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domingo, 3 de fevereiro de 2008

FMI dá aval a aumento do gasto público para combater a recessão e nos EUA, ‘heterodoxia’ do Fed põe de lado guerra à inflação

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Dominique Strauss-Khann, Diretor-geral do FMI

Interessante estes artigos do Estadão.

Como se sabe o jornal não gosta ouvir falar em gasto público, por isso os artigos são um longo porém. Isto não anula a constatação evidente: o déficit fiscal dos EUA é gigante e mesmo assim o FED abaixa os juros e fecha os olhos para um eventual repique da inflação. Para o FMI esse é o caminho, a contra-mão do que sempre apregoaram para os nossos países.

É que em ambas situações se trata de ajudar os mesmos, os que dominam a economia mundial: os EUA. Neste caso, até agora, o esforço tem sido insuficiente. Agir para evitar a recessão nos Estados-Unidos é bom para todos, mas é bom não esquecer que alguém vai financiar o déficit e o endividamento norte-americano. O resto do mundo será quém arcará com o ônus. LF

Declaração de diretor-gerente da instituição provoca novo debate entre ‘desenvolvimentistas’ e ‘monetaristas’

Lu Aiko Otta

O risco de recessão nos Estados Unidos e a decorrente ameaça de desaceleração econômica em outros países levaram o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, a defender que países em boa situação fiscal passem a gastar mais, dando um impulso extra à economia, além do corte nos juros.

É uma recomendação impensável dez anos atrás, quando o mundo foi sacudido por uma sucessão de crises nos países emergentes. Naquela época, cortar gastos, arrecadar mais e acumular superávit nas contas públicas passou a ser sinônimo de boa política econômica.

Para Marcio Pochmann, alinhado aos “desenvolvimentistas” do governo, a declaração do número 1 do FMI reflete o esgotamento das políticas de austeridade fiscal identificadas com o chamado Consenso de Washington. Para ele, a crise internacional coloca o País diante de duas opções: pisar no freio, elevando os juros e cortando gastos, ou no acelerador.

Para o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, a recomendação de Strauss-Kahn se aplica aos Estados Unidos, onde a economia está desacelerando. Não é o caso do Brasil, onde o crescimento do consumo preocupa a ponto de o governo haver adotado, na última quinta-feira, um conjunto de medidas para estimular a poupança e conter o crédito. “Os Estados Unidos estão entrando em anemia, enquanto nós estamos com problema de obesidade”, comparou. “O tratamento não pode ser o mesmo.”

“Seria contraproducente para o Brasil aumentar os gastos públicos”, comentou o professor Roberto Iglesias, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, principal celeiro de economistas do governo Fernando Henrique Cardoso. Na avaliação dele, a recomendação de Strauss-Kahn se dirige a países que têm situação fiscal que permita a ampliação de gastos, o que não é o caso do Brasil. “Temos um problema de estoque, pois nossa dívida ainda é alta, e também um problema de fluxo, porque ainda temos déficit nominal.”

A dívida líquida do setor público brasileiro atingiu R$ 1,150 trilhão ou 42,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007, segundo o Banco Central. “Embora esteja em queda, a dívida ainda está entre as maiores do mundo desenvolvido”, afirmou Mailson. A dívida bruta (que considera também os empréstimos do governo ao exportador, aos agricultores e outros), informou ele, está na casa dos 60% do PIB. Em países considerados grau de investimento, a média é de 30%.

Além de elevada, a dívida segue sendo alimentada pelo desempenho das contas públicas. A arrecadação não é suficiente para fazer frente às despesas do setor público quando se consideram os gastos com juros, o que gera o déficit nominal a que se referiu Iglesias. No ano passado, o déficit nominal foi de R$ 57,926 bilhões, ou 2,27% do PIB.

Por causa da dívida e do déficit nominal, o Brasil não se enquadraria entre os que têm condições de aumentar o gasto público. “Também temos um desequilíbrio na Previdência, e, se forem elevadas as outras despesas, vamos piorar a situação fiscal”, alertou Iglesias.

Elevar os gastos talvez não seja boa idéia nem para os Estados Unidos, segundo o gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco.

“Pode ser uma solução simplista, que mascara problemas estruturais mais graves da economia.” Ele concorda que a orientação do FMI não vale para o Brasil, até porque o País já tem uma política fiscal expansionista.

Poucos países em dificuldade teriam condições de ampliar fortemente seus gastos, avaliou o economista Fernando Fix, da Votorantim Asset Management. “A Europa tem restrições nessa área, pois a França, a Itália e a Grécia apresentam déficits fiscais altos.” Para Fix, a recomendação do FMI não significa o abandono dos princípios defendidos pela instituição no passado recente. “Há ressalvas importantes”, comentou. A primeira é que a flexibilização da política fiscal seja avaliada de país para país. A segunda é que os governos que a adotarem o façam por período curto. “Do contrário, podemos ter um problema mais adiante”, disse. Ele observa que o corte nos juros promovido para reerguer a economia após a crise da Nasdaq, em 2001, está na base da bolha imobiliária que acaba de estourar.

Nos EUA, ‘heterodoxia’ do Fed põe de lado guerra à inflação

Receita para combater crise combina juro baixo com gasto público elevado

Fabio Graner

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.” A máxima parece se aplicar aos Estados Unidos de hoje. Ao se depararem com a possibilidade de uma recessão econômica, eles estão deixando de lado totalmente o receituário ortodoxo e partindo para uma política econômica que os desenvolvimentistas brasileiros há anos sonham em implementar: combinação de juros extremamente baixos com uma política de elevação de gastos públicos.

Diante do temor de retração econômica, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) abandonou a preocupação com a inflação, que em 2007 atingiu o maior nível em 17 anos, e derrubou os juros. O anúncio ocorreu alguns dias depois de o governo Bush divulgar um pacote de estímulo fiscal de US$ 150 bilhões, até com devolução de dinheiro para os cidadãos.

A receita adotada contraria o que os EUA pregaram como o caminho para o nirvana econômico para os países em desenvolvimento nas últimas três décadas. Por meio de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird), eles sempre defenderam que os países deveriam adotar políticas de rigor fiscal e não descuidar da inflação.

Para os brasileiros, isso é fácil de lembrar: em 1999, um acordo com o FMI levou o Brasil a adotar metas elevadas de superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) e a implementar o regime de metas de inflação, com uma trajetória rápida de declínio nos índices de preços.

A “heterodoxia” americana não passou despercebida de integrantes da equipe econômica brasileira, que, internamente, comentaram a “contradição” entre discurso e prática das autoridades daquele país.

Também fora do governo essa dicotomia foi percebida.

“A posição dos EUA é exatamente de faça o que eu digo, mas não o que eu faço. O governo americano, tanto pelo lado fiscal como pelo lado monetário, está enfrentando essa crise como se ela fosse causada por um problema localizado, e não por desequilíbrios estruturais que há anos existem por lá”, diz o ex-diretor do Banco Central Carlos Eduardo de Freitas, fazendo referência ao déficit fiscal e, especialmente, ao saldo negativo nas contas externas do país, de 6% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para Freitas, as medidas adotadas vão na direção de aprofundar os desequilíbrios e tornar a economia americana mais frágil no longo prazo. “Os Estados Unidos deveriam promover uma diminuição no consumo interno e exportar mais, para diminuir esse desequilíbrio”, afirmou. “Mas uma política de pagar dívida e juros tem um custo elevado. O Brasil fez um ajuste de 6% do PIB em 1982 e o governo militar se desintegrou. Se estou correto em minha avaliação, a política atual dos EUA é populista”, avalia.

CONFIANÇA NO FED

O economista-chefe do Modal Asset Management, Alexandre Póvoa, avalia como razoável a política econômica adotada nos EUA, porque a considera temporária. “Se a política fiscal fosse gerar um déficit de longo prazo, seria ruim. No caso da política monetária, o objetivo é manter ao longo do tempo o equilíbrio entre inflação e atividade econômica. Como algo temporário é válido. Faz parte do arcabouço”, afirma.

Póvoa considera que, diferentemente do Brasil e outros emergentes, os EUA têm mais liberdade para utilizar essa combinação de política econômica por causa da grande confiança que se tem no Fed. “O Brasil ainda está construindo essa confiança e, por isso, tem um grau de liberdade menor.”

Carlos Thadeu de Freitas, também ex-diretor do BC, afirmou que o chamado balanço de riscos nos Estados Unidos hoje está mais para recessão do que para inflação e, por isso, o Fed está agindo de forma mais agressiva. “Uma recessão mais profunda criaria mais problemas. Se houver necessidade, o juro pode subir depois”, diz. “Quando há assimetria de riscos, é preciso afastar o receituário. O Fed pode ser mais arrojado, pois tem mais credibilidade.” Sobre a política fiscal, o economista avalia que, se ela for implementada no tempo correto, poderá ajudar a retirar os EUA da recessão. “Se ela produzir efeito no tempo errado, quando já estiverem saindo da recessão, pode causar problemas, pois levará a uma alta na inflação”, diz. Por essa razão, avalia, o Fed deverá ser “homeopático” na gestão da taxa de juros a partir de agora.

O Brasil é o melhor dos Brics

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Em meio à crise dos EUA, pai da sigla destaca confiança de investidores no país

O GLOBO ENTREVISTA
Jim O’Neill

O economista britânico Jim O’Neill ficou famoso por ser o criador da célebre expressão Brics — sigla que resume o crescente poder dos grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China. Chefe de Pesquisas Econômicas Globais do Goldman Sachs, O’Neill está relativamente otimista com a crise nos Estados Unidos e acredita que, para surpresa dos mercados, a economia americana poderá evitar a recessão. Ele é ainda mais otimista em relação ao Brasil. Apesar de reconhecer que o país poderá ser afetado pelo desaquecimento global no seu comércio exterior, já que é grande exportador de commodities, O’Neill garante que, em meio à crise dos EUA, o Brasil é o melhor dos Brics para investir. Em entrevista por telefone ao GLOBO, de seu escritório em Londres, ele alerta que a vitória de um candidato democrata nas eleições americanas pode aumentar o protecionismo comercial nos Estados Unidos, principalmente se o eleito para a Casa Branca for o senador Barack Obama. E critica a rigidez de fóruns multilaterais como FMI e G-7 por não incorporarem os grandes emergentes: “Os Brics respondem por 15% do PIB mundial”.

Luciana Rodrigues

O GLOBO: O senhor acredita que os EUA já estão em recessão ou estão em vias de entrar numa recessão?

JIM O’NEILL: Estão perto. Mas há alguns aspectos mais complexos desta crise que precisam ser levados em conta. O comportamento dos mercados desde o outono (no Hemisfério Norte, primavera no Brasil) mostra que muitos analistas estão presumindo que os Estados Unidos já estão em recessão ou que inevitavelmente viverão uma recessão.

Uma das possíveis surpresas porém é que talvez a economia americana não entre em recessão. Houve cortes de juros pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano).
Na última semana, o presidente (George W. Bush) apresentou um pacote de grande estímulo fiscal.

Sem isso, o risco de uma recessão seria muito grande. Mas o Fed e o governo perceberam os sinais de recessão e responderam de forma bastante agressiva. Com o Fed cortando os juros duas vezes nas últimas semanas e as medidas fiscais, tivemos um dos maiores pacotes de estímulos econômicos na História moderna americana.

Então os Brics não devem sofrer grande impacto?

O’NEILL: Mesmo que evitem uma recessão, os Estados Unidos entrarão num período de crescimento muito fraco. No que diz respeito aos Brics, nos últimos dois anos, em que a economia americana perdeu vigor, eu acredito que os Brics lidaram com isso razoavelmente bem. Nas últimas semanas, porém, há sinais de que a China está sendo bem sucedida em reduzir seu ciclo econômico.
Então, a China provavelmente vai sair de 11,5% (taxa de crescimento registrada no ano passado), para algo abaixo de 10%.
Talvez até para 8% (em termos anuais) no primeiro semestre deste ano. Isso acontecendo, no mesmo período em que os EUA também estarão crescendo pouco, tornará o chamado decoupling (“descolamento”) mais difícil. Muito do crescimento global nos últimos anos tem sido dominado pelos Estados Unidos e, principalmente, pela China.

Esse desaquecimento da China já é reflexo da crise nos EUA?

O’NEILL: Sim, mas apenas parcialmente.
Na China, cerca de 7,5% do PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de todos os bens e serviços p roduzidos no país) são exportações para os Estados Unidos. Há evidências, sobretudo no último mês, que as exportações para os Estados Unidos caíram dramaticamente.
Então, parte do desaquecimento chinês é efeito da crise americana. Mas há também a preocupação da China com a inflação. As autoridades chinesas começaram a restringir o crédito de forma agressiva. Assim, pelo lado doméstico, está havendo um arrefecimento, particularmente no que diz respeito aos investimentos e ao boom que houve no mercado imobiliário em certas partes da China.

Com o desaquecimento simultâneo de Estados Unidos e China, qual será o efeito sobre os outros países dos Brics? Qual deles pode sofrer mais e quem está mais blindado?

O’NEILL: Há diferenças entre os Brics. O crescimento da Índia tem sido puxado pela demanda doméstica e por um consumo interno muito forte. Então, de alguma forma, será mais fácil para a Índia se isolar. Enquanto isso, o Brasil e, evidentemente, a Rússia são grandes exportadores de commodities. Assim, por esse ângulo, será mais difícil para esses países.
Mas as semelhanças entre Brasil e Rússia param por aí. Em muitos aspectos, o Brasil é o melhor dos Brics para se estar neste momento. No ano passado, quando estive em São Paulo, muitos me perguntavam por que havia incluído o “B” nos Brics, argumentando que o Brasil não deveria estar no grupo. Agora, a minha impressão é que a estabilidade da inflação está trazendo muita confiança. Vemos o início da construção de uma forte sociedade de consumo, há mais confiança em relação aos investimentos. Mesmo que um desaquecimento na China e uma recessão nos Estados Unidos sejam um desafio para o Brasil em termos de comércio exterior, eu acredito que a economia brasileira está numa posição muito mais forte do que estava há apenas dois anos.

O Brasil, tradicionalmente, cresce num ritmo muito mais lento do que os demais dos Brics. Mesmo assim, o senhor acredita que o Brasil é o melhor do grupo?

O’NEILL: O Brasil está prestes a ver sua tendência de crescimento sair dos 3% para algo entre 4% e 6%, graças à estabilidade da inflação e a um aumento da confiança no Brasil.
Recebo muitas visitas de São Paulo aqui em Londres. Esta semana mesmo veio um grupo. E hoje há uma visão muito mais positiva do que apenas dois anos atrás. É completamente diferente.

Essa confiança não pode ser abalada por um ambiente global desfavorável?

O’NEILL: Não, porque esta confiança está sendo impulsionada pelo cenário doméstico. A demanda interna está acelerando. O Brasil está numa posição cada vez mais confortável para lidar com ameaças externas.

A corrida eleitoral nos Estados Unidos poderá influenciar o comportamento dos mercados?

O’NEILL: As eleições ainda estão tão distantes que não vão influenciar os mercados. Mas as turbulências econômicas podem levar a mais viradas de opinião nos candidatos do que ocorreria em outras situações. E, no ano que vem, se a economia americana ainda estiver fraca e se os democratas vencerem, especialmente se for Obama (o senador Barack Obama), há um risco de haver mais protecionismo e mais aversão à globalização. Isso será muito ruim para todos os Brics, pois o que permitiu o desenvolvimento dos Brics foi a globalização. É um risco, mas para depois das eleições.

Esse risco é particularmente mais forte com Obama?

O’NEILL: O risco é maior com os democratas do que com os republicanos. Obama tem adotado o discurso mais protecionista.
Porém, suspeito que muito do que o candidato fala tem sentido mais eleitoreiro e, se Obama ganhar, ele deverá adotar posturas mais razoáveis.

O governo brasileiro tem argumentado que as recentes turbulências nos mercados mundiais reforçam a necessidade de abertura comercial.
Há espaço, neste momento, para avançar nas negociações comerciais?

O’NEILL: Será difícil ganhar a atenção dos Estados Unidos que, neste momento, se dedicam exclusivamente a seus problemas domésticos.
A Rodada de Doha (de abertura multilateral, no âmbito da Organização Mundial do Comércio, a OMC) é evidentemente importante. Mas agora isso não está no radar do G-7, que está mais preocupado com a crise global de crédito.

O Brasil também tem pedido mais voz aos países emergentes em fóruns multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). É um pleito justo?

O’NEILL: Sim, concordo plenamente.
É ridículo que o G-7 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo) e o FMI não tenham mudado ainda. O Brasil está certo, merece fazer parte disso. Eu diria também que o G-20 (grupo formado por grandes países emergentes) está, de várias formas, tomando parte da importância que o G-7 tinha no passado. É muito decepcionante que uma burocracia herdada do passado torne a mudança tão lenta. Se olharmos para o mundo hoje, os Brics respondem por 15% do PIB mundial.É metade do tamanho dos Estados Unidos. A China está prestes a ultrapassar a Alemanha (em tamanho do PIB). É incrivelmente idiota que os Brics não sejam parte disso (dos fóruns multilaterais). Está muito claro para mim que os Brics, incluindo o Brasil, deveriam ser trazidos para o centro das decisões mundiais.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Editorial do Le Monde: verdade e transparência para enfrentar ã crise


L'économiste américain John Kenneth Galbraith, qui a étudié les krachs dans leurs moindres détails, écrivait : "Ce que nous savons avec certitude, c'est que les épisodes spéculatifs ne se terminent jamais en douceur. Il est sage de prédire le pire, même s'il est, selon la plupart des gens, peu probable." La crise des subprimes confirme son jugement. C'est d'abord avec une grande brutalité - inconnue depuis le 11 septembre 2001 - que les places boursières décrochent depuis plusieurs jours.


Le pire, ensuite, semble se rapprocher à toute vitesse. On ne voit pas très bien par quel miracle la première économie du monde, celle des Etats-Unis, pourrait échapper à la récession. Le système bancaire mondial, de son côté, vacille. Quelques-uns des plus grands établissements américains et européens se retrouvent dans une situation tellement critique qu'ils doivent faire appel en catastrophe à des capitaux d'Asie et du Moyen-Orient pour se renflouer.

Le choc est d'autant plus rude que les dirigeants économiques et monétaires occidentaux ont longtemps expliqué que le pire était "peu probable". La Réserve fédérale américaine estimait que la facture des subprimes ne dépasserait guère la centaine de milliards de dollars. Elle s'élève désormais à plusieurs milliers de milliards de dollars. Comme ses collègues, la ministre française de l'économie, Christine Lagarde, a longtemps affirmé que l'économie réelle ne serait pas touchée par cette crise purement financière. Propos qui se voulaient rassurants, mais dont le caractère lénifiant n'a fait que retarder la prise de conscience, chez les acteurs économiques, de la gravité de la situation.

Dans une économie financiarisée et mondialisée, comment pouvait-on imaginer que la catastrophe resterait cantonnée aux Etats-Unis et aurait un impact marginal sur la croissance de la planète ? Que le nuage du Tchernobyl des subprimes ne traverserait pas l'Atlantique ? Des petites villes norvégiennes au bord de la faillite en raison de leurs placements imprudents jusqu'aux banques de la Chine communiste, tout le monde est aujourd'hui touché.

Mais la crise n'est plus, depuis longtemps, celle des subprimes. Elle est celle, globale, du crédit, du financement de l'économie dans son ensemble. Ce qui la rend à la fois très inquiétante - beaucoup plus que le krach des valeurs Internet - et particulièrement difficile à surmonter. Car, beaucoup, ici, est affaire de psychologie. Le système financier mondial est passé, en quelques mois, d'un excès de confiance à un excès de défiance. Hier, on prêtait de l'argent à n'importe qui à n'importe quel prix. Aujourd'hui, on ne prête plus d'argent à personne. Pour retrouver un équilibre, le devoir de vérité et de transparence s'impose à tous, aux banquiers comme aux responsables économiques et monétaires.

sábado, 10 de novembro de 2007

FMI faz alerta para riscos na área de crédito

FERNANDO CANZIAN
TONI SCIARRETTA
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA DE SÃO PAULO

O diretor para o Hemisfério Ocidental do FMI (Fundo Monetário Internacional), o indiano Anoop Singh, afirmou ontem que Brasil e região devem se preocupar com aumentos indiscriminados na concessão de crédito, pois isso traria riscos ao sistema financeiro.
"O crescimento rápido do crédito merece acompanhamento de perto das autoridades. Na América Latina, o crédito tende a aumentar rapidamente, elevando os riscos envolvidos", disse Singh.
"Os BCs devem acompanhar com cuidado para ter certeza de que os bancos não estão diminuindo seus padrões de análise de concessão de crédito", completou. Singh participou, em São Paulo, do lançamento de relatório do FMI sobre os países americanos e da região do Caribe em seminário na Fundação Getúlio Vargas.
Nos últimos cinco anos, o volume de concessão de crédito como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) no Brasil aumentou de 21% para 33%, com dezenas de novas modalidades no mercado e estratégias agressivas dos bancos para atrair clientes.
No mesmo evento, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou que o volume de crédito total na economia brasileira ainda "permanece bem aquém das de outras regiões, inclusive de emergentes. E evidencia espaço para expansão", disse.
"A relação de crédito total sobre o produto expandiu, mas é muito inferior a de países como Malásia, Tailândia, e Coréia [do Sul]", afirmou Meirelles. "Crescente parcela da população está tendo acesso ao crédito. Mas ainda estamos em um patamar substancialmente inferior àqueles países que já estão enfrentando um limite, como é o caso dos EUA."

Outros riscos
Além do eventual risco com a concessão de créditos, o relatório do FMI assinala que Brasil e região podem sofrer impactos negativos de uma desaceleração maior da economia norte-americana e da queda nos preços das commodities (grãos, minérios, etc.).
Em resposta a essas considerações, o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, disse que o Brasil estaria preparado, com saldo comercial e reservas, até para uma eventual "recessão típica" nos EUA, que poderia durar entre 12 a 18 meses.
Sobre as commodities, Barbosa afirmou que haveria uma queda nas exportações e nos ganhos comerciais, mas que o país seria beneficiado, por outro lado, por pressões menores sobre a inflação.
Barbosa manteve a previsão da Fazenda de crescimento de 4,7% neste ano e de 5% em 2008 (o FMI prevê 4,4% e 4%, respectivamente).
"Crescer 5% no ano que vem é um desafio que temos. E existem condições para isso", disse Barbosa. Segundo ele, o governo espera um crescimento de 6,5% na demanda doméstica em 2008. Para chegar aos 5% de crescimento seria descontado 1,5 ponto percentual relativo à demanda que será atendida pelas importações.
Apesar dos alertas, Singh fez vários elogios ao Brasil. Disse que o país "é líder" de uma "nova era" na América Latina, que inclui "estabilidade macroeconômica e inflação baixa".
O funcionário do Fundo afirmou ainda que, apesar de crescentes, os gastos públicos no Brasil "estão melhor contidos" do que em outros países. "O superávit fiscal [economia para pagar juros] também é mais robusto que em outros países."

Gastos sociais
Barbosa, da Fazenda, defendeu a política de aumento dos gastos públicos direcionados a programas sociais e à Previdência. Segundo ele, essas despesas já equivalem a 42% do PIB. "O governo sabe que precisa manter o controle do gasto. Mas, no caso dos gastos sociais, o que houve foi uma redistribuição da renda do setor privado" [em direção aos mais pobres].
Já sobre a demora em os resultados macroeconômicos serem revertidos em queda da desigualdade social, Singh afirmou: "A história nos deu a lição de que leva tempo para mudar esse quadro. Mas há evidências de que o país entrou em uma nova fase, e que essa tendência [de redução das desigualdades] deve se autoalimentar".

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Consumo das famílias cresceu 5,9% no semestre

O aumento da massa salarial real e a facilidade na obtenção de crédito reforçaram o poder de compra

Andrea Vialli, Jacqueline Farid e Adriana Chiarini

O Estado de São Paulo

Um dos motores do aumento do PIB no segundo trimestre, o consumo das famílias cresceu 5,7% em comparação com o segundo trimestre do ano passado e alcançou a cifra de R$ 379,575 bilhões, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE. No primeiro semestre, o crescimento no consumo chega a 5,9%, impulsionado pelo aumento da massa salarial real no período e a facilidade de obtenção de crédito para pessoas físicas.

No que depender da professora Maria Tereza Rodrigues Santos, o consumo das famílias vai continuar crescendo até o fim do ano. No final da tarde de ontem, ela fazia compras com o marido em uma loja de móveis e eletroeletrônicos na região Norte da capital paulista.

“Depois de 25 anos de casada, resolvi trocar os eletrodomésticos antigos”, conta a professora, que comprou máquina de lavar roupas, fogão, geladeira, exaustor para cozinha e um colchão de casal. Tudo parcelado no cartão de crédito. “Estou aproveitando este momento de crédito farto. Se não fossem as facilidades, não teria como pagar à vista”, afirma. Com uma renda familiar mensal de R$ 7 mil, a professora vê com bons olhos o aumento do consumo no Brasil. “Acho importante que as pessoas de menor poder aquisitivo possam consumir mais, e as facilidades do crédito contribuem para isso.”

O analista de sistemas Edson Silva, que pesquisava preços de móveis com a mulher, Sabrina Serruya, tem opinião diferente. “O brasileiro está se endividando. Muitas pessoas já comprometeram 80% da renda com financiamentos e isso não é um bom sinal”, diz. “Esse aumento no consumo vai trazer consequências sérias para o País, como superprodução, risco de inflação e problemas de infra-estrutura”, analisa. Silva se diz comedido nos gastos, poupa 20% do salário e prefere pagar suas compras à vista. “Ando na contramão”, diz.

Mas o casal ainda deve contribuir para elevar o PIB até o fim do ano. Recém-casados, estão mobiliando a casa e devem comprar móveis e utensílios domésticos nos próximos meses. E planejam para 2008 a troca dos dois carros que estão na garagem por modelos mais novos.

No entanto, há quem prefira evitar a farra do consumo. A bancária Sueli Mendonça vai evitar grandes gastos até o ano que vem, quando pretende adquirir uma televisão de LCD, “atual sonho de consumo”. Com uma renda média mensal de R$ 1,5 mil, Sueli ainda está quitando prestações do carro - comprado no ano passado e financiado em 24 vezes - e de uma viagem à Cuba. “Até o final do ano, vou evitar gastos maiores e manter só as despesas do dia-a-dia, como roupas e alimentos.”

MUDANÇA

A coordenadora de contas trimestrais do IBGE, Rebeca Palis, afirma que os bons resultados do consumo das famílias ilustram uma “mudança de composição” que está ocorrendo no crescimento da economia desde o início de 2006, com o mercado interno tomando o lugar das exportações como principal motor da economia.

Segundo Rebeca, o consumo foi influenciado pelo aumento de 5,2% na massa salarial real no segundo trimestre deste ano ante igual período do ano passado e pela expansão, nesse período, de 26,5% no saldo de operações de crédito do sistema financeiro para pessoas físicas. Segundo ela, a queda na taxa Selic também influencia o consumo interno.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Finalmente crescimento com distribuição da renda ?

por Jorge Mattoso*

Mesmo que ainda não possamos saber com precisão a profundidade da crise norte-americana e seus efeitos na economia mundial, sabemos que seu impacto no Brasil será menor que em outras crises do passado.

Para que isso ocorresse, foram indispensáveis as novas política externa, de comércio exterior e de ampliação das reservas internacionais brasileiras. Assim, pudemos reduzir sobremaneira nossa dependência e vulnerabilidade. Nos anos 90 éramos muito mais dependentes dos negócios com os EUA (25% das exportações para aquele país em 2002, contra 14,6% em julho de 2007). Enquanto o câmbio era fixo (até 1999) e o país tinha baixas reservas, também o comércio exterior era enfraquecido e ou deficitário, e a economia apresentava grande vulnerabilidade e quase nenhuma capacidade de resposta aos acontecimentos externos. Isto, dada a desmotivação do setor público e sua baixa capacidade de planejamento e de articulação de quaisquer objetivos nacionais. Nos anos 90, frente a qualquer sobressalto financeiro nas economias centrais o país levava um susto e um tombo sem tamanho.

O Brasil de hoje encontra-se em outro patamar: reservas internacionais de porte, menor vulnerabilidade externa, menor dependência da economia norte-americana, maior participação de países emergentes no crescente comércio exterior e crescimento econômico efetivo e potencial mais elevado

Mas não se trata exclusivamente de uma melhora do setor externo. Pelo contrário, observamos também a extraordinária expansão do mercado interno, do crédito (que alcança a maior proporção vis-avis o PIB dos últimos 12 anos e segue ascendente), a elevação dos investimentos há 14 trimestres seguidos e taxas de juros cadentes. A isso temos que somar uma muito bem-vinda melhora na distribuição da renda nacional, graças à baixa inflação, aos programas sociais e - não menos importante - à elevação do salário mínimo real.

O próprio mercado internacional reconhece que estamos em condições novas e promissoras. O Brasil se encontra às vésperas de receber o “grau de investimento”, anunciado todos os dias, mas já prenunciado pelo crescimento do Investimento Direto Externo (cerca de 84% em 2007).

Não sem razão, vários economistas estimam que o país tenha condições de crescer em torno de 5% neste ano. Os números do IBGE para o segundo trimestre mostra que todos os setores expandiram a produção, com destaque para a indústria (6,8%) e o investimento sofreu uma alta de 13,8%. Isto significa que podemos ter deixado para trás a estagnação e o baixo crescimento.

Em 2007, pela primeira vez desde 1996, o Brasil deverá crescer acima da média mundial e – não menos importante – o dobro da média nacional dos últimos 15 anos. Tudo indica que voltamos a crescer de maneira sustentada, superando os períodos recentes e governos anteriores. O período 2003-2007 deverá apresentar crescimento médio superior a 3,7% contra, por exemplo, uma média de 2,3 no período 1995-2002.

Mas mais significativo será o rompimento de uma tendência histórica. O Brasil ao longo de muitos anos cresceu bastante, mas agravando a concentração da renda. Depois estagnou, obviamente sem desconcentrar a renda. Agora caminhamos pela primeira vez em muitas décadas em direção a um crescimento sustentado com distribuição de renda.

A consolidação desse processo e sua extensão aos próximos anos requerem – internamente - a continuidade da queda dos juros, a consolidação do PAC, a expansão do crédito, dos investimentos públicos e privados (sobretudo em infra-estrutura) e do processo de distribuição da renda e redução da pobreza. E externamente, que a economia mundial possa continuar sua expansão, mesmo que a taxas menores devido à crise norte-americana.

*Jorge Mattoso, professor do Instituto de Economia da UNICAMP. Foi Secretário de Relações Internacionais da Prefeitura de SP na gestão Marta Suplicy (2001-2002) e presidente da Caixa Economica federal (2003-2006).