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sábado, 15 de dezembro de 2007

Lions et Agneaux - Robert Redford

Lions for Lambs - Robert Redford

Les hommes du président


Etats-Unis, 2007 - 1h30


Vanessa Aubert

Septième film de Robert Redford le cinéaste, Lions et Agneaux surfe sur la vague de rébellion des réalisateurs américains qui inondent depuis peu nos écrans de leurs fictions engagées. Un regard précieux de la part d’un aîné, que l’on attendait lion et qui se fait agneau.

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Inventif, l’homme qui murmurait à l’oreille des chevaux prévoit de nous transmettre son opinion à travers une intrigue en trois tableaux. L’engagement d’abord et l’échange d’idées entre un prof et son jeune étudiant. Le terrain ensuite et la mise en applications des convictions de deux de ses élèves. L’information enfin et la confrontation d’un sénateur et d’une journaliste. Un tryptique prometteur qui offrait toutes les chances d’une émergence de points de vue différents pour un scénario riche.

Malgré ses six personnages principaux, Redford ne parvient pas à concrétiser son ambition. Il réalise un film vide mais pas de sens. En ne l’utilisant que comme un moyen d’expression purement parlée, il se détourne de la matière-même, oubliant de faire vivre ses protagonistes, d’entretenir une histoire et de travailler ses images. Preuve en est le décor des scènes de guerre aux allures de carton pâte dont l’amateurisme inexplicable anéantit toute empathie. Redford affirme sa vision de la guerre dans les situations en intérieur mais leur rythme bavard à l’extrême invalide leur impact. En choisissant Tom Cruise et Meryl Streep, il ne parvient pas davantage à faire passer ses idées avec force et en s’attribuant le rôle du professeur, il risque de peu le ton moralisateur. Regarder la caméra de front eut presque été plus efficace mais Redford tente une forme cinématographique étrange au mélange peu digeste malgré des intentions qui méritent d’être entendues. En hésitant entre deux tendances, le réalisateur de fiction semble se perdre. Espérons qu’à l’avenir, il se retrouvera avec le choix assumé du documentaire.

Lions for Lambs
De Robert Redford
Avec Robert Redford, Tom Cruise, Meryl Streep
Sortie en salles le 21 novembre 2007

Illus. © Twentieth Century Fox France

domingo, 9 de setembro de 2007

Ludwig, Miles e Elizeth por Verissimo

A Sinfonia nº 3 de Ludwig van Beethoven era para se chamar Sinfonia Buonaparte, em homenagem a Napoleão, que então levava os ideais da Revolução Francesa a toda a Europa na ponta de suas baionetas republicanas. Como Goya, outro entusiasta inicial de Napoleão, Beethoven não tardou em se desiludir com o herói auto-ungido imperador e rasgou a página com sua dedicatória da 3ª Sinfonia, que reintitulou Eroica, e que passou a ser uma exaltação do espírito libertário e da grandeza humana. E ficou como exemplo máximo da sinfonia clássica e o parâmetro para
julgar tudo que foi composto antes ou depois no gênero, por ele e por outros - uma revolução não na política mas na sensibilidade européia, e na forma de fazer música.

Karajan - Beethoven Symphony No. 3 'Eroica' - Part 1


Karajan - Beethoven Symphony No. 3 'Eroica' - Part 2


Anos depois, Beethoven comporia sua Missa Solemnis e assim como sua sinfonia heróica dispensara um herói ideal, substituído pelo ideal do compositor, a Missa era uma obra de devoção em que Deus quase não aparecia - pelo menos não com as deferências que le dedicara Bach nas suas paixões e missa - e a deidade mais evidente era o próprio Beethoven, fazendo outra revolução dos sentidos.

Bernstein - Beethoven - Missa Solemnis (D-Dur, opus 123) Credo II


E ele não descansou aí. Seus últimos quartetos para cordas - angulosos, desconcertantes, dificílimos de tocar e, na época, de ouvir - são hoje considerados os precursores, os primeiros acordes, da música moderna. Sua complexidade só foi igualada, anos mais tarde, nos quartetos para cordas do Béla Bartók. O crítico Edward Said escolheu os últimos trabalhos de Beethoven como protótipos do “estilo tardio”, aquelas zonas de criatividade excêntrica e isolamento pessoal (no caso de Beethoven, agravado pela surdez) a que certos artistas ascendem, quase sempre deixando público perplexo e críticos incompreensivos para trás. E que só são redimidas quando o artista não está mais aí para ouvir as desculpas, já que todo estilo tardio é prelúdio de morte. Beethoven também foi o protótipo do artista que não se contenta em ser pioneiro uma vez só.

Como o Miles Davis. Que não chegou a ser um dos que revolucionaram o jazz no fim dos anos 40 e começo dos 50, com o “be-bop”, embora tenha participado de algumas gravações com Charlie Parker e outros pioneiros do novo estilo, mas liderou a revolução seguinte. Reuniu um grupo de músicos jovens como Lee Konitz, Gerry Mulligan e John Lewis num noneto com tuba e trompas para tocar os arranjos de Mulligan e, principalmente , de Gil Evans, baseados no trabalho inovador deste para a banda de Claude Thornhill. Nascia o jazz “cool”, em que as experiências com tonalidades e variações cromáticas coletivas valiam tanto quanto os solos, e era uma projeção da maneira de tocar do próprio Miles, com seu trompete sem vibrato e sua distribuição reflexiva de espaços numa frase. O “cool” foi a base do que se convencionou chamar de jazz da Costa Oeste, predominantemente branco, mas Miles ficou em Nova York e liderou a antítese do que ele mesmo tinha criado, o “hard bop”, ou um bop ainda mais quente do que o original. Depois de gravar alguns discos históricos (Miles Ahead, Sketches of Spain, Porgy n’Bess) com uma grande orquestra e arranjos luxuriantes de Evans, que lhe valeram tanta popularidade e dinheiro que ele poderia muito bem ter se acomodado por aí, Miles fez outra revolução. Entrou num estúdio com um grupo bem selecionado e apenas alguns esboços tonais sobre os quais improvisar e fez um dos discos definitivos da história do jazz, Kind of Blue - diferente de tudo que tinha feito antes.

Kind of Blue: Made in Heaven - Miles Davis



Kind of Blue: So What by Miles Davis


O estilo tardio de Miles foi a sua fusão do jazz com o rock. Confesso que fui um dos que ficaram para trás quando ele começou a usar tranças e sandálias e a tocar com a garotada. Mas acho que Beethoven o entenderia.

Onde entra a Elizeth Cardoso nesse trio? Ela também foi multipioneira, ou pelo menos pioneira duas vezes. Era uma cantora popular clássica, com grande prestígio, mas não se poderia descrevê-la como inovadora.

Elizeth Cardoso 1952 "Ingratidão"


A chamavam de “Divina”. Tinha um estilo mais antigo do que o de cantoras “cool” que começavam a surgir na época, como a Maysa. Mas foi dela a voz que, junto com o piano, a regência e os arranjos de Antonio Carlos Jobim, as composições de Tom e Vinicius de Moraes e a batida diferente do violão de João Gilberto no LP Canção do Amor Demais, de 1958, inaugurou a bossa nova.

E, como o Miles Davis, depois de participar de uma revolução, ela liderou a contra-revolução. Em 1965 o disco Elizeth Sobe o Morro trouxe um reconhecimento inédito a compositores do samba tradicional como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth só difere de Ludwig e de Miles porque não teve um estilo tardio. Foi a mesma, divina, até a última nota.

O Estado de São Paulo
(para assinantes)

UNA FURTIVA LACRIMA

Daniel Piza

Escrevi no blog que Luciano Pavarotti, morto na quinta aos 71 anos, foi uma espécie de Frank Sinatra do canto lírico - não necessariamente o melhor de todos, mas aquele que cativou mais pessoas, marcou um estilo e simbolizou uma era. Gigli, Di Stefano, Bjõrling e alguns outros podem ter sido maiores; Pavarotti, porém, seguramente foi um grande, em especial nas performances dos anos 60 e 70. Tinha belo timbre e amplitude, controle impressionante da emissão, potência, sensibilidade com doses de humor e drama. Tomou algumas vaias, mas uma vez foi chamado 17 vezes de volta ao palco pelos aplausos.

Certo, era um 'divo', com ataques de estrelismo; quando o vi no Parque Antártica em 1992, ficou irritado com quem pedia para cantar o que não estava programado. Mas foi também um 'bon vivant', que levava seu próprio queijo ralado aos restaurantes e adorava futebol. Concordo que se perdeu quando se tornou fenômeno pop - embora jamais um canastrão como Mario Lanza, que começou imitando. De qualquer modo, a voz já tinha deixado o apogeu, e o que fez nesse apogeu não pode ser apagado por preconceito. Servia Donizetti, Puccini e Verdi ao ponto e com molho suculento.

Leia a integra da coluna de Daniel Piza no caderno Cultura do jornal O Estado de São Paulo (para assinantes)

Os indomesticáveis

Daniel Piza
daniel.piza@grupoestado.com.br

A certa altura de Homem Comum, de Philip Roth (Companhia das Letras), o narrador diz de Howie, o protagonista: 'Iludir a morte parece ter se tornado seu principal negócio.' Bem, esse não é o negócio de todos nós? - você poderia perguntar. Mas a palavra 'negócio' é usada antes de mais nada em seu sentido concreto, o de atividade comercial, e àquela altura já sabemos tanto sobre a existência e os valores de Howie que a frase adquire mais ironia ainda. Sempre me perguntam quais os critérios para saber o que é uma grande obra de arte, um livro excelente. Difícil; mais produtivo seria dizer o que uma grande obra de arte não tem. Outro jeito é mostrar o que um escritor excelente, como Roth, faz. E uma coisa que ele faz é amarrar idéias em suas histórias com eficiência que poucos atingem, de um modo tão orgânico que não se pode separá-las.

Essa novela, cujo título original é Everyman, precisa de apenas 131 páginas para causar uma sensação em você que é muito mais que uma impressão; é como se o livro - seu clima, algumas cenas, algumas frases, o mundo particular em que ele nos deixa interessados - ficasse com o leitor por muito tempo, uma voz latente que a qualquer momento pode emergir na memória consciente. Se em O Animal Agonizante, para citar outro livro curto recente, o escritor americano criou um personagem cujos bastidores mentais visitamos por meio de seus casos sexuais, em Homem Comum são as doenças que pontuam a história, como momentos sintéticos de sua índole e angústia. 'A dor faz você ter medo de si próprio', descreve, em outra dessas passagens esclarecedoras e nada consoladoras.

Para Howie, um publicitário que vive a trair as mulheres e a ser traído pelas doenças, só existe o corpo, no caso o seu, e tudo o mais é religião e fantasia. Somos informados sobre isso, mas Roth no parágrafo seguinte já retoma a trama, a sucessão de fatos, com um gancho nada irrelevante: 'Mas, se ele acreditava ou não, isso não teve a menor importância no dia em que seu pai foi enterrado ao lado de sua mãe, no cemitério maltratado que ficava à margem da rodovia expressa de Nova Jersey.' A ficção em Roth é o que ela deve ser: não se trata de apenas contar uma história, como ocorre na literatura 'acronicada' do Brasil - em que relatar uma experiência pessoal levemente disfarçada é o objetivo maior do autor -, mas recheá-la de inteligência, de percepção aguda e original sobre o comportamento humano, ao mesmo tempo sem intelectualizá-la demais em exercícios lingüísticos ou perorações artificiais.

Os temas de Roth, autor de tantas obras-primas como O Complexo de Portnoy, Patrimônio, Operação Shylock e O Teatro de Sabbath, estão todos lá, como a presença física da morte na vida, a relação difícil entre filho e pai, a crítica ao sionismo, a sexualidade como sintoma e cura - todos plasmados na matéria de uma vivência em que aceitamos acreditar por um período de tempo. As camadas se interpenetram, como numa folhagem que se embola e forma um organismo só, aberto às diversas interpretações. Há uma intensidade composta de mordacidade, lirismo e ceticismo como em nenhum escritor contemporâneo - nem em Ian McEwan, que no recente Na Praia entrou em território rothiano.

Roth é escritor de verdade, artista que não tem medo dos temas mais fortes e ao mesmo tempo não se limita à exposição sentimental deles - como faz Toni Morrison, para citar a escritora de quem a mesma editora acaba de publicar Amada, romance eleito como o melhor dos EUA nos últimos 25 anos. Morrison tem talento, mas se basta em criar situação dramática que mexe fácil com a compaixão - uma ex-escrava e sua filha numa casa assombrada por fantasmas dos socialmente injustiçados - e desenvolvê-la num crescendo previsível, tocado por lugares-comuns como 'Eu devia sempre ouvir o meu corpo e amar o meu corpo'. Howie nada tem de heróico ou redutivo. E é isso que o faz tão sutilmente real, tão poderosamente frágil.

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