domingo, 18 de novembro de 2007

A aposta de Hillary Clinton


Migração para centro é bem-vinda

Para especialista, mudança é a melhor aposta de candidata

Patrícia Campos Mello, Washington - O Estado de São Paulo

No dia 3 de janeiro, a senadora Hillary Clinton enfrenta em Iowa seu grande teste rumo à nomeação presidencial democrata, na primeira eleição primária. “Iowa é um Estado muito conservador, um dos dois únicos nos EUA que nunca elegeram uma governadora, senadora ou deputada mulher”, diz Steffen Schmidt, professor de Ciências Políticas na Iowa State University e âncora do programa Dr. Politics na National Public Radio. “A migração para o centro, como se vê, não é um caminho sem armadilhas. Mas ainda é sua melhor aposta”, diz Fritz Wenzel, diretor de comunicações da Zogby International. “Os esforços de Hillary para agradar aos moderados são um passo importante”, diz Wenzel.

Nas pesquisas, os eleitores demonstram querer um presidente que una os EUA. “Como Hillary tem sido vista como uma figura polarizadora, que desperta sentimentos fortes tanto a favor como contra, qualquer coisa que ela fizer para se tornar mais centrista é bem-vinda.” E, de mais a mais, os outros candidatos também têm lá seus flancos a zelar: enquanto Hillary é mulher e feminista, Obama é negro, Mitt Romney é mórmon, Rudy Giuliani está no terceiro casamento, não conversa com os filhos e não condena o aborto nem o casamento gay.

“Muita gente vai votar em Hillary justamente porque ela é mulher”, diz Schmidt. Além disso, não há como menosprezar a magia de Bill Clinton sobre o eleitorado, sendo que certamente ele consegue transferir parte dessa popularidade para a mulher, acredita Schmidt. “Muitos eleitores vão votar em um terceiro mandato para Bill Clinton.”



Pela primera vez, senadora mostra suas garras

AP

No último debate entre os pré-candidatos democratas, na quinta-feira, Hillary Clinton demonstrou que sabe se defender dos ataques de seus rivais. Após aparecer evasiva e na defensiva no debate anterior, Hillary mostrou-se preparada, segura e ruidosa. Pela primeira vez, exibiu um tom agressivo e questionou diretamente seus principais oponentes, Barack Obama e John Edwards. Ela perguntou a Obama sobre seus planos para a área saúde, argumentando que ele deixaria 15 milhões de americanos sem plano de saúde. E lembrou que Edwards não havia apoiado a assistência médica gratuita para todos quando concorreu para presidente em 2004.



Hillary desperta amor e ódio nos EUA

Candidata democrata tem eleitores fiéis, mas são inúmeros seus detratores, que não a elegeriam ‘de jeito nenhum’

Patrícia Campos Mello, correspondente, Washington

O senador republicano John McCain foi surpreendido, na semana passada, pela agressividade de uma de suas eleitoras, durante um comício na Carolina do Sul: “Senador, como nós podemos ganhar daquela ‘cadela’?”, disparou a mulher, referindo-se à candidata democrata Hillary Clinton.

É esse tipo de reação exaltada que a senadora Hillary, líder nas pesquisas de opinião na disputa pela Casa Branca (47% das intenções de voto contra 43% do republicano Rody Giuliani) desperta entre os eleitores americanos. De um lado, ela tem um séquito de eleitores fiéis, quase fanáticos. Mas seus inúmeros detratores a odeiam com o mesmo fervor e não elegeriam Hillary “de jeito nenhum”. Segundo uma pesquisa realizada pela Zogby International no mês passado, 50% dos eleitores disseram que “jamais” votariam em Hillary. É o maior índice de rejeição entre os candidatos - supera até o radical Dennis Kucinich, que adora falar sobre seus encontros com discos voadores. E a resistência à sua candidatura vem crescendo - era de 46% em março e saltou em outubro para os atuais 50%. Só para comparar, o candidato que está em segundo lugar entre os democratas, Barack Obama, tem um índice de rejeição de apenas 37%. O sentimento anti-Hillary é maior entre idosos (59,2% dos eleitores com mais de 65 anos não votariam nela), evangélicos (75,1%), homens (56,4%) e ultraconservadores (88,2%).

Feminista radical, manipuladora, dissimulada, esquerdista - esses são alguns dos impropérios lançados contra a candidata. “Hillary chega na campanha com mais obstáculos para superar do que qualquer outro candidato na história - ela é muito conhecida e as pessoas têm idéias sólidas formadas sobre ela”, disse ao Estado Peverill Squire, professor de Ciências Políticas da Universidade de Missouri. “Mas dizer que ela não consegue vencer a eleição por ser polarizadora, por ter uma enorme rejeição, é um exagero.”

Para dissipar os sentimentos anti-Hillary mais extremados, a candidata vem migrando gradualmente para o centro e tenta mostrar-se moderada na maioria das questões. Mas no afã de não desagradar a ninguém, Hillary acabou errando a mão. Ela exagerou no estilo “eu até seria a favor, se não fosse contra, mas ainda não me posicionei”. No penúltimo debate democrata, ao ser questionada se apoiava a proposta do governador de Nova York de conceder carteira de motorista para imigrantes ilegais, Hillary falou, falou e não respondeu. Confrontada por um de seus rivais democratas, ela negou que tivesse manifestado apoio à proposta em entrevista a um jornal. “Eu não disse que deveria ser feito, mas eu certamente reconheço que o governador Spitzer está tentando fazer”, tegiversou. Os adversários não perdoaram. “A não ser que eu tenha entendido mal, a senadora Clinton disse duas coisas opostas nos últimos dois minutos”, disse Edwards.

NÚMEROS

50% dos eleitores

‘jamais’ votariam em Hillary, indica pesquisa da Zogby

46% era a rejeição
de Hillary em março

37% dos eleitores
rejeitam Barack Obama, que está em segundo entre os democratas

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