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sábado, 6 de outubro de 2007

Rosa feérica



MIRIAM YOUNG E CRISTINA TARDÁGUILA

REVISTA PIAUÍ



Uma rosa não é uma rosa não é uma rosa não é uma rosa qualquer. Em Holambra, no interior de São Paulo, os visitantes da 26ª Expoflora indagavam: é de verdade? É uma homenagem à causa gay? É comestível? Eles foram os primeiros a ver ao vivo, em setembro, a rosa que tem uma pétala de cada cor.

Na maior feira de flores e plantas da América Latina, 300 mil pessoas passearam entre samambaias, observaram tamanhos diferentes de xaxins, aproximaram os narizes de gérberas, begônias e orquídeas, e fotografaram tudo o que estivesse fincado em um vaso de terra. Todos os dias, ao final da tarde, presenciaram uma chuva de pétalas, providenciada pelo mal-me-quer de 18 mil rosas. Também se deleitaram com shows de danças folclóricas e provaram comida típica da Holanda, o maior produtor mundial das flores. Entre os estandes que reproduziam cogumelos em tamanho gigante, e jardins povoados por coelhos de madeira, o da rosa multicolorida foi o mais visitado.

A flor feérica é produto de uma técnica inovadora de tingimento, que possibilitou, pela primeira vez, a produção em massa de espécimes de várias: uma única rosa tem pétalas amarelas, azuis, laranja, lilases, verdes, rosas e vermelhas. Houve quem considerasse o resultado de gosto um tanto duvidoso, a até meio cafona. Difícil combinar o arranjo colorido com o sofá da sala ou a cor da cortina. No entanto, as 9 000 amostras trazidas ao Brasil pelo holandês Michel de Graaff, ao preço de 15 reais cada, foram avidamente tiradas das prateleiras. Na última semana da exposição, só 2 000 delas ainda estavam à venda.



A Rosa Alegre, tradução literal do nome em inglês, veio ao mundo em novembro, fruto do trabalho obsessivo de seu produtor, o também holandês Peter van de Werken, um floricultor de crisântemos da cidade de Rijnsburg, no sul dos Países Baixos. Formado em jardinagem, mas com um interesse particular em ciências, Werken se viu numa encruzilhada quando o lucro da venda de seus buquês atingiu a metade do valor da época em que seu pai comercializava os mesmos crisântemos. Era preciso inovar.

Foi quando ele inventou a primeira máquina de tingimento de crisântemos totalmente automatizada. As flores recebiam doses de anilina na água, o que fazia com que sua corola apresentasse uma mescla de cores, em efeito degradê. A produção ainda era restrita, mas o sucesso foi imediato. Houve no caminho, contudo, uma surpresa: um sócio de Werken roubou-lhe o projeto e se tornou seu maior concorrente.

O holandês voltou à prancheta e ao laboratório. Decidiu enfrentar o desafio de criar flores multicoloridas em escala comercial. Teve a idéia de testar o processo em rosas. O resultado foi surpreendente. Ao contrário dos crisântemos, que exibiam o miolo com cores misturadas, cada pétala de rosa apareceu com uma cor diferente. As possibilidades de criação se mostraram infinitas. A Rosa Alegre dura o mesmo tempo, conserva a mesma textura e tem o mesmo aroma da rosa original.

Em 2002, o homem que trouxe a Rosa Feliz para o Brasil, Michel de Graaff, de 35 anos, deixou a Holanda e instalou-se no Ceará, para cultivar rosas por diletantismo. Há dois anos, transferiu-se para Holambra, onde montou um empreendimento de produção e venda de flores decorativas. Em novembro, assim que passou a ser comercializada, Graaff viu a Rosa Alegre em uma feira, a Aalsmeer Market, no interior da Holanda. “Fiquei atônito”, contou. “Se aquilo era possível, tudo era possível.” Imediatamente, fez a encomenda para a Expoflora.

De sua casa, na Holanda, Werken, o inventor da Rosa Feliz, não revela os segredos mais recônditos da sua descoberta. A péssima experiência com o sócio ensinou-lhe o surrado jargão de que o segredo é a alma do negócio. Ele disse que ainda não decifrou em detalhes o fenômeno, mas contou que a base do processo é a mesma da técnica tradicional: mergulhar as flores numa tintura e depois na água.

Para conseguir a separação das cores, ele concebeu uma solução que contém diversos pigmentos. As flores conseguem isolar as tonalidades porque cada uma delas possui uma estrutura molecular diferente. O segredo também parece depender de um princípio básico da natureza, o de que as plantas separam naturalmente os compostos químicos absorvidos do solo, para usá-los como nutrientes. Alguma coisa ocorre – e é isso que Werken esconde –, fazendo com que cada pétala ganhe uma cor própria. Depois de embebedadas em tal mistura, as rosas são mergulhadas em outras soluções químicas, que ajudam a estabilizar as cores. Mais do que isso, Werken não conta. Nada diz sobre uma nova máquina inventada por ele, que parece estar escondida atrás de uma barreira complexa de caixas empilhadas em seu escritório.

É muito mais difícil criar flores a partir de uma seleção controlada de cores do que com uma mescla infinita aleatória, mas Werken conseguiu alguns exemplos. Um deles é o de uma combinação verde e amarela, que seria um excelente complemento para as lapelas do presidente Lula e da primeira-dama, Marisa, no próximo dia 7 de setembro.

No próximo mês, a experiência com cores controladas será colocada à prova. O banco holandês Rabobank, cuja logomarca é em tons de laranja e azul, fez uma encomenda milionária de rosas nas duas tonalidades para seu estande numa das principais feiras comerciais do mundo, em Amsterdã.

Os cuidados com a Rosa Alegre são os mesmos reservados às flores comuns: trocar a água do vaso a cada três dias e cortar o pé do caule num ângulo de 45 graus, para atingir maior superfície de contato com a água. É recomendável, também, arrancar todas as folhas antes de mergulhar o caule na água. As folhas, informam os floristas, são grandes focos de bactérias.

“A Rosa Alegre ainda engatinha”, diz Werken. O sucesso de sua experiência tem apenas dezoito meses. Se um dia será possível cultivá-las em casa, ele ainda não sabe. Mas já se debruça sobre o projeto de criar um composto químico para o solo, a fim de viabilizar a idéia.

A organização da Expoflora inventou um concurso para que os brasileiros escolhessem um apelido para a Rosa Alegre. Quem entrava na feira ganhava um papelzinho para votar. Foram contabilizados 15 mil votos. Entre os nomes sugeridos, estavam Tropicália, Rosa do Amor, Melindrosa, Mesclada, Rosa Gay, Rosabela, Chuva de Tinta e Rosa Multicolorida. Os mais citados foram Aquarela e Arco-Íris. Houve um voto, de um visitante do Mato Grosso, para batizar a flor de Marta Suplicy. O pessoal da Expoflora não entendeu nada.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Poemas, Poesias, Piauí

Ouça a poesia VALSA PARA GRAÇA (clique no nome)

Uma ótima escolha da Revista Piauí


Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 1961.

Poeta, publicou:
Livro Primeiro (Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1990),
Martelo (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997),
Desassombro (Famalicão, Portugal: Quasi Edicões, 2001)
Desassombro (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002), prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional.

Tem poemas publicados em revistas especializadas (Brasil, França e Portugal).
Participou da antologia Esses poetas - uma antologia dos anos 90, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda (Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998).

Participou de várias encontros de poetas, entre eles a I Bienal Internacional de Poesia de Faro, Portugal, 2001; e o II Encontro Internacional de Poetas na Ilha de Porto Santo, 2002 (Região Autônoma da Madeira, Portugal).

Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve título de mestre com a dissertação Drummond: um poeta na cidade, em 1994, e se doutorou com a tese Máquina de comover: a poesia de João Cabral de Melo Neto e suas relações com a arquitetura, em 2000.

Tem ensaios publicados em revistas e jornais nacionais e internacionais. Colabora regularmente como resenhista no Jornal do Brasil.

É membro da Cátedra Jorge de Sena para estudos literários Luso-Afro-Brasileiros, ligada à UFRJ e à Fundação Calouste Gulbenkian(Portugal), que, entre outras ativiades ligadas ao ensino e à pesquisa, publica a revista Metomorfoses.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Revista Piauí: O indignado anônimo








ALFREDO RIBEIRO

Ele odeia o apelido que lhe caiu feito luva no botequim da esquina. “Indignaldo é o cacete!” – reagiu, bravo, às provocações do pessoal da firma no serão etílico da última sexta-feira. Neguinho faz de molecagem. “E o Renan Calheiros, hein, Indignaldo?!” Tem sempre um engraçadinho pra botar pilha na bronca do colega. Divertem-se com a cólera galopante que, a certa altura da conversa, de qualquer conversa, faz sua impaciência transbordar, feito chope tirado na pressão, frente ao estado de coisas a que chegamos. O cara é um indignado épico, caricatura de homem de bem injuriado, delirante e genérico contra tudo o que aí está, do governo Lula ao xixi na tábua, da fila do INSS à pedofilia na internet, do achaque do flanelinha ao lucro do Bradesco. O bicho está por aqui, ó, com o brasileiro. Há muito perdeu a paciência com o país. “Ô, raça!” – resmunga a cada flagrante de bandalha que testemunha.

Indignaldo é um tipo de chato que, estimulado ao exagero, tem lá sua graça, desde que observados certos limites da sacanagem. A brincadeira de fazê-lo perder as estribeiras prevê que alguém peça a conta em tempo hábil, para que seu discurso não atinja o anticlímax da infalível citação de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Isso por causa de alguém que furou a fila do supermercado, francamente, ninguém merece. O próprio já se deu conta de que a eloqüência foge-lhe inteiramente ao controle sempre que cisma de elogiar a última crônica de Arnaldo Jabor, sobretudo nos almoços de domingo, com a família da mulher. No Dia dos Pais, então, foi constrangedor. Precisou a sogra lhe dar água com açúcar, as crianças não entenderam nada. Baixou-lhe o santo do não-dá-mais-para-viver-neste-país-de-sanguessugas.

Contando assim não parece, mas Aguinaldo Gladyson dos Santos, 52 anos, Indignaldo para os íntimos, é um homem comum. Pai de três rapazinhos adolescentes, casado com a mesma mulher há dezoito anos, está prestes a quitar o apartamento que comprou em prestações quando ainda era noivo. O carrinho na garagem, ele tirou no consórcio. Indignaldo está em dia com tudo. Não exerce a função no momento, mas preserva o espírito de síndico. Sua mania de correção lhe rendeu, além de brigas com vizinhos, um sucesso relativo no trabalho. Ganhou, há três anos, um cargo de confiança, no setor de processamento de dados na instituição financeira onde trabalha desde 1992. Estaria, enfim, tudo razoavelmente certo na sua vida – não fosse seu inconformismo com a coisa errada. Das guimbas que o sujeito do 501 joga pela janela ao aquecimento global, tudo é motivo para um discurso exaltado do pobre Indignaldo.

Não tem caos aéreo, ultrapassagem pelo acostamento, crise nas bolsas de valores, latido de cachorro de vizinho, escândalo no Congresso, engarrafamento em véspera de feriado, língua negra na praia, seqüestro relâmpago, entrevista de Caetano Veloso, fila do visto no consulado americano, telemarketing, gente que fala no cinema, Dunga, piercing no bico do seio, enchente, operação da PF, Bruna Surfistinha, José Dirceu, Daniela Cicarelli, Big Brother Brasil ou manchete de prostituição infantil no Jornal Nacional que não o deixe do jeito que o diabo gosta – meio Rui Barbosa, meio Arnaldo Jabor – fazendo jus ao apelido que detesta ouvir.

Fingiu que não era com ele o quanto pôde, até aquela noite em que reagiu mal, ao cair da ficha: Indignaldo já era personagem conhecido de todos, atração do botequim há tempos. “Meu Deus, que vergonha!” O que pegou – mais ainda que a falta de respeito com a questão do fim das utopias que embalava sua falação – foi aquela sensação de que seu zelo pela coisa certa tinha virado piada, motivo de galhofa, risadinhas pelas costas.

O indignado compulsivo tem com a queixa a mesma relação do alcoólatra com a bebida. Não sabe a hora de parar, exagera na dose de correção no mundo caótico em que vive, vira um porre. A certo ponto da conversa, pode-se até confundir o discurso do bêbado com o do indignado. Com todo respeito ao Nizan Guanaes, esse papo de “e aí, nós não vamos fazer nada?” poderia muito bem ser coisa de algum pinguço resistindo à idéia de voltar para casa às 4 da madrugada. Se acrescentar um “porra” no final, então...

Deprimido, Indignaldo bateu perna com a depressão até quase amanhecer. Não bebeu nada. Tomou consciência de que não sabe mais se indignar socialmente, como o Gabeira, por exemplo, sem nunca perder a linha. Passa sempre da medida, dá uns tapas a mais, torna-se inconveniente, agressivo na exposição de seu ponto de vista, intolerante, dono da verdade. Chegou em casa com essa questão e levou a família às lágrimas ao pedir desculpas aos filhos por ter-lhes enchido o saco com esse seu jeito sempre irritado contra tudo e todos. Decidira largar a indignação. “Se precisar, paro até com o Jornal Nacional, para não cair em tentação.” Os garotos passaram do choro ao riso em instantes com seu bom humor, coisa rara no pai. Até o fim do expediente de segunda-feira, quando falou a respeito com dois ou três amigos de trabalho, sua recuperação parecia favas contadas.

Calhou de na volta para casa um motorista de van – ô, raça! – estragar tudo com uma fechada que quase joga na calçada o carro recém- quitado do novo Aguinaldo, o ex-Indignaldo. Subiu-lhe um troço mais quente que sangue à cabeça. Algo desproporcional à barbeiragem do perueiro, maior do que a bagunça do transporte público, pior do que o desgoverno... Estava pálido e desfigurado quando o filho mais novo abriu-lhe a porta de casa. “A culpa é do Lula!” – foi tudo que conseguiu falar, tentando equilibrar-se sobre as pernas, antes de desmaiar sobre o moleque. Gritaria! Veio todo mundo lá de dentro ajudar a levá-lo pra cama.

O médico diz que é estresse, mas o paciente sabe que não é só isso. Está convencido de que a indignação, pelo menos da forma nele manifesta, é um vício como outro qualquer. Não contou essa parte para ninguém, nem para o doutor Lamy, mas, depois de perseguir sem sucesso a van que desencadeou sua última crise, Indignaldo parou o carro para discutir com o padeiro sobre o peso do pão francês comprado na véspera. Não lembra direito o que aconteceu daquele momento até apagar nos braços do filho. Torce para não ter encontrado o Poodle da vizinha urinando, como de hábito, no elevador.

Desde então, faz três semanas que Indignaldo não aparece nos serões etílicos do pessoal da firma. Sem zangas. Tem aproveitado todo tempo livre para procurar, na internet, indignados compulsivos que, como ele, estejam dispostos a encarar a insatisfação generalizada como uma dependência crônica de problemas. Quer fundar a AIA, a Associação dos Indignados Anônimos, nos mesmos moldes que os alcoólicos e narcóticos criaram, em busca de apoio mútuo. Cada dia sem ficar puto dentro das calças é uma batalha vencida na guerra permanente contra o vício da lengalenga combinada com aporrinhação.

Se é o seu caso, companheiro, escreva já para indignaldo@aia.com.br dizendo que apóia e se dispõe a participar como voluntário da iniciativa. Dê um basta à indignação, mas vê lá se não exagera no que vai dizer a respeito. O pior indignado é o que se exalta contra a indignação.