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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A euforia com Strauss-Kahn

Vale a pena ler o artigo de Ribamar Oliveira. Ele acerta quando afirma que a situação hoje no Brasil não pode ser equiparada à da crise nos EUA e que aplicar as mesmas receitas (keynesianas) aqui seria contraproducente. Porém ele deixa de explicar por que, nos períodos de recessão ou quase, no Brasil ou em qualquer outro país, incluso europeu, o FMI apregoou redução do gasto público, redução do endividamento, venda do patrimônio público e condenou toda e qualquer política keynesiana. Agora nos EUA todos aplaudem a intervenção estatal e uma injeção de recursos públicos para evitar a recessão. Trata-se sim de uma reviravolta, aliás bem-vinda. LF

Ribamar Oliveira

O ESTADO DE SÃO PAULO

Não é todo dia que se pode ler ou ouvir uma autoridade do Fundo Monetário Internacional (FMI) aconselhar os países a ampliar seus gastos públicos para ajudar a evitar uma recessão mundial. Foi isso o que fez o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, há alguns dias em Davos, na Suíça, e em artigo publicado recentemente pelo Financial Times e reproduzido pela Folha de S. Paulo.

A proposta de Strauss-Kahn foi recebida com entusiasmo por setores do governo brasileiro, como se o diretor do FMI estivesse, implicitamente, reconhecendo a justeza da política fiscal do País. Como é do conhecimento de todos, os gastos públicos no Brasil crescem sem parar, em ritmo superior ao da economia, há mais de 12 anos.

No ano passado, por exemplo, as despesas totais do Tesouro Nacional (menos o pagamento dos juros das dívidas públicas) cresceram 14,4% em termos nominais ou 9,5% em termos reais (descontada a inflação). A previsão de crescimento real da economia em 2007 é de 5,2%. O ritmo de expansão dos gastos foi, portanto, quase o dobro do crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB).

As despesas de custeio (excluídos o pagamento de salários do funcionalismo ativo e inativo e os gastos com benefícios previdenciários) aumentaram mais ainda: 16,6% em termos nominais ou 11,6% em termos reais. Os investimentos federais em 2007 aumentaram 21,1%, em termos reais.

A proposta de Strauss-Kahn surpreendeu porque o FMI sempre foi identificado como defensor intransigente da redução dos gastos públicos, do equilíbrio orçamentário, da redução da presença do Estado na economia e de uma política monetária comprometida com a manutenção de uma inflação baixa.

O receituário do FMI expressava o que ficou conhecido como “consenso de Washington”. A esquerda e os economistas menos ortodoxos passaram a identificar as teses do “consenso de Washington” com o neoliberalismo. A proposta de Strauss-Kahn soa diferente do receituário tradicional do Fundo e se parece mais com as teses defendidas pelos heterodoxos.

Em Davos e no artigo para o Financial Times, Strauss-Kahn alertou para o fato de que a política monetária do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, pode não ser suficiente para evitar uma recessão da economia americana. Em menos de 10 dias, o Fed reduziu a taxa básica de juro dos EUA em 1,25 ponto porcentual para enfrentar a crise, e o mercado ainda aguarda novos cortes.

Strauss-Kahn acha que o corte dos juros pode não funcionar para estimular o investimento e o consumo da forma como ocorreria em situações normais. A razão é que os bancos sofreram perdas de capital com a crise do subprime do setor imobiliário americano e não querem agora correr novos riscos. Além disso, ele enfatiza que será difícil reverter uma recessão, se ela vier a ocorrer.

Por isso, o diretor-gerente do FMI propôs um estímulo fiscal para elevar a demanda agregada, de forma a sustentar o consumo durante a fase crítica. Strauss-Khan admitiu que o uso da política fiscal acarreta riscos, mas alertou para o fato de que a inação dos governos elevaria o risco de um desfecho ainda mais negativo.

Em síntese, Strauss-Kahn defendeu o uso da política fiscal de forma anticíclica, ou seja, como uma alternativa para sustentar a demanda global e evitar que o pior aconteça, ou seja, que a economia entre numa recessão mais séria, na qual milhões de trabalhadores perderiam o emprego.

O diretor-gerente do FMI repetiu apenas as teses formuladas inicialmente pelo economista inglês John Maynard Keynes no início do século passado. Para Keynes, a política monetária não funciona plenamente em situações de crise pois, por mais que o Banco Central reduza os juros, ninguém pode obrigar o cidadão a pedir um empréstimo.

O economista inglês dizia que, na crise, o público manifesta preferência pela liquidez. As pessoas preferem poupar do que se endividar. Com medo do que poderá acontecer, os bancos também preferem ficar líquidos.

Por causa disso, Keynes aconselhava os governos a adotar uma política fiscal mais ativa, com elevação dos seus gastos e com redução dos impostos, ou seja, algo parecido com o que está propondo agora o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

Esse estímulo fiscal, segundo Keynes, ajudaria a sustentar a demanda e a evitar o pior. A política fiscal anticíclica é, portanto, baseada nas teorias de Keynes e já foi adotada em outras crises econômicas, como na grande depressão pós 1929.

Os setores do governo Lula que ficaram eufóricos com a proposta de Strauss-Kahn devem observar que a situação do Brasil é inteiramente diferente da vivida pelos Estados Unidos. O problema brasileiro é de demanda superaquecida, o que está pressionando a inflação, segundo avaliação do próprio Banco Central.

A execução de uma política fiscal anticíclica implicaria, no caso brasileiro, redução dos gastos públicos e não no inverso. Durante as fases de crescimento acelerado da economia, a política fiscal anticíclica recomenda a elevação do superávit primário (ou seja, da poupança governamental). Em situações de recessão, o contrário ocorreria, ou seja, redução do superávit para estimular a atividade econômica.


domingo, 3 de fevereiro de 2008

FMI dá aval a aumento do gasto público para combater a recessão e nos EUA, ‘heterodoxia’ do Fed põe de lado guerra à inflação

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Dominique Strauss-Khann, Diretor-geral do FMI

Interessante estes artigos do Estadão.

Como se sabe o jornal não gosta ouvir falar em gasto público, por isso os artigos são um longo porém. Isto não anula a constatação evidente: o déficit fiscal dos EUA é gigante e mesmo assim o FED abaixa os juros e fecha os olhos para um eventual repique da inflação. Para o FMI esse é o caminho, a contra-mão do que sempre apregoaram para os nossos países.

É que em ambas situações se trata de ajudar os mesmos, os que dominam a economia mundial: os EUA. Neste caso, até agora, o esforço tem sido insuficiente. Agir para evitar a recessão nos Estados-Unidos é bom para todos, mas é bom não esquecer que alguém vai financiar o déficit e o endividamento norte-americano. O resto do mundo será quém arcará com o ônus. LF

Declaração de diretor-gerente da instituição provoca novo debate entre ‘desenvolvimentistas’ e ‘monetaristas’

Lu Aiko Otta

O risco de recessão nos Estados Unidos e a decorrente ameaça de desaceleração econômica em outros países levaram o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, a defender que países em boa situação fiscal passem a gastar mais, dando um impulso extra à economia, além do corte nos juros.

É uma recomendação impensável dez anos atrás, quando o mundo foi sacudido por uma sucessão de crises nos países emergentes. Naquela época, cortar gastos, arrecadar mais e acumular superávit nas contas públicas passou a ser sinônimo de boa política econômica.

Para Marcio Pochmann, alinhado aos “desenvolvimentistas” do governo, a declaração do número 1 do FMI reflete o esgotamento das políticas de austeridade fiscal identificadas com o chamado Consenso de Washington. Para ele, a crise internacional coloca o País diante de duas opções: pisar no freio, elevando os juros e cortando gastos, ou no acelerador.

Para o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, a recomendação de Strauss-Kahn se aplica aos Estados Unidos, onde a economia está desacelerando. Não é o caso do Brasil, onde o crescimento do consumo preocupa a ponto de o governo haver adotado, na última quinta-feira, um conjunto de medidas para estimular a poupança e conter o crédito. “Os Estados Unidos estão entrando em anemia, enquanto nós estamos com problema de obesidade”, comparou. “O tratamento não pode ser o mesmo.”

“Seria contraproducente para o Brasil aumentar os gastos públicos”, comentou o professor Roberto Iglesias, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, principal celeiro de economistas do governo Fernando Henrique Cardoso. Na avaliação dele, a recomendação de Strauss-Kahn se dirige a países que têm situação fiscal que permita a ampliação de gastos, o que não é o caso do Brasil. “Temos um problema de estoque, pois nossa dívida ainda é alta, e também um problema de fluxo, porque ainda temos déficit nominal.”

A dívida líquida do setor público brasileiro atingiu R$ 1,150 trilhão ou 42,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007, segundo o Banco Central. “Embora esteja em queda, a dívida ainda está entre as maiores do mundo desenvolvido”, afirmou Mailson. A dívida bruta (que considera também os empréstimos do governo ao exportador, aos agricultores e outros), informou ele, está na casa dos 60% do PIB. Em países considerados grau de investimento, a média é de 30%.

Além de elevada, a dívida segue sendo alimentada pelo desempenho das contas públicas. A arrecadação não é suficiente para fazer frente às despesas do setor público quando se consideram os gastos com juros, o que gera o déficit nominal a que se referiu Iglesias. No ano passado, o déficit nominal foi de R$ 57,926 bilhões, ou 2,27% do PIB.

Por causa da dívida e do déficit nominal, o Brasil não se enquadraria entre os que têm condições de aumentar o gasto público. “Também temos um desequilíbrio na Previdência, e, se forem elevadas as outras despesas, vamos piorar a situação fiscal”, alertou Iglesias.

Elevar os gastos talvez não seja boa idéia nem para os Estados Unidos, segundo o gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco.

“Pode ser uma solução simplista, que mascara problemas estruturais mais graves da economia.” Ele concorda que a orientação do FMI não vale para o Brasil, até porque o País já tem uma política fiscal expansionista.

Poucos países em dificuldade teriam condições de ampliar fortemente seus gastos, avaliou o economista Fernando Fix, da Votorantim Asset Management. “A Europa tem restrições nessa área, pois a França, a Itália e a Grécia apresentam déficits fiscais altos.” Para Fix, a recomendação do FMI não significa o abandono dos princípios defendidos pela instituição no passado recente. “Há ressalvas importantes”, comentou. A primeira é que a flexibilização da política fiscal seja avaliada de país para país. A segunda é que os governos que a adotarem o façam por período curto. “Do contrário, podemos ter um problema mais adiante”, disse. Ele observa que o corte nos juros promovido para reerguer a economia após a crise da Nasdaq, em 2001, está na base da bolha imobiliária que acaba de estourar.

Nos EUA, ‘heterodoxia’ do Fed põe de lado guerra à inflação

Receita para combater crise combina juro baixo com gasto público elevado

Fabio Graner

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.” A máxima parece se aplicar aos Estados Unidos de hoje. Ao se depararem com a possibilidade de uma recessão econômica, eles estão deixando de lado totalmente o receituário ortodoxo e partindo para uma política econômica que os desenvolvimentistas brasileiros há anos sonham em implementar: combinação de juros extremamente baixos com uma política de elevação de gastos públicos.

Diante do temor de retração econômica, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) abandonou a preocupação com a inflação, que em 2007 atingiu o maior nível em 17 anos, e derrubou os juros. O anúncio ocorreu alguns dias depois de o governo Bush divulgar um pacote de estímulo fiscal de US$ 150 bilhões, até com devolução de dinheiro para os cidadãos.

A receita adotada contraria o que os EUA pregaram como o caminho para o nirvana econômico para os países em desenvolvimento nas últimas três décadas. Por meio de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird), eles sempre defenderam que os países deveriam adotar políticas de rigor fiscal e não descuidar da inflação.

Para os brasileiros, isso é fácil de lembrar: em 1999, um acordo com o FMI levou o Brasil a adotar metas elevadas de superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) e a implementar o regime de metas de inflação, com uma trajetória rápida de declínio nos índices de preços.

A “heterodoxia” americana não passou despercebida de integrantes da equipe econômica brasileira, que, internamente, comentaram a “contradição” entre discurso e prática das autoridades daquele país.

Também fora do governo essa dicotomia foi percebida.

“A posição dos EUA é exatamente de faça o que eu digo, mas não o que eu faço. O governo americano, tanto pelo lado fiscal como pelo lado monetário, está enfrentando essa crise como se ela fosse causada por um problema localizado, e não por desequilíbrios estruturais que há anos existem por lá”, diz o ex-diretor do Banco Central Carlos Eduardo de Freitas, fazendo referência ao déficit fiscal e, especialmente, ao saldo negativo nas contas externas do país, de 6% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para Freitas, as medidas adotadas vão na direção de aprofundar os desequilíbrios e tornar a economia americana mais frágil no longo prazo. “Os Estados Unidos deveriam promover uma diminuição no consumo interno e exportar mais, para diminuir esse desequilíbrio”, afirmou. “Mas uma política de pagar dívida e juros tem um custo elevado. O Brasil fez um ajuste de 6% do PIB em 1982 e o governo militar se desintegrou. Se estou correto em minha avaliação, a política atual dos EUA é populista”, avalia.

CONFIANÇA NO FED

O economista-chefe do Modal Asset Management, Alexandre Póvoa, avalia como razoável a política econômica adotada nos EUA, porque a considera temporária. “Se a política fiscal fosse gerar um déficit de longo prazo, seria ruim. No caso da política monetária, o objetivo é manter ao longo do tempo o equilíbrio entre inflação e atividade econômica. Como algo temporário é válido. Faz parte do arcabouço”, afirma.

Póvoa considera que, diferentemente do Brasil e outros emergentes, os EUA têm mais liberdade para utilizar essa combinação de política econômica por causa da grande confiança que se tem no Fed. “O Brasil ainda está construindo essa confiança e, por isso, tem um grau de liberdade menor.”

Carlos Thadeu de Freitas, também ex-diretor do BC, afirmou que o chamado balanço de riscos nos Estados Unidos hoje está mais para recessão do que para inflação e, por isso, o Fed está agindo de forma mais agressiva. “Uma recessão mais profunda criaria mais problemas. Se houver necessidade, o juro pode subir depois”, diz. “Quando há assimetria de riscos, é preciso afastar o receituário. O Fed pode ser mais arrojado, pois tem mais credibilidade.” Sobre a política fiscal, o economista avalia que, se ela for implementada no tempo correto, poderá ajudar a retirar os EUA da recessão. “Se ela produzir efeito no tempo errado, quando já estiverem saindo da recessão, pode causar problemas, pois levará a uma alta na inflação”, diz. Por essa razão, avalia, o Fed deverá ser “homeopático” na gestão da taxa de juros a partir de agora.

O Brasil é o melhor dos Brics

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Em meio à crise dos EUA, pai da sigla destaca confiança de investidores no país

O GLOBO ENTREVISTA
Jim O’Neill

O economista britânico Jim O’Neill ficou famoso por ser o criador da célebre expressão Brics — sigla que resume o crescente poder dos grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China. Chefe de Pesquisas Econômicas Globais do Goldman Sachs, O’Neill está relativamente otimista com a crise nos Estados Unidos e acredita que, para surpresa dos mercados, a economia americana poderá evitar a recessão. Ele é ainda mais otimista em relação ao Brasil. Apesar de reconhecer que o país poderá ser afetado pelo desaquecimento global no seu comércio exterior, já que é grande exportador de commodities, O’Neill garante que, em meio à crise dos EUA, o Brasil é o melhor dos Brics para investir. Em entrevista por telefone ao GLOBO, de seu escritório em Londres, ele alerta que a vitória de um candidato democrata nas eleições americanas pode aumentar o protecionismo comercial nos Estados Unidos, principalmente se o eleito para a Casa Branca for o senador Barack Obama. E critica a rigidez de fóruns multilaterais como FMI e G-7 por não incorporarem os grandes emergentes: “Os Brics respondem por 15% do PIB mundial”.

Luciana Rodrigues

O GLOBO: O senhor acredita que os EUA já estão em recessão ou estão em vias de entrar numa recessão?

JIM O’NEILL: Estão perto. Mas há alguns aspectos mais complexos desta crise que precisam ser levados em conta. O comportamento dos mercados desde o outono (no Hemisfério Norte, primavera no Brasil) mostra que muitos analistas estão presumindo que os Estados Unidos já estão em recessão ou que inevitavelmente viverão uma recessão.

Uma das possíveis surpresas porém é que talvez a economia americana não entre em recessão. Houve cortes de juros pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano).
Na última semana, o presidente (George W. Bush) apresentou um pacote de grande estímulo fiscal.

Sem isso, o risco de uma recessão seria muito grande. Mas o Fed e o governo perceberam os sinais de recessão e responderam de forma bastante agressiva. Com o Fed cortando os juros duas vezes nas últimas semanas e as medidas fiscais, tivemos um dos maiores pacotes de estímulos econômicos na História moderna americana.

Então os Brics não devem sofrer grande impacto?

O’NEILL: Mesmo que evitem uma recessão, os Estados Unidos entrarão num período de crescimento muito fraco. No que diz respeito aos Brics, nos últimos dois anos, em que a economia americana perdeu vigor, eu acredito que os Brics lidaram com isso razoavelmente bem. Nas últimas semanas, porém, há sinais de que a China está sendo bem sucedida em reduzir seu ciclo econômico.
Então, a China provavelmente vai sair de 11,5% (taxa de crescimento registrada no ano passado), para algo abaixo de 10%.
Talvez até para 8% (em termos anuais) no primeiro semestre deste ano. Isso acontecendo, no mesmo período em que os EUA também estarão crescendo pouco, tornará o chamado decoupling (“descolamento”) mais difícil. Muito do crescimento global nos últimos anos tem sido dominado pelos Estados Unidos e, principalmente, pela China.

Esse desaquecimento da China já é reflexo da crise nos EUA?

O’NEILL: Sim, mas apenas parcialmente.
Na China, cerca de 7,5% do PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de todos os bens e serviços p roduzidos no país) são exportações para os Estados Unidos. Há evidências, sobretudo no último mês, que as exportações para os Estados Unidos caíram dramaticamente.
Então, parte do desaquecimento chinês é efeito da crise americana. Mas há também a preocupação da China com a inflação. As autoridades chinesas começaram a restringir o crédito de forma agressiva. Assim, pelo lado doméstico, está havendo um arrefecimento, particularmente no que diz respeito aos investimentos e ao boom que houve no mercado imobiliário em certas partes da China.

Com o desaquecimento simultâneo de Estados Unidos e China, qual será o efeito sobre os outros países dos Brics? Qual deles pode sofrer mais e quem está mais blindado?

O’NEILL: Há diferenças entre os Brics. O crescimento da Índia tem sido puxado pela demanda doméstica e por um consumo interno muito forte. Então, de alguma forma, será mais fácil para a Índia se isolar. Enquanto isso, o Brasil e, evidentemente, a Rússia são grandes exportadores de commodities. Assim, por esse ângulo, será mais difícil para esses países.
Mas as semelhanças entre Brasil e Rússia param por aí. Em muitos aspectos, o Brasil é o melhor dos Brics para se estar neste momento. No ano passado, quando estive em São Paulo, muitos me perguntavam por que havia incluído o “B” nos Brics, argumentando que o Brasil não deveria estar no grupo. Agora, a minha impressão é que a estabilidade da inflação está trazendo muita confiança. Vemos o início da construção de uma forte sociedade de consumo, há mais confiança em relação aos investimentos. Mesmo que um desaquecimento na China e uma recessão nos Estados Unidos sejam um desafio para o Brasil em termos de comércio exterior, eu acredito que a economia brasileira está numa posição muito mais forte do que estava há apenas dois anos.

O Brasil, tradicionalmente, cresce num ritmo muito mais lento do que os demais dos Brics. Mesmo assim, o senhor acredita que o Brasil é o melhor do grupo?

O’NEILL: O Brasil está prestes a ver sua tendência de crescimento sair dos 3% para algo entre 4% e 6%, graças à estabilidade da inflação e a um aumento da confiança no Brasil.
Recebo muitas visitas de São Paulo aqui em Londres. Esta semana mesmo veio um grupo. E hoje há uma visão muito mais positiva do que apenas dois anos atrás. É completamente diferente.

Essa confiança não pode ser abalada por um ambiente global desfavorável?

O’NEILL: Não, porque esta confiança está sendo impulsionada pelo cenário doméstico. A demanda interna está acelerando. O Brasil está numa posição cada vez mais confortável para lidar com ameaças externas.

A corrida eleitoral nos Estados Unidos poderá influenciar o comportamento dos mercados?

O’NEILL: As eleições ainda estão tão distantes que não vão influenciar os mercados. Mas as turbulências econômicas podem levar a mais viradas de opinião nos candidatos do que ocorreria em outras situações. E, no ano que vem, se a economia americana ainda estiver fraca e se os democratas vencerem, especialmente se for Obama (o senador Barack Obama), há um risco de haver mais protecionismo e mais aversão à globalização. Isso será muito ruim para todos os Brics, pois o que permitiu o desenvolvimento dos Brics foi a globalização. É um risco, mas para depois das eleições.

Esse risco é particularmente mais forte com Obama?

O’NEILL: O risco é maior com os democratas do que com os republicanos. Obama tem adotado o discurso mais protecionista.
Porém, suspeito que muito do que o candidato fala tem sentido mais eleitoreiro e, se Obama ganhar, ele deverá adotar posturas mais razoáveis.

O governo brasileiro tem argumentado que as recentes turbulências nos mercados mundiais reforçam a necessidade de abertura comercial.
Há espaço, neste momento, para avançar nas negociações comerciais?

O’NEILL: Será difícil ganhar a atenção dos Estados Unidos que, neste momento, se dedicam exclusivamente a seus problemas domésticos.
A Rodada de Doha (de abertura multilateral, no âmbito da Organização Mundial do Comércio, a OMC) é evidentemente importante. Mas agora isso não está no radar do G-7, que está mais preocupado com a crise global de crédito.

O Brasil também tem pedido mais voz aos países emergentes em fóruns multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). É um pleito justo?

O’NEILL: Sim, concordo plenamente.
É ridículo que o G-7 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo) e o FMI não tenham mudado ainda. O Brasil está certo, merece fazer parte disso. Eu diria também que o G-20 (grupo formado por grandes países emergentes) está, de várias formas, tomando parte da importância que o G-7 tinha no passado. É muito decepcionante que uma burocracia herdada do passado torne a mudança tão lenta. Se olharmos para o mundo hoje, os Brics respondem por 15% do PIB mundial.É metade do tamanho dos Estados Unidos. A China está prestes a ultrapassar a Alemanha (em tamanho do PIB). É incrivelmente idiota que os Brics não sejam parte disso (dos fóruns multilaterais). Está muito claro para mim que os Brics, incluindo o Brasil, deveriam ser trazidos para o centro das decisões mundiais.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A redescoberta das virtudes do gasto público

Rui Falcão

por Rui Falcão

O conjunto de medidas propostas pelo governo Bush para debelar o risco de recessão na economia norte-americana —, induzido pela crise no setor de crédito imobiliário (empréstimos podres), com ramificações pelas artérias do sistema financeiro — vai na direção oposta à do receituário neoliberal imposto aos países em desenvolvimento nas décadas passadas.

Como se recorda, a palavra de ordem então brandida pelos organismos multilaterais de crédito (FMI, Banco Mundial, etc.), pelos chamados operadores do mercado, pelos yuppies encastelados nas repartições econômicas do governo FHC e por acadêmicos colonizados era “contenção do gasto público”. Essa era uma das diversas medidas adotadas no “ajuste estrutural”, cuja retórica visava a sanear a economia desses países, devolvendo-lhes as condições macroeconômicas para a retomada do crescimento. Já o pacote anunciado por Bush propõe o oposto – o aumento do gasto público — mediante estímulo à expansão do consumo — , como meio de gerar demanda a partir do que lorde Keynes chamava de efeito multiplicador do gasto.

O pressuposto keynesiano aqui implicado é que se cabe ao Estado desempenhar algum papel na economia é o de atuar como interventor em última instância no processo de acumulação do capital, para assegurar a sua retomada, sempre que as incertezas no mercado desestimulam o investimento das empresas e o consumo das famílias. Essa é a situação que se esboça neste momento na paisagem econômica norte-americana.

Quem, senão o Estado, se disporia a aumentar o seu consumo ou investir num momento de crise, quando a racionalidade de qualquer investidor privado recomenda cautela e contenção, até que se vislumbrem dias melhores no horizonte — até que se retorne à “normalidade”. Segundo o keynesianismo — doutrina execrada pelos aliados, mentores e áulicos do governo FHC — a “normalidade” do processo de acumulação pressupõe a existência de um ator dotado de uma racionalidade distinta da do ator privado, e esse é o Estado. Para os keynesianos, o Estado é racional quando atua funcionalmente no atendimento das necessidades do processo de acumulação — por isso, não faz sentido falar-se em “Estado mínimo” na ótica neoliberal, pois também aqui o Estado é máximo na defesa da continuidade da acumulação.

(Parêntesis: Lembro o leitor de que não estou a falar de gasto público na mesma acepção assumida por certos ‘analistas’ da grande mídia. Para estes, em geral, gasto público é sinônimo de desperdício nas despesas governamentais ou do Estado em rubricas como aquisição de copos e talheres para os servidores do Palácio do Planalto, cafezinho nas repartições públicas, aposentadorias e pensões, papel higiênico e outras miudezas (ou “graudezas”) de consumo corrente, sobre cuja denúncia se comprazem, esquecendo-se de que, se há algo escandaloso no gasto público é o montante de juros pagos no serviço da dívida pública. Gasto público, no jargão econômico, refere-se ao montante de recursos públicos despendidos pelo Estado na ampliação da infra-estrutura, na melhoria dos serviços essenciais, como defesa nacional, pagamento dos serviços da dívida (juros), implementação das políticas públicas, como educação e saúde ... e também nas despesas correntes.

Pois então Tio Sam vai aplicar na própria casa o arsenal de medidas econômicas de caráter anticíclico, para evitar os malefícios sociais de uma recessão, medidas jamais autorizadas pelo FMI aos países abaixo do Equador. E é de enfatizar que o faz tendo na lembrança a adequação e os bons resultados das políticas keynesianas que estão na origem do período que se tornou conhecido como a “idade de ouro do capitalismo” e que consistiram em sustentar o círculo virtuoso do processo de acumulação, gerado a partir do efeito multiplicador do gasto público.

Em contraste, em nossas latitudes ainda é fresca a lembrança dos efeitos catastróficos do receituário neoliberal sobre as condições sociais das populações da América Latina e de outros continentes. Ainda por muito tempo teremos de pagar os enormes custos sociais e econômicos resultantes das políticas de ajuste estrutural (leia-se, em resumo: contenção do gasto público), entre os quais o mais em voga são as seqüelas da deterioração da infra-estrutura, cuja responsabilidade é atribuída equivocadamente ao governo Lula.

À medida que se continha o gasto público, para gerar superávit fiscal para o pagamento dos juros, ao limite suportável do sacrifício imposto às populações, as condições sociais e econômicas se deterioravam — aumento do desemprego, queda no poder aquisitivo dos salários, deterioração dos serviços públicos, agravamento da pobreza e aumento da exclusão social.

É sabido que os governantes são tentados a gastar mais do que arrecadam — daí a Lei da Responsabilidade Fiscal. Mas é preciso discriminar entre gasto público produtivo e improdutivo, discriminação que somente no primeiro governo Lula o FMI, pressionado, admitiu reconhecer. Até então, ou seja, ao longo do período FHC, ao que se assistiu foi o retrocesso do gasto público em setores essenciais, do qual a crise do setor elétrico é um exemplo notável.

O sistema elétrico brasileiro, como é sabido, está baseado na geração de hidreletricidade. Entre 1960 e 1990, o Brasil construiu um dos sistemas de geração de energia elétrica mais eficientes e competitivos do mundo. Além disso, a energia hidrelétrica, que participa com 80% na matriz energética, é renovável.

Ao privatizar, o governo FHC desmantelou um sistema integrado de geração e distribuição de energia e manteve em mãos públicas somente o componente menos rentável — a geração. Sob a orientação do FMI, com o objetivo de estimular a privatização do setor energético, incluiu nos gastos que compunham o orçamento público e caracterizavam o déficit fiscal, os investimentos públicos em eletricidade e petróleo. Assim, com a redução dos investimentos públicos e a privatização, justificou-se a perseguição da meta do superávit fiscal — para o pagamento dos juros da dívida.

Essa estratégia implicou cortes drásticos nos investimentos em geração de energia, de tal forma que em 2001 os brasileiros começaram a sentir o que significa redução indiscriminada do gasto público, ao pagar tarifas elevadas pelo consumo de energia e sofrer as conseqüências do apagão. Como resultado do racionamento de energia, caíram as taxas de crescimento econômico e de investimento privado.

A crise do setor elétrico, ao deteriorar a economia, converteu-se em termos políticos no maior desastre da gestão tucana, e sacudiu a credibilidade das políticas econômicas neoliberais no país, em contraste com as promessas de seus operadores. Lembre-se de que a privatização fora apresentada como panacéia para debelar a ineficiência do gasto público e provê-lo de transparência.

O resultado é que o povo passou a despender mais por um serviço igual ou pior, enquanto as inversões esperadas do setor privado se reduziam, em que pese o “saneamento” do gasto público promovido por FHC, sob a batuta do FMI. O golpe final na credibilidade veio em dezembro de 2001, quando se tornou público que os contratos firmados entre o governo FHC e as empresas de energia privatizadas incluíam uma cláusula de reajuste do preço em caso de queda no consumo. Assim, o consumidor viu-se forçado a pagar mais por ter de consumir menos. Foi a apoteose do receituário neoliberal.

Do que se pode concluir que o que não é bom para o Brasil também não é bom para os Estados Unidos.


Rui Falcão, jornalista e deputado, 64 anos, é deputado estadual. Foi secretário de governo na gestão Marta Suplicy, presidente do PT e deputado Federal.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Crise USA: FMI dormiu ao volante,diz Nobel de Economia


Joseph Stiglitz, economista

Como o sr. vê a atuação dos organismos financeiros multilaterais na atual crise financeira?

Houve uma discussão nos últimos anos sobre os desequilíbrios do mundo, mas o FMI não fez nada em relação a isso. O fundamento dos desequilíbrios mundiais era o excesso de gastos dos americanos, de US$ 800 bilhões (o déficit em conta corrente). Os americanos tentaram culpar a China e outros países, mas o problema fundamental era seu próprio excesso de consumo. Se o FMI tivesse feito o seu trabalho, teria visto a linha de conexão entre esses problemas e percebido também que uma das suas principais funções é a estabilidade dos mercados. Estabilidade dos mercados financeiros significa não exportar hipotecas tóxicas, como fizeram os Estados Unidos. O FMI dormiu ao volante. Eles nem ao menos tiveram uma grande discussão sobre regulação para garantir que não houvesse negociações com essas hipotecas tóxicas.

O sr. tem alguma explicação para essa falha?

Não foi uma surpresa para mim, levando em consideração que esses são problemas com origem nos EUA, o único país que tem poder de veto no FMI. Os EUA não ficarão muito felizes com o FMI dizendo que fizeram uma lambança. Agora, uma coisa é os EUA fazerem uma lambança e machucarem a si mesmos. Na globalização, muitas outras pessoas fora do país sofrem. Então, isso deveria ser um assunto do FMI. Mas eles não podem fazer o trabalho enquanto continuar esse sistema falho que dá aos EUA o poder de veto.

E as falhas dentro dos EUA?

O Fed (Federal Reserve, banco central americano) tem um alto grau de culpa. Alan Greenspan (ex-chairman do Fed) também. O problema começou quando eles deixaram de tomar ações regulatórias. Eles tinham a autoridade e não a exerceram. Greenspan chegou a encorajar as pessoas a pegar hipotecas com taxas de juros flutuantes, quando as taxas de juros estavam no seu nível mais baixo. Isso significava que a probabilidade de as taxas subirem era alta. O que o Greenspan fez foi dizer que, se as pessoas tivessem tomado hipotecas com taxas variáveis dez anos antes, elas estariam muito melhor. E é verdade: essas pessoas teriam se dado bem porque ninguém antecipou que qualquer chairman faria o tipo de coisa descuidada que ele fez, ao trazer as taxas de juros para 1%. Então, quando as taxas de juros caem muito de uma forma não antecipada, a pessoa ganha se ela soube especular com uma hipoteca com taxas variáveis. Mas, quando as taxas já estão lá em baixo, em 1%, só há uma direção, que é para baixo (*). Foi claramente o conselho errado no momento errado. Quando foi sugerido que havia um problema no mercado residencial, Greenspan disse para elas não se preocuparem. O Fed não viu os problemas. Se você olhar os gráficos, vai notar que eles gritavam que havia alguma coisa estranha. Eles tinham instrumentos para lidar com isto, mas nada fizeram.

O sr. acha, como o investidor George Soros, que as falhas têm a ver com a ideologia liberal que passou a prevalecer a partir dos anos 90?

É uma soma de ganância, de desregulação e de uma falha de incentivos para bancos e para as agências de risco.

Pode dar um exemplo?

As agências de rating são pagas por quem elas classificam, e portanto têm todos os incentivos para agradar o cliente. Esses títulos complexos que receberam rating de triplo A (a mais alta classificação de risco) mostram que elas acreditaram em alquimia financeira. Você pega um bônus ruim, faz um feitiço e o transforma num bônus bom. No caso dos bancos, se os problemas fossem com um deles só, então nós diríamos ok, as pessoas erram. Mas os problemas são com quase todos. E isso significa que ou eles são estúpidos ou não fizeram a análise devida. Eles claramente deixam passar coisas que muita gente apontava - e eles não queriam ouvir. Ou eles não eram os bons gestores de risco que diziam ser ou os seus incentivos eram perversos - e eles tiveram incentivos para fazer essas ações arriscadas.

Qual é a agenda correta para corrigir estes problemas?

Claramente, precisamos de uma regulação melhor, no nível nacional e internacional. Temos de reconhecer que, à medida que fomos liberalizando os mercados financeiros, nós não criamos as autoridades reguladoras apropriadas.

Quão profunda pode ser a recessão nos Estados Unidos?

Estou do lado mais pessimista, e a razão básica é que este não é um ciclo econômico habitual, no qual você acumula estoques, se livra deles e então recomeça a crescer. Nesta crise, os balanços foram devastados, os americanos vão perder as suas casas, um total de 1,7 milhão a 2 milhões de pessoas. Vai demorar mais para a economia se recuperar.

(*) suponho que é um erro de tradução e que deva se ler "para cima"e não "para baixo".

'Brasil não poderia estar melhor', diz chefe do FMI

Dominique Strauss-Khan, Diretor do FMI

João Caminoto

O Estado de São Paulo

“O Brasil não poderia estar melhor para lidar com a crise.” Essa é a avaliação do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. Ele salientou a importância do fortalecimento dos fundamentos macroeconômicos do País nos últimos anos para enfrentar o risco de recessão nos Estados Unidos e a forte volatilidade que vem afetando os mercados financeiros.

“O Brasil está muito bem”, disse Strauss-Kahn, que participou de uma série de discussões sobre a economia global durante o Forum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. “Lógico que nenhum país deixará de ser atingido pelo menos um pouco, mas o Brasil está forte.”

Ele evitou comentar como o Fundo avalia o comportamento dos preços das commodities diante dos problemas econômicos, fator crucial para economias emergentes. “Em breve atualizaremos nossos prognósticos e esse tema será abordado.”

A avaliação do chefe do FMI sobre o Brasil coincide com a da maioria dos participantes do Fórum. Para eles, controle inflacionário, câmbio flutuante e fortalecimento das reservas colocaram o Brasil numa situação bem menos vulnerável.

FMI agora pede que países gastem mais

CRISE NOS MERCADOS/ FÓRUM DE DAVOS

DAVOS/SUÍÇA

Fundo inverte clássica defesa de orçamentos equilibrados e sugere a governos relaxamento de políticas fiscais

Novo diretor-gerente propõe medida onde haja "espaço para isso'; pedido indica "gravidade da crise", diz ex-secretário dos EUA

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A DAVOS

O Fundo Monetário Internacional inverteu ontem radicalmente a sua clássica defesa de orçamentos equilibrados e, portanto, de uma política fiscal rígida para defender o inverso como parte da solução da crise financeira global.
"Nos países em que há espaço para isso, a política fiscal deve ser relaxada", afirmou o novo diretor-gerente do Fundo, o francês Dominique Strauss-Khan, ao abrir debate sobre o "Panorama Econômico 2008", no encontro anual do Fórum Econômico Mundial.
A seu lado, Lawrence Summers, ex-secretário norte-americano do Tesouro (durante o governo Clinton), hoje professor da mitológica Harvard University, não perdeu a chance de ironizar:
"É a primeira vez em 25 anos que um diretor-gerente do FMI pede um aumento do déficit fiscal".
Mas Summers também anotou o significado do pedido: "É uma indicação da gravidade da crise".
Gravidade, de resto, exposta em tons próximos de apocalípticos por John Thain, executivo-chefe da Merrill Lynch, conglomerado financeiro que gerencia ativos de impressionante US$ 1 trilhão, mais ou menos um Brasil.
O teorema negro traçado por Thain é este:
1 - O valor dos imóveis nos Estados Unidos (epicentro da crise original) já caiu 7% em 2007 "e vai continuar a se deteriorar".
2 - Esse declínio se espalhará pelo mundo.
3 - Já estão surgindo problemas no mercado de crédito, que se estenderão ao mercado consumidor (citou especificamente cartões de crédito).
A inadimplência dos consumidores norte-americanos já aumentou 40%.
4 - "Outra ordem de problemas virá do aumento do desemprego".
Conclusão inescapável: "Demorará para que se volte a algum tipo de normalidade".
Diga-se que Summers, um acadêmico, concordou com a visão de Thain, executivo do setor financeiro privado.
O próprio Strauss-Khan, no comando da principal instituição financeira multilateral, antevê uma "severa desaceleração" nos Estados Unidos, situação que, segundo ele, já surgirá claramente na primeira versão do "Panorama Econômico Mundial" que o FMI divulgará nas próximas semanas.
Se há esse virtual consenso sobre os problemas nos Estados Unidos, ele desaparece quando se analisa a repercussão nos demais países. Mas a teoria do "decoupling" (o descasamento entre os mercados emergentes e os Estados Unidos) foi de novo fulminada, até por Strauss-Khan, que, por sua posição, tem naturalmente que ser mais sereno:
"Não diria que os mercados emergentes estão imunes à crise. Nas últimas semanas, aliás, os mercados mostram que não houve descasamento" (alusão ao fato de que o sobe-e-desce nas Bolsas foi parecido no mundo rico e nos mercados emergentes).
Para o diretor-gerente do FMI, não há descasamento, mas "vínculos mais complexos que no passado" -e ainda não suficientemente estudados.
À margem do debate, Alain Belda, o brasileiro que preside a Alcoa, disse à Folha: "O descasamento entra no departamento das esperanças dos subdesenvolvidos, não na vida real".
De todo modo, a propagação da crise para os mercados emergentes pode dar-se via queda no preço das commodities, que afetaria especialmente o Brasil, grande exportador desse tipo de mercadorias.
Mas a queda depende, por sua vez, do que de fato acontecerá com a economia norte-americana, se mera desaceleração ou se recessão.
O ministro indiano de Finanças, Palaniappan Chidambaram, foi otimista sobre seu próprio país: crescerá de 8% a 8,5%, em linha com os resultados dos últimos anos.
Mas não se atreveu a fazer previsões sobre os demais mercados emergentes.
Yoshimi Watanabe, ministro para Assuntos Financeiros e Reforma Administrativa do Japão, também foi relativamente otimista, ao prever crescimento de 2% neste ano, quando há inquietação entre os analistas sobre a hipótese de o Japão recair em uma recessão feita em casa.
Por fim, Christine Lagarde, a ministra francesa de Finanças, Economia e Emprego, disse que "a competitividade da economia européia passará pelo teste da realidade". Para que possa vencê-lo, cobrou de Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, que desvalorize o euro e reduza os juros (o euro forte como está dificulta as exportações européias).
"Espero que Trichet seja sensível aos apelos vindos não só da França mas de toda a Europa para que pense também no crescimento da economia e não apenas no controle da inflação", disse a ministra.
Que passos devem ser dados para enfrentar a crise, além de abrir os cofres dos governos que puderem fazê-lo?
Primeiro, sanear o sistema financeiro. "Os bancos têm um buraco e ele tem que ser fechado", diz, por exemplo, o japonês Watanabe.
Depois, a crise "só pode ser enfrentada em termos globais. Não há como fazê-lo em um só país, ainda que esse país sejam os Estados Unidos", diz Strauss-Khan.
Terceiro, valorizar moedas que estão claramente desvalorizadas, como é o caso da China. "Estamos preocupados com a taxa chinesa de câmbio, que torna nossas exportações menos competitivas", diz o indiano Chidambaram.
Reforça até Lagarde, cujo país usa um euro valorizado: "O euro não pode ser a única peça no ajuste global de taxas de câmbio".

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Clima pesado


Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

Esperado com ansiedade, o pronunciamento feito ontem pelo presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, reforçou uma dupla sensação negativa: a de que as condições da economia americana podem estar ainda mais deterioradas do que até agora admitido; e a de que as autoridades da área continuam inseguras quanto ao que fazer para reverter a crise.

As declarações feitas perante a Comissão do Orçamento não trouxeram novidades. Mas marcaram pelo tom adotado. Para não dizer que só há coisas ruins ocorrendo, Bernanke chegou a dizer que não espera recessão e que as expectativas de inflação parecem bem ancoradas, a ponto de permitir melhora ainda neste e no próximo ano. No mais, foram frases carregadas de expressões pesadas: grandes perdas e incapacidade de avaliar os ativos dos bancos; deterioração do mercado imobiliário; aumento do risco de recessão; condições desapontadoras do mercado de trabalho... Esse tom de prostração contaminou o mercado financeiro que, mais uma vez, baqueou - embora indicadores econômicos decepcionantes também tenham contribuído para isso.

Dois dos 15 parágrafos do pronunciamento foram dedicados ao projeto em exame, tanto na Casa Branca como no Congresso, de um pacote de estímulos fiscais cujo objetivo é puxar o consumo e evitar a recessão. A idéia original é distribuir US$ 500 por consumidor, reduzir impostos ou aumentar o seguro-desemprego.

Bernanke pareceu admitir que o Fed está sozinho na briga contra a crise e afirmou que medidas assim são bem-vindas. Parece dar razão àqueles que dizem que o Fed está perdido.

Mas lembrou as condições dessas medidas: que venham rapidamente e não quando a economia já estiver em recuperação; que tenham efeitos imediatos; e que sejam temporárias. E advertiu que um programa que aumente o déficit orçamentário poderá trazer desequilíbrios no futuro.

De qualquer maneira, se dinheiro mais abundante e juros mais baixos (política monetária) não estão conseguindo nem sanear o crédito nem consertar o patrimônio deteriorado dos bancos, por que então uma enorme injeção de recursos fiscais seria mais eficaz nessa parada?

Provavelmente de forma não intencional, Bernanke parece admitir que a verdadeira natureza da crise não é a má administração dos bancos ou a execução perdulária da política de juros pelo Fed nos primeiros cinco anos desta década, ambas inegáveis.

A verdadeira natureza da crise é, no fundo, a mesma que atacou os países emergentes nas décadas de 80 e 90: os rombos orçamentários produzidos pela administração George Bush a partir de 2001.

Se é assim, fica incompreensível que os Estados Unidos justifiquem estímulos fiscais condenados quando a crise ocorria em outros países. Quando a encrenca estava nos países emergentes, tanto o governo americano como o Fundo Monetário Internacional (FMI) bombardearam qualquer providência que implicasse aumento das despesas públicas. Se essa receita ortodoxa fosse aplicada agora, os Estados Unidos teriam de cortar suas despesas e antecipar o pagamento da dívida, o que ajudaria a equilibrar as finanças públicas e a atrair capitais externos.

Confira


Superlimpeza - São tão maiores do que os anteriormente projetados os prejuízos dos bancões americanos que passam a impressão de que as novas direções estão exagerando na limpeza para descarregar toda a responsabilidade sobre os administradores anteriores e estarem em condições de mostrar serviço ainda no primeiro semestre do ano.

Ao apresentarem os rombos, tanto o presidente do Citigroup como o presidente da Merrill Lynch usaram a mesma expressão condenatória da administração anterior: “É um desempenho claramente inaceitável.”

sábado, 10 de novembro de 2007

FMI faz alerta para riscos na área de crédito

FERNANDO CANZIAN
TONI SCIARRETTA
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA DE SÃO PAULO

O diretor para o Hemisfério Ocidental do FMI (Fundo Monetário Internacional), o indiano Anoop Singh, afirmou ontem que Brasil e região devem se preocupar com aumentos indiscriminados na concessão de crédito, pois isso traria riscos ao sistema financeiro.
"O crescimento rápido do crédito merece acompanhamento de perto das autoridades. Na América Latina, o crédito tende a aumentar rapidamente, elevando os riscos envolvidos", disse Singh.
"Os BCs devem acompanhar com cuidado para ter certeza de que os bancos não estão diminuindo seus padrões de análise de concessão de crédito", completou. Singh participou, em São Paulo, do lançamento de relatório do FMI sobre os países americanos e da região do Caribe em seminário na Fundação Getúlio Vargas.
Nos últimos cinco anos, o volume de concessão de crédito como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) no Brasil aumentou de 21% para 33%, com dezenas de novas modalidades no mercado e estratégias agressivas dos bancos para atrair clientes.
No mesmo evento, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou que o volume de crédito total na economia brasileira ainda "permanece bem aquém das de outras regiões, inclusive de emergentes. E evidencia espaço para expansão", disse.
"A relação de crédito total sobre o produto expandiu, mas é muito inferior a de países como Malásia, Tailândia, e Coréia [do Sul]", afirmou Meirelles. "Crescente parcela da população está tendo acesso ao crédito. Mas ainda estamos em um patamar substancialmente inferior àqueles países que já estão enfrentando um limite, como é o caso dos EUA."

Outros riscos
Além do eventual risco com a concessão de créditos, o relatório do FMI assinala que Brasil e região podem sofrer impactos negativos de uma desaceleração maior da economia norte-americana e da queda nos preços das commodities (grãos, minérios, etc.).
Em resposta a essas considerações, o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, disse que o Brasil estaria preparado, com saldo comercial e reservas, até para uma eventual "recessão típica" nos EUA, que poderia durar entre 12 a 18 meses.
Sobre as commodities, Barbosa afirmou que haveria uma queda nas exportações e nos ganhos comerciais, mas que o país seria beneficiado, por outro lado, por pressões menores sobre a inflação.
Barbosa manteve a previsão da Fazenda de crescimento de 4,7% neste ano e de 5% em 2008 (o FMI prevê 4,4% e 4%, respectivamente).
"Crescer 5% no ano que vem é um desafio que temos. E existem condições para isso", disse Barbosa. Segundo ele, o governo espera um crescimento de 6,5% na demanda doméstica em 2008. Para chegar aos 5% de crescimento seria descontado 1,5 ponto percentual relativo à demanda que será atendida pelas importações.
Apesar dos alertas, Singh fez vários elogios ao Brasil. Disse que o país "é líder" de uma "nova era" na América Latina, que inclui "estabilidade macroeconômica e inflação baixa".
O funcionário do Fundo afirmou ainda que, apesar de crescentes, os gastos públicos no Brasil "estão melhor contidos" do que em outros países. "O superávit fiscal [economia para pagar juros] também é mais robusto que em outros países."

Gastos sociais
Barbosa, da Fazenda, defendeu a política de aumento dos gastos públicos direcionados a programas sociais e à Previdência. Segundo ele, essas despesas já equivalem a 42% do PIB. "O governo sabe que precisa manter o controle do gasto. Mas, no caso dos gastos sociais, o que houve foi uma redistribuição da renda do setor privado" [em direção aos mais pobres].
Já sobre a demora em os resultados macroeconômicos serem revertidos em queda da desigualdade social, Singh afirmou: "A história nos deu a lição de que leva tempo para mudar esse quadro. Mas há evidências de que o país entrou em uma nova fase, e que essa tendência [de redução das desigualdades] deve se autoalimentar".

domingo, 21 de outubro de 2007

Argentina y Brasil sumaron fuerzas para reclamar cambios en el Fondo

Obtuvieron que el estratégico Comité Financiero aceptara repartir un 10% adicional de cuotas. Será entre los países que hoy tienen menos votos que el que les correspondería por el tamaño actual de sus economías.

MESA. EL PRESIDENTE DE LA RESERVA FEDERAL DE EE.UU., BEN BERNANKE, Y EL MINISTRO MIGUEL PEIRANO, EN WASHINGTON.

La Argentina y Brasil ayer unieron fuerzas en la Asamblea del FMI para presionar por un objetivo común: acelerar las reformas que se necesitan para dar mayor participación a los países en desarrollo. Y obtuvieron algunos avances concretos, como el compromiso que asumió el estratégico Comité Financiero de distribuir un 10% adicional de cuota entre países que tienen una representación inferior a la que les correspondería por el tamaño actual de su economía.

El planteo incluyó la amenaza directa de los brasileños de impulsar la creación de una suerte de FMI regional, independiente de Washington. Fue hecha por el ministro de Economía, Guido Mantega, en la sesión inaugural del Comité que debe definir la estrategia del Fondo. La postura en favor de apurar los cambios en el reparto de poder interno fue ratificada por el ministro Miguel Peirano, en igual ámbito.

Peirano no habló sólo por la Argentina. Lo hizo como representante de los países del Grupo de los 24, donde también militan otras naciones latinoamericanas, asiáticas y africanas. "Queremos que el Fondo ejerza su función de supervisión de las economías en forma imparcial y pareja", sostuvo el ministro, en alusión a supuestos privilegios que gozan los países ricos a la hora de adoptar medidas monetarias y fiscales que no atienden el interés de la comunidad internacional.

Mantega apuntó en la misma dirección en su ponencia: "Es irónico -dijo- que los países que eran la referencia de buena gestión y conducta, son los mismos que enfrentan una fragilidad financiera que pone en peligro la prosperidad mundial".

En ese punto, el brasileño sostuvo que "los países en desarrollo tomarán su propio rumbo en caso de que se perciba que la reforma no se hará o que será apenas un simulacro". La frase remitió de inmediato a la experiencia del Banco del Sur, que no pasó desapercibida en Washington. En la delegación argentina que acompaña a Peirano admiten que, más allá de los problemas que enfrenta su creación, el lanzamiento de esta entidad sirvió para alertar a los países centrales sobre los riesgos de seguir marginando a América latina.

En el FMI están sensibilizados por estas expresiones de rebeldía. Además está fresco el intento de los países asiáticos de formar un organismo propio. La llegada de Dominique Strauss-Kahn a la conducción del Fondo a partir de noviembre, abrió expectativas de cambio y frenó el éxodo. Peirano y el presidente del Banco Central, Martín Redrado, se reunirán esta tarde con Strauss-Kahn para seguir analizando las reformas.

Uno de los pedidos que llevarán a ese encuentro, además de un reparto más equitativo del poder de decisión, es que se acelere la aprobación de una nueva línea de crédito automática para que los países puedan usarla en caso de crisis, pero que no esté llena de condicionalidades imposibles de cumplir. Y también explorarán las posibilidades técnicas que existen para que el FMI pueda avalar la marcha de la economía argentina con un acuerdo no tradicional. Esto le permitirá a la Argentina avanzar en la negociación con el Club de París por la deuda de US$ 6.200 millones.


Coincidencia con los EE.UU.

El secretario del Tesoro de EE.UU., Henry Paulson, y el ministro Miguel Peirano encontraron un motivo de coincidencia en medio de las miradas divergentes sobre la reforma del FMI: la agresiva política comercial de China, basada en un tipo de cambio sobrevaluado y un mercado muy protegido. Fue en una reunión en la cual también participaron los ministros de Chile, México, Perú, Uruguay y Colombia. Peirano señaló que para neutralizar este fenómeno "la Argentina tiene una estrategia de desarrollo que privilegia a sectores con mayor valor agregado, con innovación tecnológica y capacidad de creación de empleo".

Uma casa em transição

JOAQUIM LEVY - Folha de São Paulo


Surge o novo papel do FMI. Os países desenvolvidos não podem por si controlar novos fluxos de capital e seus efeitos

O FMI está mudando. Alguns acreditam que, talvez porque o mundo não esteja em crise, a instituição teria perdido seu valor. Essa leitura é superficial. O que há é uma nova distribuição de pesos relativos entre os membros do FMI.
O FMI já ajustou seu papel várias vezes. Depois da Segunda Guerra, ele ajudou a minimizar crises nos países europeus. Nos anos 1980, ele participou da administração da crise da dívida externa da América Latina, depois que os EUA botaram o pé no freio da política monetária para quebrar a estagflação dos anos 1970 e desmontaram a reciclagem dos petrodólares. Nos anos 1990, Michel Camdessus colocou o FMI no centro do processo de integração dos países ex-comunistas no mundo capitalista e encaixou o Fundo na virada da Ásia e na globalização.
É esse fenômeno que está impulsionando a reforma do FMI. De um lado, os juros baixos por conta da produção barata ao redor do mundo diminuíram a influência imediata do FMI entre os países emergentes. Do outro, o acúmulo de reservas internacionais na Ásia redesenhou o panorama das finanças internacionais, o que foi exacerbado pelo surgimento recente dos fundos de investimento soberano.
Já há dezenas desses veículos criados para investir reservas internacionais em ativos variados, sob administração dos grandes bancos. Com eles, surgiu a possibilidade de vastos recursos serem rapidamente transferidos de, por exemplo, títulos públicos americanos para as Bolsas ou outros ativos reais, o que poderia mexer nas taxas de câmbio e nos preços dos ativos em dólar.
É aí que surge o novo papel do FMI. Os países desenvolvidos não podem por si controlar esses fluxos de capital e seus efeitos: a ambivalência do governo britânico nessa área é indicativa da complexidade do problema. Mas o FMI, por ser multilateral, pode ter um papel regulador e arrefecer apreensões -cujas conseqüências nas expectativas de inflação nos EUA poderiam ter um impacto terrível no crescimento mundial.
Para o FMI ter esse papel, no entanto, ele precisa mudar sua governança. Por isso, o novo administrador geral já assinalou que vai trabalhar para um reequilíbrio de forças na instituição. As mudanças podem ser mais ou menos ambiciosas e -não obstante menções benignas ao Brasil- serão duramente negociadas, mesmo que as acomodações se dêem sem estridência.
A influência de cada país no novo FMI vai depender do sucesso dos respectivos dirigentes econômicos em aproveitar suas vantagens comparativas. A credibilidade que o Brasil construiu -e a capacidade de mostrar que o Fundo pode ser um parceiro eficiente no continente são muito reconhecidas entre os países-membros, tendo obtido expressão física e concreta. O compromisso do Brasil com uma economia de mercado e aberta e a evidência de que essa opção de desenvolvimento é viável também explicam por que ano passado o Brasil conseguiu ser escolhido líder do grupo técnico que agrega os 20 principais membros do Fundo.
A agenda do Brasil inclui, além de aumentar a cota do país no capital do FMI, a promoção de uma competição equilibrada nos serviços financeiros no mundo e a implementação de mecanismos eficientes de proteção contra choques externos -como os acordos preventivos propugnados pelo governo Lula desde 2004. Essa é uma agenda para favorecer o comércio internacional, o fortalecimento de nossas empresas e a expansão das nossas exportações, todos fatores importantes para o bem-estar do país.


JOAQUIM LEVY , 46, é secretário de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. Foi secretário do Tesouro Nacional no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e vice-presidente de Finanças e Administração do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Les "Caricavatars" débarquent sur le Post

Vous connaissiez les guignols de l'info, voici les marionnettes virtuelles de Hugo! Un nouveau talent rejoint la galaxie des "serial posteurs" du Post.

Depuis le lancement du site, Hugo promène ses "Caricavatars" sur le Post.fr. Hyper corrosives, ses caricatures virtuelles l'ont déjà placé parmi les posteurs les plus visités du site.

 |Hugo
Hugo


Caricaturiste aussi doué avec le crayon qu'avec la modélisation 3D, Hugo a l'idée un jour de s'essayer au "dessin de presse" en 3 dimensions. Un dessin "qui bouge", mélange des guignols de Canal+ et de Plantu, qu'il installe sur la plateforme de réalité virtuelle Second Life en 2006.
Sa première marionnette: Bill Clinton.

Ségo en bikini sur Second Life
Il lui trouve rapidement une copine : Ségolène Royal. Affublée d'un bikini (un clin d'oeil à la couverture de Closer), le personnage fait un joli petit buzz au démarrage de la campagne présidentielle, et vaut même à son créateur quelques clins d'oeil dans la presse en ligne.

Sarkoléon et ses copains
Depuis, Hugo a créé des dizaines de nouvelles marionnettes virtuelles (on les appelle "avatars sur Second Life, d'où le nom de "Caricavatars") qu'il anime pour recréer des caricatures en 3D sur Second Life, avec lesquelles les internautes peuvent interagir.

Pour la petite histoire, les photos des caricatures de Sarkozy et Royal ont même été publiées dans Playboy Magazine (version francaise) !

Aujourd'hui, les "Caricavatars" débarquent en vidéo. Et c'est sur le Post. Des petits bijoux corrosifs à consommer sans modération.

Bienvenue au Post, Hugo!


Par La rédaction du Post

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Dominique Strauss-Kahn patron du FMI

L'ancien ministre socialiste, candidat français de l'Union européenne, vient d'être nommé directeur général du Fonds monétaire international. C'est quoi au fait le FMI ?

A 58 ans, l'ancien ministre socialiste devient le quatrième patron français

 |Corbis
Corbis

de l'institution multilatérale basée à Washington. Il succèdera fin octobre à l'Espagnol Rodrigo Rato, démissionnaire pour raisons personnelles.

Soutenu par l'Union européenne, Dominique Strauss-Kahn était en compétition avec Josef Tosovsky, candidat tchèque présenté par la Russie.

Soucieux de ne pas apparaître comme "le candidat du Nord contre le Sud ou des riches contre les pauvres" pour prendre la tête de cette institution en
crise de légitimité, Dominique Strauss-Kahn avait choisi d'attendre au Chili le verdict des 24 membres du conseil d'administration, réunis au siège de l'institution à Washington.

Comment DSK a t-il mené campagne ?
- Il a mis à profit les semaines précédant l'élection pour consolider sa candidature, notamment dans les pays en développement. Il a effectué cet été un quasi tour du monde à la rencontre de ses électeurs, qui représentent les 185 Etats membres.

DSK n'a t-il plus d'ambitions nationales ?
- Avant d'être élu, le rival malheureux de Ségolène Royal aux primaires socialistes en France, s'est engagé à mettre entre parenthèses d'éventuelles ambitions pour la présidentielle française de 2012.

C'est quoi au fait le FMI ?
- Il sert à assurer la stabilité du système monétaire et financier international, c'est-à-dire à prêter de l'argent quand des pays sont en crise, et leur donner des instructions pour se redresser. Des procédures qui ont créé la polémique dans les anciens pays de l'Est et en Argentine.

Comment est choisi son directeur général ?
- Par tradition, les Européens choisissent le directeur général du FMI, alors que les Américains désignent le président de la Banque mondiale, l'institut soeur, elle aussi née après guerre des accords de Bretton Woods.
Par La rédaction du Post

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A crise mudou de lado

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

O Estado de São Paulo (para assinantes)

A conta-gotas, os analistas internacionais vão se apercebendo de que os países emergentes estão cada vez mais importantes e têm de ser levados mais a sério.

Ontem, por exemplo, o jornal parisiense Le Monde publicou matéria cujo título diz quase tudo: 'A grande revanche dos países do Sul.' Ainda em meio à turbulência da crise dos créditos de alto risco (subprime), multiplicam-se as observações dos comentaristas de que as coisas só não estão piores graças aos emergentes.

A crise mudou de lado. Ao longo das décadas de 80 e 90, foram os emergentes que contaminaram a economia mundial. Foi o México em 1982 e 1994, os tigres asiáticos em 1997, a Rússia em 1998, o Brasil em 1999 e a Argentina em 2001. Em seguida, as grandes crises foram geradas nos Estados Unidos: a da bolha da Internet, também em 2001, e agora a das hipotecas.

Quanto mais temem pelo mergulho na recessão global, tanto mais os analistas vão se dando conta de que o mundo rico já não é suficientemente denso para arrastar o resto do globo se algo grave acontece. Com as exceções de praxe, os emergentes já não afundam na crise e dispensaram tanto os recursos como as recomendações do Fundo Monetário Internacional, organismo hoje praticamente sem função.

A economia da China já produz mais riqueza do que a dos Estados Unidos. Fácil fazer as contas. O PIB americano é de US$ 13,3 trilhões e o da China é de US$ 3 trilhões. Se cresce a 2%, o PIB americano soma US$ 270 bilhões anuais à sua renda; se o PIB da China cresce a 11%, acrescenta US$ 330 bilhões. A Índia cresce a 8,4%; a Rússia, a 6,7%; a Turquia, a 6,0%; a Indonésia, a 6,3%; Cingapura, a 6,2%; e o Brasil, a 4,6% (projeções da revista Economist).

Outra novidade, os emergentes já dependem menos do mercado consumidor dos ricos para garantir a expansão econômica. Só a China incorpora a cada ano 40 milhões de bocas (mais do que uma Argentina) a seu mercado de trabalho. Aqui no Brasil, quase todos os dias um integrante da equipe econômica e o próprio presidente Lula lembram o distinto público que o consumo vai crescendo à velocidade de 7%.

Ao longo da segunda metade do século 20, eram os países ricos que tinham de emprestar recursos para os pobres para livrá-los da quebradeira. Hoje, acontece o contrário. Na medida em que são detentores de vastas reservas, os emergentes (Brasil entre eles) tornaram-se credores líquidos dos países ricos, especialmente dos Estados Unidos, pois esses recursos estão aplicados predominantemente em títulos do Tesouro americano (T-Bonds). Há anos a população dos Estados Unidos deixou de poupar. Para manter a economia de pé, precisam importar poupança. Para cobrir seu rombo em conta corrente, precisam garantir a entrada de US$ 3 bilhões a cada dia útil, recursos que lhes são fornecidos, outra vez, pelos emergentes.

Viradas assim não ficam só nisso. Conseqüências geopolíticas virão a galope. Falta saber quais serão.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

FMI elogia sistema financeiro do Brasil entre emergentes

Segundo relatório do Fundo, sistema brasileiro é diversificado, bem regulado e supervisionado

Nalu Fernandes, da Agência Estado

NOVA YORK - O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma em seu Relatório de Estabilidade Financeira Global (GFSR, na sigla em inglês), divulgado nesta segunda-feira, 24, que o sistema financeiro do Brasil é diversificado, bem regulado e supervisionado em comparação a outros emergentes.

Veja também:

link Crise das bolsas pode causar desaceleração global, diz FMI

Ao mesmo tempo, porém, o Fundo destaca os desafios que a entrada de fluxo de capital representa para o País. Os desafios às autoridades, enumera, englobam a avaliação de que apesar do crescimento do volume de exportações, a competitividade ainda pode ser afetada de forma adversa, o processo de esterilização (do excesso de liquidez no câmbio) com a venda de títulos do governo pode elevar a dívida nacional e há o risco de rápida reversão na entrada, se o apetite por risco mudar de forma acentuada.

Além da contínua forte entrada de investimento estrangeiro direto (IED), espera-se níveis recordes de entrada em portfólio, tanto em dívida quanto em ações, estima o relatório. O FMI calcula que a entrada de capital no País superou US$ 40 bilhões durante os quatro trimestres encerrados em março deste ano. Investidores estrangeiros compraram cerca de dois terços dos IPOs brasileiros em 2006, e esta tendência deve continuar.

"A entrada de capital de curto prazo aumentou à medida que a taxa de juro nominal de dois dígitos e fortes fundamentos econômicos fazem do Brasil um destino atrativo para as operações de carry trade", diz o FMI.

As regulações tanto para o câmbio quanto para conta de capital têm sido liberadas gradualmente desde a década de 1990. No entanto, este processo freqüentemente não tem sido seguido por alterações complementares na legislação como um todo, que permanece complexa e ambígua". Por exemplo, diz o Fundo, o governo ainda pode reintroduzir controles sobre o câmbio.

Mas, "comparado com outros emergentes, o sistema financeiro é diversificado e um dos maiores, com um mercado sofisticado de derivativos. É bem regulado e supervisionado e, graças à reestruturação, tem se tornado mais modernizado e eficiente", disse o FMI nos três primeiros capítulos do documento Perspectiva Econômica Mundial, cujo capítulo com as projeções econômicas será divulgado apenas no encontro Anual do Fundo, em outubro.

O setor financeiro, institucionalmente dominado por bancos, é concentrado, ressalva. Embora a atividade no mercado acionário doméstico tenha aumento, o Fundo afirma que diversas companhias de grande porte ainda preferem listar ações em Nova York.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Crescimento global pode ser revisto por crise, diz Rato do FMI

Reuters/Valor Online Diretor-gerente visita ONG em São Paulo

SÃO PAULO - O Fundo Monetário Internacional (FMI) poderá revisar para baixo sua projeção de 5% para o crescimento mundial em 2007, em função da crise recente nos mercados financeiros, admitiu nesta quarta-feira o diretor-gerente do órgão, Rodrigo de Rato, durante coletiva de imprensa realizada na capital paulista. - É possível (uma correção na previsão), mas não de uma maneira dramática. Pode ser ligeiramente (corrigida). Ainda assim será o sexto ano de crescimento seguido - afirmou Rato.

" O Brasil estaria em uma boa situação devido a ajustes macroeconômicos positivos "

- A crise financeira mundial poderá ter como resultado positivo a melhoria nos critérios de avaliação de risco das operações - acrescentou.

Como exemplo, o dirigente citou as operações de arbitragem de juros, pela qual os investidores tomam recursos a juros irrisórios em países desenvolvidos e os aplicam nas economias emergentes, onde as taxas são bem maiores.

Apesar do alerta, Rato admitiu que as inovações financeiras - como as operações de securitização de recebíveis - e a globalização dos mercados tiveram grande importância no crescimento mundial dos últimos anos.

O chefe do FMI participa esta noite da abertura do 3o Congresso Internacional de Derivativos e Mercado Financeiro em Campos do Jordão. Amanhã, segue para Brasília, onde vai se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, antes de ir para o Chile.

Rato diz que Brasil é exemplo

Na avaliação de Rato, a economia mundial mantém uma "boa marcha" e o Brasil é um bom exemplo disso. Segundo ele, em termos de crescimento o Brasil está em uma boa situação, o que demonstraria que os ajustes macroeconômicos feitos pelo país nos últimos anos foram positivos.

- Estabilidade macroeconômica não é supérflua em uma economia globalizada - disse ele.

Mais cedo, o segundo na hierarquia do FMI, John Lipsky, havia dito que os mercados emergentes estão lidando bem com esse desafio por ora, mas acrescentou que seria otimismo demais assumir que esse tumulto não terá influência.

- Seria tolo assumir que eles (mercados emergentes) estão imunes de algumas restrições sérias nos mercados desenvolvidos, mas a habilidade deles de lidar com essas restrições pode ser melhor do que no passado - comentou Lipsky.

Diretor-gerente aprova intervenções dos BCs

Rato considerou adequadas as ações tomadas pelos bancos centrais de diversos países para tentar solucionar os problemas nos mercados de crédito, provocados pela crise no setor imobiliário norte-americano.

- As ações dos bancos centrais foram adequadas e eficientes - afirmou o espanhol.

Para ele, os efeitos da atual crise serão distintos nos países e também deverão provocar uma nova avaliação dos riscos por partes dos agentes do mercado financeiro.

" FMI diz que é tolice assumir que os países emergentes estão imunes à crise "

Apesar da maior tranquilidade verificada nos últimos dois dias, Rato declarou que ainda é muito cedo para se tirar conclusões definitivas sobre a dimensão da crise e seus efeitos.

- Não será surpreendente um certo efeito sobre o crescimento (mundial) e sobre valorização de risco. Temos que ser conscientes de que os riscos aumentaram - afirmou Rato.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

IMF warns of risk to global growth

By Krishna Guha in Washington

Financial Times

Turmoil in the financial markets will affect growth worldwide, John Lipsky, the number two official at the International Monetary Fund, said on Tuesday.

In the first interview by a senior IMF official since the market turmoil intensified, Mr Lipsky, a former senior banker at JPMorgan, told the Financial Times: “This undoubtedly will dampen economic growth.”

He said that emerging markets had so far withstood the challenge well, but added: “It is far too optimistic to assume there will be no impact.”

Mr Lipsky, first deputy managing director, said that in addition to the possible spillover effects on trade of weaker growth in the US, other economies would be directly affected. “I would expect it to have some impact . . . in a globalised world,” he said. “A number of the financial institutions that have been affected most strikingly have not been US-based.”

Mr Lipsky said that it remained unclear how large the impact of the market turmoil would be. “Whether the dampening is substantial or moderate, whether it is temporary or more extended, remains to be seen.”

The world economy, he said, had entered this market turbulence in good shape, with strong growth momentum, a large part of which came from emerging market economies.

Mr Lipsky said that problems in emerging markets as a whole – as opposed to individual economies – had tended to follow instability in developed markets.

However, emerging markets were “almost universally” better equipped to deal with these strains. Their economic performance was strong, the structure of their financial systems had improved and their policies were better.

“It would be foolish to assume that they will be immune from some serious strains in developed markets,” he said. “But their ability to withstand these strains may be better than in the past.”

Mr Lipsky warned there would be no quick end to the turmoil because of uncertainty as to how much damage it would do to growth.

“This will create a feedback loop that means it will . . . take some time for markets to restore a normal amount of volatility.”

Mr Lipsky said that the market crisis had three main components: first, a repricing of credit risk; second, a testing of the newer parts of the asset-backed securities market – in particular collateralised debt obligations and collateralised loan obligations (derivatives backed by pools of credits) that have not yet been tested under strain; third, increased fear of counterparty risk, caused by inadequate transparency on the part of banks as to the extent of their true contingent liabilities.

“Lack of transparency can create doubts that translate into market volatility,” he said. “We are finding that in some cases regulated financial institutions are carrying off-balance-sheet risks that have indirect implications for those institutions.”

Mr Lipsky said this had caused uncertainty about what risks a counterparty institution might be bearing and, in turn, contributed to the drying up of liquidity in parts of the markets.

He said “lessons would be learned and actions taken” by ­global regulators.

However, while many market participants appeared to have lost ­confidence in their counterparties, Mr Lipsky said the risk transfer mechanism through bilateral derivative contracts seemed to be working so far. “There have been no counterparty failures,” he said. “There have been traditional failures by people who made a bad investment.”

If there were counterparty failures, he said “that would create greater strains in the market”.

The senior IMF official added that one big difference between the current episode and the financial crisis in 1998 was that, in 1998, the risk transfer mechanisms that came under strain had been designed to transfer interest-rate risk, whereas the mechanisms being tested now were designed to transfer credit risk.

Mr Lipsky said it was not the IMF’s job to judge whether credit rating agencies had done their job well. However, he added: “The basic issue is that, in the end, professional investors bear the ultimate responsibility for risk assessment and management in a securitised market. It is not realistic to expect third parties to take that responsibility.”

Russia has nominated Josef Tosovsky, a former Czech central banker, to head the IMF, board sources said on Tuesday, Reuters reports from Washington.

The Russian move pits Mr Tosovsky against Dominique Strauss-Kahn, the former French finance minister, who is the European Union’s choice.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

A quoi sert le FMI ?


par Jacques Attali

A voir la façon dont valsent, depuis quelques temps, les patrons d’institutions financières internationales, on peut se demander à quoi elles servent : après le départ de Paul Wolfowitz de la Banque mondiale, voilà celui de Rodrigo de Rato du FMI. Et comme chaque fois, les candidats sont innombrables à leurs successions.

Chacun sent bien qu’il faudrait avoir en ce monde des institutions financières internationales solides, capables de maitriser les risques financiers engendrés par les fonds spéculatifs, de financer les grandes infrastructures sociales et physiques des mégalopoles à venir, de maitriser les grandes pandémies, de réduire la pauvreté et d’organiser la réduction des émissions des gaz à effet de serre.

Qu’en est-il ? Un Fonds monétaire international vidé de toute utilité depuis que les pays du Sud, de l’Amérique Latine à L’Asie de l’Est en passant par la Russie, ont remboursé leurs dettes ; un Fonds ayant si peu de moyens, distribuant si peu de crédits , à des taux d’intérêt si bas, qu’il a du mal à boucler ses fins de mois et qu’il n’a même plus les moyens de produire des statistiques fiables, au point que plus personne n’écoute ses conseils discrédités . Une Banque Mondiale ne disposant même pas du centième des ressources qui seraient nécessaires pour affronter les défis dont elle a la charge et qui vient même de reconnaitre qu’elle a échoué dans la réalisation de son objectif principal, la réduction de la pauvreté.

Des institutions au total l’une et l’autre si peu représentatives que les pays d’Amérique Latine commencent à les quitter : Le Venezuela d’abord, puis la Bolivie et le Nicaragua, alors que l’Equateur est allé jusqu’à expulser le représentant de la Banque Mondiale et que six pays sud-américains jettent actuellement les bases d’une banque du Sud, avec une doctrine radicalement différente.

Jamais le monde n’a réussi à réformer ses institutions internationales sans passer par une grave crise. Il est donc difficile d’imaginer que le monde puisse faire, cette fois encore, l’économie d’une catastrophe ; et qu’il puisse sans secousse majeure donner aux pays du Sud les droits de vote qu’ils méritent, se débarrasser de la tutelle paralysante d’un conseil d’administration installé à plein temps , mobiliser, par une vraie fiscalité mondiale, les ressources nécessaires pour s’attaquer aux problèmes à venir et enfin se doter d’une idéologie qui ne se réduise pas à servir les intérêts

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Le départ de Dominique Strauss-Kahn bouleverse le jeu au sein du PS

Le Monde

Confronté à l'ouverture de Nicolas Sarkozy, le PS a opéré un tri sélectif. Il y a désormais une jurisprudence "DSK" et une autre, différente, pour Jack Lang. A une large majorité, les socialistes réunis en bureau national, mardi 10 juillet, ont approuvé l'idée que Dominique Strauss-Kahn puisse diriger le Fonds monétaire international (FMI), avec le soutien du président de la République.

Dominique Strauss-Kahn

"C'est un choix qui dépasse la France", notait à l'issue de la réunion Stéphane Le Foll, directeur de cabinet de François Hollande. Seules trois voix discordantes, Henri Emmanuelli, Jean-Luc Mélenchon et Julien Dray, se sont fait entendre dans des registres différents. "Notre place n'est pas au FMI", a ainsi protesté M. Dray. "Sarkozy, a-t-il ajouté évoquant l'attrait du pouvoir, table sur nos faiblesses et nos moeurs."

Pour le porte-parole du PS, subrepticement remplacé à ce poste depuis la fin de la présidentielle par François Hollande qui a promu le député européen Benoît Hamon, "il ne peut pas y avoir une vérité pour les uns et une vérité pour les autres". Car dans la foulée, à l'unanimité cette fois, les socialistes ont décidé que toute "personnalité" du PS qui accepterait de faire partie d'une commission mise en place par le gouvernement le ferait "à titre personnel" et serait suspendue des instances de direction du parti et du groupe à l'Assemblée, le temps de leur mission.

Jack Lang, pressenti pour faire partie d'une commission sur la réforme des institutions, est directement visé. Absent du bureau national, l'ancien ministre n'a trouvé aucun avocat pour plaider sa cause. Pour le PS son "cas" est symbolique puisqu'il serait le premier, parmi les élus, à céder à l'attrait de l'ouverture - ce que n'étaient pas les six personnalités de gauche entrées au gouvernement... Toutefois, pour échapper aux accusations de sectarisme, les socialistes ont érigé des "règles républicaines" : c'est au parti qu'il reviendra de désigner des responsables lorsque le chef de l'Etat et le gouvernement souhaiteront consulter pour réformer.

Chargé par M. Sarkozy de rédiger un rapport sur la mondialisation, Hubert Védrine n'est pas concerné, n'étant pas élu lui-même ou membre de la direction du PS. Mais l'ancien ministre des affaires étrangères de Lionel Jospin conteste ces règles. "J'ai accepté le rapport avec plaisir et je trouve ça normal, dit-il au Monde. Cela serait extravagant que je sois consulté par des personnes comme Kofi Annan (ex-secrétaire général des Nations unies) et pas par le président français." D'ailleurs, fait-il remarquer, "j'avais accepté au mois de février une mission pour Jacques Chirac sur un sommet de l'environnement et la gauche n'avait alors trouvé rien à redire". Pour M. Védrine, c'est en tout cas "bien la moindre des choses que Nicolas Sarkozy soutienne Dominique Strauss-Kahn" pour le FMI.

Jean-Christophe Cambadélis

Quoique prévenus sur le tard par leur propre mentor, les partisans de "DSK" se sont eux aussi employés à faire la part des choses. Selon eux, sa candidature pour le FMI aurait pris forme alors que l'ancien ministre de l'économie nouait des contacts internationaux pour créer une fondation sur la mondialisation. Au "hasard" de ses contacts, le premier ministre luxembourgeois Jean-Claude Juncker lui aurait ainsi soufflé l'idée du fauteuil tout juste laissé vacant à la direction du FMI. "Dominique est désigné par les gouvernements d'Europe", souligne Jean-Christophe Cambadélis. "C'est un phénomène important pour une famille politique d'avoir l'un des siens à ce poste, soutient de son côté Pierre Moscovici. C'est une autre façon de faire de la politique qui a son audience."

Une autre façon ? L'éloignement de Dominique Strauss-Kahn pose inévitablement la question de son avenir de présidentiable et celle de la survie de son courant au sein du PS. Pour ses partisans, il n'est pas question de fermer boutique. Un "collectif", piloté par Jean-Christophe Cambadélis, devrait se mettre en place et un porte-parole, Jean-Jacques Urvoas, élu le 17 juin député du Finistère, serait même désigné. Les strauss-kahniens préparent un "Manifeste" pour la rénovation du PS qu'ils rendront public, selon M. Cambadélis, en septembre. "De toute façon, Dominique avait tiré les conclusions qu'il fallait qu'il s'y prenne d'une façon différente et qu'il sorte de ce cloaque", réagit le député de Paris, Jean-Marie Le Guen.

De retour mercredi 11 juillet du Maroc où il séjournait depuis quelques jours, "DSK" a prévu de consacrer sa journée à ses partisans. A 13 heures, il devait s'adresser aux députés qui lui sont proches puis, deux heures plus tard, à tout son courant réuni à l'Assemblée nationale pour les encourager à "continuer". La veille au soir, à l'issue du bureau national, François Hollande a longuement retenu Jean-Christophe Cambadélis. "Pour faire un tour d'horizon."

Isabelle Mandraud