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domingo, 28 de outubro de 2007

Entrevista do Deputado Federal José Eduardo Cardoso

José Eduardo Martins Cardozo
O ex-Presidente da Câmara de Vereadores de São Paulo durante os dois primeiros anos da gestão Marta Suplicy e hoje Deputado Federal, explica o sentido de sua candidatura a Presidente do PT nacional

João Domingos, BRASÍLIA - O Estado de São Paulo


Por que o senhor decidiu ser candidato a presidente do PT?

Porque conto com o apoio de militantes que antes não costumavam se juntar, como o ministro Tarso Genro (Justiça), os governadores Marcelo Déda (Sergipe), Jaques Wagner (Bahia) e Ana Júlia Carepa (Pará), o senador Eduardo Suplicy. Isso dá à minha candidatura característica nacional.

Lula tem dito que em 2010 o candidato à sucessão dele não necessita ser do PT, mas da base aliada. O PT, no entanto, decidiu em seu último congresso que lançará um candidato. Como o senhor vê isso?

É legítimo que o PT pleiteie. Mas temos de respeitar as forças aliadas de forma a construir os nomes que são melhores para o momento. Seria um absurdo o PT dizer que não quer um candidato. É o principal partido do País, tem governadores, prefeituras importantes. Mas qualquer candidatura tem de ser construída com respeito aos adversários. Temos de abrir diálogos.

Quais devem ser os interlocutores? Os mesmos partidos da coalizão de agora?

Não devemos fazer o que ocorre hoje no PT, busca prioritária à direita e secundarização da importância de alianças à esquerda. O PT tem grande preocupação em se aliar com forças de centro-direita e não prioriza relações com os partidos de centro-esquerda. Temos de inverter isso. Não tem sentido o PT ignorar as relações de construção política com PSB, PC do B e PDT. Não tem sentido o PT, que é socialista, se aliar com forças que desejam matar o socialismo na origem. É um equívoco.

O senhor foi sub-relator da CPI dos Correios. Saiu de lá convencido de que houve o mensalão?

Às vezes, o tal do mensalão envolve uma discussão semântica que não leva a nada. Eu vou sair fora dessa palavra. É evidente que houve situações de recursos indevidamente repassados a partidos, a parlamentares. Chamem isso do que quiserem. Vamos falar da substância. Evidentemente que houve situações em que dirigentes petistas agiram como não deveriam. Temos de dizer isso com toda a clareza. É por isso que temos defendido a ética para o PT. Não se trata aqui de discutir casos individualizados. A ética é pressuposto da ação política. Não é possível pensar, como falaram em alguns encontros do PT, que a construção da democracia e do socialismo prescinde da ética. Nós defendemos um banho de ética. E que o PT seja mais rigoroso com as transgressões éticas de seus militantes do que até com seus adversários. Acho que sempre que houver denúncia de infração ética, antes de punir, o PT tem de investigar. Havendo provas, que haja punição. Não havendo, que o PT defenda o militante.

Como fazer para resgatar a credibilidade que o PT já teve?

Resgatando a democracia interna. O que tem acontecido no PT é que um pequeno grupo de pessoas decide o que o partido tem de fazer e isso é imposto para todo o conjunto, por intermédio do grupo majoritário. O militante vai num encontro e levanta crachás. Sabemos do resultado antes do encontro do PT. Isso é a negação do partido. É preciso retomar a democracia interna, o respeito à minoria. Porque um petista pensa diferente da maioria ele não tem de ser execrado. A questão da democracia interna é chave no resgate do PT. Ela traz de volta o petista à sua origem. O partido tem que ser militante. Vimos em algumas eleições militantes pagos. Isso é uma afronta ao que defendemos. Temos de ter militância ideológica.

Desde que o PT chegou ao governo, há um choque entre o partido e os meios de comunicação. Agora, vai ser criada a TV pública, como forma de pôr uma cunha na mídia. O que acha da TV pública?

Sou plenamente favorável. É correta, necessária. Não vai competir com ninguém.

E sobre a revisão das concessões de emissoras de rádio e de TV?

Aquelas que não atenderem à lei têm de ser revistas. O que for irregular exige intervenção imediata. Defendemos a liberdade de imprensa, mas existe a necessidade de que grupos econômicos não controlem a informação.

No Congresso recente do PT, foi aprovada a realização de plebiscito a respeito da privatização da Vale do Rio Doce. O que acha dessa decisão?

Temos postura crítica a todo processo de privatização feito pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Algumas questionáveis no mérito; na forma, quase todas, porque levaram a situações de descalabro. Acho importante que cada questão seja discutida com cuidado, para verificar se é reversível o processo, os custos para a sociedade, os ganhos com a reversão. Por sua própria natureza, a Vale está distante do cidadão comum. Mas no caso da telefonia não há como negar que a sociedade se beneficiou.

O sr. poderia fazer uma análise de seus concorrentes?

São dois excelentes candidatos. Ricardo Berzoini (que concorre à reeleição) expressa o Campo Majoritário, responsável pela direção do PT já há muitos anos. Essa forma de gestão está totalmente superada. A direção tem um projeto exclusivamente de manutenção do poder. Em relação a Jilmar Tatto, há forças políticas que seguramente estarão conosco se chegarmos ao segundo turno. Mas seu arco de sustentação está centrado no Estado de São Paulo, há dificuldade de dialogar com o País.


Quem é:
José Eduardo Martins Cardozo


Deputado federal em segundo mandato. Professor de

Direito Administrativo e Filosofia do Direito da PUC-SP.

Secretário de Governo na administração de Luiza Erundina. Vereador mais votado da história do País, com 229 mil votos em 2000.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Carta de Tarso Genro a militantes reacende crise interna do PT

Raymundo Costa

Além do problema Walfrido dos Mares Guia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está combatendo uma nova crise no PT. Sob o pretexto de avaliar o 3 Congresso Nacional do partido, o ministro Tarso Genro (Justiça) enviou uma carta aos militantes na qual faz duras críticas ao antigo comando partidário, minimiza seu papel nos avanços econômicos do primeiro mandato e diz - numa referência ao julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) - que não houve um julgamento "deste ou daquele indivíduo, tarefa que é responsabilidade da justiça penal após a instrução dos respectivos processos judiciais".

A carta de Genro - cujo título é "Depois do Vendaval" - deixou particularmente aborrecidos os ex-ministros Antonio Palocci e José Dirceu, além do ex-presidente do PT José Genoino. Palocci acredita que o ministro da Justiça desmereceu o papel que ele exerceu no governo Lula, ao afirmar que, com a mudança de comando no PT, deu-se no segundo mandato "início à 'transição' em direção a um novo modelo de desenvolvimento, com maiores taxas de crescimento, emprego e distribuição de renda, superando o modelo neoliberal herdado de FHC, de baixas taxas de crescimento e sucateamento das funções públicas do Estado".

Segundo Genro, a crise de 2005 "evidenciou a falência dos velhos paradigmas ideológicos vigentes no interior do partido, herdados da bipolarização URSS x EUA", que se refletiam no PT "com um arcabouço conceitual e um modelo de organização de tendências, incapaz de dar conta das novas complexidades da luta social no mundo globalizado". Este modelo, "impotente e primário, serviu apenas para consolidar relações de poder puramente contingentes para fortalecer interesses grupistas no partido, mas foi impotente para ajudar Lula a governar olhando para a frente, como o próprio presidente te o fez ao longo do primeiro mandato". Este foi o trecho que mais deixou incomodados Dirceu e José Genoino.


A assessoria do ministro Tarso Genro confirmou ao Valor a autenticidade da carta, mas destacou que se tratava de uma correspondência particular aos militantes que não era para ser divulgada. No pé do texto, aliás, há um aviso entre parênteses: "Este texto é uma correspondência; não é permitida sua reprodução sem licença do autor". Apesar da recomendação, a carta reabriu feridas que nunca foram inteiramente cicatrizadas no PT e voltou a radicalizar as posições em relação ao Processo de Eleição Direta (PED), em dezembro, que vai eleger o novo comando partidário.


O PT encaminhou a Lula uma lista com três nomes para presidir o partido: Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente, Luiz Dulci, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, e o do assessor para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia. O nome do atual presidente, Ricardo Berzoini, foi omitido porque ele disse que não queria mais permanecer no cargo, por sentir-se desprestigiado pelo presidente Lula.


Ao tomar conhecimento da lista do PT, Lula se recusou a abrir mão de dois dos três auxiliares: Gilberto Carvalho e Luiz Dulci. Especificamente em relação a Carvalho explicou que ele tem novas funções desde a reforma da chefia de gabinete da Presidência, a partir da qual Cezar Alvarez passou a cuidar especificamente da agenda presidencial e liberou Carvalho para outras tarefas . Entre elas, a interlocução do presidente com o próprio PT. Dulci também prefere ficar na Secretaria Geral. Restou Marco Aurélio Garcia, que já declarou publicamente não se sentir em condições de ocupar o cargo, depois que foi filmado fazendo um gesto obsceno.


Diante do impasse, os integrantes da executiva petista, que se encontram em viagem à China, decidiram antecipar a volta ao Brasil para este fim de semana. O grupo Articulação, que foi majoritário na eleição dos delegados ao 3º Congresso Nacional do PT, vai tentar convencer Ricardo Berzoini a voltar atrás e concorrer à reeleição para a presidência do PT. Há outras três alternativas - Paulo Frateschi (SP), Marcos Maia (RS) e André Vargas (PR). Mas um nome nem sequer pode ser mencionado no grupo: Tarso Genro.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Pensata de Valdo Cruz da Folha online

O vendaval petista

A guerra pelo comando do PT ganhou uma nova apimentada. De autoria do ministro Tarso Genro (Justiça), um texto intitulado "Depois do Vendaval" e distribuído internamente no partido foi visto tanto como uma crítica aberta por alguns petistas como um chamamento ao entendimento por outros. Depende do gosto do cliente. Ou melhor, de que lado ele está.

Elaborado como análise do último congresso do partido, realizado no final de agosto em São Paulo, o documento não cita nominalmente nenhum petista. Mas na leitura feita por membros do Campo Majoritário, tendência que controla o partido, Tarso Genro disparou vários torpedos contra os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci Filho, além de mirar no ex-presidente do partido José Genoino.

O grupo do ministro da Justiça discorda. Diz que, se de um lado Tarso Genro não fez questão de "passar a mão na cabeça de ninguém", por outro teve a preocupação de não personalizar sua análise, no desejo de não provocar rupturas dentro do partido e buscar uma conciliação.

Os dois lados têm lá sua razão. No texto, Tarso diz coisas do tipo: "A direção provisória, que assumiu o partido em julho de 2005, constituiu um novo ambiente político interno, que rompeu com uma defasada lógica de maioria e deu ao partido as condições para sair da letargia e da defensiva política, que se encontrava em razão da crise do mensalão". Não citou Dirceu, Delúbio Soares nem Genoino, mas estava falando deles.

Não ficou nisso. Avaliou que foi essa mudança no comando do partido que deu início a uma "transição em direção a um novo modelo de desenvolvimento, com maiores taxas de crescimento, emprego e distribuição de renda, superando o modelo neoliberal herdado de FHC, de baixas taxas de crescimento e de sucateamento das funções públicas do Estado". Uma referência a algo que já havia dito pós-reeleição do presidente Lula, de que a era-Palocci havia chegado ao fim.

O texto de Tarso Genro não pára por aí. Fala em "superação de erros e das limitações do partido" e daquilo que classifica de incapacidade da antiga direção partidária, aquela que ruiu com o mensalão, de realizar um "profundo debate sobre o modelo de desenvolvimento".

Não deixa, contudo, de realmente acenar com o entendimento. O ministro diz que seu novo grupo --Mensagem-- conseguiu apresentar propostas ao partido "sem a utilização de um discurso de condenação moral ou de acusação de indivíduos --como a grande mídia torcia". E, já no final do artigo, afirma que o "Mensagem" não quer "rivalizar" com essa ou aquela corrente do partido, mas "dialogar com os militantes de todas as correntes". Ou seja, se faz uma crítica contundente, como de costume, Tarso também busca uma conciliação. Dificilmente José Dirceu vai acreditar em suas intenções. Tem lá suas razões. Mas dentro do Palácio do Planalto o movimento do ministro da Justiça é bem visto. Inclusive pelo presidente.

Presidente

O Campo Majoritário, tendência interna do PT que adotou um novo nome --Construindo um Novo Brasil--, domina hoje quase 50% do partido. Tem em suas fileiras gente como José Dirceu, Ricardo Berzoini, Luiz Marinho, Marta Suplicy, Luiz Dulci, Patrus Ananias e Paulo Bernardo. Dentro desse grupo, boa parte quer evitar a estratégia do seu oponente Mensagem --cerca de 13% do partido-- de eleger Marco Aurélio Garcia o novo presidente do PT. O atual comandante do partido, Ricardo Berzoini, tem dito que não deseja mais permanecer no posto, apesar de seus amigos ainda o pressionarem nesse sentido. No Mensagem, estão, além de Tarso, petistas como o governador Marcelo Déda, o ex-governador Olívio Dutra e o ministro Fernando Haddad (Educação). A eleição direta dos novos dirigentes acontece no final do ano. Até lá, mais artigos virão. Não só de Tarso Genro. Em jogo o comando do partido no período em que será escolhido o candidato petista à sucessão de Lula.

Mensalão mineiro

Depois de o STF acatar a denúncia da Procuradoria Geral da República contra os 40 homens do mensalão petista, a expectativa agora é sobre o destino que o procurador-geral Antonio Fernando de Souza dará ao que ele considera o "embrião do mensalão" surgido em Minas Gerais durante a campanha de reeleição do ex-governador tucano Eduardo Azeredo. Muito possivelmente vai propor denúncia contra Azeredo. A dúvida é se vai incluir o ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), o articulador político do presidente Lula.

Contra Mares Guia há a denúncia de que ele teria sido o coordenador da campanha de Azeredo e, nessa condição, operado um esquema de caixa dois envolvendo mais de R$ 24 bilhões. Só que o próprio Eduardo Azeredo já disse e repetiu que Mares Guia não foi seu coordenador de campanha. Gente que trabalhou na campanha diz que o ministro se restringiu a dar conselhos antes do início da eleição e a conseguir alguns apoios no segundo turno, mas não operou nem mexeu com o dinheiro arrecadado pelos tesoureiros do tucano. O próprio Mares Guia questiona como pode ser acusado de ter operado o dinheiro da campanha de Eduardo Azeredo, seu amigo, sem ter trabalhado nela.

Dentro do Palácio do Planalto, a avaliação é que não há provas contra o ministro. Assessores de Lula acreditam que ele não tenha nenhuma relação com o esquema montado à época, quando Marcos Valério começou a operar em campanhas políticas. Os próprios tucanos sabem disso. Só que, para eles, o melhor dos mundos seria Mares Guia também ser incluído na denúncia pelo procurador. Dividiria com o PSDB o desgaste político.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

terça-feira, 4 de setembro de 2007

3º Congresso do PT: A dialética da candidatura para 2010 (2)

(...)

Petistas tentaram ontem desfazer a impressão de que a aprovação da candidatura própria para 2010 foi uma derrota. "A resolução deixa claro que vamos dialogar", disse Rocha.

O texto, apesar de fazer acenos a aliados, deixa claro que o PT quer lançar candidato próprio. No segundo parágrafo, o partido diz que será "dirigente" da condução da sucessão. No terceiro, mais explícito, diz que "deve apresentar candidatura petista à sucessão de Lula".

O último parágrafo, negociado por integrantes do ex-Campo Majoritário -ministros Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) e pelo assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia, além de petistas ligados a Tarso- propõe o debate. "O PT apresentará uma candidatura a presidente a ser construída com outros partidos", diz. A negociação foi costurada porque os petistas mais próximos a Lula temiam uma derrota se o texto fosse votado no plenário. (...)

Leia a integra do artigo Derrotas de direção atual abrem disputa no PT
no jornal Folha de São Paulo (para assinantes)