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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Indignidade

Eu também decidi pedir emprestado ao jornalista Mino Carta seus botões e fico interpelando os meus.

É que eles, como a esmagadora maioria dos comentaristas dos meios de comunicação, do deputado Gabeira e Heloisa Helena e de alguns expoentes do cansaço, estão "indignados" com a absolvição de Renan Calheiros pelo Senado. Nesta "indignação", meus botões freqüentam também alguns senadores do PSDB conhecidos pelo apego à ética em tempos recentes.

Dialogando com meu botões, e contendo minha própria indignação, perguntei para eles sobre o que aconteceu nesse mesmo Senado quando as denúncias contra o Eduardo Azeredo chegaram à Comissão de Ética da nobre casa?

Não sei se os crimes imputados ao outrora presidente nacional do PSDB, pela Polícia Federal, têm consistência suficiente aos olhos da justiça, o STF dirá. As acusações incluem corrupção, desvio de dinheiro público e financiamento ilegal, além de lavagem de dinheiro. Em todo caso, devem implicar seguramente, estes tais crimes, a famosa "quebra de decoro".

Pois é, repito para meus botões a essa altura já bastantes avermelhados, qual foi a reação da Comissão de Ética do Senado? um simples "arquive-se" e ponto final.

É isso mesmo, as acusações foram arquivadas. Os senadores não manifestaram curiosidade maior. A mídia informou do fato e sem dúvida isto ecoou no Jornal Nacional. Mais onde estava a indignação? Aliás onde ela está agora, essa indignação? Cadê Gabeira e Helo?, onde se expressa a incontinência verbal de uma boa parte de nossa brava mídia? Quero pelo menos dez artigos de Clóvis e outros tantos do Jabor, quero três capas da Veja e inúmeras prosas de Mainardi.

Meus botões ficaram mudos. Vermelhos de raiva.

Para eles eu estava querendo esconder que o culpado no "valerioduto mineiro", como pudicamente é denominado por boa parte da mídia o esquema ilegal do PSDB, era o Ministro Mares Guia, do governo Lula do PT.

Pedi desculpas aos meus botões. Como FHC, Serra, Alckmin, Aécio, Artur Virgilio, Yeda e outros ilustres pássaros da tucanagem, eu nada sabia.

Mas agora, como todos eles, já sei: a culpa é do Lula.

Luis Favre

Marcos Valério, o operador de aluguel



Jornal Valor

O empresário Marcos Valério não era simplesmente um operador petista, mas um profissional do ramo de lavagem de dinheiro e montagem de caixa 2 para campanhas eleitorais. E profissional dessa área não tem partido: o dele é o que está no poder e o contrata. Essa é uma obviedade desde 2005, quando o empresário passou a ser investigado como operador de um "mensalão" que teria irrigado o caixa 2 do PT e de seus aliados nas eleições municipais de 2004. Afinal, no meio das investigações apareceu ninguém menos do que o senador Eduardo Azeredo (MG), então presidente do PSDB de Fernando Henrique Cardoso. Ou melhor, veio à tona o caixa 2 que irrigou o PSDB mineiro e seus aliados na campanha de Azeredo pela reeleição para o governo de Minas, em 1998.

O PSDB nacional e o próprio interessado estabeleceram uma diferenciação sutil entre o caso do PT e o de Azeredo, segundo a qual os petistas e seus aliados pecaram porque supostamente teriam usado o dinheiro para pagar mesadas aos aliados e o ex-governador de Minas, como não teria dado mesada, era inocente. O PSDB afastou docemente Azeredo da presidência, juntou-se ao PFL num discurso agressivo contra o PT e o governo Lula, a mídia embarcou e o caso ficou esquecido até agora.


Por quase dois anos a oposição tratou o caso do mensalão como uma anomalia introduzida pelo PT no sistema político. A udenização do discurso oposicionista no auge da crise política beirou o golpismo. Agora, a mesma PF que indiciou os envolvidos do PT e de seus aliados concluiu o inquérito do "valerioduto" mineiro e chegou à conclusão de que este é um esquema muito mais complexo, pois envolveu mais de 150 políticos, 17 partidos e um total de R$ 100 milhões movimentados nas eleições de 1998 sem conhecimento da Justiça Eleitoral. O presidente do PT nacional à época do mensalão, José Genoíno, está sendo processado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e, ao que tudo indica, pecou principalmente por omissão. O presidente do PSDB de então era Eduardo Azeredo, beneficiário do mesmo esquema em 1998. Os partidos de ambos usaram os mesmo recursos de captação e lavagem de dinheiro. A única diferença é que o PSDB de Minas precedeu o PT nacional no uso dos préstimos de Marcos Valério.


Esses são os fatos - que, aliás, ao serem aqui expostos não têm nenhuma intenção de inocentar o PT pelo uso do caixa dois e captação ilegal de dinheiro nas eleições de 2004. Pelo contrário. É sabido que o PT abandonou a campanha de militância e embarcou no esquema tradicional de captação de dinheiro quando tornou-se "pragmático" e foi atrás de recursos para "profissionalizar" suas campanhas eleitorais. Não é mérito nenhum ter feito a opção de se tornar mais um entre os partidos que já se utilizavam desse expediente.



Valerioduto mineiro foi subestimado pela mídia


A discussão que se coloca agora, findo o trabalho da PF e quase terminado o do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza - que deverá oferecer denúncia contra os clientes mineiros de Marcos Valério nos próximos dias - é se a disputa política justifica eticamente a assimetria como foram tratados os dois casos, quer pela oposição, quer pela imprensa.


Quando os especialistas analisam as razões pelas quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou na disputa pela reeleição, no ano passado, devem incluir mais uma: para o grande público, e não para a restrita "opinião pública" integrada pelos mais escolarizados, a hipocrisia do discurso dos oposicionistas, militantes da política tradicional desde sempre, ou quase isso, estava patente. "A conversa deles é dizer que a questão moral não conta mais. Conta sim. Ladrão, não mais", discursou para seus correligionários energicamente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em entrevista, afirmou, enojado: "Nunca ouvi falar em tanta corrupção como neste governo". O senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), recentemente falecido, referia-se ao dirigente máximo da República, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apenas como "ladrão". Não colou. Dada a imagem que a classe política desfruta entre os eleitores, venceu, na dúvida, o presidente Lula, que trazia uma política social inédita na bagagem.


Como na política institucional vale mais a versão que o fato, o país deverá assistir nos próximos dias mais alguns lances de pura hipocrisia. O ministro das Relações Institucionais do governo Lula, Walfrido Mares Guia (PTB), foi investigado pela PF e agora o procurador-geral decidirá se apresentará denúncia contra ele. Embora esteja sob investigação por conta do caixa 2 do tucano mineiro, o ministro promete ser a próxima crise do governo de Lula. Pode-se ponderar que Lula, depois dos tumultos do primeiro governo, não poderia ter feito uma maioria parlamentar a qualquer preço e deveria escolher melhor suas companhias, mas esse argumento também remete aos governos FHC. Afinal, o PTB do ministro esteve na base de apoio de todos os presidentes desde a sua recriação, em 1980.


A repercussão dos escândalos do mensalão e do valerioduto mineiro, ou melhor, a simples existência de Marcos Valérios, devem deixar a arena da disputa político-partidária. É sobre as razões pelas quais esses esquemas existem historicamente no Brasil e se mantém ativos que a sociedade em geral, e os partidos em particular, devem se debruçar. E, para que se inicie um debate sério, sem hipocrisias, é necessário reconhecer que: o sistema político funciona e se financia com dinheiro ilegal; os partidos não se diferenciam fundamentalmente quando se trata de captação ilegal de dinheiro (talvez com exceção do P-SOL, que é novo e ainda não tem grande representatividade; o PT era exceção, mas esse é um verbo no passado); a lavagem de dinheiro de origem duvidosa é uma atividade comum no meio político e os donos de lavanderias ganham dinheiro com isso. No limite, não existe grande diferença entre as finanças partidárias e de qualquer organização ilegal. Se partir desses princípios, o debate de como trazer à superfície a vida das agremiações partidárias pode ser feito com alguma seriedade. Fora isso, é jogar para o eleitor e para a platéia.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

maria.inesnassif@valor.com.br

domingo, 16 de setembro de 2007

O início do Valerioduto

Luis Nassif

O relatório da Polícia Federal sobre o esquema de financiamento na campanha do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo fecha o ciclo de interpretações sobre o “mensalão”. Aqui o link do relatório, disponibilizado pelo Consultor Jurídico.

Vários jornalistas foram execrados e enfrentaram dificuldades em seus órgãos de imprensa quando pretenderam atuar jornalisticamente e discutir a gênese do mensalão, os financiadores efetivos. Na “Globo” foi ostensiva a pressão de Ali Kamel sobre comentaristas, para que não mencionassem mais o esquema mineiro ou insistissem para que se descobrisse a origem do esquema. De minha parte, sempre defendi a tese de que há uma estrutura de “operadores” que serve a qualquer governante.

Nessa loucura em que se transformou a cobertura – em que o mero fato de se tentar manter a objetividade era encarado como “colaboracionismo” --, a grande mídia deixou de lado o jornalismo para fazer política. Está pagando um preço alto, do descrédito perante parcelas expressivas de leitores. Vai continuar investindo nessa linha, em um momento em que as novas formas de comunicação escancaram as práticas jornalísticas?

Tanto esses esquemas se interligam, que o principal operador do esquema mineiro, Walfrido dos Mares Guia, hoje é o principal articulador político de Lula. Os agentes são os mesmos: Valério, SMPB, BMG, Rural.

Há um agravante fundamental: pelo relatório da Polícia Federal, provas consistentes de desvio de recursos de estatais mineiras, e de convênios com órgãos federais, para o esquema, operados por agentes do governo mineiro.

Alguns dos trechos da abertura do relatório:

Os métodos de desvio

Pelas provas reunidas, pode-se identificar ao menos dois métodos utilizados para desviar recursos públicos para utilização na campanha de reeleição para o Governo de Minas Gerais no ano de 1998: a) patrocínios fictícios de eventos esportivos realizados pelas empresas COPASA - Companhia de Saneamento de Minas Gerais, COMIG – Companhia Mineradora de Minas Gerais (atual COPASA) e GRUPO BEMGE – Banco do Estado de Minas Gerais; b) simulação de gastos publicitários da CEMIG – COMPANHIA ENERGÉTICA DE MINAS GERAIS.

Da mesma forma, foram reunidos elementos indicativos do superfaturamento dos serviços prestados pelas agências de publicidade de MARCOS VALÉRIO para a administração direta do Estado de Minas Gerais, ou mesmo da inexistência da prestação efetiva destes serviços.

Os recursos federais

MARCOS VALÉRIO também realizou em 1998 procedimentos ilícitos junto à Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO, entidade integrante da administração pública federal vinculada ao Ministério do Trabalho, utilizando a mesma técnica de branqueamento de fundos desviados através da prestação de serviços publicitários inexistentes ou superfaturados.

O esquema das agências

Foi comprovada, igualmente, a utilização das empresas de publicidade investigadas como receptáculo e entreposto dos repasses privados destinados à campanha de reeleição do Governador EDUARDO AZEREDO no ano de 1998, realizados por empresários que pretendiam permanecer no anonimato devido ao evidente conflito de interesses que suscitavam suas doações, uma vez que eram empresas, em sua maioria empreiteiras e construtoras, que haviam vencido diversas concorrências no Estado de Minas Gerais durante os anos de 1994 a 1998.

(...) CLÁUDIO MOURÃO afirmou que, posteriormente, MARCOS VALÉRIO posteriormente obteve outro empréstimo, desta feita no valor de R$ 9 milhões, que também foi utilizado na campanha de 1998. A análise financeira efetuada durante as investigações constatou que este mútuo foi liquidado com recursos originados do contrato de publicidade que a SMP&B mantinha com a administração direta do Estado de Minas Gerais, juntamente com recursos disponibilizados pelo próprio BANCO RURAL S/A.

(...) Na verdade, as provas reunidas nesta investigação demonstram que MARCOS VALÉRIO obteve diversos empréstimos para simular a origem de recursos repassados para a campanha de EDUARDO AZEREDO, no total de R$ 28.515.000,00 (vinte e oito milhões quinhentos e quinze mil reais), conforme quadro abaixo:

O comando do esquema

Segundo declarações de CLÉSIO ANDRADE (fls.623/631), o núcleo de poder do Governo do Estado de Minas Gerais em 1998 era formado pelo governador, pelo vice-governador WALFRIDO DOS MARES GUIA e pelos secretários de estado ÁLVARO AZEREDO, CLÁUDIO MOURÃO e JOÃO HERALDO, sendo este praticamente o mesmo núcleo político da campanha. CLÉSIO ANDRADE afirmou que as estratégias eram decididas por este núcleo, não tendo qualquer participação na gestão financeira da disputa eleitoral de 1998.

Destaca-se, neste ponto, a participação de WALFRIDO DOS MARES GUIA, então vice-governador e coordenador da campanha de EDUARDO AZEREDO em 1994, na definição das estimativas dos gastos que seriam realizados durante a campanha, sendo de sua lavra os manuscritos constante às fls. 118/120.

O caso Walfrido

O atual ministro WALFRIDO DOS MARES GUIA também participou ativamente das negociações envolvendo a contratação do publicitário DUDA MENDONÇA, cujo pagamento, no total de R$ 4.500.000,00, foi suportado com recursos disponibilizados por MARCOS VALÉRIO.

Conclusões minhas

Pergunto: como fica a cobertura agora? Há interesse em aprofundar o caso e em tirar lições que eliminem definitivamente essas práticas, ou vai se ignorar o relatório, continuar a instrumentalizar as denúncias, e continuar a jogar fora o que resta de credibilidade?

Pergunto: como fica o governo Lula, trazendo para dentro de si um dos principais responsáveis por esse esquema, apenas pelo fato de sabê-lo blindado pela grande mídia.


Luis Nassif