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sábado, 26 de janeiro de 2008

Acréscimo ao meu comentário no Diálogos e Pérolas


Pesquisa IBOPE, aniversário de São Paulo:

95% afirmam que existe corrupção na política da cidade.

87% consideram a cidade pouco ou nada segura para morar.


77% consideram que os investimentos públicos feitos na cidade são voltados para os ricos.


54% dizem que a Prefeitura está entre às menos confiáveis das instituições. (Este dado nem é mencionado pelo
Estadão).

70% acham a saúde pública ruim.


55% estão insatisfeitos com o transporte público.


60% também consideram ruim a educação pública.


61% estão insatisfeitos com a habitação popular.



Leia no blog

Diálogos e Pérolas


A arte de esconder o essencial de uma pesquisa

Diálogos e Pérolas

SP entre o amor e o caos, na visão de quatro colunistas - FOLHA

SE A ELITE de São Paulo é cafona, conforme insiste a colunista da Folha Danuza Leão, que mora no Rio, o ex-ministro Delfim Netto, também colunista, é esperançoso: "Ela aprende, ela aprende". Se Gilberto Dimenstein, que mora na Vila Madalena, torce para que apareça um prefeito com coragem suficiente para implantar o pedágio urbano, como forma de resolver o problema do trânsito, a moradora do Itaim Bibi Barbara Gancia lembra que em Londres ou Nova York, dotadas de ótimos sistemas de transporte público, a maioria das pessoas prefere ir de metrô. Os quatro falaram das aflições da metrópole, como a violência, a escola ruim, o trânsito neurótico, mas teceram uma lista de elogios à cidade que completou ontem 454 anos. (LAURA CAPRIGLIONE)

Extratos

QUE CIDADE É ESSA?

Gilberto Dimenstein - São Paulo está cada vez melhor.

Barbara Gancia - Esta é a cidade em que, se eu tiver um piripaque, posso ir ao melhor hospital. São Paulo vem melhorando muito, e às vezes, com iniciativas simples.

Danuza Leão - São Paulo eu não conheço muito. Agora, quando vocês falam em violência, parece brincadeira. Porque o Rio está muito pior do que São Paulo. (...) O Rio é diferente de São Paulo porque, mais ou menos em qualquer lugar que se more, tem uma favela perto. Aqui, não. A periferia é longe.


ELITE PAULISTANA


Danuza - Eu não freqüento paulistano rico. Paulistano rico é um pouco cafona, não é? As paulistanas ricas são um tanto peruas, não é?
Delfim - É o mesmo julgamento que as paulistanas ricas têm das cariocas.


CENTRO X PERIFERIA


Gilberto Dimenstein-
São Paulo até bem pouco tempo atrás tinha escolas públicas com três turnos. A criança ficava em média apenas 3,5 horas na escola. (...) Apesar de toda a violência, o número de assassinatos na cidade caiu 75%. Há um renascer paulistano.
Delfim - É muito fácil ser engenheiro de obras feitas e dizer que se devia ter feito isso ou aquilo, que o rio deveria ter sido protegido, que o metrô deveria ter sido construído antes.


CRACOLÂNDIA

Gilberto Dimenstein - A cracolândia é o lugar mais sintomático da crise da cidade. (...) Agora, 23 grandes empresas querem reformar a região. Ouso dizer que o lugar mais legal de São Paulo será a cracolândia. Vai demorar. Mas nossa Times Square será a cracolândia.
Barbara - Acho que a coisa ainda não mudou quase nada. Eu tenho amiga que é violinista da Osesp e ela é assaltada semana sim, semana não. Isso aí é muita propaganda.


PEDÁGIO URBANO

Gilberto - Algum dia terá de chegar um prefeito corajoso, que enfrentará a classe média e colocará um pedágio urbano.
Delfim - Essa proposta tem um ar meio maroto. Por que você precisa ter um automóvel? Porque não tem os outros serviços. Se tivesse o transporte urbano coletivo adequado, você guardaria o automóvel e só o usaria nos finais de semana, como na Europa, nos EUA.
Gilberto - Londres fez o pedágio urbano apesar de ter um sistema de transporte subterrâneo muito bom. Paris está pensando em fazer isso.
Delfim - Esse é o tipo de medida elitista. Só circula pela cidade quem pode. A solução londrina é a solução através do mercado. Colocar porteiras na cidade, em que só passa quem paga, é dizer que passa só quem tem dinheiro.


Meu Comentário

Pena que não passaram o rap dos Racionais Mc


terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Chega de chorumelas

Observando a natureza o homem inventou o calendário. Isso propicia no início de cada ciclo uma reflexão sobre o que se fez e sobre o que se espera fazer no futuro. É o tempo de analisar "sem irritação e sem preconceito" a situação do país. Infelizmente, a necessária, fundamental e vital oposição política que consagra as instituições democráticas parece ter perdido sua capacidade de analisar o presente e de formular para o futuro um projeto econômico e social alternativo capaz de empolgar e entusiasmar o imaginário popular sobre o que resta fazer. Reduziu-se a proposições risíveis ("a política de Lula é a mesma de FHC") e a espantalhos para assustar ingênuos ("o que Lula quer mesmo é o terceiro mandato").

Consideremos objetivamente a situação nacional em dezembro de 2002 e em dezembro de 2007:


É evidente a melhoria ampla, geral e irrestrita. Ela se deve às políticas econômicas e sociais radicalizadas no governo Lula, melhor focadas e ajudadas por uma forte expansão do comércio mundial. Sem a última, o Brasil teria corrido pela terceira vez em cinco anos ao FMI, confirmando a profecia corrente em 2002, entre os educados intelectuais, que o Brasil testemunharia rapidamente a desmoralização do presidente "despreparado". Para ele a história reservava o título de "Lula, o breve". A conjectura tinha fundamento: em dezembro de 2002, FHC deixou inflação anualizada às voltas de 30%; crescimento ridículo de 2,7%; déficit em conta corrente de US$ 186 bilhões acumulado entre 1995/2002 (a despeito das apressadas privatizações) e dívida externa igual a 3,8 anos de exportações. Entre 1995 e 2002, estas haviam crescido à ridícula taxa de 3,8% ao ano, enquanto a dívida externa de médio e longo prazo se acumulava à taxa de 6,6% ao ano. A "trombada" era, portanto, tragédia anunciada. É isso que explica (muito melhor do que algumas formulações acadêmicas) boa parte do imenso "risco" que o mercado atribuía ao Brasil naquele momento. Em dezembro de 2002, os intelectuais "sabiam", por uma simples e sólida razão, que o país estava sendo entregue praticamente falido: a dinâmica do endividamento externo era incapaz de ser sustentada pela dinâmica das exportações.




O futuro opaco costuma divertir-se com os que pensam poder "explorá-lo". Em 2003, a expansão do mundo (o efeito China e outros) alcançou o Brasil. Entre 2001 a 2002 (último ano de FHC), o valor das exportações havia crescido os mesmos míseros 3,8%. De 2002 a 2003 (primeiro ano de Lula), ele cresceu 21% e, depois, repetiu a mesma taxa até 2007! As exportações passaram de US$ 70,4 bilhões para US$ 159 bilhões , por puro "efeito externo".




O ponto fundamental que a oposição precisa ou internalizar ou tentar ilidir é que a política econômica da octaetéride fernandista quebrou o Brasil duas vezes (1998 e 2002 socorrendo-se do FMI) e que sem a ajuda da expansão mundial de 2003 teria quebrado novamente e mais depressa, porque a insustentável vulnerabilidade externa já havia consumido boa parte do patrimônio nacional privatizável. Isso em nada diminui o extraordinário resultado do Plano Real, infelizmente acompanhado por óbvias e desastradas políticas fiscal e cambial no primeiro mandato. Elas só foram alteradas por imposição do FMI, quando nos salvou em 1998, mas sem melhorar o crescimento do PIB, que foi de 2,4% ao ano entre 1995 e 2002.


A tabela abaixo mostra o crescimento, a inflação e a vulnerabilidade externa nos últimos 13 anos:


Não é, portanto, sem razão objetiva que 4/5 da sociedade brasileira "percebe" o governo Lula como ótimo, bom ou regular, ainda que haja muito (mas muito mesmo) o que fazer até que se possa reconhecê-lo como "virtuoso", principalmente em matéria de segurança, educação, saúde, emprego e tributação. Fazer terrorismo (como se fez sem sucesso no processo eleitoral de 2002 ("o Brasil será amanhã a Argentina de hoje") ou com a invenção que "Lula procura um terceiro mandato" (e depois um quarto, um quinto) é: 1) extremamente perigoso, porque coloca em dúvida a solidez das instituições; 2) extremamente ineficiente, porque não é crível; e 3) extremamente injusto, porque subestima a inteligência do torneiro mecânico que chegou à Presidência e "sabe" o que os intelectuais pensam que ele ignora: que esse seria o triste enterro de sua brilhante carreira.


As oposições têm que deixar de chorumelas e colocar de lado o espírito de diretório acadêmico exacerbado da semana passada. Há um universo de políticas e propostas que podem garantir a consolidação e aceleração do desenvolvimento econômico, com estabilidade interna e externa e maior igualdade de oportunidades. Façam delas um bom programa alternativo para competir em 2009 e dêem ao governo a oportunidade de completar o que está tentando fazer.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Infra-estrutura pode dar fôlego para país crescer entre 6% e 7%

Sergio Lamucci e Denise Neumann, de São Paulo
Valor


Marisa Cauduro / Valor
Delfim Neto: "Ninguém quer ser sacrificado hoje, como faziam os incas, para que a colheita seja boa no futuro"


Antônio Delfim Netto acredita que o Brasil pode voltar a crescer, em breve, em um ritmo de 6% a 7%. A última vez em que essa velocidade foi alcançada foi no chamado milagre econômico, nos anos 70, período durante parte do qual ele foi o comandante da área econômica. A chave para essa mudança, diz ele, está na aposta que a União e Estados importantes - entre eles São Paulo e Minas Gerais, comandados pelo PSDB e por potenciais candidatos a sua sucessão - estão fazendo na infra-estrutura. E a aposta, explica, vem junto com a convicção de que agora parte importante deste investimento cabe ao setor privado,


Para Delfim, o BC, apesar de sustentar "o último peru disponível no mundo fora do Dia de Ação de Graças e do Natal", não tem mais o poder de frear esse crescimento porque o investimento privado não "obedece" à Selic. A seguir, os principais trechos da entrevista.


Valor: Quais suas perspectivas para o crescimento da economia nos próximos anos?


Delfim Netto: Estou com uma visão otimista por muitos motivos, mas talvez o mais importante é que caiu a ficha do governo federal. Houve alguns sinais importantes dados pelo ministro que considero talvez o mais eficiente do governo Lula, que é a Dilma Rousseff. No começo, os atrasos nos leilões de concessão faziam com que ficássemos desconfiados de que eles queriam devolver para o Estado todas as tarefas. Era aquela ameaça: vai recriar a Telebrás, vai recriar a Diabobrás. Mas não foi por isso que demorou e sim pela assimetria de informação entre o poder concedente e o concessionário. Nas concessões do governo Fernando Henrique, a assimetria de informação levou o concessionário a montar um sistema em que as vantagens eram substanciais. Isso era possível, porque o concessionário sempre sabe muito mais do que o poder concedente sobre a sua tarefa. Hoje estou convencido que era esse problema e não um resíduo ideológico. O que demorou foi o governo entender que poderia transferir para o setor privado algumas tarefas e, ao mesmo tempo, proteger o consumidor.


Valor: De onde vem essa mudança?


Delfim: Eles descobriram isso quando começaram a pensar no leilão de concessões rodoviárias, que poderia ser um leilão frio, comum, mas de repente aparece um animal estranho, que transformou o leilão num sucesso extraordinário. O governo sabe hoje que há mecanismos adequados que permitem transferir ao setor privado aquelas tarefas que antigamente apenas o Estado podia fazer.


Valor: E o que fica para o Estado?


Delfim: É possível reservar para o Estado apenas aquilo que ele tem que fazer. Ele tem que proporcionar uma Justiça razoável, saúde, educação e, numa palavra, precisa equalizar as oportunidades dos cidadãos. E aqui há uma idéia que vai salvar o capitalismo. O capitalismo é uma corrida, uma competição desenfreada. O que se exige numa corrida? Que os sujeitos saiam do mesmo ponto e que pelo menos tenham duas pernas. É evidente que no Brasil isso não existe. No Brasil, 60% das pessoas nascem em lares que são incapazes de dar a eles igualdade de oportunidades. O capitalismo só sobrevive quando há consciência de que essa igualdade de oportunidades está caminhando. A profecia marxista só não se realizou por causa do sufrágio universal. O sufrágio universal deu voz ao trabalhador e o está transformando em cidadão. Não adianta o economista vir e dizer: "Eu sou o portador da ciência e vocês devem seguir os meus conselhos", como se fosse um daqueles velhos sacerdotes incas, afirmando que temos que sacrificar alguém hoje para que a colheita seja boa no futuro. Ninguém quer ser sacrificado hoje para que a colheita seja boa no futuro. Você tem que convencer o sujeito, que está hoje produzindo a colheita do futuro, que o regime é razoavelmente justo. Isso vem da tentativa de melhorar as oportunidades. Eu me divirto muito porque, ao contrário do que as pessoas pensam, o Lula é o salvador do capitalismo.


Valor: Por que o sr. acha que ele é o salvador do capitalismo?


Delfim: Porque ele colocou na mesa, inconscientemente até, que a igualdade de oportunidades é a única coisa que pode salvar a boa política econômica. O Lula é o salvador do capitalismo, porque é óbvio que antes de voltar a crescer, estamos indo para uma sociedade que eu nem sei se é mais justa, mas ela se pensa mais justa, ela se percebe mais justa.


Valor: Mas por que sr. acha que o crescimento será mais forte?


Delfim: Porque vão se realizar projetos do PAC que jamais seriam realizados pelo governo. O governo não tem recursos. E no discurso do lançamento do PAC da ciência, o Lula descobriu uma coisa importante: não adianta nada fazer um programa e disponibilizar os recursos porque é no governo que o programa não se realiza. A verba não chega ao laboratório não porque nós não sabemos que a pesquisa é importante, mas porque tudo isso é bloqueado pela própria máquina, que é ineficiente para transferir os recursos. Isso é outro passo muito importante na sua compreensão do governo. Nesse cenário, os investimentos em infra-estrutura vão crescer e muito. Isso é apenas um pequeno aspecto. Eu olho para São Paulo e vejo o José Serra com um passo à frente, fazendo a mesma coisa e até melhor.


Valor: Por que melhor?


Delfim: Ele vai colocar em leilão as estradas, vai vender uma parte do patrimônio que não interessa, vai privatizar, vai fazer parcerias público-privadas. Nas estradas, ele escolheu um modelo que tem um certo interesse, que o governo federal não usou. Você fixa a outorga. O governo federal usou simplesmente minimizar a tarifa. A proposta do Serra tem uma coisa mais interessante, pois posso usar os recursos da outorga para investir onde a taxa de retorno social é maior que a privada, onde o setor privado não vai entrar. O Aécio Neves está fazendo a mesma coisa, o que prova que a competição é a única coisa que resolve. Você tem uma competição óbvia entre União, São Paulo e Minas, que são os potenciais sucessores do Lula. A União é uma interrogação, os outros dois vão disputar entre si, mas um dos dois vai ser candidato. Isso significa que você vai ter um aumento significativo do investimento em infra-estrutura.


Valor: Qual o impacto dessa alta?


Delfim: A bibliografia internacional mostra que 1% do PIB de aumento do investimento em infra-estrutura tende a aumentar a taxa de crescimento do PIB entre 0,4 e 0,5 ponto percentual. A soja, para ser trazida de Mato Grosso para Santos, metade é custo de transporte. Se arrumo as estradas, isso cai para 25%. Gasto menos pneumático, gasto menos energia. A externalidade do investimento público é enorme e eleva a produtividade do setor privado. Isso vai ser visível nos próximos dois anos.


Valor: Isso se materializa em 2008, ou é mais para 2009?


Delfim: Acho que é agora, porque está começando. São Paulo está funcionando, Minas está funcionando e a União está funcionando. Em 18, 24 meses, você vai notar esse efeito. O simples fato de que você está melhorando porto, melhorando estrada, você vai ter uma elevação do crescimento. Quais são os fatores que impedem o crescimento? Energia e conta corrente. Conta corrente, Deus resolveu para a gente. Na energia, Deus deu uma mãozinha agora, o que prova que esse tal de Lula tem alguma coisa com o divino. Há um problema de curto prazo óbvio, mas o entendimento de que há um problema de curto prazo é o primeiro passo para a solução do problema. Não adianta discutir, haverá problema de gás se não chover direito, mas ele não é suficiente para inibir ou abortar o crescimento. Hoje, estou muito mais confiante de que o único fator que poderia abortar o crescimento, que é a oferta de energia, aos trancos e barrancos será superado, infelizmente com custo marginal crescente.


Valor: O sr. acha que nós podemos sair dos 4,5% a 5% de crescimento neste ano para quanto?



O Lula é o salvador do capitalismo porque estamos em uma sociedade que se pensa mais justa"


Delfim: Acho que é perfeitamente razoável imaginar 6%, 7% nos próximos anos.


Valor: Inclusive em 2008?


Delfim: Em 2008 acho que você terá provavelmente mais do que 5%. É sempre muito arbitrário, mas o que digo é o seguinte: é óbvio que o governo colocou na mesa o problema do desenvolvimento, que tinha sido esquecido nos últimos 25 anos. Colocou na mesa, mostrou que o grosso dos diagnósticos dos cientistas estava errado. O que os cientistas diziam em 2002? Não há a menor possibilidade de superar contas correntes porque falta poupança. Um miserável fato destruiu a brilhante teoria. Subiram os preços externos, acabou. Houve movimento de capitais, uma porção de outras coisas, mas o que me interessa, o que sobrou desses pensamentos cerebrinos, é que, se você eliminar as duas restrições ao crescimento, o crescimento só depende da capacidade do governo de acordar o espírito animal do empresário.


Valor: O sr. acha que não há mais o risco de o BC inibir o crescimento?


Delfim: A taxa de juros fixada pelo BC não tem nada a ver com a taxa de juros que funciona no investimento. O investimento é controlado ou pela taxa de juros externa, para quem pode tomar, ou é controlada pelo BNDES. Aquilo na verdade é um banco de brincalhões, que nós continuamos levando a sério porque eles continuam a produzir o último peru disponível no mundo, fora do Dia de Ação de Graças e do Natal.


Valor: O BC não pode adormecer o espírito animal dos empresários? Ou não pode ter sua autonomia questionada pelo governo?


Delfim: Nunca ninguém respeitou a autonomia do BC como o Lula. Ninguém vai se meter a mudar a política do BC porque a única coisa para a qual ela tem importância hoje é a dívida pública, é disso que se trata. E mesmo assim o seu papel foi muito reduzido quando você deu o incentivo, que tem certo caráter exagerado, que foi a isenção de IR para o investidor estrangeiro. Você podia dar, mas dar para todos, não apenas para o investidor estrangeiro. O que acho é que não há mais a possibilidade de fazer o terrorismo. Isso é uma das vantagens do regime de metas inflacionárias. Há muitos problemas, mas uma das vantagens é que ele obriga o governo a explicitar a taxa de inflação que quer. A sociedade pode julgá-lo. Você acha que alguém tem condição de chegar hoje para o Brasil e dizer: eu quero uma taxa de inflação de 10%? Não tem. Ela é um instrumento de controle do próprio Executivo e cada vez está mostrando que não é o BC que é importante. O importante é a política fiscal. Se a política fiscal estiver correta, o BC pode fazer o seu trabalho sem prejudicar coisa nenhuma. Por que o Brasil precisa ter taxa de juro real de 8%? Qual é o motivo, qual é a doença, que faz que o Brasil seja o único país do mundo, além da Turquia, com juro desse tamanho? O Brasil é um país que tem que ter taxa de juro real como a do mundo inteiro, de 2,5% a 3%. Se você olhar a estrutura fiscal - e não a política fiscal -, ela é terrível. A carga tributária é a maior do mundo para um país do nosso nível de renda per capita, uma dívida pública bruta que é 65% do PIB. Esses fatos é que acabam exigindo a taxa de juros. Não é a economia brasileira. Você precisa financiar a dívida. O BC age mais na necessidade de financiamento do governo do que no processo produtivo.


Valor: O câmbio não pode abortar parte desse crescimento?


Delfim: Pode. Tudo isso está na direção de sustentar um câmbio artificialmente supervalorizado. A taxa de câmbio brasileira tem três componentes. Uma componente é a imagem da desvalorização do dólar. Todo mundo se valorizou. De vez em quando as pessoas pensam que a política econômica brasileira é tão virtuosa que produziu a valorização. Não. O segundo fator é que houve uma mudança estrutural fundamental. Eu gastava metade do valor das exportações para importar petróleo. Hoje somos auto-suficientes em petróleo. Mas há o que chamo de supervalorização. É triste ter visto grandes economistas, o BC, os mais sofisticados cientistas, negarem a relação entre diferença de taxa de juros e valorização do câmbio. É um momento negro da teoria econômica brasileira, a negação feita pelos financistas de que não há nenhum efeito do diferencial de juros. Agora, não sabem o que fazer com a grana toda que entrou.


Valor: Quanto é essa supervalorização causada pelo diferencial de juros?


Delfim: Não sei, mas não é nada diferente de uns 10%, 15%.


Valor: Mas um dólar na casa de R$ 1,70 não pode ofuscar os efeitos benéficos dos investimentos em infra-estrutura sobre a economia?


Delfim: Sem investimento em infra-estrutura, o dólar a R$ 1,70 produz uma desgraça de 100. Com investimentos de infra-estrutura, o dólar a R$ 1,70 produz uma desgraça de 80. Os investimentos em infra-estrutura significam aumento da produtividade do sistema econômico brasileiro, ou seja, significa a capacidade de resistir a uma valorização maior do que sem ele. É claro que tudo seria muito melhor se o Brasil acordasse para o fato de que precisa uma taxa de juro real igual à do mundo. Você eliminaria essa supervalorização e o efeito do investimento seria ainda maior. O investimento em infra-estrutura ajuda a resistir a um câmbio que está fora do seu equilíbrio.


Valor: Há muita gente que prevê déficit em conta corrente em 2008. Não há o risco de a restrição externa voltar a aparecer, talvez não em 2008, mas em 2009 ou 2010?


Delfim: A restrição externa vai aparecer se não tivermos inteligência, por um motivo simples. O Brasil vai ter, daqui a 25 anos, 250 milhões de habitantes e terá que dar emprego para 140 milhões de sujeitos entre 15 e 65 anos. É óbvio que o paradigma brasileiro não pode ser o neozelandês, que daqui a 25 anos vai ter 5 milhões de habitantes, ou seja, vai ser menor que a favela do Alemão. Também não pode ser o chileno, que daqui a 25 anos terá 20 milhões de habitantes. Estamos surfando no crescimento global. Junto com a expansão do mundo, apareceu a China, apareceu a Índia. Os preços dos produtos agrícolas e minerais cresceram muito mais do que os dos produtos industriais e estamos nos beneficiando disso. Mas sabemos que o mundo não é exponencial. A economia global flutua. O período varia, a amplitude varia, de modo que mais dia, menos dia, esses países vão caminhar para uma estabilização, vai haver uma recessão nos EUA, que terá conseqüência na China, você terá uma flutuação nesses preços. Quando os preços flutuarem, rapidamente vai aparecer um déficit comercial e em conta corrente. Por que ele não será um impedimento no curto prazo? Porque você tem reservas de US$ 170 bilhões. Você pode fazer besteira cambial por mais uns três anos. É óbvio que, para sustentar esse país é necessário ter política industrial exportadora. O Brasil não está se inserindo no mundo. O Brasil está servindo ao mundo, e na minha opinião, tem todo o motivo de servir e aproveitar ao máximo essa possibilidade, mas não acreditar que esse é o modelo que vai permitir ser um país decente daqui a 25 anos. O Brasil é o 5º país em dimensão geográfica, é o 8º ou 9º em dimensão demográfica, é o 11º em PIB. O Brasil tem que pensar o que ele é. Não é simplesmente essa cópia, essa idéia de que se deixar o mercado fazer tudo vai dar certo. O mercado é um instrumento fantástico porque não foi inventado por ninguém, foi descoberto no próprio processo de viver. Ninguém pensa em abandonar o mercado. Mas para crer que o mercado pensa 25 anos na frente, tem que acreditar muito mais do que qualquer muçulmano.


Valor: O câmbio se corrige só com o diferencial de juros?


Delfim Se os juros estivessem na posição correta, o movimento de capitais seria muito menor. A taxa de câmbio estaria no seu equilíbrio, um pouco mais, um pouco menos, pois o câmbio flutua, é assim mesmo.


Valor: O cenário externo não pode nublar essas perspectivas?


Delfim: Se nós continuarmos como está, nós vamos dar com a cabeça na parede mesmo. Do mesmo jeito que Deus deu essa alegria de eliminar a vulnerabilidade externa construída pelo Fernando Henrique, vai retirar. Essa expansão produzida pelo aumento dos preços dos produtos agrícolas e dos produtos minerais não é coisa permanente.


Valor: Além do câmbio, o que mais pode ser feito pelo governo?


Delfim: É a disposição de entender isso, que o mercado é formidável, mas não é ele que faz o crescimento. Quem faz o crescimento é o espírito animal do empresário quando é despertado pelo governo. Esse pavor estadofóbico que se apropriou de alguns economistas, que é compensado pela estadolatria que se apropriou de outros, é que perturba o crescimento. Nenhum dos dois está certo.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Mercado interno precisa do câmbio, diz Delfim

Raquel Salgado

A continuidade do crescimento econômico brasileiro passa pela existência de um mercado interno robusto. A "supervalorização" do câmbio, no entanto, pode abortar o desenvolvimento desta demanda, uma vez que ela não será forte se estiver apoiada apenas na mineração e na agricultura. É fundamental dar condições para a indústria se desenvolver, mas com o real apreciado o governo caminha em sentido oposto a tal necessidade. A avaliação é do ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto.

Para o economista, que também é ex-deputado federal, hoje a moeda brasileira está cerca de 10% a 15% mais valorizada em relação ao dólar do que seria um patamar considerado razoável. Uma maneira de reconduzir o câmbio a níveis menos elevados seria através da continuidade da redução dos juros básicos. "Não acho que o juro real deveria ser muito maior do que 3% ou 4% ao ano", disse Delfim, em sabatina realizada ontem pela "Folha de S. Paulo". Atualmente, o juro real está na casa de 8%. "Quando o governo começa a falar muito de câmbio, pode crer que é porque há problemas", afirmou.


Delfim aponta ainda um outro entrave ao crescimento sustentado: os gastos fiscais. Para ele, enquanto o país gastar o que gasta com o custeio da máquina e tiver uma carga tributária de 37% do Produto Interno Bruto (PIB), será muito difícil vislumbrar expansão econômica no futuro. Há cerca de 15 anos, segundo Delfim, o governo investia o equivalente a 4% do PIB e a carga tributária estava em 24% do PIB. "Agora temos uma carga de impostos de 37% do PIB e se investe 2% dele." Para Delfim, este processo foi consumindo a infra-estrutura brasileira e sem ela, o Brasil não crescerá de maneira sustentada.


Nesse ritmo de gastos com custeio, diz Delfim, o PIB vai murchar, "porque estaremos transferindo dinheiro do setor mais eficiente (o privado, por meio da alta carga tributária) para o menos eficiente."


Faltou fazer a tão falada lição de casa na área fiscal. Por que o país conseguiu, mesmo que de forma tímida, crescer sem ela? Porque, segundo Delfim, "ganhamos de presente algo em torno de US$ 60 bilhões a US$ 70 bilhões decorrentes do aumento dos preços dos produtos exportados pelo país e também da expansão da quantidade exportada desses produtos", o que só foi possível graças ao forte crescimento da economia mundial, com destaque para a China.


Ao mesmo tempo, o ex-ministro se diz consciente de que não é possível mudar a estrutura de gastos do país da noite para o dia. A saída, então, é o governo fazer parcerias com o setor privado. "O governo não tem condição de fazer obras de infra-estrutura, tem outras obrigações constitucionais, por isso precisa chamar empresas privadas para atuarem junto a ele", argumenta. Leia mais no jornal Valor (para assinantes)

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Pensata de Fernando Canzian sobre um debate central

Pegou no breu



A aceleração da indústria e das importações nos primeiros cinco meses do ano foi vigorosa. Mostra que a economia brasileira finalmente está acelerando sem grandes pressões inflacionárias.

Entre janeiro e maio de 2007, a indústria nacional teve expansão de 4,4%, bem acima dos 3,3% em igual período de 2006. Ao mesmo tempo, as importações de bens de consumo acabados deram um salto de 34% no fechamento do semestre.

Há vários motivos para isso. Um forte vento a favor da economia internacional, inflação interna baixa, muito mais crédito a custo menor e melhora crescente dos indicadores de solvência do Brasil. Tudo isso encoraja investidores internos e externos.

Nesse contexto, o governo começa a aumentar a proteção tarifária para alguns setores que estão perdendo mais com a concorrência internacional. Há 20 dias, foi imposta uma tarifa de US$ 4,27 por unidade para ferros de passar roupa importados. Agora, planeja-se aumentar de 20% para 35% a tarifa de importações para produtos têxteis e calçados.

O argumento, nesses casos, é que concorrência chinesa esteja produzindo estragos além dos aceitáveis na indústria nacional. Mas essa tese está longe do consenso.

Há correntes de economistas que acham que a vida é assim mesmo. "Quem não tem competência que não se estabeleça", dizem. Outros afirmam que a proteção é bem-vinda e natural para um país como o Brasil, onde o governo não oferece infra-estrutura adequada para o setor privado.

Abaixo, dois destacados economistas dão suas visões, opostas, sobre um debate que estará no centro da agenda econômica deste ano. E, muito provavelmente, também mais adiante.

Leia o debate entre Cláudio Haddad e Delfim Netto aqui no Blog de Fernando Canzian

Cláudio Haddad, presidente do Ibmec-SP
e ex-diretor do Banco Central








Antonio Delfim Netto, economista e
ex-ministro da Fazenda e do Planejamento