terça-feira, 9 de outubro de 2007

O futuro do jornalismo: Um debate essencial para a democracia

Os jornais de olho na internet

M.R.S. El País

O jornalismo deve escapar da trivialidade e não se deixar arrastar pela banalização das notícias. Essa foi uma das conclusões a que chegaram no fim do mês passado Alan Rusbridger, diretor do diário britânico The Guardian, e Javier Moreno, diretor do jornal espanhol El País.

Num debate realizado dentro do programa do Hay Festival de Segóvia, moderado pela escritora e ex-diretora do jornal The Independent, Rosie Boycott, Rusbridger e Moreno analisaram o futuro do jornalismo. 'Os jornais sérios estão em declínio. Hoje se tende a fazer um tipo de jornalismo que banaliza a realidade. Se tem de ser assim, eu estou fora', afirmou Alan Rusbridger. Para o diretor do diário britânico, é importante que os jornais não caiam nessa tendência.

'Não creio que o jornalismo esteja em crise', afirmou, por sua vez, Javier Moreno. 'Se o ritmo continuar assim, seria de se preocupar também com o que vai acontecer com a democracia. A democracia se assenta nos espaços públicos de discussão que os jornais criaram. Se os jornais não são capazes de alimentá-los, é a democracia que está em crise.'

Para os dois diretores, os espaços de discussão que as informações suscitam são vitais. Além disso, eles vêem a internet como o futuro do jornalismo, embora com nuances. O diretor de The Guardian prognostica o final da tinta e do papel. Para Moreno, contudo, a internet não é uma ameaça. 'A internet vai salvar o jornalismo. Agora, a web consegue mais público, mais influência do que nunca. Se conseguirmos transferir para a internet esse lugar de debate e discussão estaremos prestando um grande serviço à sociedade', disse ele. 'Neste momento, a pressão dos debates sociais está na internet. Os leitores do The Guardian e do El País querem fóruns, querem participar, debater a atualidade, e se não os oferecermos, eles os procurarão em outro lugar', afirmou Rusbridger.

A imediatez da internet tem seus riscos. Riscos que, para o diretor do jornal britânico, são, basicamente, a superficialidade dos conteúdos. Algo que, para Moreno, precisa ser combatido. 'É fato que a internet tem uma tendência a fragmentar os públicos. Muito do que aparece na web são trivialidades que solapam o fórum público. Mas alguns jornais estão lutando contra isso. Eu posso comprovar que o mais lido todos os dias é elpais.com, e exceto algumas coisas - que costumam conter as palavras sexo, grátis, ou Fernando Alonso -, eu me sinto orgulhoso, porque entre as dez mais visitadas costuma haver muitas notícias importantes.'

A internet pode armazenar perfis e gostos dos usuários. Isso permite lhes oferecer um produto de acordo com as suas preferências. Mas, para Moreno, essa adaptação supõe um risco. 'O jornal ganharia um sentido diferente, mas é perigoso. Destruiria um espaço comum. Agora o leitor descobre algo que não pensava que estivesse ali. Romper isso, acabar com esse fator surpresa, é arriscado, não para os jornais, que fariam mais negócios, mas para a sociedade.'

A jornalista britânica Rosie Boycott, uma das figuras mais importantes dos meios de comunicação da Grã-Bretanha, perguntou sobre as diferenças entre ler o jornal em papel e fazê-lo num computador. 'Eu gostaria que os jornais em papel existissem para sempre, mas não podemos refrear o futuro e impedir que as pessoas tenham acesso a toda a informação da internet', afirmou Alan Rusbridger.

Para o diretor do The Guardian, os jornalistas terão de se acostumar com a imediatez da internet. 'Um jornal não é seu papel. São seus redatores, seus fotógrafos, seus editorialistas, seus valores. Sua visão compartilhada com os leitores', disse Javier Moreno. 'The Guardian, embora tenha crescido, continua sendo o mesmo tanto em papel como na internet. Ele não mudou, continua mantendo sua visão compartilhada com os leitores', afirmou o diretor do El País.

Rusbridger é um apaixonado por novas tecnologias. Ele o revelou na ocasião mostrando ao público que assistia ao debate num pequeno telefone celular. 'É um iPhone', ele disse. 'Embora não seja perfeito, pode-se ler texto nele. Algum dia criarão algum aparelho em que se poderá ler texto tão comodamente como no papel. Os jornais precisam avançar e se adaptar a isso.'

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