Mostrando postagens com marcador BOPE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BOPE. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Neoconservadorismo e seus cães de guerra


Valor

O filme "Tropa de Elite", de José Padilha, é assustador porque sua intenção de retratar uma realidade - o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio é violento, porém não é corrupto - acabou trazendo à luz do dia uma radicalização que estava latente na chamada opinião pública. Se antes existia um certo recato de defender a violência policial como um "mal necessário" numa sociedade violenta, parece que esse prurido caiu definitivamente por terra. O Brasil mostrou que existe uma parcela de pessoas que considera como direito inalienável a segurança individual, mesmo quando ela representa a insegurança de camadas da população mais vulneráveis às pressões dos agentes públicos, do tráfico de drogas e até às distorções legais e judiciárias. E essas pessoas encontram no discurso anticorrupção a justificativa ética para a defesa da violência policial. O perfil do Bope cai como uma luva para esses neoconservadores.


Ainda bem que existe uma outra parcela que, ao perceber a existência de um seu contrário numericamente maior e mais poderoso do que se supunha, recolocou a questão dos direitos humanos na agenda do país na frente da própria segurança pública. O abaixo-assinado que corre no Rio contra a política de confronto adotada pelo governo do Estado em áreas carentes, que tem produzido vítimas "civis" da polícia aos montes, é um ato de humanidade que anda meio esquecido. É desalentador, no entanto, que, a exemplo dos movimentos pelos direitos humanos no período da ditadura, os organizadores do abaixo-assinado tenham que se dirigir a uma entidade internacional para denunciar desmandos policiais. O documento foi entregue ao observador da Organização das Nações Unidas (ONU) Philip Alston, relator para os crimes de execução sumária, que está no país para investigar as denúncias de execuções sumárias feitas pelas polícias brasileiras.


O discurso que justifica a violência social não é apenas conservador, mas tão claramente elitista que deixa ruborizada qualquer pessoa com uma mínima sensibilidade social. A visão de que há uma guerra em curso, e que faz parte da guerra a morte de inocentes - foi esse, em última instância, o argumento usado pelo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, para justificar as ações de sua polícia no Complexo do Alemão e na Favela da Coréia - é empunhada com surpreendente naturalidade por aqueles que gastaram papel e saliva para defender o direito do apresentador Luciano Hulk de ter um Rolex sem ser importunado por ladrões. A "guerra" justifica a invasão de comunidades pobres e a exposição de suas populações a tiroteios e mortes - ela existe, enfim, para os pobres, mas não pode expor vidas da população de mais alta renda, muito menos ameaçar sua propriedade.



Bope caiu como luva: é violento, mas não corrupto


A "guerra" justifica a militarização da segurança pública; ela é contra a favela. Não é o criminoso violento o objeto da repressão, mas o aglomerado de pobres circunscritos num espaço urbano definido como favela, no Rio, ou periferia, em São Paulo. A favela e a periferia passam a ser, nessa visão autoritária e elitista, a personificação do crime - é o que se chama de criminalização da pobreza. O efeito colateral de uma repressão violenta a esses espaços geográficos de exclusão - a morte de inocentes - é menos condenável do que o roubo de um Rolex de propriedade de uma celebridade.


Se "Tropa de Elite" já mostra essa face da "guerra", o livro "Elite da Tropa" (de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel), que inspirou o filme, não deixa dúvidas de que a ação de segurança pública tornou-se uma operação militar contra a favela. A começar pelos cantos de guerra do Bope lá reproduzidos. "Homem de preto, / qual é sua missão? / É invadir favela / e deixar corpo no chão" - esse é um dos motivadores do grupo de elite da polícia do Rio. "Alegria, alegria, / sinto no meu coração / pois já raiou um novo dia / já vou cumprir minha missão. / Vou me infiltrar na favela / com meu fuzil na mão, / vou combater o inimigo, / provocar destruição", diz outra canção. E que tal essa: "Sou aquele combatente, / que tem o rosto mascarado; / uma tarja negra e amarela, / que ostento em meus braços, / me faz um ser incomum: / um mensageiro da morte. / Posso provar que sou forte, / isso se você viver. / Eu sou... herói da nação." E por fim, a autodefinição maldita, daquele que luta numa guerra maldita, porém necessária: "Você sabe o que eu sou? / Sou o maldito cão de guerra. / Sou treinado para matar. ? Mesmo que custe minha vida, / a missão será cumprida, / seja ela onde for / espalhando a violência, a morte e o terror."


Os cães de guerra dos neoconservadores fazem a política de extermínio. Isso é querer acabar fisicamente com a pobreza. E é surpreendente.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

maria.inesnassif@valor.com.br

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Celluloid Tale of Rio's Drug War, Told From Police Perspective, Is the Talk of Brazil

Washington Post Foreign Service
Monday, October 22, 2007; Page A17

RIO DE JANEIRO -- After taking a phone call last week, director José Padilha stepped onto the patio of his studio and told a business partner that the intense discussion provoked by his latest film had spread to yet another sphere of Brazilian society.

"Now they're going to speak about it in Congress," Padilha said, looking at his watch. "In 20 minutes, someone is going to take the floor and start."



Jose Padilha is the director of
Jose Padilha is the director of "Elite Squad,"
about police officers in a violent struggle against
drug-dealing gangs in Rio's slums.

(By Fred Alves -- The Washington Post)


The film, called "Elite Squad," centers on the police officers who wage war against the drug-dealing gangs that rule Rio's slums, called favelas. The movie has put almost everyone -- from the slums, to the penthouses, to the halls of government -- in the mood to talk about this city's violence.

Even before it was released in theaters this month, "Elite Squad" was Brazil's most-watched movie of the season: The country's leading polling firm estimated that about 11.5 million adults -- as well as an unknown number of children -- had seen the movie on pirated DVDs before its first screenings.

Police initially tried to keep the movie out of theaters, fearing that scenes depicting officers torturing slum dwellers portray their ranks in a bad light. Critics of the police argued that the movie was too sympathetic to corrupt officers, because it presents the action from their point of view. Some nongovernmental organizations objected to the film's suggestion that some activists have aligned themselves with the drug gangs to get access to the favelas.

To Padilha, rather than being controversial, such suggestions should ring true to anyone who has spent any time in a city with one of the world's highest murder rates.

For decades, most of Rio's 600-plus favelas have been ruled by drug-dealing gangs. The police, both military and civil, have waged war on those groups, and they are often criticized for being as brutal -- if not more so -- than the gangs. Shootouts are common, and favela residents are often caught in the crossfire.

On Wednesday, for example, a dozen people -- including a 4-year-old boy -- were killed during a battle between police and gang members in Rio. Local television showed images of residents running in fear as police helicopters circled overhead -- images that people here have been living with for years.

"None of this is rocket science," said Padilha, 40. "These are very simple concepts, and they are all here for everyone to see. Just look around. It's obvious. But just by stating it in a way that shows a little bit of everything in there, it is making this movie an object of social discussion."

Padilha said his intention was to show the drug war from the perspective of a cop and to let the audience judge whether the cop is good, bad or both. For those with firm opinions about Rio's violence, the movie's refusal to impose its own moral is offensive.

Arnaldo Bloch, a columnist for Rio's largest newspaper, O Globo, wrote that showing the unvarnished point of view of a member of the military police special favela units was the equivalent of apologizing for their actions. He labeled the movie "fascist."

The record turnout at theaters -- even though many viewers had already seen the movie at home on DVD -- indicates that a lot of people disagree. Enterprising street dealers have tried to latch on to the movie's success by throwing together footage of police operations and selling DVDs they claim to be sequels.

"I think it's a great movie, and it just shows things that really happen," said Cesar de Assis, 35, a resident of a favela called Chapeu Mangueira. "I've seen the police come into the community, and it happens exactly the way the movie shows."

Miguel Colker, 20, is a student at the Catholic University of Rio, the setting for a couple of scenes in the film. He viewed a pirated copy of "Elite Squad," and its effect on him, he said, has been sobering, literally.

"I haven't smoked pot since I saw the movie," said Colker, who described himself as an occasional user of drugs. "I always knew that of course the drugs here are controlled by the gangs, but seeing it in the movie shocked me a little."

Padilha is a Rio native whose previous film, a documentary called "Bus 174," told the life story of a man who hijacked a city bus, then was killed by the military police. "Elite Squad" was conceived as a companion piece to that film, showing the "other side of the same coin," Padilha said.

He started by trying to tell the story in documentary form. But he quickly realized that police officers wouldn't talk openly about their experiences, he said, so he interviewed about 20 officers and turned their off-the-record stories into fiction. Earlier this month, police officials ordered him to identify the officers who had helped him. Padilha did not appear for questioning after Rio's governor took his side, telling him not to be afraid to defy the police.

The film is fast-paced and hard around the edges, depicting violence unblinkingly. The aesthetic is intended to overwhelm the viewer, Padilha said, not allowing time to make analytical judgments until the film is over. He compares it to downloading a computer program that threatens to crash the system.

"It's creating a chaos of confusion, and that chaos is very interesting from my point of view," Padilha said. "I'm not involved in it now. I'm just sitting back and watching."

Pesquisadores sociais alertam: Bope do 'Tropa de elite' não é a solução contra o crime

O Globo Online Wagner Moura vive um capitão do Bope no filme Tropa de Elite. Foto: divulgação

RIO - Os "caveiras", policiais militares que atuam no Batalhão de Operações Especiais (Bope), ganharam status de heróis com o filme "Tropa de elite", do diretor José Padilha. No longa-metragem, o Bope é apresentado como uma polícia incorruptível, criada exclusivamente para combater o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O jornal "Washington Post" publicou uma reportagem, nesta segunda-feira, afirmando que o filme levantou no Brasil a discussão sobre a violência do Rio. O longa-metragem também foi debatido por dois "caveiras" originais (veja vídeos) , no GLOBO ONLINE. O filme chegou a ser acusado de fazer apologia à tortura . Mas até que ponto criar uma tropa de elite é eficaz no combate ao tráfico?

" Segurança pública é muito mais do que repressão "

O GLOBO ONLINE perguntou aos internautas em que tipo de polícia se deve investir para combater o crime com eficácia ( veja resultado da pesquisa ). Para 53% dos 2.415 participantes, é preciso fortalecer cada vez mais essa polícia de confronto, preparando todos os policiais para se tornarem "caveiras". Outros 38% acham que é preciso aplicar mais recursos de inteligência na polícia. E apenas 9% acreditam que o mais eficaz é investir mais em policiamento comunitário.

O antropólogo da UFRJ Gilberto Velho, autor do livro "Rio de Janeiro: cultura, política e conflito", adivinhou a alternativa preferida da maioria dos leitores sem conhecer o resultado. Segundo ele, não é difícil concluir que uma população aterrorizada por uma guerra sinta falta de combate ostensivo. Ele, no entanto, alerta:

- Segurança pública é muito mais do que repressão. Temos que ter cuidado com isso, porque o Bope, embora tenha atuação importante, não pode ser a concepção do que é polícia. A solução seria alguma coisa próxima da junção entre as duas alternativas menos votadas.

O resultado da enquete também não surpreendeu o sociólogo Ignácio Cano. Para ele, a segurança pública é hoje uma grande preocupação da sociedade carioca e, por isso, já era esperada essa reação.

- As pessoas acham que violência se combate com violência. Poucos acreditam em um investimento em policiamento comunitário por isso - disse, ressaltando que é preciso considerar que, nesse tipo de enquete, normalmente quem responde são as pessoas mais mobilizadas.

O pobre, a maior vítima da violência

O sociólogo acredita que essa não é a solução para o combate ao tráfico. Para ele, por ser um batalhão especial, ele perderia o sentido se todos se tornassem 'caveiras':

- É como se você defendesse que todos os médicos deveriam ser neurocirurgiões. Essa é uma especialização da polícia.

Gilberto Velho sinaliza a saída para os problemas de segurança pública na direção dos investimentos sociais e garante que uma não pode ser separada da outra.

" A guerra tem início, meio e fim. O que a gente vive não tem fim "

- Os locais em que há maior nível de violência da cidade não contam com nenhuma assistência. Não têm saúde, educação, infra-estrutura. O pobre é a maior vítima da violência, que, na maioria das vezes, ocorre ao lado dele. Não dá para falar em segurança sem abordar o aspecto social - completou Velho.

Diferentemente do colega da UFRJ, o professor Cano não vê a situação da violência que o Rio vive hoje como uma guerra. Para ele, uma guerra tem objetivos definidos, além de dois lados estruturados, o que não acontece na cidade.

Cena do filme Tropa de Elite: divulgação

- A guerra tem início meio e fim, o que a gente vive hoje não tem fim. Quando um bandido morre, ele é simplesmente substituído. Isso não acaba. Além disso, você não tem dois lados bem estruturados, com objetivos políticos. Aqui, os objetivos são os lucros individuais - afirmou.

O antropólogo Gilberto Velho lembra, porém, que, na prática, o cenário carioca tem diversos pontos em comum com um conflito bélico tradicional - em número de mortos, presente no toque de recolher existente em diversas favelas e nas paisagens das áreas mais violentas parecidas com as do Iraque.

Para Cano, a melhor solução para o combate ao tráfico seria promover uma mudança na relação com as comunidades. Além disso, seria preciso acabar com essa doutrina que o Bope segue hoje, com um treinamento militar, de combate violento.

Partidário da necessidade de mudanças em algumas esferas da administração pública, como na gestão policial e na aplicação de políticas sociais, Gilberto Velho também critica a passividade da sociedade.

- Falta participação dos cidadãos. A gente consegue reunir 1 milhão de pessoas num show do Rolling Stones, mas não leva 300 para a frente do Palácio Guanabara para protestar contra o governo do estado - finaliza.

domingo, 21 de outubro de 2007

O governador Nascimento ou o capitão Cabral?

OPINIÃO

WÁLTER FANGANIELLO MAIEROVITCH
ESPECIAL PARA A FOLHA DE SÃO PAULO

O governador Sérgio Cabral, com as operações de guerra realizadas nas favelas da Coréia, Rocinha e Dona Marta, legitimou-se para poder pedir ao governo George W. Bush uma "boa-grana" para lançar o "Plan Rio de Janeiro". Algo da série "Plan Colombia" e do recentíssimo "Plan México", dos presidentes Calderon (México) e Bush.
Se faltava sangue, morte de uma criança e helicóptero para matar covardemente suspeitos em fuga, depois da Operação Bope na favela da Coréia tudo ficou completo. Ou melhor, os requisitos básicos foram atendidos para a política bélica do governo Sérgio Cabral adequar-se à "War on Drugs" (Guerra às Drogas). Esta iniciada pelo então presidente Richard Nixon, de triste memória.
A Guerra às Drogas, que emprega o confronto para matar "inimigos", foi ampliada pelo então presidente Ronald Reagan.
Coube a Reagan globalizar a "War on Drugs", pois declarou combate bélico em qualquer ponto do planeta. Como se sabe, queria mesmo um pretexto para invadir países, a fim de combater o comunismo. Na "War on Drugs", que os presidentes pós Nixon, democratas ou republicanos, mantêm até hoje, entraram de cabeça vários ditadores.
Alguns até para "lavar" os indícios de aliados do narcotráfico, como o presidente Hugo Banzer na Bolívia e Noriega no Panamá. E a relação é grande. Por exemplo, a dupla formada pelo ex-presidente Alberto Fujimori e pela eminência parda da ditadura, Wladimiro Montesinos, ex-agente da CIA. Ambos estão presos no Peru. Ainda passa pelos presidentes colombianos Andrés Pastrana e Álvaro Uribe.
Dentro e fora dos Estados Unidos, a militarização do combate às drogas e ao crime organizado que opera o tráfico, a chamada "War on Drugs", faliu. Os norte-americanos são campeões mundiais de consumo de drogas ilícitas.
Apesar do alerta inserto na Convenção de Viena de 1980, pelos sistemas bancário e financeiro internacionais, o mercado das drogas proibidas continua a movimentar anualmente cerca de US$ 300 bilhões.
A operação do Bope na favela da Coréia, com a morte de 15 pessoas, incluídos um menino de quatro anos e um policial, foi uma outra irresponsabilidade do governador Cabral, agora a encarnar o papel de capitão Nascimento.
Mais uma vez, civis inocentes, favelados e pobres, ficaram no meio do fogo-cruzado. E as autoridades fluminenses afirmaram que a ação foi planejada. Como se percebeu, ela foi projetada para a população ficar em risco, entre policiais e traficantes. Traficantes do bando de um tal Márcio da Silva Lima, apelidado de Tola, que, pelo jeito, não está entre os mortos suspeitos de integrar o bando que tem controle social e territorial da Coréia. Para o governo do Rio de Janeiro, antes do confronto foram realizados trabalhos de inteligência. Seguramente, uma inteligência-burra.
Modernamente, a inteligência, no combate às drogas -que é um dos rentáveis negócios da criminalidade organizada-, ocorre pela infiltração voltada a afetar a economia movimentada. Para isso, o infiltrado oferece vantagens à organização criminosa: lavagem, reciclagem, ampliação de lucros, drogas em consignação, armas potentes etc.
Como tais propostas de vantagens dependem sempre da aprovação do "chefão", abre- se caminho para o contato e a coleta de informações. Outra medida utilizada é desplugar o bando das redes de oferta de drogas no atacado e de armas.
Enfim, existem vários caminhos engenhosos em países que, em respeito a direitos humanos e à eficiência no contraste ao crime, não aceitam a fracassada e enganosa política da "War on Drugs".
A "War o Drugs", no momento, só é útil em dois casos. Primeiro, para tentar legitimar o presidente mexicano Calderon, que desde o primeiro dia de mandato guerreia com os cartéis das drogas, sem sucesso e muitas mortes. Segundo, governos populistas, que faturam politicamente em ações espetaculares e de resultados lamentáveis.


WÁLTER FANGANIELLO MAIEROVITCH, 60, desembargador aposentado, ex-secretário nacional antidrogas (governo FHC) e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de contraste às máfias

domingo, 14 de outubro de 2007

Darwin em negativo

"Tropa de Elite" elege seleção natural como princípio e escancara estado de exceção no país

LAYMERT GARCIA DOS SANTOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Tropa de Elite" está dividindo seus espectadores entre os que o defendem como um filme crítico da "realidade brasileira" e os que o qualificam como "fascista" por tomar partido da violência policial contra "os pobres".
No entanto parece ter ficado de fora da polêmica um aspecto essencial de sua construção e da perspectiva desenhada pelo diretor José Padilha: o princípio operatório que lhe confere inteligibilidade.
Com efeito, nesta ficção que se apresenta como um documentário, o que fica evidente é que, no Brasil contemporâneo, não existe mais sociedade -o Estado de Direito e a cidadania sumiram pelo ralo e impera a lei da selva (convém lembrar, porém, que se trata de uma selva construída, e é por isso que os filósofos Francisco de Oliveira e Paulo Arantes têm caracterizado a sociedade brasileira, em seus escritos recentes, como um estado de exceção permanente).
Entretanto, a julgar pela óptica do filme, nem interessa mais desconstruir intelectualmente a selva, porque já teria se tornado consenso que ela não tem nem terá conserto.
É supérfluo analisá-la, a crítica teria ficado sem lugar; e o pensamento daqueles que poderiam ajudar a compreender as relações de poder e dominação -Foucault, Deleuze, Nietzsche e tantos outros- já pode ser desqualificado nas salas de aula das universidades como surreais, juntamente com mauricinhos e patricinhas. Nesse sentido, em termos culturais, "Tropa de Elite" nos põe diante da máxima expressão da série "A Que Ponto Chegamos".
Assim, o filme retrata a "lei" da selva. Mas que lei é essa que, ao mesmo tempo, estrutura a narrativa? O velho e bom princípio biológico darwinista da seleção natural, isto é, a "lei" do mais forte. E se há um "problema" com esse filme, é que ele faz da seleção o seu princípio operatório e a chave do seu sucesso.

Traço comum
"Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, explorou a questão da seleção natural pelo seu viés negativo, tal como ela se exerce no mundo miserável do tráfico da periferia. "Tropa de Elite" a explora pelo seu viés positivo, tal como se exerce na aristocracia da polícia.
Mas há um traço comum: ambos glamourizam a violência pura e seduzem o espectador com a atração da afirmação da força sem limites. Diversos filmes do documentarista Harun Farocki, exibidos em junho no Centro Cultural São Paulo, também lidam com o princípio da seleção; mas lá o cineasta tem um "parti-pris" estético-político que é o contrário do de José Padilha.
Trata-se de criar um distanciamento crítico, suscitado pelo comentário do narrador "off", que permita ao espectador perceber como as sociedades disciplinares e de controle ocidentais (fascistas inclusive) operam a seleção dos mais fracos, sejam eles loucos, prisioneiros, deficientes ou operários, para neutralizá-los e/ou eliminá-los.
E Farocki o faz adotando ora a perspectiva do dispositivo que seleciona, ora o ponto de vista do selecionado, mas sempre mostrando, na imagem, a lógica histórico-social da construção da violência. Nesse sentido, Farocki focaliza a violência pura como violência da sociedade. Não é o que acontece no caso de Padilha. Aqui, a voz "off" nos induz a aderir ao eu do narrador... que é o herói.
Em "Tropa de Elite" estamos diante de uma violência pura naturalizada. O "mais forte" é o "campeão", e seu sentido é assegurar a sua reprodução como vencedor. O policial Nascimento só pode "retirar-se" para cuidar de seu filho quando e porque já fez um outro filho dentro do batalhão, capaz de assegurar a continuidade da espécie.
É interessantíssimo observar o modo como a formação dos eleitos da tropa de elite se inscreve no interior da narrativa policial tradicional quase como um filme dentro do filme.

"Nascido para Matar"
Stanley Kubrick também dedicara parcela importante de seu "Nascido para Matar" para mostrar os horrores e as humilhações inflingidos aos soldados. Mas ali o objetivo visava a desvendar de que modo a máquina militar norte-americana os desumanizava até que se tornassem máquinas de matar.
Em "Tropa de Elite" o resultado é outro, pois, mesmo com toda a ambigüidade do mundo e as angústias do personagem Nascimento, a mensagem que fica é que nem tudo está perdido no Brasil porque, apesar de tudo, há homens que são "homens". E eles nasceram para matar... os bandidos pobres, é claro. Vale dizer: para fazer "saneamento básico", eliminar os inaproveitáveis.
E é aí que o princípio da seleção natural encontra uma perspectiva societária: ao se afirmar dentro dos parâmetros da seleção natural, o mais forte afirma o seu "direito" de fazer limpeza social. Desse modo, a seleção natural positiva se completa com a seleção natural negativa, e os mais fortes de cima se irmanam com os mais fortes vindos de baixo, numa mesma cruzada. Não é à toa que o herdeiro de Nascimento no batalhão é o negro pobre, mas inteligente, que "chega lá".
O filme de Padilha não é apenas a legitimação da boa polícia. É a legitimação dela como vetor de consagração do estado de exceção em que vivemos.


LAYMERT GARCIA DOS SANTOS é sociólogo e professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (SP).

A Violent Police Unit, on Film and in Rio’s Streets

Belemcom, via Reuters

Actors filmed a scene from “Tropa de Elite,” the movie based on BOPE that opened Friday throughout Brazil.


RIO de JANEIRO, Oct. 13 — For Antônia Dalva de Souza, a new movie depicting the violent war between Rio’s drug gangs and an elite police military squad hit too close to home.


Douglas Engle for The New York Times

A badge bears BOPE’s symbol, a skull and crossed pistols.

Douglas Engle for The New York Times

A member of the State Police Special Operations Battalion, known as BOPE, stood guard in the Parada de Lucas slum in Rio de Janeiro during an occupation in 2005 after eight kidnappings in which drug dealers were suspected.

Her hillside house, with its flimsy hollow brick walls, was riddled by police bullets this year. A round scar on her upper arm came from a bullet fired in a recent police crackdown, she said. Another stray bullet killed her 5-year-old daughter, Joyce, in 1995, as she lay beside her in bed. She suspects the police fired the shot.

“They come in firing,” Ms. de Souza, 32, said. “My kids crawl under the bed when the shooting begins.”

Residents of the Vila Cruzeiro slum here, one of the more violent in Rio, say they have been under siege for the past month from the black-clad, beret-wearing State Police Special Operations Battalion, better known as BOPE by Brazilians. Battalion members ride in on heavy armored vehicles bearing the force’s symbol, a skull and crossed pistols, or on foot, moving with frightening, catlike speed and efficiency.

Like seemingly every other Rio resident, Ms. de Souza has seen “Tropa de Elite,” or “Elite Squad,” a new Brazilian drama based on life inside BOPE, which is tasked with combating the city’s drug traffickers.

The movie, which opened nationwide on Friday but last week in Rio and São Paulo, has offered a rare look into the battalion, which is depicted as killing and torturing, seemingly at will. It is causing many Brazilians to reflect on what level of violence is acceptable from the police, especially in Rio, a city with a homicide rate more than six times higher than New York City’s.

In particular, torture is presented in the film as a near constant aspect of urban violence in Brazil, with police officers and traffickers competing to outdo each other on the brutality scale.

Even before it hit theaters, “Elite Squad” was already on its way to becoming one of Brazil’s biggest movies. A pirated DVD version was seen by nearly 11.5 million people, the polling organization Ibope said.

Efforts by the Rio police to keep the movie out of theaters failed. And on Thursday a police colonel in an internal affairs unit demanded that José Padilha, the director, appear for questioning on Monday. Mr. Padilha said Friday that it was part of a police effort to root out the officers who helped him make “Elite Squad.” Gov. Sérgio Cabral of Rio advised him to ignore the request. “The police are trying to persecute everybody that worked on this film,” Mr. Padilha said.

No film has caused such a stir here since “City of God,” an acclaimed 2002 look at Rio’s favelas, or slums, from the perspective of drug dealers. “Elite Squad” has made almost everyone who has seen it squirm, prompting, for example, a debate about whether hedonistic drug use by Rio’s rich and middle class is to blame for the city’s war.

The film traces the true story of Operation Holiness, the 1997 BOPE effort to exterminate a drug gang working in a favela near the home of Rio’s archbishop. BOPE was tasked with making the area safe for a brief visit by Pope John Paul II.

During the four-month operation, BOPE killed about 30 people and arrested 30, including the two drug kingpins, said Rodrigo Pimentel, a former BOPE officer who led the operation and co-wrote the book that inspired the movie. At least two bystanders were among the dead.

Back then, BOPE had about 120 members and was considered a haven for honest officers in Rio. The force has grown to more than 400 today, and its reputation for being incorruptible is fading.

But its reputation for brutality is almost indisputable. In a city fed up with violent crime, the movie’s fictional protagonist, Capt. Roberto Nascimento, has been lionized by many here for his ruthless, deadly style in taking on criminals.

It is not unlike the way Americans have grown to admire the fictional Agent Jack Bauer of the television series “24,” whose no-holds-barred style strikes a chord in a society on edge over terrorist threats. Both men are deeply troubled. Captain Nascimento, played by the actor Wagner Moura, suffers from wrenching panic attacks and struggles to separate his violent night world from his family life.

The captain and his men incessantly slap drug suspects and cover their heads with plastic bags until they spit blood. “Put it on the pope’s tab,” the captain says when a fellow squad member asks him whether to finish off a torture victim. It was a line BOPE members often said during the real operation, Mr. Pimentel said.

Reactions to the Nascimento character seem to have broken down along class lines. “He brings security to us rich and middle-class people,” said Aletea de Souza, a fitness trainer, after a showing on Sunday in Leblon, one of Rio’s wealthiest neighborhoods. “I wouldn’t say he’s a hero, but he’s a barrier, between the good and the bad.”

In Vila Cruzeiro that kind of attitude is breeding concern that the film glorifies BOPE. “This is a dangerous movie,” said Nanko G. van Buuren, who directs the Brazilian Institute of Innovations in Social Health, a nongovernmental organization in the favela. “The BOPE are torturing, and they are killing, and that is not O.K.” Children in the favela wear black and playact torture sessions, placing plastic bags over the heads of friends, he said.

Mr. Padilha said the eye-for-an-eye reaction of many Brazilians surprised him. He said he set out to make a film denouncing violence and torture. Mr. Moura, the actor, said he thought it was “impossible that people in Finland or Sweden would see these police as heroes, police that torture and kill,” while many Brazilians clearly respect Captain Nascimento.

Mr. Pimentel, who resigned from BOPE in 1998 after six years, says the movie is arriving at a time of outrage among residents over violence in Rio. A particularly shocking case was the death in February of João Helio Fernandes, 6, who was dragged more than four miles by a seat belt after two teenagers stole his family’s car at gunpoint.

Mr. Pimentel said he became disillusioned with BOPE after Operation Holiness. “The police have forgotten their main mission,” he said. “We were not there to serve and protect. We were just fighting a private war against the drug traffickers.”

Mery Galanternick and Joshua Schneyer contributed reporting.