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sábado, 29 de dezembro de 2007

Cartas publicadas no Estadão: Samba de uma nota só!

Quem acompanha a publicação das cartas dos leitores no jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, percebe que uma rigorosa seleção "permite" mostrar uma "opinião pública" forjada pela vontade dos responsáveis da publicação.

Já tínhamos mostrado este comportamento "democrático" quando das aventuras de Floriano Pesaro, secretário de assistência e desenvolvimento social da administração Kassab, em New York. Na ocasião o Estadão publicou uma pagina de press-release do viajante Pesaro dizendo que estava colhendo inspiração na grande maça para implementar um programa revolucionário, o Bolsa-Aluguel.

Confrontado com as provas que Pesaro era o responsável do fechamento deste programa implantado na administração Marta Suplicy, o Estadão ignorou todas as reclamações e jogou no lixo as cartas sobre o tema. (veja sobre este assunto Mídia: o pluralismo em questão ; Jornal O Estado de São Paulo: após artigo fajuto, a censura ; O jornal O Estado de São Paulo continua a se fingir de morto).

Agora, o mesmo Pesaro ataca, no espaço generosamente oferecido pelo jornal, a suposta demagogia de Lula com os pobres. A resposta do deputado federal Carlos Zaratini, como parece ser a praxe no "democrático" jornal, não foi publicada.

Aqui publicamos as duas cartas.

Luis Favre


Demagogia com os pobres
25/12/2007

Mais uma vez o presidente Lula vem a São Paulo para um ato de explícita demagogia com os humildes. Sábado esteve pela quinta vez com os movimentos políticos de catadores e de população de rua ligados à Igreja Católica. Na Casa de Oração, prometeu, pela quinta vez, ceder prédios públicos, Bolsas-Família e diversos outros programas federais a esses movimentos. Nestes cinco anos não conseguiu assegurar nenhuma de suas promessas e, pior, vem a São Paulo sem conhecer o trabalho realizado pelo poder público municipal e por ONGs conveniadas. Infelizmente, o presidente prefere fazer teatro com os pobres, em vez de dialogar seriamente com os gestores públicos para entender melhor as necessidades e ofertas a esta população marginalizada. Uma pena.

FLORIANO PESARO, secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, membro do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social

Para o Fórum dos Leitores

O Estado de São Paulo

Sr. Redator,

Quem o Sr. Floriano Pesaro pensa que é para criticar as políticas sociais do Presidente Lula? Um Secretário que não permite que as pessoas se inscrevam para receber o Bolsa Família pois, segundo suas regras,têm que aguardar a visita da Prefeitura para serem cadastradas e isso só acontece em alguns distritos da cidade - uma visita que será feita por uma ONG chamada Instituto Via Pública, que até setembro deste ano só havia cadastrado 31.800 famílias em 14 distritos. Com isso impede que milhares de famílias tenham acesso ao Bolsa Família e aos descontos na conta de energia.

Um Secretário que faz parte de um Governo que acabou com o Bolsa Aluguel e instituiu o "Cheque Despejo" de R$ 5mil como política habitacional, empurrando para a periferia ou para as cidades vizinhas os moradores de favelas, sem resolver o problema da moradia. Um Governo que repete o PAS com as AMAs e abandona os postos de saúde e o tratamento mais especializado e prolongado. Secretário, cuide mais da nossa cidade que em 2008 estará arrecadando o dobro do que arrecadava em 2004. Isso é que é aumento da carga tributária!

Dep. Federal Carlos Zarattini

sábado, 3 de novembro de 2007

Mídia: o pluralismo em questão

O episódio da peça publicitária travestida de reportagem sobre o "Bolsa-Aluguel" acabou mostrando as consequências nefastas para a liberdade de imprensa do partidarismo do jornal O Estado de São Paulo: prepotência e censura.

Até hoje as cartas continuam censuradas e de forma arrogante o jornal se recusa a reconhecer o problema.

Mas a questão não se limita a esse exemplo de mau jornalismo, que solapa o pilar essencial da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão que é o pluralismo.

Observem os jornais de São Paulo e perceberão um tratamento diferente das questões políticas nacionais, das que concernem o âmbito estadual ou municipal.

Os temas nacionais são sempre, ou quase sempre, tratados respeitando o pluralismo político. Não tem tema, projeto ou denúncia que não comporte, quase que diariamente, as opiniões do governo ou de sua base e também da oposição.

Assim deve ser, inclusive equilibrando os espaços, independentemente da representatividade maior ou menor das forças políticas. Isto permite que o leitor possa se confrontar com diferentes pontos de vista sobre uma questão.

Pode-se dizer que as manchetes, a distribuição dos artigos e o conteúdo da maioria deles são negativos ao governo ou mais simpáticos à oposição. Mas o pluralismo e a democracia na mídia quase que exigem que as minorias tenham maior destaque até para compensar o poder maior do governo e sua máquina, independentemente do partido que governa.

Isto não justifica o verdadeiro preconceito destilado muitas vezes pelos jornais contra Lula e o PT, nem o viés oposicionista da maioria dos articulistas. Mas o pluralismo está presente, apesar de tudo, garantindo assim o confronto democrático e a diversidade da informação.

Já nas questões de política estadual ou do município de São Paulo o tratamento é radicalmente diferente. O pluralismo se limita às manifestações dos respectivos governos e aos questionamentos, denúncias ou críticas que eventualmente os jornais ou seus articulistas venham a expressar. Excepcionalmente um ou outro opositor aparece citado, mas a menção é rara.

Um exemplo: ontem reproduzi aqui no blog a informação dada pelo Estadão de privatização da CESP pelo governo Serra. Hoje a Folha de São Paulo confirma o teor da reportagem do Estadão (postarei o artigo da Folha depois). Pois bem, em nenhum dos artigos e sobre um tema mais que polêmico, a oposição consegue se manifestar. Ela simplesmente não aparece.

O mesmo pode-se dizer também, sobre a questão do leilão do Rodoanel e o pedágio, com as mudanças anunciadas hoje; nenhum representante da oposição é chamado a dar sua opinião.

Muito raramente, por não dizer quase nunca, os deputados estaduais ou os vereadores do PT são citados e suas posições reproduzidas. Por isso acabou acontecendo a manipulação aqui denunciada sobre o "Bolsa-Aluguel". A correspondente do Estadão "comprou" como verdadeira a informação inverídica do Secretário de Kassab e seu editor nada viu. Tivesse solicitado, conforme ao pluralismo e equilibro jornalístico, uma declaração de algum representante da oposição e a mistificação teria sido descoberta.

A ausência do "outro lado", que não pode ser exclusivamente o próprio jornal e que deveria quase sempre incluir o ponto de vista dos partidos de oposição, nem sempre foi assim. Durante o governo de Marta Suplicy, a oposição tinha espaço e destaque em todos os jornais. Suas manifestações, pronunciamentos, críticas etc. quase que sempre eram acolhidas de forma democrática e pluralista pela mídia impressa.

A mudança de atitude é flagrante. Isto contribui para o processo de enfraquecimento do papel da mídia impressa e a sensação de parcialidade que provoca sua leitura. Este afastamento dos leitores, reforçada pelo surgimento da mídia na internet e nos blogues, não deveria suscitar a alegria de ninguém. Trata-se de um empobrecimento da democracia e de um dos seus principais instrumentos: uma imprensa independente e pluralista ou seja, com credibilidade.

Luis Favre

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Jornal O Estado de São Paulo: após artigo fajuto, a censura

Cartas censuradas e pluralismo ignorado

O jornal O Estado de São Paulo insiste em silenciar os fatos que indicam que o artigo sobre o "Bolsa-Aluguel" era uma peça publicitária a serviço da administração Kassab. Até hoje nenhuma palavra.

Para lembrar: o artigo em questão dizia que inspirado na sua visita a Nova York, onde ainda se encontra, o secretário de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo , Floriano Pessaro, iria propor a criação do programa "Bolsa-Aluguel". Acontece que esse programa já existia em São Paulo, criado por Marta Suplicy e foi fechado pelo próprio Floriano Pessaro. Mais ainda, os beneficiários do programa tiveram que recorrer a justiça contra o governo municipal para preservar seus direitos e o judiciário acolheu favoravelmente o pedido obrigando a Prefeitura a continuar pagando o "Bolsa-Aluguel". (ver neste blog O jornal O Estado de São Paulo continua a se fingir de morto; Refrescando a memória do Estadão; Administração Kassab, com ajuda do Estadão, vai até New York para descobrir o que a Marta já fez; um artigo por dia com reprodução de farto material sobre o "Bolsa-Aluguel").

Quatro dias já se passaram e o jornal não dá nenhuma explicação. Pior, uma carta do Deputado Federal Paulo Texeira e outra missiva do Vereador Antonio Donato até hoje não foram publicadas apesar de estarem em possessão dos responsáveis do jornal desde o mesmo dia em que a generosa página foi publicada (ver as cartas de ambos, a seguir).

O jornal é um auto-proclamado defensor da liberdade de imprensa e da democracia. Mas a democracia e a liberdade de imprensa são inseparáveis do pluralismo e incompatível com a censura. Neste caso, claramente, o jornal ignora o pluralismo e se serve da censura.

Sonegando a informação aos seus leitores, a própria liberdade de imprensa é deturpada e confiscada em beneficio de um lado, de uma versão e no caso, pior, de uma mentira.

Os leitores do jornal, entre os quais me encontro, merecem e esperam que o jornal volte atrás e corrija o erro, levante a censura e permita a expressão plural nas suas páginas.

Luis Favre

As cartas não publicadas pelo Estadão

São Paulo, 29 de outubro 2007

Programa Bolsa Aluguel já existe em São Paulo
Quando secretário da habitação na gestão da prefeita Marta Suplicy, criamos, em janeiro de 2004, através de resolução do Conselho Municipal de Habitação, o Programa Bolsa Aluguel com o objetivo de conceder subsídio para locação de imóvel, viabilizando o acesso de famílias de baixo poder aquisitivo a uma moradia digna no município de São Paulo.
Mais de 1.400 famílias, inclusive moradores em situação de rua, foram beneficiadas e outras 1.000 foram aprovadas para o atendimento.
No entanto a atual gestão do Município de São Paulo interrompeu o programa. As famílias que locaram os seus imóveis pelo Bolsa Aluguel só não foram despejadas no final dos 30 meses de locação, em função da liminar concedida pela Fazenda Pública, a pedido do Ministério Público, que garantiu a prorrogação da concessão do benefício pela Prefeitura.

Paulo Teixeira
Deputado Federal – PT
Secretário da Habitação do Município de São Paulo (2001 a 2004)

São Paulo, 29 de outubro 2007

Nova York é aqui

É impressionante ver o secretário municipal de Assistência Social, Floriano Pesaro, reinventar a roda. A reportagem “SP cria 'bolsa aluguel' para morador de rua e estuda projetos de Nova York” (Metrópole, 29/10) expõe que ele trabalha para “subsidiar o aluguel de apartamentos para quem hoje está nas ruas”. Na verdade, a gestão Marta Suplicy já fazia isso. Alugava quartos em hotéis e casas para moradores de rua. O pior é que justamente a atual administração municipal tentou acabar com o programa bolsa aluguel criado na gestão Marta Suplicy e que subsidia famílias de baixa renda que não têm condições de pagar um aluguel ou comprar um imóvel. O programa está mantido por força de liminar concedida pelo juiz Emílio Muigliano Neto, da 7ª Vara da Fazenda Pública, em Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público. Se não fosse a determinação do juiz, hoje mais 1.473 famílias, cerca de 6.000 pessoas, poderiam estar nas ruas. Os contratos firmados na gestão Marta tinham vigência por 30 meses, e a atual gestão não iria renová-los. É, no minímo, extravagante ver agora o secretário Pesaro ir a Nova York para conhecer uma política que ajudou a desmontar aqui. Bastava ter dado andamento ao que existia, para já estarmos colhendo melhores resultados.

Antonio Donato (vereador, PT)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O jornal O Estado de São Paulo continua a se fingir de morto

O jornal O Estado de São Paulo continua a se fingir de morto. Três dias atrás, conforme mostramos neste blog, um artigo de pagina inteira fazia apologia da "idéia" do Secretário de Assistência Social de Kassab, Floriano Pesaro, de criar o programa "Bolsa-Aluguel". O Secretário disse que a "idéia" lhe veio em Nova York, onde ele ainda se encontra. A peça "jornalística" omitia que esse programa existia, criado pela Marta Suplicy, e foi fechado pelo próprio secretário.

No mesmo dia da publicação do artigo laudatório mostrei com arquivos de diversos jornais a manipulação do secretário de Kassab. Ao dia seguinte idem (ver aqui no blog Refrescando a memória do Estadão e Administração Kassab, com ajuda do Estadão, vai até New York para descobrir o que a Marta já fez).

Até hoje, o Estadão não disse uma palavra, não publicou nenhuma carta e não fez nenhuma retificação.

Cometer erros, todo mundo comete. No jornalismo tem até uma palavra, "barriga", para designar esses erros. Não reconhecer esses erros faz parte do mau jornalismo. Aquele jornalismo que confunde informação com propaganda.

Para refrescar a memória do jornal paulista sobre o "Bolsa-Aluguel" reproduzo a seguir artigo do próprio Estadão com data 17 de março 2007.

Luis Favre

O Estado de São Paulo

Sem-teto seguem acampados em frente ao prédio da CDHU no centro de SP

Uma das reivindicações dos sem-teto é a inclusão no programa Bolsa Aluguel

Há 17 dias integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-teto da Região Central (MTST-RC) e do Movimento de Defesa à Moradia (MDM) estão acampados em frente ao Edifício Cidade I, onde fica a sede da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), na altura do nº 176 da Rua Boa Vista, no centro da capital paulista.

No total são 160 pessoas, mas o protesto, nos últimos dias, vem sendo realizado na base do revezamento durante a madrugada. Eram 3 horas desta terça-feira e havia um grupo com cerca de 30 acampados, entre estes várias crianças. Todos exigem da CDHU - subordinada à Secretaria Estadual de Habitação - a disponibilização imediata de alojamentos para as famílias, que foram retiradas de prédios por elas invadidos nas região da Consolação (centro), Mooca (leste) e Butantã (oeste).

Os sem-teto afirmaram que, por volta da 0h30 desta madrugada, policiais militares e funcionários da Prefeitura teriam tentado retirá-los de lá e alguns objetos foram levados. Não houve confronto. Outra reivindicação dos sem-teto é a inclusão deles no programa Bolsa Aluguel - benefício concedido a famílias residentes em imóveis onde já existe intervenção de outros projetos habitacionais.


O programa é custeado pela Secretaria Municipal de Habitação (SMH) e cada contemplado recebe um subsídio de R$ 200 até R$ 300 durante 30 meses. Atualmente, 1.500 famílias recebem o auxílio e a Secretaria informou que não há previsão orçamentária para mais inclusões. A prefeitura frisou que não ampliará o número de beneficiários do Bolsa Aluguel este ano.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Refrescando a memória do Estadão

Ontem o jornal O Estado de São Paulo publicou uma peça de ficção publicitária anunciando o programa "Bolsa - Aluguel", inspirado em Nova York, da Administração Kassab. Ignorando que o programa já existia e foi criado por Marta Suplicy, o jornal passava sobre silêncio que ele tinha sido fechado pelos atuais ocupantes da Prefeitura. (ver Administração Kassab, com ajuda do Estadão, vai até New York para descobrir o que a Marta já fez ).

A seguir reproduzimos uma reportagem dos aspirantes a jornalistas da Folha de São Paulo sobre este tema publicado em 8 de dezembro de 2006. A diferença entre peça publicitária e jornalismo salta aos olhos.

Treinamento Folha


Folha Online



Novo em Folha 42ª turma

08/12/2006

Fim de programa habitacional força vai-e-vem por SP

Término do Bolsa Aluguel em 2007 e acesso difícil a ações do poder público cria "novos nômades" à busca de casa

Moradora chega a se mudar uma vez a cada um ano e meio; proprietário reclama de atrasos e de não receber bolsas de dezembro de 2004

BÁRBARA CASTRO
ESTÊVÃO BERTONI
DA EQUIPE DE TREINAMENTO

Os 30 meses do Bolsa Aluguel estão no fim. Com a decisão da Prefeitura de São Paulo de abandonar o programa assim que a última bolsa vencer, no primeiro semestre de 2007, as 1.387 famílias beneficiadas hoje temem retomar uma antiga rotina: perambular pela cidade atrás de um novo teto.

Renato Stockler - 2.dez.2006/Folha Imagem

VIZINHANÇA HISTÓRICA Ivanete de Araújo no corredor do prédio em que mora no Brás; o local abriga outras pessoas que recebem o benefício e fica próximo ao edifício São Vito, que pressionou votação do programa

VIZINHANÇA HISTÓRICA Ivanete de Araújo no corredor do prédio em que mora no Brás; o local abriga outras pessoas que recebem o benefício e fica próximo ao edifício São Vito, que pressionou votação do programa

Das 12 pessoas atendidas pelo programa ouvidas pela Folha, todas disseram não ter condições de pagar aluguel. Sem local onde morar, vão engrossar os índices do déficit habitacional da cidade, hoje de 509 mil casas, segundo a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo).

Em outubro deste ano, com o fim dos 30 meses de bolsa, Ivanete de Araújo pensou que voltaria a morar na rua. Desempregada, divorciada e mãe de três filhos, ela só permaneceu sob o mesmo teto graças à decisão da prefeitura de estender o programa por mais 120 dias.

Esses quase três anos foram os primeiros em que a ex-bóia-fria conseguiu morar em São Paulo sem dividir o mesmo espaço com outras pessoas, desde que chegou à cidade, em 1989.

Já viveu como agregada no subsolo de uma oficina mecânica, passou por quatro cortiços (um na Vila Guarani e três na Aclimação) e decidiu se juntar ao movimento dos sem-teto quando se viu com os filhos debaixo do viaduto Glicério. "Eu não agüentava mais morar na rua. Ali, se você não for esperto, não sobrevive", diz.

Habitou também dois prédios que foram reapropriados e, depois de ser despejada com outros sem-teto de um edifício na rua Ana Cintra, chegou a passar um tempo em uma garagem emprestada. Foi de lá que ela saiu para morar no Brás, em um apartamento pago com os recursos do Bolsa Aluguel.

Julia Moraes - 25.nov.2006/Folha Imagem

SEM CASA COM A CAUSA GANHA A diarista Merabi Pereira de Santana na rua do abrigo provisório onde mora, no Canindé; mesmo com a garantia judicial, ela não consegue alugar um apartamento utilizando o Bolsa Aluguel

SEM CASA COM A CAUSA GANHA A diarista Merabi Pereira de Santana na rua do abrigo provisório onde mora, no Canindé; mesmo com a garantia judicial, ela não consegue alugar um apartamento utilizando o Bolsa Aluguel

Em fevereiro, quando vence o prazo do programa, Ivanete deverá se mudar pela 11ª vez em 18 anos. Sua esperança é ganhar na Justiça o direito de morar novamente no prédio da Ana Cintra, reformado pela CDHU.

"Nem que eu tenha que catar latinha para chegar à renda que eles pedem", diz.

Mas ganhar na Justiça pode não significar a conquista de um teto. Desde janeiro deste ano, a diarista Merabi Pereira de Santana carrega na bolsa a garantia judicial que obriga a prefeitura a lhe pagar, mensalmente, o benefício.

Em outubro de 2004, ela assinou o contrato para receber a ajuda. Em janeiro de 2005, alugou um apartamento, mas quando tentou usar a bolsa, a Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação) se recusou a cumprir o acordo. Resultado: endividou-se com o proprietário.

Depois de entrar com uma ação na Justiça, Merabi teve o direito à bolsa garantido, mas não conseguiu alugar um apartamento, pois a prefeitura parou de oferecer garantias de fiador às imobiliárias, como três meses de aluguel adiantado.

Passados mais de dois anos, Merabi, já em sua 5ª casa, vive hoje em uma moradia provisória no Canindé. "Eles [prefeitura] dizem que vão te dar uma cama no albergue, comida de albergue, e de preferência lá na periferia; e você vai ficar escondida, porque, para eles, você não tem condições de ser um cidadão, de ter autonomia", diz.

Bruno Miranda - 27.nov.2006

VILA DOS IDOSOS A aposentada Jandira Ferreira da Silva na sala de sua quitinete, na av. Ipiranga, centro de São Paulo; com o fim da bolsa, ela tem esperança de ser encaminhada para uma vila de idosos

VILA DOS IDOSOS A aposentada Jandira Ferreira da Silva na sala de sua quitinete, na av. Ipiranga, centro de São Paulo; com o fim da bolsa, ela tem esperança de ser encaminhada para uma vila de idosos

Para o secretário municipal de Habitação, Orlando de Almeida Filho, as moradias provisórias seriam uma opção viável para quem vai deixar de receber a bolsa e não tem condições de pagar um aluguel, como no caso da aposentada Jandira Ferreira da Silva, 73.

Sustentada por dois salários mínimos, ela mora em uma quitinete na av. Ipiranga, no bairro da República. Como o valor da bolsa é menor do que o do aluguel, Jandira tira do próprio bolso o que falta e paga R$ 50 de condomínio, que considera caro.

Sem filhos ou parentes que possam ajudá-la, não faz idéia para onde possa ir. "Com minha aposentadoria, ou eu como ou eu pago aluguel. Estou procurando lugar para trabalhar, mas, com 73 anos, ninguém me aceita", diz.

Com o fim próximo da bolsa (vence em março de 2007), a auxiliar de serviços Darci de Oliveira considera o trabalho extra a única saída para conseguir saldar os aluguéis. Para pagar as contas e sustentar o filho estudante, de 18 anos, e o pai, aposentado e deficiente visual, de 92 anos, Darci vende cosméticos fora do expediente.

"Estou até procurando um trabalho noturno, no período entre 18h e 1h, não me importo de trabalhar, o importante para mim é poder garantir as despesas básicas", diz.

Bolsas atrasadas

As reclamações sobre o Bolsa Aluguel não partem apenas de quem está prestes a perder o benefício. Proprietário de um edifício na alameda Barão de Piracicaba, no centro de São Paulo, José Mário Guilherme diz que a Cohab não pagou os aluguéis de dezembro de 2004.

"A prefeitura não pagou dezembro e descontou o valor da bolsa-calção, que é a fiança", diz. Outra reclamação diz respeito às últimas parcelas que venceram. Com 35 inquilinos recebendo a bolsa, José Mário diz que a Cohab só pagou, no último mês, 31 aluguéis, e com atraso. "O aluguel vence no dia dois de novembro e o pagamento só caiu no dia 29", conta.

Procurada pela Folha entre os dias 5 e 7 de dezembro, a Cohab não respondeu sobre as queixas dos beneficiários.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Administração Kassab, com ajuda do Estadão, vai até New York para descobrir o que a Marta já fez

Com a maior cara de pau, o jornal O Estado de São Paulo, em companhia de Floriano Pesaro, secretário municipal de Gilberto Kassab, tenta ludibriar os leitores, anunciando como novidade, desde Nova York, um programa que Marta Suplicy implantou em São Paulo.

No artigo que reproduzimos a seguir, o jornal paulista promove o programa "Bolsa-Aluguel" como sendo um projeto futuro da atual administração, inspirado na viagem do titular da pasta de Assistência Social a Nova York.

Uma simples consulta aos arquivos do próprio jornal, ou da Folha de São Paulo, teria evitado o constrangimento da peça publicitária e os gastos da viagem. Os leitores ficariam sabendo, assim, que a Administração Kassab fechou o programa "Bolsa-Aluguel" e foi obrigado, por decisão judicial, a manter, contra seu desejo, o pagamento das famílias acolhidas pelo programa de Marta Suplicy.

Vale a pena ler os considerandos da Justiça, em reportagem publicada na Revista Consultor Jurídico (5 de setembro de 2007):

"O Tribunal de Justiça de São Paulo limitou a prorrogação do programa Bolsa Aluguel às famílias que recebem o benefício há mais de 30 meses. O programa foi criado pela Prefeitura paulistana e é dirigido a pessoas com renda de um a dez salários mínimos. A determinação vai beneficiar 1.473 famílias e cerca de 6.000 pessoas.

A decisão é da 1ª Câmara de Direito Público, que entendeu que a liminar de primeira instância foi além do pedido feito pelo Ministério Público. Para a turma julgadora, a Promotoria reclamava a prorrogação do benefício e não a retomada do programa social.

Os desembargadores analisaram recurso da Prefeitura (Agravo de Instrumento) contra a liminar do juiz Emilio Migliano Neto, da 7ª Vara da Fazenda Pública. O juiz argumentou que as políticas públicas de habitação popular são insuficientes para atender a procura e que o critério adotado pelo Município exclui determinados grupos ou cidadãos. O fundamento serviu para prorrogar o prazo do programa habitacional.

Ele apontou a ineficiência administrativa, o descaso do governo com direitos básicos, a incapacidade do poder público de gerir seus recursos, a incompetência para implementar o orçamento e a falta de visão política dos administradores. Ele entendeu também como indevido o pedido do Ministério Público Estadual de aplicação de multa para o caso de descumprimento da liminar. Para ele, a multa traria prejuízo aos próprios contribuintes.

E mais: deu prazo de 15 dias para que a Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab) e a Prefeitura paulistana cumprissem a decisão. Insatisfeito, o Município entrou com recurso no Tribunal de Justiça. Sustentou que a interrupção do benefício era resultado do poder discricionário da administração e, por isso, não caberia a interferência do Ministério Público ou do Judiciário.

A turma julgadora entendeu que a prorrogação do benefício habitacional para as famílias que aderiram ao programa, aliada a realidade de que essas pessoas têm pouca instrução, é medida que se impõe à prefeitura. “Aqui não se há de falar em discricionariedade. Mas sim de cumprir aquilo que foi prometido aos participantes do programa”, defendeu o relator, Franklin Nogueira.

A liminar foi reclamada pelo Ministério Público Estadual em uma Ação Civil Pública. O MP queria prorrogar o programa para as famílias beneficiadas por mais de 30 meses até que a Prefeitura fosse capaz de oferecer habitação definitiva àqueles incluídos no programa “Bolsa Aluguel”.

O Programa Bolsa Aluguel foi implantado na gestão Marta Suplicy (PT) e operado pela Cohab, com previsão de duração de 30 meses. O benefício é dirigido a famílias com renda de um a dez salários mínimos. O atendimento prioritário é aos moradores de áreas sujeitas à intervenção de programas da Política Municipal da Habitação."

Quando a turma dos Demos fechou o programa, o próprio Estadão noticiou as manifestações dos Sem-Teto, exigindo a manutenção do "Bolsa-Aluguel". Agora, com a maior desfaçatez, nos anunciam a grande descoberta trazida dos "States".

Parece uma daquelas famosas fotografias das quais Stalin apagava seus desafetos, para reescrever a história. Só que aqui são muitos os que têm memória.

Reproduzo, a seguir, uma entrevista feita pelos trainees da Folha com o deputado Paulo Teixeira em 8 de dezembro de 2006, tratando em profundidade do programa "Bolsa-Aluguel" e demonstrando o caráter retrógrado da tentativa de acabar com esse programa.

Os trainees deram uma "lavada" no jornalismo "chapa-branca" da matéria do Estadão. Talvez, voltando a ler, o jornal recupere a amnésia estampada no artigo de hoje (reproduzido depois da entrevista).

Luis Favre


Entrevista com o vereador Paulo Teixeira (PT), ex-secretário de Habitação de São Paulo

DA EQUIPE DE TREINAMENTO FOLHA - A Secretaria Municipal de Habitação disse que não vai renovar o Bolsa Aluguel. A maioria das pessoas atendidas não tem como se sustentar e não sabe o que fazer. A quem elas devem recorrer?

PAULO TEIXEIRA - O que eu sugiro é que essas pessoas procurem o Ministério Público, ou a Defensoria Pública, e exijam seus direitos. A Prefeitura de São Paulo assinou um acordo com essa população na gestão passada. Ao não renovar o Bolsa Aluguel, a prefeitura está indo para a ilegalidade. Fizemos o programa com muito esforço, foi tudo discutido com especialistas para resolver o problema de habitação. Não renovar a bolsa após esses 30 meses pode ser uma tragédia.

FOLHA - Mas o programa não se resumia apenas a pagar R$ 300 por 30 meses?

TEIXEIRA - Não, a intenção era solucionar o problema de habitação. No convênio que tínhamos com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), era prevista a construção de moradia no Bresser, no Belém, a reforma do São Vito. Aprovamos também a Carta de Crédito no Conselho Municipal de Habitação. O Bolsa Aluguel era um subsídio importante dentro da política habitacional. Os programas habitacionais no Brasil são sempre concebidos como aquisição da propriedade. O Bolsa Aluguel não; é um subsídio. A prefeitura tem que responder se essas pessoas atendidas deixaram de necessitar do benefício, se elas saíram do critério de inclusão no programa. Ao meu ver, há uma pura desarticulação do programa habitacional na cidade. A cidade está hoje sem política habitacional.

FOLHA - O Bolsa Aluguel pode ser considerado um programa assistencialista?

TEIXEIRA - Não, é um programa de habitação, inserido nas políticas públicas de habitação, para uma população de baixa renda. Todos os países do mundo têm subsídios habitacionais. Geralmente, quando você coloca o subsídio na política habitacional, ele é um subsídio colocado de uma só vez, num montante alto. O Bolsa Aluguel é colocado a prazo, num montante pequeno.

FOLHA - Mas não havia no programa mecanismos para solucionar o problema de habitação dentro do prazo. Não havia nada que aumentasse a renda das pessoas, para que elas deixassem de depender do Estado.

TEIXEIRA - É a prefeitura que está inadimplente com essas pessoas. Ela deixou de dar essas condições. Essas pessoas estão na demanda da prefeitura, e a prefeitura está tentando se livrar dessa demanda.

FOLHA - Se o Bolsa Aluguel pretendia resolver a situação das pessoas e não conseguiu, é possível afirmar que o programa foi um fracasso?

TEIXEIRA - Não, o Bolsa Aluguel não foi um fracasso. O Bolsa Aluguel é um programa bem-sucedido. O fracasso está na política habitacional da atual administração. Ela está abrindo mão de um bom instrumento. Eu acho que o resultante disso é encontrar mais gente na rua. Isso vai aumentar a população de rua na cidade de São Paulo. Quem vai deixar de receber o benefício deve procurar imediatamente o Ministério Público, que deve abrir uma ação judicial exigindo o cumprimento do Bolsa Aluguel, sua renovação e o atendimento definitivo dessas famílias. Assim como o Ministério Público, a Defensoria Pública também pode ir à Justiça exigindo o cumprimento de uma política habitacional. A atual administração entrou numa política liberal de deixar as pessoas à sua própria sorte. Num país como o nosso, essa política tem um nome: é a rua. Vai aumentar a população de rua. Isso é um despejo que a prefeitura está fazendo, abrindo mão de suas responsabilidades.

FOLHA - A atual administração diz que cumpriu os 30 meses _e vai cumprir os acordos que ainda restam_ e que, nesse tempo, as pessoas atendidas deveriam ter procurado condições para não mais depender da bolsa.

TEIXEIRA - O problema do atual secretário municipal é que ele não leu os acordos que foram feitos. O instrumental do Bolsa Aluguel tinha como objetivo resolver problemas gravíssimos de risco na cidade de São Paulo. A visão dele não se sustenta a um questionamento judicial. É por isso que estou sugerindo às pessoas irem à Justiça. É uma violência o que eles estão praticando.

FOLHA - Por que o Bolsa Aluguel veio apenas no último ano da gestão passada? Quando o programa foi aprovado, o senhor não via perigo dos contratos não serem cumpridos com a mudança de governo?

TEIXEIRA - Primeiro, a bolsa foi lançada por meio de uma lei. Foi uma lei aprovada na Câmara. Teve maioria quase que unânime. Era um programa público. Segundo: dizia respeito a situações gravíssimas de risco. Ou não havia risco no São Vito? Quem é atendido pelo Bolsa Aluguel? Ex-moradores do São Vito, do Ana Cintra, de albergues, de rua. Foi um programa maravilhoso, de qualificar a vida das pessoas para além da solução coletiva e de médio prazo. Coletiva são os albergues e de médio prazo são as construções habitacionais. O Bolsa Aluguel teve a qualidade de manter as pessoas no centro da cidade, porque elas têm a vida aqui, estão organizadas aqui. É um belo programa, tanto que muitas prefeituras estão replicando o Bolsa Aluguel. Você vê isso no Rio de Janeiro, em Osasco, no ABC, em Guarulhos, em Suzano. Tem um monte de gente replicando o Bolsa Aluguel porque muda o conceito de habitação como propriedade. Você faz um desembolso pequeno, de imediato, e dá tempo de casar com a produção habitacional, que é demorada. Eu acho trágico o que eles estão fazendo.

FOLHA - Para o secretário municipal de Habitação, é difícil para a população de baixa renda se manter no centro, pois os aluguéis são geralmente caros. O senhor concorda com essa visão?

TEIXEIRA - Primeira coisa que quero dizer: essa visão vai na contramão de todas as políticas habitacionais do mundo, que defendem que as pessoas residam onde tem infra-estrutura. O Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) tem um estudo recente demonstrando que pessoas com o mesmo nível de escolaridade que vivem em distintos lugares da mesma cidade têm condições de vida diferenciadas. Por exemplo: o pobre que vive no centro tem condições de estudar mais, tem expectativa de vida maior, tem uma alimentação melhor, os filhos vão estudar mais.

FOLHA - Mas não é mais caro para ele?

TEIXEIRA - Você precisa dar soluções habitacionais para as pessoas de baixa renda. Essa idéia do que é mais caro, é uma visão liberal, é uma visão de mercado. Para o pobre, não é mais caro, é mais barato. Por que é mais barato? Primeiro: ele não tem que pegar condução. Segundo: ele tem escolas menos lotadas do que ele teria na periferia. Ele tem mais equipamentos de saúde do que teria na periferia. Ele tem mais transporte, menor desgaste físico. Outra coisa: o custo social de uma pessoa morar longe do centro é maior. Você tem que prover transporte, tem que fazer escola onde não tem escola. Quais são os maiores índices de criminalidade na região de São Paulo? Capão Redondo, Jardim Ângela, Grajaú, Cidade Tiradentes. São os extremos, exatamente pela falta de Estado. Os menores índices de criminalidade estão no centro. Por quê? Porque essas pessoas têm trabalho perto, têm uma oferta de trabalho magnífica, não gastam para tomar condução _que está ficando mais cara_, vão a pé para o trabalho. As escolas do centro têm menos turnos do que as escolas da periferia. A qualidade de vida para o pobre no centro é melhor do que na periferia e o custo social e ambiental de morar longe _muitas vezes as pessoas vão morar na serra da Cantareira, na beira de uma manancial_ é muito maior. É um equívoco essa visão.

FOLHA - Temos um caso de uma senhora de 72 anos que ganha dois salários mínimos e vai perder a bolsa. Perguntamos ao secretário municipal que destino ela poderia ter. Ele respondeu que essa senhora poderia ser encaminhada para um albergue. O senhor considera essa a melhor solução?

TEIXEIRA - É um erro. A realidade tem demonstrado que as soluções individuais são melhores que as soluções coletivas. Na casa dessa senhora, ela tem individualidade, ela tem o seu espaço organizado. Nos espaços coletivos de albergue, você tem que conviver com pessoas de diferentes situações. Tem muita gente que prefere morar na rua do que no albergue, por conta das condições da moradia coletiva. É um equívoco dizer que a solução para esse caso é procurar um albergue. Todas as sinalizações do atual secretário remetem ao passado, não ao futuro. São visões ultrapassadas da realidade das políticas públicas.

FOLHA - O senhor considera a Carta de Crédito uma boa solução?

TEIXEIRA - A Carta de Crédito é uma boa solução. O governo municipal tem uma boa articulação com o governo estadual. A CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Estado de São Paulo) tem condições de operar esse jogo. O secretário municipal da Habitação está com a faca e o queijo na mão, mas com idéias atrasadas.

FOLHA - Muitas pessoas conseguem a Carta de Crédito, mas como o valor é baixo _e proporcional à renda_ não conseguem encontrar uma casa.

TEIXEIRA - A minha opinião é que o Bolsa Aluguel ainda é o melhor programa. Uma pessoa idosa, de dois salários mínimos. Você vai dar uma Carta de Crédito para ela comprar um imóvel. Uma Carta de Crédito custa R$ 20 mil. É muito melhor dar subsídio para o aluguel dela. Ela vai ter problema de renda, talvez o tempo de pagamento não corresponda ao tempo de vida. Se o Estado banca o subsídio para o aluguel, você dá uma tranqüilidade muito maior para a pessoa.

FOLHA - Das atuais políticas de habitação, quais delas o senhor vê como positivas?

TEIXEIRA - A política da atual administração é mera continuidade da política da administração anterior. Todas as favelas que estão sendo urbanizadas foram projetadas e contratadas pela administração anterior. É a mesma situação com todos os conjuntos habitacionais que estão sendo feitos: começaram na gestão passada. A única diferença é que, onde eles pararam os programas, eles estão errando, como no caso do Bolsa Aluguel. O que quero dizer é: o que eles estão fazendo é o que deixamos contratado, e eles estão parando programas importantes. A cidade carece de um programa habitacional adequado.

FOLHA - A integração entre governo municipal, estadual e federal é apontada como uma boa medida para o sucesso de políticas habitacionais. O fato das administrações estarem nas mãos de partidos diferentes atrapalha?

TEIXEIRA - Não atrapalha. Parte dos recursos da urbanização de favelas e dos prédios que estão sendo reformados no centro são do governo federal. É o caso do Hotel São Paulo. Foi reformado, e a parte que ainda não foi feita cabe ao governo municipal. (Folha de São Paulo 8/12/2006).


A seguir o artigo do jornal O Estado de São Paulo de hoje

SP cria 'bolsa aluguel' para morador de rua e estuda projetos de Nova York
Projeto já aprovado por conselho prevê subsídio de até R$ 300 para locação de apartamento, mas exige contrapartida
Camila Viegas-Lee, NOVA YORK
São Paulo ganha por ano mil moradores de rua, 60% deles concentrados na região central. A cada quatro abordados pelos agentes sociais, só um aceita ir para albergues. Diante das dificuldades do modelo atual de atendimento, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social aposta em outra estratégia: criou um tipo de “bolsa aluguel” para subsidiar a locação de apartamentos para quem hoje está nas ruas, mas tem renda de, pelo menos, 2 salários mínimos. Programa semelhante já é adotado em Nova York, visitada na semana passada pelo secretário Floriano Pesaro, que conheceu projetos para a população de rua.O Programa Parceria Social já foi aprovado pelo Conselho Municipal de Habitação e teve as normas publicadas no Diário Oficial da Cidade em fins de setembro. Ele prevê a concessão de subsídio de até R$ 300 por mês para o aluguel de um apartamento. Os principais beneficiados devem ser idosos, mulheres em situação de risco com filhos - que já sofreram violência nas ruas - e deficientes.Os candidatos precisarão oferecer contrapartidas, como pagar despesas de água, luz e Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e depositar 5% do rendimento em cadernetas de poupança. A Prefeitura vai exigir dos beneficiados que tiverem filhos comprovantes de freqüência escolar.Na visita a Nova York, patrocinada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Pesaro conheceu um programa de “bolsa aluguel”, o Advantage New York.Ele foi criado pelo Departamento de Serviços de Moradores de Rua da prefeitura (DHS, na sigla em inglês) para evitar que famílias sejam despejadas, além de incentivar moradores de albergues a se mudarem para apartamentos comuns.O programa garante o pagamento do aluguel por 12 meses, com a possibilidade de renovação por mais 12. O beneficiado precisa trabalhar no mínimo 20 horas semanais e depositar de 10% a 20% da renda na poupança. No fim do ano, o DHS devolve o dinheiro, em dobro.Pesaro afirmou ter visto mais semelhanças que diferenças na população de rua das duas cidades. Assim como em São Paulo, disse, a grande maioria dos moradores de rua de Nova York sofre de distúrbios mentais, é formada por homens e nasceu fora da cidade. Muitos são dependentes de álcool e drogas, egressos de prisões e estão desempregados. Uma população que, no caso dos americanos, cada vez menos recebe tratamento nas ruas - e aqui começam as diferenças em relação a São Paulo. “Demorou para a gente perceber isso, mas os serviços são muito mais eficazes e custam a metade do preço se forem feitos dentro dos albergues”, disse Robert Hess, comissário do DHS há dois e meio. Para Hess, essa foi a maior lição que aprendeu em 15 anos de experiência no setor.Segundo Pesaro, o conceito de dar abrigo antes de prestar qualquer tipo de ajuda pode ser uma grande inovação no Brasil. “Fazemos o inverso em São Paulo. Trabalhamos primeiro nas ruas e depois levamos as pessoas para os albergues.”Pesaro também ficou impressionado com as parcerias do DHS com outros órgãos da prefeitura. Parte disso decorre da estrutura do departamento, que também trata dos sem-teto, população atendida em São Paulo pela Secretaria da Habitação. Com isso, o DHS consegue reservar cotas para assistência social em programas de habitação. “Nova York está muito na frente no ponto de vista de integração das políticas, especialmente de habitação e saúde”, disse Pesaro.Responsável por 219 albergues, que atendem cerca de 35 mil pessoas, o DHS tem um orçamento encorpado, de pouco menos de US$ 1 bilhão, para oferecer subsídios habitacionais e outros tipos de benefício. A secretaria paulistana tem dotação muito menor, equivalente a US$ 30 milhões por ano, embora concentre sua atuação nos cerca de 12 mil moradores de rua da capital e na administração de 35 albergues. Além disso, só recebe dinheiro da Prefeitura, enquanto o DHS conta com mais verbas estaduais e federais (dois terços do total) do que municipais.Outra diferença importante está no perfil dos abrigos, que seguem um modelo tradicional em São Paulo. Foi só no ano passado que a Prefeitura abriu seu primeiro albergue para famílias, com apenas 20 quartos, o Lar de Nazaré, no Brás.Hess, por seu lado, disse que a segmentação por tipo de moradia, com regras flexíveis, tem dado muito mais resultado que os grandes albergues comunitários e suas normas rígidas. “Acabamos de fechar um albergue para 600 pessoas e estamos dando prioridade à construção de moradias para até 200 pessoas, com quartos individuais.” No Times Square Hotel, por exemplo, administrado pela ONG Common Ground, a entrada é controlada com cartão magnético e há 652 unidades individuais para residência permanente. O prédio fica na Rua 43, ao lado do luxuoso hotel Westin. Metade dos residentes tem perfil mais próximo dos moradores de rua. Os outros são trabalhadores de baixa renda - pelo menos para os padrões nova-iorquinos.O primeiro grupo aluga os quartos com o compromisso de pagar um terço do rendimento semanal. “Se eles estão desempregados e não ganham nada, não pagam. Mas a regra é importante para criar o hábito de bancar a moradia”, explica Hilary Morgan, diretora da ONG.A outra metade dos residentes recebe até US$ 30 mil por ano e paga de US$ 425 a US$ 550 por mês. As regras são flexíveis e as unidades funcionam como apartamentos normais. Mas há assistentes sociais e enfermeiros no local e os residentes podem ser despejados por comportamento inadequado. “Precisamos ter uma mudança grande na cultura de acolhimento para adotar esse modelo de autocontrole e motivação no Brasil”, disse Pesaro.