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domingo, 9 de dezembro de 2007

Aloizio Mercadante no Globo: Estufa da desigualdade


ALOIZIO MERCADANTE

O Texas, que tem 23 milhões de habitantes, emite mais dióxido de carbono (CO²) que toda a África Subsaariana, região com população de 720 milhões. Os 19 milhões de habitantes de Nova York lançam mais CO² na atmosfera do que os 766 milhões de habitantes dos 50 países mais pobres do mundo.

Esses números dão uma idéia da imensa desigualdade nas responsabilidades concernentes ao efeito estufa. Com efeito, são os países desenvolvidos os grandes responsáveis pelas mudanças climáticas que ameaçam o planeta. Foram eles que lançaram na atmosfera sete de cada 10 toneladas de CO², desde que começou a revolução industrial. Tal responsabilidade não é apenas histórica, pois as nações desenvolvidas continuam a ser as principais poluidoras. Muitos argumentam que alguns países em desenvolvimento vêm aumentando suas participações nas emissões globais. A China, por exemplo, já é o segundo maior emissor de CO² do mundo. Contudo, esse aumento da participação é concentrado em poucos países, e encobre grande disparidade demográfica. Assim, quando analisamos as emissões per capita, verificamos que um chinês emite apenas um quinto do CO² emitido por um norte-americano. Já um brasileiro emite 11 vezes menos que um norte-americano. Ironicamente, a desigualdade nas responsabilidades pelas emissões se inverte quando se trata da vulnerabilidade às mudanças climáticas.

Os 1 bilhão de habitantes mais pobres do planeta, embora respondam por apenas 3% das emissões, são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Na África, as secas intensas vêm provocando aumento da fome e da desnutrição. Na Bolívia, o encolhimento das geleiras andinas já causa escassez de água potável.

Pois bem, é dentro desse contexto de extrema desigualdade nas responsabilidades e vulnerabilidades relacionadas ao efeito estufa, as quais refletem as crescentes disparidades socioeconômicas mundiais, que devem ser analisadas as discussões do 13oEncontro da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas que ocorre em Bali. Os países desenvolvidos, que, de um modo geral, aumentaram as suas emissões, ao invés de reduzi-las, como haviam se comprometido quando assinaram o Protocolo de Kioto, querem, agora, comprometer os países em desenvolvimento com metas de redução dos gases do efeito estufa. Pior: querem se aproveitar do tema para auferir ganhos comercias.

Elaboraram lista de produtos “ambientais” que poderiam ser comercializados com tarifa zero. Omitiram, no entanto, o etanol brasileiro da lista, pois pretendem continuar a proteger os seus mercados agrícolas.

Tal cenário impõe três conclusões. A primeira é que o Brasil, país de matriz energética limpa e de vanguarda nos biocombustíveis, deveria condicionar compromissos internacionais de metas diferenciadas para os países em desenvolvimento ao efetivo cumprimento das metas acordadas para as nações desenvolvidas. Ademais, a conciliação entre meio ambiente equilibrado e o direito ao desenvolvimento, conquista histórica obtida na Eco 92, tem de ser preservada.

Afinal, a manutenção da pobreza não vai resolver os problemas ambientais do mundo. Isso não significa omissão na luta contra as mudanças climáticas. Temos de assumir compromisso interno mais firme no que tange ao desmatamento da Amazônia.

Também devemos nos esforçar para assumir amplos compromissos regionais, no âmbito do Mercosul e da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica. Como membro do Parlamento do Mercosul, almejo propor protocolo específico sobre mudanças climáticas para o bloco.

A segunda conclusão é a de que o Protocolo de Kioto e o mercado de carbono, embora imprescindíveis, são insuficientes para lidar com a questão.

Precisamos de mecanismos mais eficientes que propiciem o financiamento de tecnologias limpas para países em desenvolvimento e da mitigação do efeito estufa. Por isso, apresentei proposta de criar o Fundo Ambiental Mundial, destinado ao combate ao efeito estufa, com base na arrecadação de 1% sobre as importações internacionais, com ênfase nas de petróleo, o que poderia redundar no recolhimento de US$ 100 bilhões por ano. Esse Fundo daria base financeira para que todos os países, inclusive os mais pobres, pudessem se empenhar nessa luta.

A terceira conclusão é de que não podemos esperar mais para agir. Certa vez, perguntaram a Gandhi se a Índia pretendia se desenvolver como a Inglaterra. Gandhi, após observar que a Inglaterra havia consumido metade dos recursos do planeta para se desenvolver, perguntou: “De quantos planetas precisará a Índia?” Só temos um planeta, e ele está doente. Ambiental e socialmente doente.

Temos de cuidar dele e enfrentar, em conjunto, essas duas terríveis enfermidades.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O engodo tucano no Tietê: 15 anos é a mesma sujeira


Sem metas claras, Projeto Tietê não limpa o rio


Samantha Maia e Daniela Chiaretti - jornal Valor


"O Rio Tietê nasce em Salesopolis atravessa os municípios da Grande São Paulo , recebe como afluente o Rio Tamanduateí, que traz os esgotos da região industrial e doméstico dos municípios do grande ABC,que depois recebe mais um afluente com esgotos domésticos e industriais da região sul, pelo Rio Pinheiros. A espuma surge devido a falta de chuvas ,no período da noite, partir das 21horas ,quando a temperatura cai bastante,nesta época do ano, ocasionado pela alta concentração de poluentes e só começa se desmanchar às 10 horas da manhã quando os raios solares furam as bolhas da espuma". Comentários e foto extraídos do site de Alex Minck. O mesmo cita no site que as fotos foram tiradas no mês de maio de 2003, sempre as 6:30 da manhã na sua ida ao trabalho.


Urbanistas dizem que uma cidade se conhece pelo seu rio. Por esta premissa, São Paulo é tão sombria quanto as águas do Tietê e seus afluentes, Pinheiros e Tamanduateí. Desde os anos 90, a cidade tenta limpar a região do Alto Tietê, num esforço alardeado como o maior projeto ambiental da história de São Paulo e o maior financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID. De maior, por enquanto, só o engodo da população levada a crer que em 15 anos poderia usar o Tietê "como os americanos usam o Potomac". Ficou no bordão a promessa dos políticos de 1992, referindo-se ao rio de Washington onde no verão se vêem lanchas, caiaques e jet skis. Aqui se investiu mais de US$ 1,5 bilhão em estações de tratamento e redes de coleta, mas o Tietê continua a cruzar metrópole e arredores tão morto quanto antes.


Em 1992, na largada do Projeto Tietê, 75% dos moradores da Região Metropolitana de São Paulo tinham coleta e tratamento de esgoto, segundo cálculos do economista Marcelo Neri, com base na Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios, a PNA. Mesmo com todos os recursos gastos no saneamento do rio, a Grande São Paulo perdeu a primeira colocação no ranking de melhor área atendida por rede de esgoto entre as dez maiores regiões metropolitanas do país. Outras fizeram mais. Em 2006, os paulistas alcançaram um índice de 79%, caindo para o 3º lugar empatados com Salvador. Belo Horizonte ficou à frente (83%, tendo saído de 68% em 1992), seguida pelo Distrito Federal (80% hoje, 73% em 1992).


A coisa andou no Alto Tietê, mas a passos muito lentos e sem acompanhar o crescimento da população. O objetivo inicial -limpar 50% do rio em dois anos - ficou na bravata. Se o logo-ícone do projeto era um obstinado jacaré que apareceu no rio em 1990, agora seria melhor adotar uma tartaruga. De 1992 a 1997, a RMSP tratava 4 m3/s de esgoto, o resto, lançava in natura ao Tietê. Em 1998, fim da primeira fase do plano, o tratamento chegou a 8 m3/s. Em 2008, com a segunda fase em operação, serão tratados 16 m3/s, espera a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp. Saber ao certo quanto isto representa do total é um problema.


Na agência ambiental do Estado, a Cetesb, acredita-se que a RMSP produza cerca de 50 m3/s de esgoto, dos quais 81% são coletados e 37% tratados. Na Sabesp, os números são outros. Levam em conta sua produção de água e as perdas, e chegam a 57 m3/s. Aí os engenheiros aplicam um parâmetro clássico, que diz que 80% da água produzida transforma-se em esgoto. Descontam o que não é coletado e chegam a mais ou menos 33 m3/s. São 33 mil litros de esgoto que desaguam, por segundo, no rio, numa estimativa grosseira.


Se hoje não se sabe bem quanto de esgoto tem no Tietê, o início do projeto foi ainda mais nebuloso. Não havia - e ainda não há - metas ambientais claras a serem perseguidas. Hoje nem mesmo o Comitê de Bacia do Alto Tietê, uma instituição que reúne prefeituras, órgãos estaduais e sociedade civil e elabora o plano de gestão dos recursos hídricos da região, detalha metas para ressuscitar o rio. Mas um consenso é o êxito obtido com a queda da poluição industrial. Foram 1250 empresas monitoradas, as maiores poluidoras da região. Lançavam 4,7 toneladas por dia de metais pesados no rio, índice que caiu para 0,14 ton/dia já em 1995.


A fiscalização foi mantida, mas a menor poluição também ocorre porque das 1250 empresas, só 607 continuam na RMSP - a metade fechou ou mudou. Para a segunda fase do projeto, outras 290 indústrias deveriam ser monitoradas, com US$ 5 milhões do BID. Não aconteceu. "A lista das 290 empresas apresentada pela Sabesp tinha shoppings e supermercados, que não monitoramos", diz Richard Hiroshi, da diretoria de controle de poluição ambiental da Cetesb. "Virou uma discussão de anos e em dezembro de 2006 resolvemos não participar do Tietê 2."


Os recursos foram destinados a outras obras do projeto. Mas, segundo a Sabesp, o BID continua insistindo para que o trabalho com as empresas seja ampliado. "A Cetesb também tem responsabilidade", diz Marcelo Salles de Freitas, diretor de empreendimentos e meio ambiente da Sabesp. "Vamos continuar discutindo este ponto."


"Na parte industrial já chegamos aonde queríamos", rebate Hiroshi. "Como podemos exigir que as indústrias façam mais investimentos? E o esgoto doméstico?" O volume gigantesco de descargas orgânicas continua sendo o algoz do Tietê. "São raros os momentos na RMSP em que o oxigênio dissolvido no rio sobe acima de 0,5 mg/l", diz Eduardo Mazzolenis, gerente da Cetesb que lida com a qualidade das águas. "Para ter vida, o rio tinha que ter no mínimo 4 mg/l." A medida da poluição orgânica é a demanda bioquímica de oxigênio, a DBO. Quanto mais alta a DBO, mais poluído o rio. "DBO é a fotografia do esgoto não tratado", compara Mazzolenis.


Em 1992, em Pirapora do Bom Jesus, a DBO era 38 mg/l. Foi caindo e chegou a 21 mg/l em 2005, mas em 2006 saltou para 28 mg/l. "Ficamos invocados com a subida da DBO", diz o técnico. O efluente despejado pelas estações de tratamento da Sabesp, as ETEs, está sendo investigado. Há suspeitas de que a ETE Parque Novo Mundo estaria fora dos padrões de qualidade estabelecidos pela legislação. O fato de em 2006 ter chovido menos também pode ter influenciado a piora da qualidade da água.


Com 4 mg/l de oxigênio dissolvido na água há alguma vida nos rios, mas no Tietê são raros os trechos com 0,5 mg/l


O Tietê nasce em Salesópolis e percorre 1100 km até desaguar no rio Paraná. Basta distanciar-se umas dezenas de quilômetros da nascente para que peixes e plantas sumam. "Leva o primeiro golpe em Suzano", diz Mazzolenis. Em Itaquaquecetuba já é um rio morto. Assim segue por Guarulhos, passa pela capital e prossegue até Salto, onde começa a se recuperar. É no recuo desta mancha marrom que está um trunfo do projeto. Em 1992, estimava-se em 300 km o cobertor de poluição; hoje são 180 km, garante a Sabesp. Para o paulistano, contudo, nada mudou.


O que se sabe, 15 anos depois, é que a poluição do Tietê é bem maior que o esforço já feito. Nas contas de Hiroshi, da Cetesb, com todo o investimento em tratamento e coleta, chegou-se a apenas 1/3 do que se deveria para limpar o rio. A Sabesp admite que os trabalhos estão muito aquém do necessário para se notar alguma melhora. "Mas cumprimos o que queríamos fazer em termos de obras", diz Freitas. A engenharia prevista na 1ª e 2ª fase aconteceu, mas com 10 anos de atraso. "A despoluição do rio vai levar mais uns oito anos para avançar um pouco. A limpeza completa levará décadas", reconhece.


O ímpeto da primeira fase, que contou com US$ 1,1 bilhão, não se manteve na segunda. Ingressaram US$ 400 milhões frente a uma expectativa de US$ 1,2 bilhão. "Foi uma hora ruim. Teve a crise asiática, a desvalorização cambial", lembra Freitas. Dessa forma, a segunda fase serviu para ampliar a rede e aproveitar a estrutura de tratamento erguida no primeiro período, de 16 m3/s, e não para puxar a capacidade para 28 m3/s, como foi idealizado no começo. A estratégia rebateu as críticas à primeira fase - dizia-se que se fizeram grandes estações de tratamento mas não se levou o esgoto até elas.


Outro nó que só agora começa a desatar é a relação da Sabesp com as cidades que têm serviços de saneamento próprio. Dos 34 municípios da região, seis não estão sob o regime da Sabesp e acabaram não participando do projeto. Guarulhos, o maior deles, com 1,2 milhão de pessoas, não trata uma gota de esgoto e joga tudo no rio.


Depois de muita negociação com o Ministério Público, em dezembro de 2006 a prefeitura de Guarulhos assinou um acordo onde se comprometia a universalizar coleta e tratamento em 30 anos. "É um abuso este prazo", diz o geógrafo Gustavo Veronesi, da Fundação SOS Mata Atlântica. "Não temos tempo a perder, tinha que começar ontem." A prefeitura explica o prazo dizendo que não tem dinheiro. O Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, pode encurtar este horizonte, cobrindo a metade dos R$ 550 milhões necessários ao saneamento de Guarulhos. "A expectativa agora é concluir as obras em cinco anos", diz João Roberto Morais, superintendente do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Guarulhos.


Também entre os municípios sob o regime da Sabesp há problemas. Sem investimentos, Itaquaquecetuba apelou ao Ministério Público para obter com a Sabesp um plano focado na cidade. São 350 mil habitantes e só 5% de tratamento de esgoto. O acordo, a ser assinado ainda em 2007, prevê 11 anos e R$ 176 milhões em coleta e encaminhamento dos efluentes para as estações de São Miguel e Suzano. Também serão instaladas estações provisórias em áreas mais populosas e onde já existe rede, conta João Antônio Campos, Secretário de Planejamento do município. Por seu lado, o gerente de departamento de planejamento integrado da unidade leste da Sabesp, Marcio de Oliveira, diz que os interceptores que permitirão a conexão entre Itaquaquecetuba e a estação de tratamento de São Miguel chegarão à cidade em 2008.


Esse é um exemplo do quebra-cabeças montado pela Sabesp dentro da RMSP, baseado na condução do esgoto a cinco grandes estações de tratamento, o que pode ser eficiente, mas também produz distorções. Barueri abriga a maior estação de tratamento de esgoto da America Latina, mas não é atendida por ela e despeja tudo onde? Bingo. "O esgoto da Billings será levado para Barueri, a 60 km de distância, sendo que a estação de tratamento do ABC é subutilizada", aponta Veronesi, da SOS Mata Atlântica. Ele acredita que um sistema baseado em pequenas e médias estações pode funcionar e ser menos oneroso.


É o que aconteceu na pequena Biritiba-Mirim (29 mil habitantes), que em 2005 atingiu um dos melhores índices de saneamento do país. Com 95% do esgoto coletado e tratado, Biritiba reduziu a mortalidade infantil de 60 por mil nascidos vivos, em 1990, para 11 em 2005. A saída foi uma ação localizada. Com R$ 7 milhões, 90% financiados pela Caixa Econômica Federal, a cidade construiu a rede coletora e uma estação com capacidade para tratar 55 litros por segundo. "Para uma cidade com R$ 20 milhões de orçamento, é uma obra faraônica", diz o prefeito Roberto Pereira da Silva (PSDB).


Para a terceira fase do Projeto Tietê, já em negociação com o BID, fala-se em outro US$ 1 bilhão. "Estamos formatando o plano", diz Freitas. A idéia é que a terceira etapa comece em 2009 e a quarta, em 2018. A intenção é ampliar as ETEs existentes e expandir a rede. Ao final da terceira fase a Sabesp espera coletar 92% dos esgotos e tratar 82%. Não se fala mais em ver o rio limpo, porém. "Isso não vai acontecer nem ao fim da quarta fase", diz o diretor da Sabesp.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Especialistas: cidades podem ficar ingovernáveis

Crise nas metrópoles brasileiras domina o primeiro dia da reunião anual da Anpocs, em Minas

Chico Otavio
Enviado especial

O Globo

CAXAMBU (MG). Um diagnóstico sobre as cidades brasileiras, que acumulam os efeitos mais dramáticos da crise social do país, ocupou ontem dois seminários no primeiro dia do 31º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Os participantes alertaram que o atual modelo produtivo — que protege o emprego qualificado, criando guetos urbanos de classe média alta, e estimula a informalidade, entregando as áreas carentes ao “controle do mercado local” — mantém intacto o nível de desigualdade nas grandes metrópoles e aponta para um quadro futuro de ingovernabilidade.

Os dois seminários, “A Metrópole e a questão social” e “Cidades: perspectivas e interlocuções nas ciências sociais”, mostraram as contribuições que cientistas políticos, antropólogos e sociólogos podem oferecer para o debate sobre as cidades brasileiras. O professor Luiz César Queiroz Ribeiro, da UFRJ, disse que a gestão das metrópoles do país está à deriva, uma vez que os governos municipais, estaduais e federal não se integram e raramente acertam ações coordenadas. — São João de Meriti, na Baixada, concentra o mais alto índice de poluição do ar entre os municípios fluminenses. Porém, quem está produzindo esse gás carbônico é o Rio. Portanto, é impossível para a Prefeitura de São João pensar em qualquer alternativa para enfrentar o problema se a ação não envolver o Rio — disse.

O Brasil tem hoje 15 grandes aglomerações urbanas exercendo um papel de articulação, diferentemente de países vizinhos, que abrigam uma única grande metrópole cada um. Há, segundo os pesquisadores, uma relação entre potencial econômico e aglomeração urbana (a metrópole representa consumo, força produtiva e inovação). Segundo eles, isso tem sido um ativo, do ponto de vista do desenvolvimento nacional, ao mesmo tempo em que é um grande problema. — É também um passivo. As grandes cidades são o coração da problemática social no Brasil. Parte desses passivos é herdada do modelo anterior, que combinou um grande salto econômico com desigualdade — disse Luiz Cesar.

Os participantes lembraram que, no novo modelo de desenvolvimento, o mercado de trabalho está cada vez mais segmentado. Hoje, a qualificação protegida caminha lado a lado com a economia da informalidade. Ao ficarem entregues à regulação do mercado, esses lugares são cada vez mais um território livre para o narcotráfico e as milícias. A discussão sobre cidades foi um dos temas do primeiro dos três dias de debates na Anpocs em Caxambu, no Sul de Minas. O evento terá este ano 35 seminários temáticos, 26 mesas-redondas, 11 conferências, nove sessões especiais e quatro cursos sobre diversos temas, da crise de representação política às mudanças climáticas, incluindo os já tradicionais debates sobre gênero, sexualidade e violência.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Estudo revela poluição elevada em seis capitais

AFRA BALAZINA
da Agência Folha

Um estudo feito em seis capitais brasileiras revelou que nenhuma delas atende ao padrão da Organização Mundial de Saúde para poluição do ar. Segundo pesquisa do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP, São Paulo ainda é a capital mais poluída do Brasil, mas Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife não podem se orgulhar por terem ar limpo.

Medições realizadas entre maio e julho deste ano mostram a situação desfavorável em todas elas. O estudo, obtido com exclusividade pela Folha, analisa o poluente material particulado fino (mistura de poeiras e fumaça). A principal fonte de emissão do poluente são os veículos.

A OMS recomenda que a concentração de material particulado fino não ultrapasse os 10 microgramas por metro cúbico. Porém, a média foi demais de 20 microgramas por metro cúbico nessas capitais.

Em São Paulo, chegou a 30. Recife, que foi a cidade que ultrapassou menos vezes o limite durante a pesquisa, teve média 12 --ainda um pouco acima do padrão.

Segundo o patologista Paulo Saldiva, do laboratório de poluição da USP, a exposição de longo prazo a esse tipo de poluição está diretamente relacionada a mortes por doenças cardiovasculares e por bronquites crônicas.

Mesmo em exposições de curta duração, as pessoas podem sentir efeitos da alta concentração do poluente: cansaço, tosse seca, irritação nos olhos, no nariz e na garganta.

Foi o que aconteceu com o professor de química Elson Barros, 38. Sua camionete quebrou ontem no túnel Anhangabaú (centro de SP). Nos 15 minutos que ficou lá, sentiu dificuldades para respirar e ardor nos olhos. "Geralmente, quando passo nos túneis, fico de vidros fechados para não inspirar a fumaça toda."

O professor não sabia que amanhã é o Dia Mundial Sem Carro, uma iniciativa para refletir sobre o excesso de veículos e suas conseqüências. Considera, porém, a idéia positiva.

"Eu perco uma hora e meia em congestionamento todos os dias. A cidade fica infernal a partir das 18h."

Junto com o dia sem carro, haverá também a Virada Esportiva na capital paulista --a população poderá se exercitar, participar de jogos e passeios ciclísticos em vários locais.

Falta de monitoramento

De acordo com André Ferreira, representante da Fundação Hewlett no Brasil, algumas capitais têm rede de monitoramento precárias ou falhas, o que impede o acompanhamento e a cobrança por medidas que amenizem o problema.

"Recife sequer possui rede de monitoramento. Em Porto Alegre, o último dado disponível para o público é de 2002 e a média anual para material particulado mostrava que não atendia ao padrão", afirma.

A pesquisa da USP foi encomendada pelo Ministério do Meio Ambiente e patrocinada pela Fundação Hewlett.

Ontem, segundo medições da Cetesb (agência ambiental paulista), foi registrada má qualidade do ar na estação Nossa Senhora do Ó (zona norte de SP) --o que a deixou em estado de atenção. Nenhuma das estações automáticas do Estado registrou qualidade boa.

A reportagem percorreu São Paulo ontem com um medidor portátil de material particulado fino. Até mesmo a região considerada menos poluída da cidade, a serra da Cantareira, ultrapassa o padrão da OMS.

O equipamento foi emprestado do laboratório da USP. Segundo o engenheiro Paulo Afonso de André, responsável pelo instrumento, os ventos levam a poluição até para a área da Cantareira, na zona norte --mais alta e afastada do centro. "Nenhuma região de São Paulo está imune."

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

L'auto japonaise dédommage des victimes de la pollution

Le Monde

Des constructeurs automobiles et de poids lourds vont dédommager des citoyens s'estimant victimes de la pollution de l'air des villes. Il s'agit sans doute d'une première mondiale. Les marques concernées, toutes japonaises, sont Toyota, Nissan, Nissan Diesel, Hino, Mitsubishi, Isuzu et Mazda. Ils ont accepté de régler à 520 plaignants la somme de 1,2 milliard de yens (7,4 millions d'euros). Ces sociétés consacreront également 3,3 milliards de yens (20,4 millions d'euros) à un programme d'aide médicale pour les asthmatiques de Tokyo. Suite...

quarta-feira, 4 de julho de 2007

China cuts water supplies to 200,000


By Mure Dickie in Beijing

Financial Times

Authorities in China’s eastern Jiangsu Province cut off water supplies to 200,000 people for nearly two days this week after a local river was found with dangerous levels of ammonia.

The cut-off in Jiangsu's Shuyang city – the latest in a series of pollution scandals that have disrupted water supplies to millions – came as a top environment official warned that the already-dire plight of Chinese rivers and lakes was still worsening.

“The traditional approach of growth through industrialisation has pushed China's resources and environment close to breaking point, and the daily lives of the people are seriously threatened,” said Pan Yue, deputy head of the State Environmental Protection Administration.

“Traditional administration methods cannot resolve the accumulated environmental problems,” Mr Pan said in a statement on Sepa’s website.

World Bank and government researchers recently estimated that 60,000 people in China are dying prematurely each year because of poor quality water, mainly in rural areas.

Water pollution has become a hot topic following huge outbreaks of algae in China’s Taihu, Chaohu and Dianchi lakes. Wen Jiabao, the premier, this month ordered local officials to “strengthen supervision and ban factories from discharging pollutants into the lakes”.

But Beijing leaders have often issued such instructions, and Mr Pan of Sepa left no doubt that past ap­proaches were not working.

In a chilling description of the scale of the challenge, he said 26 per cent of water in China’s seven biggest river systems had been found to be unable to support animal life, or was dangerous even to bathe in.

He said seven of the nine main lakes monitored by the state had been found to be “wholly” polluted.

“For more than 10 years the state has spent huge sums to deal with pollution in the drainage areas of the ‘three rivers and three lakes’, but the pace of action has fallen far behind the pace of destruction,” Mr Pan said. “Now areas that had improved are suffering renewed pollution.”

In other areas, water quality had steadily worsened. On one tributary of the northern Hai river, for example, pollution had killed all animal life in the “blackish-green, acrid-smelling” water and “seriously harmed” the lives of the people of 13 townships and 119 villages.

To try to force action against the most egregious polluters, Mr Pan said Sepa would not issue any approvals for new industrial projects in six cities, two counties and five industrial zones, with the ban to remain in place until they improved water quality enforcement.

The move is likely to have little direct effect, since Sepa officials say their influence with local officials is limited. Past Sepa controls on development appear to have been widely ignored.

However, Mr Pan said he hoped the new “restricted approvals” approach, which could be extended to other areas, would be a “starting point” for new approaches combining administrative action with market forces and public participation.

Sepa clearly hopes public opinion will help make up for its lack of clout. Mr Pan said it would issue regular updates on targeted companies and areas in order to “allow all of society to supervise river basin water pollution prevention”.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Beijing clouds the pollution picture

By Richard McGregor in Beijing

Financial Times

The World Bank conjured a daring finale to a conference it co-hosted in Beijing in March on pollution, staging a Chinese adaptation of a Henrik Ibsen play about a doctor trying to alert citizens to an environmental problem.

The doctor’s battle in An Enemy of the People to reveal the truth has striking parallels with efforts by reformers in China to force the authorities to be more open about the damage to the environment resulting from the pursuit of high-speed growth. More...

750,000 a year killed by Chinese pollution

By Richard McGregor in Beijing

Financial Times

Beijing engineered the removal of nearly a third of a World Bank report on pollution in China because of concerns that findings on premature deaths could provoke “social unrest”.

The report, produced in co-operation with Chinese government ministries over several years, found about 750,000 people die prematurely in China each year, mainly from air pollution in large cities.

China’s State Environment Protection Agency (Sepa) and health ministry asked the World Bank to cut the calculations of premature deaths from the report when a draft was finished last year, according to Bank advisers and Chinese officials.

Advisers to the research team said ministries told them this information, including a detailed map showing which parts of the country suffered the most deaths, was too sensitive.

“The World Bank was told that it could not publish this information. It was too sensitive and could cause social unrest,” one adviser to the study told the Financial Times.

Sixteen of the world’s 20 most polluted cities are in China, according to previous World Bank research. Guo Xiaomin, a retired Sepa official who co-ordinated the Chinese research team, said some material was omitted from the pollution report because of concerns that the methodology was unreliable. But he also said such information on premature deaths “could cause misunderstanding”.“We did not announce these figures. We did not want to make this report too thick,” he said in an interview.

The pared-down report, “Cost of Pollution in China”, has yet to be officially launched but a version, which can be downloaded from the internet was released at a conference in Beijing in March. Missing from this report are the research project’s findings that high air-pollution levels in Chinese cities is leading to the premature deaths of 350,000-400,000 people each year. A further 300,000 people die prematurely each year from exposure to poor air indoors, according to advisers, but little discussion of this issue survived in the report because it was outside the ambit of the Chinese ministries which sponsored the research.Another 60,000-odd premature deaths were attributable to poor-quality water, largely in the countryside, from severe diarrhoea, and stomach, liver and bladder cancers.

The mortality information was “reluctantly” excised by the World Bank from the published report, according to advisers to the research project. Sepa and the health ministry declined to comment. The World Bank said that the findings of the report were still being discussed with the government. A spokesperson said: “The conference version of the report did not include some of the issues still under discussion.” She said the findings of the report were due to be released as a series of papers soon.

domingo, 3 de junho de 2007

Poluição ameaça o futuro da China

Maior fábrica do mundo, o país contamina demais o ar, a água e o solo e compromete o mar e os lençóis freáticos

Ricardo Gandour, Enviado especial

Pequim - Em dias de mái, o sol brilha fraco em Tang Paradise, e o céu não é azul, mesmo num domingo ao meio-dia e sem nuvens. Construído em homenagem à Dinastia Tang (618-907), símbolo de prosperidade e excelência, o belíssimo complexo de lazer fica na cidade de Xian, centro-norte da China. Ali, como em diversas partes do país, volta e meia tem mái: uma névoa espessa que torna os dias mal iluminados e cinzentos.

O fenômeno ocorre da futurista Xangai à tradicional capital, Pequim. E tem se tornado tão freqüente que nos últimos anos surgiu no cotidiano a palavra mái, ideograma que combina os símbolos de 'nuvem' e 'animal' e na boca do povo quer dizer 'poeira ruim'. Mais do que apropriado para designar a mistura de fumaça, poeira, gases e elementos químicos em suspensão que varre boa parte dos 9,5 milhões de quilômetros quadrados do país e cujos efeitos, registrados em fotos no site da Nasa, já chegaram a atravessar o Oceano Pacífico e foram sentidos na costa da Califórnia.

A China, a maior fábrica e o maior canteiro de obras do mundo, enfrenta, na corrida pelo crescimento econômico, um gigantesco desafio: o impacto ambiental. A China está poluindo demais o ar, a água e o solo.

A questão ambiental chinesa ganhou na semana passada um dado alarmante. Estudo divulgado pela Academia Chinesa de Ciências Médicas revelou que o câncer, turbinado pela poluição, acaba de assumir a liderança no ranking de motivos de morte no país. 'A principal razão é a poluição da água e do ar, pior dia após dia', disse o médico e cientista Chen Zhizhou. Leia mais aqui no jornal O Estado de São Paulo

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Discurso muda, mas posição não

Sobre aquecimento global a nova postura de George Bush analisada pelo editor de ciência da Folha de São Paulo

CLAUDIO ANGELO

Quem acredita em George Walker Bush? Como o pastor que grita "lobo!" na fábula de Esopo, o presidente dos EUA passou tanto tempo dizendo que metas de redução de gás carbônico eram "prejudiciais à economia" que fica difícil engolir sua aparente mudança de posição.

Ela vem, aliás, em lugar e hora no mínimo curiosos: o discurso climático foi colado, como se às pressas, no pé de um pronunciamento sobre outro assunto. E é proferido dois dias depois que Nancy Pelosi, a democrata presidente da Câmara, deu a mão à chanceler alemã Angela Merkel e disse que um eventual governo democrata aceitará um acordo multilateral contra o aquecimento. Pelosi é o principal símbolo da derrota republicana nas eleições legislativas de 2006.

Sozinho externa e internamente, Bush não conseguiu mais sustentar a retórica da negação climática. Mas sua posição continua a mesma. O discurso de ontem é propositalmente vago, contraditório e inclui um oximoro ("carvão limpo") entre as soluções do problema ambiental.

Na verdade, a "proposta" americana se limita a chamar uma reunião para discutir metas (reinventando a roda, já que tanto o Painel do Clima quanto a Convenção do Clima da ONU têm esse objetivo) e acordá-las só em 2008. Leia mais aqui (para assinantes)