloneida Studart.

Escritora, ensaísta, teatróloga, jornalista, Heloneida Studart foi premiada como uma das mulheres que mais lutaram pela justiça social no Brasil e uma das indicadas em 2005 ao Prêmio Nobel da Paz. Fundadora do movimento feminista no Brasil, criou leis que beneficiam as mulheres, como a Lei 2648 que garantiu o exame de DNA para mães de baixa renda

Heloneida Studart nasceu em Fortaleza, no Ceará, no dia 9 de abril de 1932.

Com dezesseis anos, Heloneida foi morar no Rio de Janeiro, estreando como colunista no jornal O Nordeste, onde suas opiniões já causavam polêmicas na época. De Fortaleza, ela trouxe os originais de seu romance A primeira pedra, que seria publicado em São Paulo, em 1953, pela Editora Saraiva. Quatro anos depois, viria o romance Dize-me o teu nome, que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras e laureado com o prêmio Orlando Dantas, do jornal Diário de Notícias. Em 1960, ela foi trabalhar no jornal Correio da Manhã e, por várias décadas, atuou no jornalismo, apesar de ter se formado em Ciências Sociais pela Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Posteriormente, ela trabalhou dez anos como redatora da revista Manchete.

Heloneida envolveu-se com as lutas populares e foi eleita presidente do Sindicato das Entidades Culturais (Senambra), em 1966. No entanto, por fazer oposição à ditadura militar, foi destituída do cargo e presa em março de 1969. Do cárcere, no presídio São Judas Tadeu, brotaram os roteiros de seus futuros trabalhos Quero meu filho e Não roubarás. Em meio àquele ambiente de repressão, ninguém imaginaria que, em anos vindouros, aqueles trabalhos seriam exibidos com sucesso pela TV Globo.

Com o fim do regime militar, surgiriam três novos romances, chamados pela própria autora de Trilogia da tortura: O pardal é um pássaro azul (que já foi traduzido em quatro idiomas); O estandarte da agonia (inspirado na vida de sua amiga Zuzu Angel); e O torturador em romaria.

A jornalista escreveu sobre a condição feminina, a convite da Editora Vozes, publicando os ensaios Mulher objeto de cama e mesa, obra que vendeu 280 mil exemplares e se transformou em uma espécie de bíblia do feminismo brasileiro; e Mulher, a quem pertence seu corpo? Esses dois trabalhos estão, respectivamente, na 27ª. e 6ª. edições.

Em 1978, com 60 mil votos, Heloneida seria eleita deputada estadual do Rio de Janeiro, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Ela reelegeu-se em 1982, novamente pelo PMDB, sendo inclusive vice-líder da bancada de 1979 a 1988, ano em que deixou o Partido, e participou da fundação do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). No ano seguinte, saiu do PSDB e entrou no Partido dos Trabalhadores.

Entre outros, Heloneida exerceu vários cargos importantes: foi vice-presidente da Comissão Parlamentar de Controle do Meio-Ambiente, de 1979 a 1980; presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) de 1981 a 1982; integrou as comissões especiais, relativas aos direitos da mulher, no que diz respeito aos direitos reprodutivos; participou da apuração das condições de atendimento da população nessa área; em seu terceiro mandato como deputada, atuou como vice-líder da bancada do PT; e, de 1995 a 1999, presidiu uma comissão especial destinada a apurar as formas de arrecadação e distribuição dos direitos autorais no Rio de Janeiro. Além disso, fundou duas instituições importantes, com várias companheiras feministas: o Centro da Mulher Brasileira, a primeira entidade feminista do País; e o Centro Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim); e é presidente da Comissão Permanente de Defesa dos Direitos Humanos.

Heloneida Studart tinha seis filhos, tinha um temperamento alegre e hábitos bem simples. Com vários mandatos de deputada estadual, ela aprovou muitas leis que vieram a beneficiar mulheres e trabalhadores, estando sempre em defesa da democracia e da justiça social. A profissional polivalente também ficou conhecida por sua participação nos debates da TV (como o "Sem Censura" da TV Educativa, onde atuou durante dois anos), nos programas de rádio e na publicação de artigos nos principais jornais cariocas.

No livro Mulheres brasileiras, da Editora Record, Heloneida Studart foi indicada como uma das 100 brasileiras mais importantes do século XX. Mais recentemente, a Fundação de Mulheres Suíças escolheu 1.000 mulheres para concorrerem ao prêmio Nobel da Paz. Dentre elas, 52 eram brasileiras; e a jornalista cearense estava entre elas.

A morte de Heloneida Studart é uma grande perda para o Brasil e o PT. Seu exemplo de luta e solidariedade nos farão falta.

O corpo de Heloneida Studart será velado hoje, a partir das 16 horas, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro e o enterro será amanhã no Cemitério do Caju. Fonte Blog de Dirceu.

domingo, 25 de novembro de 2007

No Brasil e no mundo, dia de luta para evitar violência contra a mulher

Agência Brasil - O Globo

BRASÍLIA - Neste domingo, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, começou a campanha "16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres", lançada semana passada no Congresso Nacional. Os lemas são "Uma vida sem violência é um direito das mulheres" e "Está na lei! Exija seus direitos". A campanha é desenvolvida há 17 anos em 135 países, de 25 de novembro a 10 de dezembro.

Para a deputada Cida Diogo (PT-RJ), o dia serve para muita reflexão e luta. Ela avalia que a Lei Maria da Penha, em vigor há mais de um ano, "veio para ficar" e está mexendo com as instituições públicas, obrigando a Justiça a assumir o seu papel nessa questão.

Sancionada em 7 de agosto de 2006, a lei, de número 11.340, aumenta o rigor das penas contra os autores de crimes de violência doméstica e sexual . A lei ganhou esse nome em homenagem à luta de vinte anos dessa corajosa cidadã, vitima de duas tentativas de assassinato, com graves seqüelas, até conseguir a condenação do agressor que era o seu próprio marido. A tragédia pessoal de Maria da Penha virou símbolo da luta contra os maus-tratos físicos, psicológicos e morais sofridos por parcela significativa da população feminina brasileira.

A lei permite que agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada. A lei também acabou com as penas alternativas, em que o réu é condenado a pagar cestas básicas ou multas, e a pena máxima passou de um ano de detenção para três.

- Temos que exigir cada vez mais que as varas especiais se multipliquem país afora. E que as nossas mulheres tenham no Judiciário o direito de registrar a sua queixa, de promover algum processo contra o agressor e exigir que o Executivo tenha serviço público que dê assistência as mulheres vítimas de violência. Além de trabalhar efetivamente para construir uma sociedade em que homens e mulheres sejam iguais e livres, sem um querer se sobrepor ao outro. Essa é uma luta das mulheres, mas os homens de bem deste país têm que estar nessa caminhada também - afirmou Cida Diogo.

A coordenadora-geral da Casa da Mulher Trabalhadora, no Rio de Janeiro, Eleuteria Amora da Silva, fala da importância de ter um dia para chamar a atenção da população em relação ao problema.

" Para conter a violência contra as mulheres é necessário o envolvimento de toda a sociedade. Eu diria que é algo para ficamos horrorizados e não aceitarmos "

- A gente já avançou com a Lei Maria da Penha, que tipifica a lei - agora a mulher não pode mais retirar a queixa registrada (contra o agressor) na delegacia, por exemplo. Para conter a violência contra as mulheres é necessário o envolvimento de toda a sociedade. Eu diria que é algo para ficamos horrorizados e não aceitarmos - comenta Eleuteria.

Segundo Eleuteria Amora da Silva, a Casa da Mulher Trabalhadora tem sido procurada por uma grande quantidade de mulheres, mostrando que a Lei Maria da Penha tem impacto na sociedade. Para ela, a efetividade da lei ainda depende de medidas como a implementação de juizados especiais para casos de violência contra a mulher.

A data foi designada em 1999 pelas Organização das Nações Unidas (ONU) para lembrar à sociedade dos direitos das mulheres.

Distribuição de panfletos alerta sobre violência contra mulher

A distribuição de panfletos em postos de combustíveis foi uma das ações que marcaram o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, comemorado nesta domingo. Cerca de 600 mil panfletos foram distribuídos em 155 postos da BR Distribuidora em 15 cidades do país durante toda esta semana.

Os informativos explicam as características da violência doméstica e familiar, mostram as conquista da Lei Maria da Penha e o telefone da Central de Atendimento à Mulher (180).

O lançamento da campanha aconteceu em um posto de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O presidente da BR Distribuidora, José Eduardo Dutra, disse que este é o segundo ano que a empresa divulga a campanha.

- No ano passado a campanha ficou restrita apenas a alguns postos do Rio e hoje nós já conseguimos expandi-la para várias capitais do país. Isso é muito importante porque o posto de combustível é um lugar por onde passa todo tipo de pessoa - disse.

A ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que distribuiu panfletos na orla de Copacabana junto com Dutra, avaliou que o Brasil tem conquistado vitórias importantes com a Lei Maria da Penha.

- O número de agressões reincidentes vem caindo bastante. E além disso, a Lei Maria da Penha foi responsável pela implantação de mais de 6 mil medidas de proteção de urgência, como o afastamento imediato do agressor do lar e a possibilidade das autoridades determinarem a busca e apreensão de armas - disse.