Mostrando postagens com marcador Darwin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Darwin. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Uma nova diferença entre os sexos

L'image “http://img99.exs.cx/img99/8589/gravida26ow.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.

Fernando Reinach*

Apesar de todo ano estudantes de Medicina dissecarem centenas de cadáveres, ninguém acredita que ainda é possível descobrir estruturas no corpo humano. De tão estudada, a anatomia humana se tornou uma ciência moribunda. Mas, agora, três antropólogos identificaram um detalhe em nossa anatomia que havia passado despercebido.

O interessante é que eles não fizeram a descoberta dissecando corpos, mas partiram de considerações sobre a evolução humana. Desde que nossos ancestrais se tornaram bípedes, nosso centro de gravidade, que se localizava entre as patas anteriores e posteriores, passou a se localizar sobre a bacia. Nos homens, o centro de gravidade não se altera ao longo da vida, mas nas mulheres ele se desloca para frente durante a gravidez ou quando a fêmea carrega o filho.

Para compensar esse desequilíbrio, as mulheres curvam a parte inferior da coluna vertebral e acentuam a lordose (aquela curva na coluna logo acima das nádegas). Essa modificação de postura, chamada de lordose fisiológica, pode ser observada em praticamente todas as mulheres grávidas, e tem como função deslocar para trás o centro de gravidade, restabelecendo o equilíbrio.

Se durante milhões de anos as mulheres passaram grande parte de suas vidas grávidas ou carregando os filhos, isso deve ter favorecido a seleção de características morfológicas que facilitam a transição entre a situação sem lordose (entre gestações) e a situação com lordose (durante a gestação).

Os antropólogos, convencidos que essa pressão provavelmente favoreceu alterações nos esqueletos das mulheres, compararam minuciosamente os esqueletos de mulheres e homens. O que descobriram foi uma pequena diferença na forma das vértebras lombares. Nos homens, essas vértebras têm aproximadamente o formato de um cubo, de modo que as superfícies que entram em contatos com as vértebras imediatamente acima e abaixo são paralelas. No caso das mulheres, essas vértebras têm o formato de cunha e as mesmas superfícies em vez de serem paralelas, formam um pequeno ângulo.

Essa sutil diferença entre homens e mulheres, que nunca havia sido descrita, explica a facilidade com que as mulheres curvam a base da espinha e provocam a lordose necessária para manter o centro de gravidade sobre a bacia. Se essa modificação foi causada por mecanismos de seleção natural, ela deveria estar presente somente nos nossos ancestrais que assumiram a postura ereta. Foi exatamente isto que os antropólogos encontraram quando examinaram as vértebras dos esqueletos fossilizados de outros hominídeos. Nos que assumiram a postura ereta, os esqueletos de fêmeas têm vértebras em forma de cunha.

Essa “nova” diferença entre os sexos ajuda a explicar por que os machos da nossa espécie, mesmo quando desenvolvem enormes barrigas por causa do consumo de cerveja, são incapazes de desenvolver uma lordose fisiológica, enquanto as fêmeas jovens, mesmo antes de engravidar, são capazes de forçar a lordose, arrebitando as nádegas.

Como Darwin já havia observado, as características sexuais secundárias acabam sendo usadas para atrair o outro sexo. Não podia ser diferente no caso da lordose.

Mais informações em Fetal load and the evolution of lombar lordosis in bipedal hominins, na Nature, vol. 450, pag. 1.075, 2007.

*Biólogo - fernando@reinach.com

domingo, 24 de junho de 2007

Charles Darwin, o agnóstico

Avesso a controvérsias públicas, ele viveu conflito entre sua formação cristã e suas descobertas científicas

Herton Escobar

Charles Darwin era um homem cauteloso. Por 20 anos ele manteve sua teoria da evolução em segredo, conduzindo experimentos em seu jardim e estudando a literatura científica para, já de antemão, tentar responder todas as dúvidas e críticas que inevitavelmente seriam lançadas sobre ela.

Estava convicto de suas conclusões, mas tinha plena consciência do impacto avassalador que sua tese teria sobre o pensamento científico e religioso da época. E queria estar preparado.

Além disso, era um pensador reservado, avesso a enfrentamentos públicos e bate-bocas de qualquer natureza. Tanto que, ao fazer a redação final de A Origem das Espécies, retirou propositalmente sua conclusão mais polêmica: de que o homem não era uma criatura divina, criada por Deus à sua imagem e semelhança, mas um animal orgânico, puramente material, e de descendência comum com gorilas, orangotangos e chimpanzés. Uma espécie altamente evoluída de macaco, para ser bem sincero.

De fato, Darwin não menciona o ser humano em nenhum momento do livro. Mas foi pouco para acolchoar o impacto. Assim que chegou às livrarias de Londres, em novembro de 1859, A Origem das Espécies explodiu como uma bomba atômica sobre a sociedade vitoriana do século 19, espalhando nuvens incendiárias de polêmica por todo o planeta. E o parentesco de homens e primatas, de qualquer maneira, virou semente da discórdia.

Começava, assim, “o primeiro debate científico internacional da história”, segundo a historiadora inglesa Janet Browne, da Universidade Harvard. A ciência passou a fornecer respostas para perguntas que, até então, eram respondidas apenas pela fé - algo que não caiu muito bem com os religiosos. “O fato era que Darwin parecia expulsar por completo o divino do mundo ocidental, pondo em dúvida tudo que até então se acreditava sobre a alma humana e nosso sentido de moralidade”, escreve Browne em seu último livro, A Origem das Espécies de Darwin, com lançamento previsto no Brasil para esta semana.

REVOLUÇÃO

Charles Darwin não foi o primeiro a escrever sobre evolução. Mas foi o primeiro a propor, de maneira convincente, um mecanismo puramente biológico capaz de explicar a origem e a diversidade de todas as formas de vida. Nada de espíritos, projetos, propósitos ou intervenção divina: apenas variações aleatórias e seleção natural. Biologia pura. leia mais aqui