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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Neoconservadorismo e seus cães de guerra


Valor

O filme "Tropa de Elite", de José Padilha, é assustador porque sua intenção de retratar uma realidade - o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio é violento, porém não é corrupto - acabou trazendo à luz do dia uma radicalização que estava latente na chamada opinião pública. Se antes existia um certo recato de defender a violência policial como um "mal necessário" numa sociedade violenta, parece que esse prurido caiu definitivamente por terra. O Brasil mostrou que existe uma parcela de pessoas que considera como direito inalienável a segurança individual, mesmo quando ela representa a insegurança de camadas da população mais vulneráveis às pressões dos agentes públicos, do tráfico de drogas e até às distorções legais e judiciárias. E essas pessoas encontram no discurso anticorrupção a justificativa ética para a defesa da violência policial. O perfil do Bope cai como uma luva para esses neoconservadores.


Ainda bem que existe uma outra parcela que, ao perceber a existência de um seu contrário numericamente maior e mais poderoso do que se supunha, recolocou a questão dos direitos humanos na agenda do país na frente da própria segurança pública. O abaixo-assinado que corre no Rio contra a política de confronto adotada pelo governo do Estado em áreas carentes, que tem produzido vítimas "civis" da polícia aos montes, é um ato de humanidade que anda meio esquecido. É desalentador, no entanto, que, a exemplo dos movimentos pelos direitos humanos no período da ditadura, os organizadores do abaixo-assinado tenham que se dirigir a uma entidade internacional para denunciar desmandos policiais. O documento foi entregue ao observador da Organização das Nações Unidas (ONU) Philip Alston, relator para os crimes de execução sumária, que está no país para investigar as denúncias de execuções sumárias feitas pelas polícias brasileiras.


O discurso que justifica a violência social não é apenas conservador, mas tão claramente elitista que deixa ruborizada qualquer pessoa com uma mínima sensibilidade social. A visão de que há uma guerra em curso, e que faz parte da guerra a morte de inocentes - foi esse, em última instância, o argumento usado pelo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, para justificar as ações de sua polícia no Complexo do Alemão e na Favela da Coréia - é empunhada com surpreendente naturalidade por aqueles que gastaram papel e saliva para defender o direito do apresentador Luciano Hulk de ter um Rolex sem ser importunado por ladrões. A "guerra" justifica a invasão de comunidades pobres e a exposição de suas populações a tiroteios e mortes - ela existe, enfim, para os pobres, mas não pode expor vidas da população de mais alta renda, muito menos ameaçar sua propriedade.



Bope caiu como luva: é violento, mas não corrupto


A "guerra" justifica a militarização da segurança pública; ela é contra a favela. Não é o criminoso violento o objeto da repressão, mas o aglomerado de pobres circunscritos num espaço urbano definido como favela, no Rio, ou periferia, em São Paulo. A favela e a periferia passam a ser, nessa visão autoritária e elitista, a personificação do crime - é o que se chama de criminalização da pobreza. O efeito colateral de uma repressão violenta a esses espaços geográficos de exclusão - a morte de inocentes - é menos condenável do que o roubo de um Rolex de propriedade de uma celebridade.


Se "Tropa de Elite" já mostra essa face da "guerra", o livro "Elite da Tropa" (de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel), que inspirou o filme, não deixa dúvidas de que a ação de segurança pública tornou-se uma operação militar contra a favela. A começar pelos cantos de guerra do Bope lá reproduzidos. "Homem de preto, / qual é sua missão? / É invadir favela / e deixar corpo no chão" - esse é um dos motivadores do grupo de elite da polícia do Rio. "Alegria, alegria, / sinto no meu coração / pois já raiou um novo dia / já vou cumprir minha missão. / Vou me infiltrar na favela / com meu fuzil na mão, / vou combater o inimigo, / provocar destruição", diz outra canção. E que tal essa: "Sou aquele combatente, / que tem o rosto mascarado; / uma tarja negra e amarela, / que ostento em meus braços, / me faz um ser incomum: / um mensageiro da morte. / Posso provar que sou forte, / isso se você viver. / Eu sou... herói da nação." E por fim, a autodefinição maldita, daquele que luta numa guerra maldita, porém necessária: "Você sabe o que eu sou? / Sou o maldito cão de guerra. / Sou treinado para matar. ? Mesmo que custe minha vida, / a missão será cumprida, / seja ela onde for / espalhando a violência, a morte e o terror."


Os cães de guerra dos neoconservadores fazem a política de extermínio. Isso é querer acabar fisicamente com a pobreza. E é surpreendente.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

maria.inesnassif@valor.com.br

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Tropa da Elite


José Pedro Goulart
Eduardo Rocca/Terra

Polícia Federal em operação de combate à pirataria: "um furo no sistema, ué!"



Ok, você está cheio desse assunto; já leu a respeito, discutiu com os amigos, debateu no trabalho, na sala de aula, enfim. Bom, se é o seu caso, procure outras matérias, eu não vou me importar. Eu vou é botar a minha colher torta nesse bolo que, aliás, vem recheado com muita coisa, menos farinha.

Estou no shopping (onde mais poderia estar?), assistindo ao filme em questão. Há fúria na tela. Na platéia, setenta por cento de adolescentes estão imersos nessa fúria. A música urra: TROPA DE ELITE PEGA UM, PEGA GERAL, TAMBÉM VAI PEGAR VOCÊ - é punk, voz metaleira; o som dolby estéreo amplifica os tiros, os gritos. Atrás de mim um garoto de 16 repete alguns diálogos do filme - quantas vezes terá ele visto o filme para isso? O capitão Nascimento, o mocinho do filme, se culpa, se justifica, se purifica. Nessa ordem. O nome do capitão é Nascimento, veja só, e no filme ele espera o nascimento de um filho. E também torce para que nasça um novo capitão Nascimento. E o "Tropa de Elite" vê "nascer" um ideário de força e repressão que andava latente - mas contido - junto à população.

No Rio, um grupamento do BOPE passa em treinamento perto da praia. A galera pára o que está fazendo e se vira para aplaudir. No cinema, em várias sessões, foram testemunhadas verdadeiras ovações no final. Gritos de "caveira!!" foram ouvidos em outras. Parte da população vê no filme um modo de desatar o nó da questão da insegurança no país: é isso, é preciso reagir com força. O capitão Nascimento tem métodos discutíveis? Ok, mas o próprio filme inicia dizendo que a ação das pessoas depende das circunstâncias. E as circunstâncias no filme estão sempre justificando o arbítrio, a esquematização simplória entre um lado e outro. Os autores do filme avisam que o filme apenas coloca a problemática nas telas, e que o personagem vivido pelo Wagner Moura não é herói.

Mas é mentira.

É evidente que o filme glorifica o capitão Nascimento. Sujeito leal à corporação, incorruptível, que chega a brigar com a mulher quando se viu tomando uma decisão errada - por influência dela - e um companheiro morreu. Sujeito capaz de se enternecer diante de uma mãe que não pode velar o filho morto (então invade a favela e, em troca de alguns sopapos, desenterra o corpo). Nascimento "é" o filme, sua alma, sua justificativa. É por causa dele que o BOPE é aplaudido na rua. E é por causa dele que a polícia se sente liberada de atirar em bandidos correndo em um descampado de dentro de um helicóptero. É por causa dele, pela admiração que provoca, que o menino de 16 anos, atrás de mim no cinema, repete os diálogos do filme. A população baba, esbraveja, acompanha: Caveira!!

"Tropa de Elite" aponta: A culpa é do sistema! O sistema que cria policiais corruptos, o sistema que amordaça e impede que se saia dele. ONGs de mentira, passeatas pacifistas fajutas, jovens de classe média alta sustentando o tráfico. É o sistema. Contra ele a farda, a lógica da repressão e da tortura, a elite da tropa - só a elite é incorruptível. Já vimos esse filme nesse país. Será preciso reprisá-lo?

Aliás, os produtores do filme reclamam que o filme foi pirateado antes de chegar aos cinemas. Ótimo. A pirataria é um furo no sistema, ué. Só que num outro sistema - esse outro que o filme aparentemente desconsidera. Um sistema que cria sub-sistemas, como o da corrupção da polícia. Um sistema permanentemente cioso de suas razões. Um sistema, do qual eu e você fazemos parte, aliás; que precisa, necessita, torce e luta por uma Tropa de Elite que o proteja. E o mantenha.


José Pedro Goulart é jornalista, cineasta e diretor de filmes publicitários.

Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br

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Ganhei meu dia

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Celluloid Tale of Rio's Drug War, Told From Police Perspective, Is the Talk of Brazil

Washington Post Foreign Service
Monday, October 22, 2007; Page A17

RIO DE JANEIRO -- After taking a phone call last week, director José Padilha stepped onto the patio of his studio and told a business partner that the intense discussion provoked by his latest film had spread to yet another sphere of Brazilian society.

"Now they're going to speak about it in Congress," Padilha said, looking at his watch. "In 20 minutes, someone is going to take the floor and start."



Jose Padilha is the director of
Jose Padilha is the director of "Elite Squad,"
about police officers in a violent struggle against
drug-dealing gangs in Rio's slums.

(By Fred Alves -- The Washington Post)


The film, called "Elite Squad," centers on the police officers who wage war against the drug-dealing gangs that rule Rio's slums, called favelas. The movie has put almost everyone -- from the slums, to the penthouses, to the halls of government -- in the mood to talk about this city's violence.

Even before it was released in theaters this month, "Elite Squad" was Brazil's most-watched movie of the season: The country's leading polling firm estimated that about 11.5 million adults -- as well as an unknown number of children -- had seen the movie on pirated DVDs before its first screenings.

Police initially tried to keep the movie out of theaters, fearing that scenes depicting officers torturing slum dwellers portray their ranks in a bad light. Critics of the police argued that the movie was too sympathetic to corrupt officers, because it presents the action from their point of view. Some nongovernmental organizations objected to the film's suggestion that some activists have aligned themselves with the drug gangs to get access to the favelas.

To Padilha, rather than being controversial, such suggestions should ring true to anyone who has spent any time in a city with one of the world's highest murder rates.

For decades, most of Rio's 600-plus favelas have been ruled by drug-dealing gangs. The police, both military and civil, have waged war on those groups, and they are often criticized for being as brutal -- if not more so -- than the gangs. Shootouts are common, and favela residents are often caught in the crossfire.

On Wednesday, for example, a dozen people -- including a 4-year-old boy -- were killed during a battle between police and gang members in Rio. Local television showed images of residents running in fear as police helicopters circled overhead -- images that people here have been living with for years.

"None of this is rocket science," said Padilha, 40. "These are very simple concepts, and they are all here for everyone to see. Just look around. It's obvious. But just by stating it in a way that shows a little bit of everything in there, it is making this movie an object of social discussion."

Padilha said his intention was to show the drug war from the perspective of a cop and to let the audience judge whether the cop is good, bad or both. For those with firm opinions about Rio's violence, the movie's refusal to impose its own moral is offensive.

Arnaldo Bloch, a columnist for Rio's largest newspaper, O Globo, wrote that showing the unvarnished point of view of a member of the military police special favela units was the equivalent of apologizing for their actions. He labeled the movie "fascist."

The record turnout at theaters -- even though many viewers had already seen the movie at home on DVD -- indicates that a lot of people disagree. Enterprising street dealers have tried to latch on to the movie's success by throwing together footage of police operations and selling DVDs they claim to be sequels.

"I think it's a great movie, and it just shows things that really happen," said Cesar de Assis, 35, a resident of a favela called Chapeu Mangueira. "I've seen the police come into the community, and it happens exactly the way the movie shows."

Miguel Colker, 20, is a student at the Catholic University of Rio, the setting for a couple of scenes in the film. He viewed a pirated copy of "Elite Squad," and its effect on him, he said, has been sobering, literally.

"I haven't smoked pot since I saw the movie," said Colker, who described himself as an occasional user of drugs. "I always knew that of course the drugs here are controlled by the gangs, but seeing it in the movie shocked me a little."

Padilha is a Rio native whose previous film, a documentary called "Bus 174," told the life story of a man who hijacked a city bus, then was killed by the military police. "Elite Squad" was conceived as a companion piece to that film, showing the "other side of the same coin," Padilha said.

He started by trying to tell the story in documentary form. But he quickly realized that police officers wouldn't talk openly about their experiences, he said, so he interviewed about 20 officers and turned their off-the-record stories into fiction. Earlier this month, police officials ordered him to identify the officers who had helped him. Padilha did not appear for questioning after Rio's governor took his side, telling him not to be afraid to defy the police.

The film is fast-paced and hard around the edges, depicting violence unblinkingly. The aesthetic is intended to overwhelm the viewer, Padilha said, not allowing time to make analytical judgments until the film is over. He compares it to downloading a computer program that threatens to crash the system.

"It's creating a chaos of confusion, and that chaos is very interesting from my point of view," Padilha said. "I'm not involved in it now. I'm just sitting back and watching."

domingo, 14 de outubro de 2007

Darwin em negativo

"Tropa de Elite" elege seleção natural como princípio e escancara estado de exceção no país

LAYMERT GARCIA DOS SANTOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Tropa de Elite" está dividindo seus espectadores entre os que o defendem como um filme crítico da "realidade brasileira" e os que o qualificam como "fascista" por tomar partido da violência policial contra "os pobres".
No entanto parece ter ficado de fora da polêmica um aspecto essencial de sua construção e da perspectiva desenhada pelo diretor José Padilha: o princípio operatório que lhe confere inteligibilidade.
Com efeito, nesta ficção que se apresenta como um documentário, o que fica evidente é que, no Brasil contemporâneo, não existe mais sociedade -o Estado de Direito e a cidadania sumiram pelo ralo e impera a lei da selva (convém lembrar, porém, que se trata de uma selva construída, e é por isso que os filósofos Francisco de Oliveira e Paulo Arantes têm caracterizado a sociedade brasileira, em seus escritos recentes, como um estado de exceção permanente).
Entretanto, a julgar pela óptica do filme, nem interessa mais desconstruir intelectualmente a selva, porque já teria se tornado consenso que ela não tem nem terá conserto.
É supérfluo analisá-la, a crítica teria ficado sem lugar; e o pensamento daqueles que poderiam ajudar a compreender as relações de poder e dominação -Foucault, Deleuze, Nietzsche e tantos outros- já pode ser desqualificado nas salas de aula das universidades como surreais, juntamente com mauricinhos e patricinhas. Nesse sentido, em termos culturais, "Tropa de Elite" nos põe diante da máxima expressão da série "A Que Ponto Chegamos".
Assim, o filme retrata a "lei" da selva. Mas que lei é essa que, ao mesmo tempo, estrutura a narrativa? O velho e bom princípio biológico darwinista da seleção natural, isto é, a "lei" do mais forte. E se há um "problema" com esse filme, é que ele faz da seleção o seu princípio operatório e a chave do seu sucesso.

Traço comum
"Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, explorou a questão da seleção natural pelo seu viés negativo, tal como ela se exerce no mundo miserável do tráfico da periferia. "Tropa de Elite" a explora pelo seu viés positivo, tal como se exerce na aristocracia da polícia.
Mas há um traço comum: ambos glamourizam a violência pura e seduzem o espectador com a atração da afirmação da força sem limites. Diversos filmes do documentarista Harun Farocki, exibidos em junho no Centro Cultural São Paulo, também lidam com o princípio da seleção; mas lá o cineasta tem um "parti-pris" estético-político que é o contrário do de José Padilha.
Trata-se de criar um distanciamento crítico, suscitado pelo comentário do narrador "off", que permita ao espectador perceber como as sociedades disciplinares e de controle ocidentais (fascistas inclusive) operam a seleção dos mais fracos, sejam eles loucos, prisioneiros, deficientes ou operários, para neutralizá-los e/ou eliminá-los.
E Farocki o faz adotando ora a perspectiva do dispositivo que seleciona, ora o ponto de vista do selecionado, mas sempre mostrando, na imagem, a lógica histórico-social da construção da violência. Nesse sentido, Farocki focaliza a violência pura como violência da sociedade. Não é o que acontece no caso de Padilha. Aqui, a voz "off" nos induz a aderir ao eu do narrador... que é o herói.
Em "Tropa de Elite" estamos diante de uma violência pura naturalizada. O "mais forte" é o "campeão", e seu sentido é assegurar a sua reprodução como vencedor. O policial Nascimento só pode "retirar-se" para cuidar de seu filho quando e porque já fez um outro filho dentro do batalhão, capaz de assegurar a continuidade da espécie.
É interessantíssimo observar o modo como a formação dos eleitos da tropa de elite se inscreve no interior da narrativa policial tradicional quase como um filme dentro do filme.

"Nascido para Matar"
Stanley Kubrick também dedicara parcela importante de seu "Nascido para Matar" para mostrar os horrores e as humilhações inflingidos aos soldados. Mas ali o objetivo visava a desvendar de que modo a máquina militar norte-americana os desumanizava até que se tornassem máquinas de matar.
Em "Tropa de Elite" o resultado é outro, pois, mesmo com toda a ambigüidade do mundo e as angústias do personagem Nascimento, a mensagem que fica é que nem tudo está perdido no Brasil porque, apesar de tudo, há homens que são "homens". E eles nasceram para matar... os bandidos pobres, é claro. Vale dizer: para fazer "saneamento básico", eliminar os inaproveitáveis.
E é aí que o princípio da seleção natural encontra uma perspectiva societária: ao se afirmar dentro dos parâmetros da seleção natural, o mais forte afirma o seu "direito" de fazer limpeza social. Desse modo, a seleção natural positiva se completa com a seleção natural negativa, e os mais fortes de cima se irmanam com os mais fortes vindos de baixo, numa mesma cruzada. Não é à toa que o herdeiro de Nascimento no batalhão é o negro pobre, mas inteligente, que "chega lá".
O filme de Padilha não é apenas a legitimação da boa polícia. É a legitimação dela como vetor de consagração do estado de exceção em que vivemos.


LAYMERT GARCIA DOS SANTOS é sociólogo e professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (SP).

Ganhei meu dia

Primeiro, porque voltando do cinema encontrei um post de Sylvia que disse:

Sylvia

A voracidade de seu blog me surpreendeu.
A quantidade, a diversidade e a qualidade das informações deram um nó na minha cabeça, acostumada a olhar o mundo pelo buraco de uma fechadura.

Não sei se conheço a leitora Sylvia, mas que é um baita encorajamento, isso é.

Segundo, porque quebrando uma reticência para com tudo o que é muito badalado na mídia, assisti ao "Tropa de Elite", o filme que não foi escolhido para representar o Brasil no Oscar do estrangeiro em Hollywood.

A Globo gostou do filme, eu não. Os estereótipos, de qualquer espécie, me resultam indigestos e essa estória de bandidos e mocinhos made in favela do Rio -mesmo bem filmada- é primária.

PM corrupta, pacifistas idiotas úteis (logicamente maconheiros) e BOPE puro -na purificação redentora do extermínio do mal- parece série B ou novela da Globo (com mais violência e menos sexo, ponto para a... novela).

A moral da estória (se moral há, tenho dúvidas) é que só a violência é pura quando empregada para fazer o bem (eliminar o tráfico). Os policiais corruptos são eliminados pela violência da escolha da elite. O BOPE é brutal na seleção, brutal nas marchas que acompanham o treinamento, brutal no trato de todas e todos os que não representam a missão purificadora. A tortura é o instrumento redentor, permitindo a progressão da "salvação" no interior da favela. A escória é eliminada. O "herói" se robotiza na função exterminadora, preparando um mundo limpo para seu filho.

Simbolicamente os responsáveis do "sistema", que fazem a força do tráfico, são os consumidores da classe média, que ao mesmo tempo com suas ONGs sociais e suas marchas pacifistas preservam o poder dos marginais.

Ganhei meu dia, porque assistir ao filme me permitiu entender porque a Globo gostou.

E entender, me faz sentir que o dia valeu a pena. Porque gosto da frase do filósofo Spinoza: "Nem rir, nem chorar, mas compreender".

Luis Favre

A Violent Police Unit, on Film and in Rio’s Streets

Belemcom, via Reuters

Actors filmed a scene from “Tropa de Elite,” the movie based on BOPE that opened Friday throughout Brazil.


RIO de JANEIRO, Oct. 13 — For Antônia Dalva de Souza, a new movie depicting the violent war between Rio’s drug gangs and an elite police military squad hit too close to home.


Douglas Engle for The New York Times

A badge bears BOPE’s symbol, a skull and crossed pistols.

Douglas Engle for The New York Times

A member of the State Police Special Operations Battalion, known as BOPE, stood guard in the Parada de Lucas slum in Rio de Janeiro during an occupation in 2005 after eight kidnappings in which drug dealers were suspected.

Her hillside house, with its flimsy hollow brick walls, was riddled by police bullets this year. A round scar on her upper arm came from a bullet fired in a recent police crackdown, she said. Another stray bullet killed her 5-year-old daughter, Joyce, in 1995, as she lay beside her in bed. She suspects the police fired the shot.

“They come in firing,” Ms. de Souza, 32, said. “My kids crawl under the bed when the shooting begins.”

Residents of the Vila Cruzeiro slum here, one of the more violent in Rio, say they have been under siege for the past month from the black-clad, beret-wearing State Police Special Operations Battalion, better known as BOPE by Brazilians. Battalion members ride in on heavy armored vehicles bearing the force’s symbol, a skull and crossed pistols, or on foot, moving with frightening, catlike speed and efficiency.

Like seemingly every other Rio resident, Ms. de Souza has seen “Tropa de Elite,” or “Elite Squad,” a new Brazilian drama based on life inside BOPE, which is tasked with combating the city’s drug traffickers.

The movie, which opened nationwide on Friday but last week in Rio and São Paulo, has offered a rare look into the battalion, which is depicted as killing and torturing, seemingly at will. It is causing many Brazilians to reflect on what level of violence is acceptable from the police, especially in Rio, a city with a homicide rate more than six times higher than New York City’s.

In particular, torture is presented in the film as a near constant aspect of urban violence in Brazil, with police officers and traffickers competing to outdo each other on the brutality scale.

Even before it hit theaters, “Elite Squad” was already on its way to becoming one of Brazil’s biggest movies. A pirated DVD version was seen by nearly 11.5 million people, the polling organization Ibope said.

Efforts by the Rio police to keep the movie out of theaters failed. And on Thursday a police colonel in an internal affairs unit demanded that José Padilha, the director, appear for questioning on Monday. Mr. Padilha said Friday that it was part of a police effort to root out the officers who helped him make “Elite Squad.” Gov. Sérgio Cabral of Rio advised him to ignore the request. “The police are trying to persecute everybody that worked on this film,” Mr. Padilha said.

No film has caused such a stir here since “City of God,” an acclaimed 2002 look at Rio’s favelas, or slums, from the perspective of drug dealers. “Elite Squad” has made almost everyone who has seen it squirm, prompting, for example, a debate about whether hedonistic drug use by Rio’s rich and middle class is to blame for the city’s war.

The film traces the true story of Operation Holiness, the 1997 BOPE effort to exterminate a drug gang working in a favela near the home of Rio’s archbishop. BOPE was tasked with making the area safe for a brief visit by Pope John Paul II.

During the four-month operation, BOPE killed about 30 people and arrested 30, including the two drug kingpins, said Rodrigo Pimentel, a former BOPE officer who led the operation and co-wrote the book that inspired the movie. At least two bystanders were among the dead.

Back then, BOPE had about 120 members and was considered a haven for honest officers in Rio. The force has grown to more than 400 today, and its reputation for being incorruptible is fading.

But its reputation for brutality is almost indisputable. In a city fed up with violent crime, the movie’s fictional protagonist, Capt. Roberto Nascimento, has been lionized by many here for his ruthless, deadly style in taking on criminals.

It is not unlike the way Americans have grown to admire the fictional Agent Jack Bauer of the television series “24,” whose no-holds-barred style strikes a chord in a society on edge over terrorist threats. Both men are deeply troubled. Captain Nascimento, played by the actor Wagner Moura, suffers from wrenching panic attacks and struggles to separate his violent night world from his family life.

The captain and his men incessantly slap drug suspects and cover their heads with plastic bags until they spit blood. “Put it on the pope’s tab,” the captain says when a fellow squad member asks him whether to finish off a torture victim. It was a line BOPE members often said during the real operation, Mr. Pimentel said.

Reactions to the Nascimento character seem to have broken down along class lines. “He brings security to us rich and middle-class people,” said Aletea de Souza, a fitness trainer, after a showing on Sunday in Leblon, one of Rio’s wealthiest neighborhoods. “I wouldn’t say he’s a hero, but he’s a barrier, between the good and the bad.”

In Vila Cruzeiro that kind of attitude is breeding concern that the film glorifies BOPE. “This is a dangerous movie,” said Nanko G. van Buuren, who directs the Brazilian Institute of Innovations in Social Health, a nongovernmental organization in the favela. “The BOPE are torturing, and they are killing, and that is not O.K.” Children in the favela wear black and playact torture sessions, placing plastic bags over the heads of friends, he said.

Mr. Padilha said the eye-for-an-eye reaction of many Brazilians surprised him. He said he set out to make a film denouncing violence and torture. Mr. Moura, the actor, said he thought it was “impossible that people in Finland or Sweden would see these police as heroes, police that torture and kill,” while many Brazilians clearly respect Captain Nascimento.

Mr. Pimentel, who resigned from BOPE in 1998 after six years, says the movie is arriving at a time of outrage among residents over violence in Rio. A particularly shocking case was the death in February of João Helio Fernandes, 6, who was dragged more than four miles by a seat belt after two teenagers stole his family’s car at gunpoint.

Mr. Pimentel said he became disillusioned with BOPE after Operation Holiness. “The police have forgotten their main mission,” he said. “We were not there to serve and protect. We were just fighting a private war against the drug traffickers.”

Mery Galanternick and Joshua Schneyer contributed reporting.

domingo, 7 de outubro de 2007

O ano em que daremos férias à tropa de elite


Nem tudo se perdeu: ainda há o cidadão comum

Jurandir Freire Costa*

O Estado de São Paulo

Dois filmes brasileiros, O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, e Tropa de Elite, de José Padilha, candidataram-se a representar o Brasil na competição pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. O primeiro foi escolhido, dividindo as opiniões divulgadas pela mídia. Deixo a quem compete o trabalho de dizer qual deles dispõe das qualidades técnicas e artísticas com mais chances de premiação. De minha perspectiva, importante é discutir a imagem da cultura brasileira apresentada pelos dois. Desse aspecto, julgo que ambos sejam extremamente bem-sucedidos.

No filme de Cao Hamburger, o Brasil dos anos 70 é visto pelo olhar de um garoto, cujos pais são obrigados a fugir da repressão policial no período da ditadura militar. A criança deveria ser deixada com o avô, que, nesse entretempo, morre. Sozinho e sem ter a quem recorrer, o menino é cuidado pela comunidade judaica, à qual o avô pertencia. No final, a mãe retorna. O filme dá a entender que tanto ela quanto o marido haviam sido torturados e o último havia morrido. O menino é exilado com a mãe e, ao se despedir carinhosamente dos que o ajudaram - em especial do velho vizinho do avô, figura central no enredo -, pensa em off que “ser exilado é ter um pai que se atrasa tanto, tanto, que nunca chega”.

Tropa de Elite, ao contrário, mostra o Brasil de hoje. Precisamente, o Rio de Janeiro de 1997, por ocasião da visita do papa João Paulo II. O pano de fundo é totalmente diverso: favelas, tráfico de drogas, corrupção policial e, por fim, as entranhas do Bope, a tropa policial de elite que dá título ao filme. Se o inferno tivesse alguma feição, com certeza seria algo semelhante ao que o diretor nos faz ver. Nos guetos marginais das favelas, miséria socioeconômica e miséria moral dão-se as mãos na corrida desenfreada de delinqüentes e policiais para provar quem consegue ser mais violento. Tortura, sanguinolência, delação, falta de escrúpulos, tudo fede à mais estúpida desumanidade. José Padilha não poupa talento e recursos dramatúrgicos para deixar-nos cara a cara com o que de mais macabro produzimos em matéria de desrespeito à vida e à dignidade da pessoa. Instituições falidas e indivíduos desencantados debatem-se como moscas tentando escapar da maligna teia de destruição que se contrai e os tritura de forma inexorável. É o lado do Brasil cronicamente inviável, fluindo num jorro de imagens que comovem, dão repulsa e fazem pensar.

A pergunta é inevitável: o que nos aconteceu entre 1970 e 2007? Várias hipóteses podem ser levantadas. A que mais facilmente vem à tona é de ordem político-econômica. Perdemos, afirmam alguns, as aspirações da geração 1968. Nosso destino histórico foi entregue à sede de lucros materiais e o resultado veio a galope: individualismo à outrance, consumismo, cinismo, evasão pelo entretenimento e adoração drogada do próprio corpo. A tese é discutível em alguns pontos, mas, certamente, há algo de verdade na explicação. A decadência da política - numericamente controlada por parlamentares que agem como mafiosos -, o endeusamento irracional da economia e a presença intrusiva da moral do espetáculo na vida cotidiana contribuíram, em muito, para o aparente aumento da insensibilidade em face do bem comum ou das carências do próximo.

José Padilha, entretanto, vai adiante. Quaisquer que tenham sido as causas da mudança, mostra ele, o efeito cultural foi além do imaginável. A desagregação da hierarquia dos valores éticos lesou o cerne da pessoa moral, ou seja, a capacidade que devemos ter de decidir entre o certo e o errado e dar sentido à própria vida. Em O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, os rivais políticos sabiam por que matavam e morriam. Os defensores da ditadura achavam que torturar e assassinar dissidentes significava proteger o Brasil do perigo comunista; os partidários da democracia ou do socialismo, por seu turno, queriam restaurar o Estado de Direito democrático ou realizar a revolução. Na bela metáfora da ida para o exílio, posta na boca do garoto, isto fica patente. A esperança de um mundo melhor confundia-se com a expectativa do reencontro com o pai. O reencontro, embora indefinidamente adiado, já era presentemente vivido. Dizer que o exílio era a condição de quem esperava por um pai que nunca chegava era dizer que depois do exílio o pai e seus ideais poderiam vir a ser reabilitados.

Em Tropa de Elite, essa moral comum às utopias messiânicas dá lugar à mais desoladora desistência. Policiais corruptos ou justiceiros, marginais e estudantes usuários de drogas ilegais não sabem o que buscar, exceto sobreviver hoje e amanhã. Agem como sonâmbulos presos num pesadelo. Tudo que importa é abolir o tráfico ou manter o tráfico. Nenhum dos personagens parece sentir-se exilado, pois o deserto ético transformou-se no último horizonte de suas existências. No que dizem, palavras como violência e paz, justiça e injustiça, autoridade e obediência, soam vazias e apenas fazem eco a sentimentos de vingança, ressentimento, culpa ou autopunição. Criaturas supérfluas em um mundo supérfluo.

É aqui que o corte entre os dois filmes salta aos olhos. Visto com mais atenção, Tropa de Elite poderia ser grafado no plural, sem perda de conteúdo. Na verdade, as supostas elites retratadas no filme são duas: a policial e a universitária. O detalhe nada tem de irrelevante. Nele se repete um dos mais lastimáveis fenômenos da cultura brasileira, qual seja, a recalcitrante incapacidade de nossa autodeclarada elite de agir, de fato, como uma legítima elite. Elite - faça-se justiça à tradição lingüística - é o conjunto dos melhores. E os melhores, no credo democrático-humanitário, são os que mais contribuem para fortalecer os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade. Ora, a pretensa elite nacional jamais se conduziu segundo esses princípios, donde a relação promíscua que sempre manteve com o que a polícia pode ter de mais abusivo e imoral.

Inicialmente, o retrógado senhoriato rural, candidato bastardo à elite, usou a polícia para confinar a realidade dos guetos pobres nas letras de samba e desfiles de carnaval. Foi a época de ouro das “anedotas, champanhotas” e do famigerado “sorry, periferia”. Na atualidade, a sandice cultural mudou de tom, mas fundamentalmente continuou a mesma. A polícia foi, de novo, usada para deixar que os mesmos guetos se convertessem em entrepostos de drogas ilegais. Só que a criatura fugiu ao controle do criador. Os piores do andar de baixo - como reza o preconceito - se deram conta, rapidamente, de que podiam extorquir e explorar quanto quisessem os piores do andar de cima. Daí para a emancipação da tutela policial o passo foi curto. Em duas ou três décadas, os guetos marginais passaram de quitanda de drogas a centros de treinamento intensivo em sordidez moral para policiais. A leviandade político-social continuaria impune, não fosse um fato novo: o montante de dinheiro circulante com o comércio de drogas permitiu que a nata da delinqüência se armasse até os dentes para defender a prosperidade de seus negócios. Conclusão: a sociedade brasileira, uma vez mais, tem sua agenda de problemas comandada pela inconseqüência de uns poucos. O mesmo tipo de grupúsculo social, que outrora insistiu em negar a indecência humana das favelas, voltou a recorrer à truculência repressiva. Desta feita, para conter os excessos da aberração que pôs no mundo e acabou nos tornando reféns de bandidos e policiais corruptos.

Boa parte do desconforto provocado por Tropa de Elite vem do fato de percebermos que o odioso ciclo do crime não tem saída, posto que se alimenta da própria deterioração. Combater o comércio de drogas e armas com Bopes é querer extirpar a violência com mais violência, isto é, com mais da mesma coisa. Faz sentido discutir com seriedade se a legalização das drogas ilegais seria um antídoto possível para a situação; insensato é persistirmos vendo o problema pelas lentes dos habitantes desse submundo. Nesta guerra entre aspas, o inimigo não são os infelizes do lado de lá ou do lado de cá; o inimigo é a consciência degradada dos que consideram que, para o populacho, favela está de bom tamanho. Ou eliminamos essa mentalidade torpe de nossa vida cultural ou nos condenamos a suportar mais e mais carnificina.

Um dos maiores méritos de Tropa de Elite é deixar claro que a banda podre da polícia nada mais é do que o espelho da banda podre de elites que usurparam o direito a portar um nome ao qual jamais fizeram jus. Policiais corruptos e brutalizados, marginais guetificados e usuários irresponsáveis de drogas ilegais não nasceram da cabeça de Zeus. Eles são o refugo de uma ordem sociocultural que manteve o gozo dos direitos democráticos reservado a uma minoria civicamente analfabeta, moralmente míope e culturalmente descomprometida com a construção de uma nação brasileira digna deste nome.

Entretanto, se a “elite” perdeu a cabeça e alma, isso não quer dizer que tudo esteja perdido. Em uma espécie de contraponto à crua denúncia feita por José Padilha, Cao Hamburger assinala o contraste existente entre o Brasil dos restos humanos e o Brasil do cidadão comum. Este último cidadão, em 1970 como em 2007, apesar da pouca visibilidade social, não sucumbiu à moral da descrença. Sua vida, na superfície, é prosaica, mas, no fundo, é o que mantém este país de pé. Trata-se do indivíduo ordinário, que não é santo ou herói, mas, simplesmente, alguém capaz de agir com correção e honradez, se a urgência da questão o exigir. Sem rompante ou bravata, ele cultiva as virtudes cívicas elementares, como apreço pelo trabalho, pela honestidade e pela decência. Embora movido pelo egoísmo narcisista, pela tentação do oportunismo ou pela sedução do sucesso midiático, como qualquer um de nós, também sabe ser compassivo e solidário se assim for necessário. São esses brasileiros que no filme de Hamburger protegem o pequeno personagem, mesmo pondo em risco o próprio bem-estar. São eles a verdadeira tropa de elite dos ideais democráticos de homens como frei Caneca e Joaquim Nabuco; é apostando neles que traremos de volta os órfãos ainda exilados do sonho Brasil.

Para os desesperados, isso é idiotice sentimentalóide de quem não vê que “este país não presta”; para os cínicos, a súmula da mediocridade piedosa. Penso de modo diferente. Penso que esses cotidianos exercícios de respeito pelo outro e de crença no próprio poder de mudar são a quintessência da riqueza material, moral, intelectual e espiritual de um povo. Por meio deles, quem sabe, chegará o ano em que daremos férias às elites e às tropas que nos envergonham e nos privam de viver num país à altura da maioria de nós.

Dois filmes a serem vistos e revistos; dois grandes cineastas, eles sim, exemplos da elite que queremos ter.

* Jurandir Freire Costa, psicanalista, é professor do Instituto de Medicina Social da UERJ e autor, entre outros livros, de A Inocência e o Vício (Relume-Dumara, 2002) e O Vestígio e a Aura (Garamond, 2004)

Assista ao trailer do filme Tropa de elite
Tropa de Elite

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A pergunta do capitão Nascimento, o prestígio de Che Guevara e a violência para o bem

Blog do Alon

Tropa de Elite é um filme espetacular. É um Vidas Secas do Brasil urbano. Como na obra de Graciliano Ramos, transportada para o cinema por Nelson Pereira dos Santos, a vida dos personagens não tem progressão real. São, literalmente, vidas secas, só que desta vez no asfalto e no morro do Rio de Janeiro da virada do século. Os personagens de Tropa de Elite são somente peças de um mecanismo, que sobrevive para garantir o conforto e o vício da classe dominante. No Brasil rural de Vidas Secas, ela se confundia com uma oligarquia insensível e desumana. No filme de José Padilha, assume os ares de uma burguesia e uma classe média drogadas e filantrópicas. Trata-se de um ecossistema. Há os playboys que consomem a droga. Há os traficantes que garantem o abastecimento da droga para os playboys. E há o BOPE (tropa de elite da Polícia Militar), que entra em ação quando transborda a violência gerada por essa parceria, quando os playboys são vítimas da brutalidade do mecanismo. Ou quando a sociedade "da paz" sente-se ameaçada pelo monstro que cultiva ao lado de casa. No meio dessa fauna, ninguém está nem aí para a pergunta que faz num dos primeiros episódios do filme o capitão Nascimento, do BOPE (na foto de cima, reproduzida do cartaz promocional do filme, o personagem em ação na pele de Wagner Moura; se o filme fosse americano, Wagner seria fortíssimo candidato ao Oscar de melhor ator),:

"Eu sempre me pergunto: quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para um playboy rolar um baseado?"

A classe dominante já achou uma resposta a essa indagação fundamental. Propõe legalizar o câncer da droga. Legalizar o hábito que destrói nossos jovens. Eu penso ao contrário. que além de radicalizar no combate ao consumo da droga deveríamos ter uma estratégia para reduzir radicalmente a apologia do consumo de álcool. Do jeitinho que vem sendo feito com o fumo. Meu ponto de vista está no post Os financiadores do terror, de janeiro:

O crime está presente em todo o território nacional, mas é mais agudo e mais violento nas regiões metropolitanas. Na sua configuração atual, o crime está indexado ao tráfico de drogas. E só se traficam drogas onde existe mercado. Então, para combater o crime na sua versão mais moderna (a criminalidade terrorista), o melhor a fazer é achar um jeito de travar a guerra total ao tráfico de drogas. Aí aparece um problema: não há como combater radicalmente o tráfico de drogas sem atacar o mercado de consumo da droga. O terreno para que prosperem o crime e o terrorismo no Brasil vem sendo adubado pela tolerância ao consumo das drogas. Você, que além de desfilar de branco pedindo paz também gosta de consumir sua droga na intimidade, é o principal financiador da barbárie que ameaça os seus entes queridos.

Tropa de Elite mata (literalmente) a pau quando expõe, sem limites politicamente corretos, a anatomia e a fisiologia de uma sociedade cínica e doente, que se recusa a encarar a própria doença. Estão ali, desenhadas, as organizações não-governamentais que articulam a classe dominante e o crime, por meio da droga e da filantropia -esta patrocinada pelo sistema político-empresarial. Está ali, retratada, uma polícia corrupta. Está ali, maravilhosamente exposto, como uma caricatura sem sê-la, o arcabouço supostamente intelectual que serve de alucinógeno "literário" a quem deseja viver mergulhado nessa podridão sem carregar culpa. E ainda por cima vomitando Foucault. Está tudo ali, em fatos. Irrespondível. Fatos são irrespondíveis. Bem, eu já estava disposto a escrever sobre Tropa de Elite quando li a reportagem de capa da revista Veja sobre Ernesto "Che" Guevara. Além da habitual catilinária anticomunista, a Veja desceu a lenha no Che (na foto de baixo, a imagem clássica dele) principalmente porque o argentino 1) teria dado sinais de fraqueza diante da morte iminente, 2) teria sido um mau ministro da Indústria e 3) teria sido um executor frio e sanguinário dos adversários políticos da sua revolução. A violência liga os dois assuntos, Tropa de Elite e o texto sobre o Che. Comento rapidamente os pontos de crítica da Veja. No ponto 1, não enxergo muita valentia em tripudiar sobre alguém que supostamente deu sinais de fraqueza diante da morte inevitável. Do mesmo modo que não vejo coragem em fazer ironia com o eventual (mau) comportamento de quem esteve submetido a tortura. Não cabe a nós, mortais, julgar o limite do sofrimento suportado por nossos semelhantes. Tem algo de antihumana a arrogância de quem se coloca de um ponto de observação "superior" para fazer o juízo do comportamento de alguém prestes a ser privado da vida. Ou para fazer o juízo de alguém submetido à humilhação de implorar a seu algoz que interrompa seu sofrimento. Sobre o ponto 2, eu consideraria mais as críticas à suposta incompetência do Che ministro se fosse hábito dos críticos de Che julgar unicamente pela competência. No Brasil, por exemplo, os responsáveis por todos os desastres econômicos dos anos 60 para cá são tratados nos círculos dominantes como sábios, são ouvidos e respeitados como sumidades. Escrevem artigos de destaque em jornais e revistas e são figuras permanentes nas entrevistas de rádio e televisão. Enquanto isso, o governo atual, que conduziu o país à melhor situação econômica da nossa História, é tratado como um bando de incompetentes e trapalhões -na versão benigna da crítica. Por isso é que eu vejo o ponto 2 com reservas. Quanto ao ponto 3, diferentemente do que pretende a reportagem da Veja, Ernesto "Che" Guevara não virou mito porque a propaganda o despiu dos seus prováveis muitos defeitos. O Che virou mito porque sobreviveu e sobreviverá como símbolo da luta por mais justiça. Infelizmente, a direita sul-americana não tem um símbolo para contrapor ao Che. E dizer, como diz a revista, que Che foi um executor frio e sanguinário, nem faz cosquinha na imagem do argentino. O fato é que as pessoas talvez estejam dispostas a agüentar executores sanguinários e frios, se a ação deles for para "o bem". Não é isso, por sinal, que nos vendem todos os dias na política? Dia após dia justifica-se o assassinato "branco" de políticos em nome do "bem". Ou da "ética". Por essas e outras é que o capitão Nascimento é o novo herói brasileiro. Quando você vir o filme, você entenderá. Eu não vi, acredite em mim, mas quem viu me contou tudinho.