domingo, 7 de outubro de 2007

O Big Brother de Serra e Kassab

ELIO GASPARI

Querem impor um jaboticabão megalomaníaco: botar chips para rastrear 6 milhões de carros


O GOVERNADOR de São Paulo, José Serra, e o prefeito da capital, Gilberto Kassab, anunciaram que, a partir de maio do próximo ano, os 6 milhões de de carros que rodam na cidade serão obrigados a carregar chips, encurralando motoristas caloteiros que não pagam taxas, seguro nem multas. São Paulo tem cerca de 1,7 milhão de carros nessa situação. Com 2.500 antenas, numa operação que deve custar uns R$ 300 milhões, será possível tirar centenas de milhares de veículos das ruas, descongestionando a cidade. Regularizando-se a metade dessa frota delinqüente, fatura-se algo como R$ 900 milhões. De quebra, as infrações serão melhor fiscalizadas.
Os doutores garantem que isso não tem nada a ver com novos pedágios, reconhecem que os chips permitirão o mapeamento de todos os percursos de um motorista, mas juram que os dados ficarão protegidos pela confidencialidade. Acredite quem quiser. Durante o tucanato, as declarações de Imposto de Renda do exercício de 1995 foram parar nas barracas de camelôs.
O projeto não tem similar no mundo. Mais: onde há chip há também um novo pedágio embutido. Em Londres, Estocolmo e Cingapura eles permitem a cobrança de taxas em áreas de trânsito sobrecarregado. O uso voluntário desse equipamento está disseminado em centenas de estradas, inclusive em rodovias privadas brasileiras. O que há de novo é obrigatoriedade.
A imposição dos chips para toda a área de uma cidade como São Paulo, é um jaboticabão. Pior: uma decisão insana do Conselho Nacional de Trânsito manda que até 2011 eles sejam colocados em todos os carros de Pindorama, inclusive nos de Uiramutã (Roraima), no extremo norte do país, onde vivem 4,6 mil pessoas, com uma frota de dez carros. Para os fornecedores, isso significará, por baixo, uma encomenda de R$ 2 bilhões.
Pensa-se em fazer em todo o Brasil algo que só vai acontecer no protetorado das Bermudas, com 53 km2 de área, 66 mil habitantes e 25 mil veículos. A cidade de São Paulo tem 1,5 mil km2 e 11 milhões de vítimas.
Serra e Kassab podem estar convencidos de que os chips não provocarão o aparecimento de pedágios inteligentes. (Por exemplo: uma taxa de R$ 1 para quem entrar nas áreas congestionadas, cobrada eletronicamente.) Ou acham que falta inteligência à escumalha, ou ela falta a eles, até porque faz pouco sentido mutilar o pleno uso da tecnologia. É melhor fazer uma coisa dessas às claras. Em Estocolmo, o chip foi aceito num referendo.
Há um cheiro de eugenia viária na busca da redução da frota delinqüente de carros mambembes. Será que os doutores acreditam ser possível sumir com 1 milhão de veículos com a mesma naturalidade com que contratam a compra de R$ 300 milhões em equipamentos?
Calculando-se que 700 mil donos de carros corram atrás da regularização e que os demais atendam duas pessoas cada um, Serra e Kassab tiveram uma grande idéia: deixar 2 milhões de bípedes sem aquele carro velho, barulhento e com os papéis fora de ordem. Cada um desses transgressores deixa de pagar algo como R$ 1.000 por ano. Em alguns casos, o carro vale menos que isso.
Nada contra puni-los, mas isso não pode ser feito maciçamente, em alguns meses. (No Rio, mais da metade dos 2 milhões de carros que rodam na cidade estão fora dos conformes.)
Os chips já se mostraram eficientes em diversos serviços. Começar impondo-os à malha de uma cidade do tamanho de São Paulo é uma temeridade. Sem discussão, é prepotência. Como ensinava o professor Mário Henrique Simonsen, "o problema mais difícil do mundo, bem enunciado, um dia será resolvido, mas se o problema mais fácil do universo for mal enunciado, jamais será resolvido".

Um comentário:

Marciel disse...

Convém ficar mesmo de olho no José Serra... Ele é muito perigoso!
Para começar, na campanha de 2002 ele fez o diabo a quatro para tentar desqualificar o Lula.

Em 2004 ele apeou a Marta com promessas vãs e em 2006, ele lamentavelmente ganhou o Governo do Estado de bandeja porque o Mercadante não foi capaz de perceber que o eleitorado paulista é bem diferente do Brasileiro em geral.

Agora investe em publicidade, vigilância do cidadão e esquece da saúde, como você bem colocou...
Está mais que provado que ele é um perigo a ser combatido.