sexta-feira, 19 de outubro de 2007

França: Estado de graça chega ao fim

O artigo de Gilles Lapouge mostra com muita acuidade o grau de descompasso criado pelo novo presidente da França, o direitista Nicolas Sarkozy, com o estado da opinião pública do pais.

Lamentavelmente, Gilles Lapouge "compra" as justificativas liberais para atacar o sistema de aposentadoria dos funcionários, ignorando que foi a própria direita que aumentou o tempo de serviço para a aposentadoria privada.

Ou seja depois de ter aumentado de 37 para 40 anos de tempo de serviço a aposentadoria do setor privado, a direita começou a atacar o "privilegio" dos servidores.

Como Gilles Lapouge "compra" o argumento liberal ele procura em outro lugar o motivo do êxito da greve. O que ele explica é verdadeiro e participa do conjunto da situação política que está levando a um desgaste muito acelerado de Sarkozy, o aspirante bonapartista.




O Estado de São Paulo

Estado de graça chega ao fim

Gilles Lapouge*

Há dias em que tudo dá errado. E para o presidente Nicolas Sarkozy ontem foi um dia sombrio. De um lado, o projeto de reforma da previdência levou às ruas uma multidão de furiosos. De outro, o Palácio do Eliseu anunciou que Sarkozy e Cécilia estão se divorciando. A greve foi dura: os engarrafamentos tomaram conta das cidades. As ruas formigavam de carros e pedestres.

A participação foi muito alta. O que surpreende porque o motivo não é digno de consideração. A greve é contra a reforma proposta por Sarkozy para abolir os “regimes especiais” de aposentadoria, que beneficiam os empregados de algumas empresas nacionalizadas desde o fim da 2ª Guerra, permitindo que se aposentem com salário integral depois de 37 anos e meio de contribuição, enquanto para os demais o prazo é de 40 anos.

Os “regimes especiais” são um anacronismo e uma injustiça. Apesar disso, nenhum governo conseguiu acabar com eles. Há 12 anos, o primeiro-ministro Alain Juppé tentou e acabou derrubado por uma greve que durou dois meses.

Sarkozy teve coragem de atacá-los. Até os socialistas concordam que é imoral perpetuar essa injustiça. Além disso, a população é hostil aos regimes especiais e desaprova essa greve.

Os líderes sindicais sabiam disso. Apesar disso, mantiveram a convocação da greve. E, mais estranho ainda, ela teve êxito.

É preciso buscar a razão em outra parte. Essa greve traduz a letargia dos franceses. Os primeiros meses de Sarkozy foram agradáveis, mas cansativos: a cada dia uma nova idéia. Contradições. Recuos. Meias-verdades. E não se vê melhora. O crescimento é mais lento. O comércio exterior desfalece. O desemprego aumenta. A inflação começa a dar sinais. E a dívida do Estado, já imensa no governo Chirac, ficou astronômica.

As camadas menos favorecidas estão fartas. Sarkozy beneficiou-se de um “estado de graça”, que acabou. A mídia, que ficou “às suas ordens”, começa a grunhir. E o bizarro governo de Sarkozy, com ministros de direita e socialistas, atira para todo lado. Os ministros brigam entre si. A crise do casal Sarkozy também exaspera.

Por isso, embora malconcebida e defendendo uma causa indigna, a greve é um sucesso. O que os manifestantes querem mostrar não é só a defesa dos “regimes especiais”. É um basta geral a um governo que fala demais, promete a lua e não consegue muitas estrelas. É nesse sentido que o dia foi memorável. Ele marca o fim do estado de graça e o início da primeira prova de força do poder absoluto de Sarkozy.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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