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domingo, 4 de novembro de 2007

A TV pública será controlada pela sociedade

Entrevista - Tereza Cruvinel

Segundo a presidenta da TV pública, não haverá “vassalagem” ao governo


Denise Rothenburg e Luiz Carlos Azedo
Da equipe do Correio Braziliense

A jornalista Tereza Cruvinel vai enfrentar este mês a dura batalha no Congresso Nacional para ajudar o governo a convencer os parlamentares a aprovar a medida provisória que criou a TV Brasil, a primeira rede pública brasileira, que ela vai presidir. Tereza afirma que a TV Brasil não será estatal, mas chega para ocupar um espaço entre as emissoras privadas e as estatais. Nesta entrevista ao Correio, ela explica como estão os primeiros passos e o que vem pela frente, especialmente no jornalismo, um aspecto que tem feito a oposição torcer o nariz para a tv Brasil: “Será jornalismo sem adjetivos, fiel aos fatos, não confundindo o fato de a TV ser pública com qualquer vassalagem ao governo, nem confundindo a independência com obrigação de fazer oposição ao governo”, diz Tereza. A seguir, os principais trechos da entrevista.


“Jornalismo sem adjetivos”
Kleber Lima/CB
“A gente tem uma TV muito Rio, muito São Paulo. A TV comercial não faz o debate de certas questões, pois a natureza dela não permite isso”

Há muita polêmica sobre os conceitos de TV pública e estatal. Existe diferença?
Existe. O artigo 223 da Constituição diz que o sistema de radiodifusão deve buscar complementaridade entre sistema privado, público e governamental. Privado nós sabemos o que é e temos televisões governamentais tanto federais quanto estaduais. O que não temos é uma TV publica. Eu abriria uma exceção para a TV Cultura, que é a que mais se aproxima. A TV pública é aquela não explorada por um grupo privado, sob a influência da publicidade comercial, e também não controlada pelo poder político governamental. A TV pública, embora seja uma concessão federal, mesmo gerida por uma empresa estatal e com dinheiro orçamentário como sua principal fonte de receita, subordina-se à sociedade através de algum mecanismo de controle que garanta o cumprimento de suas finalidades. Alguém pode perguntar se a TV comercial não é boa. É boa enquanto tal. Mas ela não cumpre certas finalidades.

Como assim?
Por exemplo, debater profundamente os problemas do país. O Congresso Nacional tem aprovado uma série de leis da maior importância que não são debatidas em profundidade, a não ser pelas TV legislativas, que são a cabo e têm um alcance muito restrito. A Lei dos Trangênicos, o Estatuto do Idoso são dois exemplos. A sociedade mal tomou conhecimento de que aquilo estava sendo debatido. A TV comercial não faz um debate profundo dessas questões porque a natureza dela não permite. Uma TV Pública fará isso, dedicará espaços para debater com mais tempo as questões nacionais, dará oportunidade clara para a produção local e dará expressão à diversidade cultural do país. A gente tem uma TV muito Rio e São Paulo.

Uma crítica no Congresso é pelo fato de a TV pública ter sido criada por medida provisória…
É verdade, essa é uma das principais queixas que ouvi até agora. Um projeto de lei seria a forma mais adequada de criar a TV pública, se estivéssemos construindo uma TV pública como uma casa num terreno vazio. Acontece que não é assim. Existem duas TVs governamentais que hoje não são públicas, não têm o controle de algum órgão que expresse a sociedade. São a TV Nacional de Brasília, vinculada à Radiobrás, e a TV Educativa, que fica no Rio de Janeiro. Duas grandes estruturas que serão fundidas. Elas vão se fundir com a Radiobras para dar origem à TV Brasil juntamente com um canal novo em São Paulo que não está nem no ar ainda. Só o anúncio de que será criada uma nova TV pública já criou um ambiente de instabilidade, incerteza, insegurança entre os funcionários. São mais de mil em cada uma. Um prolongado processo de debate de um projeto de lei, que levaria mais de um ano no Congresso, comprometeria o funcionamento saudável dessas duas instituições. Hoje, elas estão no ar e têm suas programações, mas o ambiente é de instabilidade.

Já houve discussão com a equipe da TV?
Temos conversado. Há muitos interlocutores na diretoria e no sindicato, são dois sindicatos fortes. Temos explicado que não há plano de demissão. Mas, acontece um episódio novo, como, por exemplo, a visita da FGV, contratada para fazer um diagnóstico dessas duas instituições, vai lá fazer um levantamento e já corre a notícia de que há um plano de demissão. E isso gera novas incertezas entre os servidores. A Elisabeth Carmona fez um excelente trabalho na TVE e está preocupada. Expressou a preocupação de aproveitamento do pessoal. Uma preocupação justa, mas infundada porque não há esse plano de demitir.

Como será a grade de programação?
A partir de 2 de dezembro, o que pretendemos fazer é começar a fazer uma programação unificada, a partir da programação já existente. É como se estivéssemos pegando o que há de melhor na Radiobras, na TVE e nas TVs estaduais que vão se associar à rede. Há um estoque imenso de documentários ainda inéditos, há contribuições de TVs públicas de outros países. Faremos uma grade de transição até que comecemos a produzir a grade própria da futura TV Brasil. Essa grade deverá conter jornalismo, mas não como marca excepcional da TV. Jornalismo como a TV comercial também tem, dois, três jornais por dia. Mas um jornalismo com muita participação da rede.

Será jornalismo chapa branca?
Será jornalismo sem adjetivos, fiel aos fatos, não confundindo o fato de a TV ser pública com qualquer vassalagem ao governo nem confundindo a independência com obrigação de fazer oposição ao governo. Jornalismo dos fatos, com muita separação do que seja opinião. Pretendemos inclusive que não haja opinião no jornalismo, para que ele se proteja de qualquer confusão. Haverá jornalismo, muita expressão da programação regional, documentários e programas destinados ao fortalecimento da educação para a cidadania. Também programas infantis. Não haverá, ao contrário do que muita gente ainda pensa, divulgação de atos do governo. Isso vai para o canal NBr que é o canal do poder executivo federal.

Como será escolhido o conselho?
Serão indivíduos e não representantes de sindicatos, entidades ou corporações. Serão personalidades da sociedade, de elevada representatividade em seus campos de atuação, pessoas de formações diferentes, profissionais que representem as diversas regiões do país.

Quantos serão?
Serão 15 da sociedade, quatro do governo, um dos empregados, total 20 membros. O conselho curador da TV Brasil terá poderes efetivos para aprovar ou reprovar a linha editorial, pedir mudanças e inclusive para derrubar um membro da diretoria ou toda ela através do voto de desconfiança. Você perguntou antes como serão escolhidos. Serão nomeados pelo presidente da República. Eu estudei, estudamos, o grupo de trabalho estudou todas as experiências do mundo. A MP diz que esse primeiro conselho deverá buscar mecanismos para sua renovação através de consultas populares. Não tem uma fórmula, mas há essa abertura para se buscar.

Essas indicações são com mandato fixo, passariam pelo Senado?
Não está proposto na medida provisória, mas o Congresso é soberano e ouvi muita gente mencionar essa possibilidade. Se o Congresso fizer essa mudança, tem poderes para isso, estará feita. Os conselheiros terão quatro anos de mandato. Não poderá haver renovação. Nessa primeira fase, metade dos conselheiros terá dois anos, para garantir aquele rodízio para não haver coincidência, nem com o mandato presidencial e nem quebra da continuidade pela renovação total do conselho. Na próxima semana, o conselho deve ser apresentado. Como será o meu fiscal, estou tomando muito pouco contato com esse assunto de composição para evitar exatamente uma proximidade que não deve haver.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Valeu Moreno, Tereza Cruvinel merece!

por Jorge Bastos Moreno

A jornalista Tereza Cruvinel será a presidente da nova TV Pública do país.

Ela está deixando o Globo, onde por mais de 20 anos foi colunista do "Panorama Político".

A nota deveria acabar aí.

Foi o que a minha emoção pediu.

Mas Tereza é Maior do que esta nota e, principalmente, Maior do que esse seu novo desafio.


A Tereza é Grande. Seu trabalho no Globo foi Grande.

Minha tristeza também.

Agora posso contar: Tereza veio pro Globo por indicação minha. Foi a única indicação minha que até hoje emplacou na empresa. Depois da Tereza, não emplaquei mais ninguém. Isso sempre me revoltou. Mas agora entendo. A indicação da Tereza esgotou todas as minhas possibilidades. Qualquer pessoa que eu indicasse depois da Tereza não teria a menor importância. O acerto estava feito.

Em pouco tempo, a Tereza cresceu muito mais que eu. Cheguei a repetir Golbery sobre a sua cria, o SNI: "Criei um Monstro".

Como a minha vaidade aceitou a Tereza ser mais importante do que eu na sucursal do Globo em Brasília? Eu sei driblar -- e muito bem -- qualquer sentimento mesquinho que se queira apropriar da minha alma penada.

Coloquei na cabeça: "A Tereza sempre vai ser muito melhor que eu e eu tenho que aceitar isso, pois terei que conviver sempre com essa realidade eu não quero sofrer com isso".

Profissionalmente, nunca briguei com a Tereza. Pessoalmente, as brigas são diárias. E uma única causa: ciúme. Desse sentimento, faço questão de não me livrar.

Entendem agora meu drama? Estou perdendo a Tereza, minha parceira no jornal. Sua nova atividade certamente vai nos afastar fisicamente. Não por divergências. A vida é assim: novas atividades, novos círculos e as amizades vão se eternizando no coração.

Agora, mais do que nunca, eu vou cantar:


"Cadê Tereza? Onde anda a minha Tereza?"

Ela se foi.

domingo, 23 de setembro de 2007

Classe média

TEREZA CRUVINEL

A divulgação dos indicadores socioeconômicos favoráveis ao governo coincidiu com a revelação, pela pesquisa CNI-Ibope, de uma queda, ainda que ligeira e dentro da margem de erro, na popularidade do presidente Lula. Os 50% que em junho consideravam o governo bom e ótimo caíram para 48%, e os 66% que aprovavam a forma de Lula governar, para 63%. Mais uma vez, a oscilação negativa ocorreu dentro da classe média.

Não na “nova classe média” que o governo considera fruto de suas políticas, composta por pobres emergentes que estão entrando na sociedade de consumo, mas na velha e tradicional classe média, de gente com curso superior que ganha mais de dez salários mínimos e que, na campanha do ano passado, votou mais em Alckmin que em Lula.

Deve haver, na composição da variação negativa de agora, resquícios do apagão aéreo e respingos da crise do Senado, que envolveu um aliado importante como Renan Calheiros, ao lado de quem Lula nunca se recusou a aparecer.
O julgamento do STF também pode ter despertado a lembrança da decepção com os escândalos do PT.

A pesquisa mostrou elevada rejeição à CPMF. Mas se, na média, 54% defenderam o fim do imposto ainda este ano, na classe média o índice foi de 72%, contra 48% entre os que ganham de dois a três salários mínimos.

Se a aprovação média do governo foi de 48%, entre os pobres foi de 53% e na classe média, de 38%. Ainda é um bom índice, sinal de que a rejeição não é hegemônica, embora o contraste interclasses seja grande.

A rejeição da classe média a Lula era bem mais baixa no início do primeiro mandato, 11%, segundo o Datafolha de março de 2003. Em 2004, depois do caso Waldomiro, a aprovação ao governo Lula no segmento começou a cair. Com o escândalo do valerioduto, em 2005, a rejeição passou a dominar a classe média. Nessa época, o Datafolha registrou 46% de rejeição ao presidente nessa camada social, contra uma aprovação de 18%. Na campanha de 2006, Lula recuperou parte da classe média, sobretudo no segundo turno, neutralizando a preferência anterior de Alckmin, que perdeu 2,5 milhões de votos no segundo turno.

O governo continua querendo reconquistar a classe média, mas não encontra o discurso e a política certos.

Iniciado o segundo mandato, o grande estrago foi feito pelo apagão aéreo. Avalia que ela também vem se beneficiando do crescimento, embora os pobres é que estejam ganhando mais. E isso, de certa forma, indispõe os segmentos médios mais conservadores ou mesmo preconceituosos, que, receando perder alguma coisa, reagem a qualquer distribuição.

Detestam o Bolsa Família. A popularidade é alta entre os pobres, mas o governo sabe que, tendo a classe média contra, é sempre mais difícil governar. Continua querendo reconquistá-la. No pronunciamento do ministro Mantega, na sexta-feira, houve mensagens nesse sentido.

Por isso, entre as concessões tributárias que podem ser apresentadas para garantir a aprovação da CPMF no Senado, pode surgir uma nova mexida no Imposto de Renda. Uma correção do valor das deduções por dependente e gasto escolar cairia bem.

Leia a integra da coluna de Tereza Cruvinel no jornal O Globo (para assinantes)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Santa hipocrisia!

Blog de Tereza Cruvinel


Eu pensava que só politicos fingiam, agora vejo leitores fingindo que não entendem o que leem. Ora, não está escrito no post aí embaixo que eu culpo a oposição pela absolvição do Renan. Nem discuti que a responsabilidade maior foi da base governista, o PMDB de Renan e o PT aliado. Podem espancá-los, devemos linchá-los, mas levando junto os outros, só para que a coisa fique bem transparente, digamos. Voto secreto serve para isso, todos se encondem no biombo. Nada contra a oposição votar a favor do Renan, mas vou repetir os números só para estes aí que me acusar de acusar a oposição deixarem o fingimento de lado.

Bloco (PT-PSB-PDT-PCdoB-PP-PTB- 26 votos.

Mas como o relator Casagrande, fora de dúvida votou pela cassação, e os senadores pedetistas Cristovam e Jefferson Peres também, sobram 23 votos. Certo?

PMDB - 19 votos. Mas é preciso tirar os de Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon, certo. Sobram 17. Mas o Gerson Camata e o Garibaldi, há dias, vinham discursando e avisando, na cara do Renan, que votariam pela cassação. Não iam fazer isso para depois votar a favor do homem, certo? Então sobram 15 do PMDB. Então, 23 do bloco governista mais 15 do PMDB somam 38 votos.

Renan foi salvo por 40 que votaram a favor e mais 6 abstenções. Ao todo, 46. Se PT, aliados e PMDB deram 38, os outros 8 só podem ter saido da oposição, não imposta saber se por abstenção ou voto não (á cassação), pois dá tudo no mesmo.

Tenham a paciencia, façam vocês acusações consistentes. Não venham com esta de que estou querendo acusar ou aliviar para ninguem. Estes são numeros demonstráveis. Agora, se dois petistas votaram contra Renan, como dizem, não saberemos nunca se é verdade (Suplicy e Delcidio), os votos da oposição terão subido para DEZ.

Eles, todos eles, deixaram o Senado mal, contrariam a opinião publica. Agora, a oposição nem por isso fará coisa legítima e democratica ao ignorar o resultado, ao contestar o resultado de um processo que ocorreu dentro das regras, ao partir para a obstrução do Senado. Quem está dizendo isso não sou mas boa parte dos cientistas politicos. A Fatima Anastasia, da UFMG, tem boa entrevista a este respeito no Valor.

Até mais, hein!

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Aos pés de Lula

TEREZA CRUVINEL

O Globo


Aqui fora, o que mais ecoou do congresso do PT foi o indevido pedido de apoio aos réus no STF, feito pelo presidente Lula, e a ambígua defesa da candidatura própria em 2010. Mas o encontro explicitou ainda uma ascendência maior de Lula sobre o partido, e, para dentro, o fim da era Dirceu, uma fricção menor entre as tendências, além da eterna dificuldade do PT para assumirse como partido no poder. Só isso explica a aprovação de teses como a da desprivatização da Companhia Vale do Rio Doce, que o governo deplora.

O presidente da República não é um militante, suas responsabilidades e compromissos vão muito além de seu partido. Presidente não fala para público interno, fala sempre para todos. Por isso, Lula atravessou ao defender o apoio aos petistas que serão agora processados pelo STF. Em seu improviso, diziase ontem no partido, ele defendeu a solidariedade pessoal, nem bancou a inocência de ninguém. De fato, disse que nenhum foi ainda inocentado ou culpado. Mas avançou ao pedir que não tenham vergonha de defender companheiros. E, com isso, foi contra a corrente produzida pelo julgamento do STF, de rigor e intransigência com delitos de políticos.

Afora isso, o que se viu no congresso foi um PT ainda fragilizado pelo baque de 2005, mais sujeito à liderança de Lula, aceitando, por exemplo, a ressalva de que a candidatura própria em 2010 seria construída com os aliados.

Não foi uma admissão de que pode ceder a cabeça de chapa, mas não também uma declaração unilateral que desagradaria os aliados.

Não houve críticas à política econômica nem chiadeira pelo avanço dos outros partidos sobre cargos do governo, hoje negociados pelo ministro petebista

Eu diria que este congresso foi uma transição entre o partido do passado e o novo, que ainda está surgindo — diz o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel.

É novidade o fim da hegemonia do antigo Campo Majoritário de Dirceu, mas saiu perdendo também o ministro Tarso Genro. A ala sob sua liderança não chegou a fazer os esperados 20% dos delegados. Ele ainda paga por ter sugerido um ajuste de contas interno em 2005.

O ranço oposicionista apareceu na aprovação de teses como a reestatização da Vale, a da supressão do Senado e a da Constituinte exclusiva.

Esta última é idéia defensável, pregada pela OAB, mas, se desacompanhada da ressalva de que só viria depois de 2010, serve à exploração da idéia já negada do terceiro mandato. Avanço foi o compromisso com a legalização do aborto, tema que o PT sempre tangenciou.

Em seu discurso, afora os improvisos que ecoaram, Lula desfiou números econômicos e sociais de seu governo. “Ele indicou avanços em matéria de política econômica, de inclusão social e retomada da ação do Estado brasileiro. Devíamos nos ocupar mais destas questões. Elas é que permitirão ao PT e aos aliados apresentar uma candidatura forte em 2010”, diz o petista Luiz Favre.

Marcelo Déda, governador de Sergipe, acha que o congresso poderia ter avançado mais na discussão da trajetória do partido. “Os acertos são maiores, mas os erros são importantes”, diz ele, desgostoso com a velha estrutura de tendências, que, a seu ver, amarram o debate interno.

Se Lula quiser, fará presidente do PT alguém de seu agrado. Larga na frente a senadora Ideli Salvatti. Palocci não quer mesmo, Fernando Pimental também não, e o PT não perdoa a amizade de Jorge Viana com os tucanos.


Marta com Serra


A ministra Marta Suplicy foi ao Palácio dos Bandeirantes ontem tomar cafezinho com o governador José Serra. Com assunto e com açúcar. Foi propor parceria, pedir o empenho dele junto aos tucanos na Câmara, para que ajudem a incluir no Orçamento de 2008 três emendas de bancada: uma de R$ 90 milhões para o Porto de Santos (obras para facilitar o fluxo de navios de passageiros e permitir uma revitalização ao estilo portenho de Puerto Madero) e outra para a ampliação do Aeroporto do Guarujá.

Ele teria topado, prometendo acionar o líder Antonio Panunzzio. No ano passado, dos R$ 40 milhões em emendas para Turismo, os tucanos só entraram com R$ 3 milhões.

Tuma no governo

As investidas do governo no Senado, que na semana passada arrancaram protestos do presidente do DEM, Rodrigo Maia, estão dando resultados. Romeu Tuma Filho será o novo titular da Secretaria Nacional de Justiça, substituindo Antonio Carlos Biscaia, que vai para a Secretaria Nacional de Segurança Pública. O pai dele, senador Romeu Tuma, andava negociando sua adesão ao governo. Talvez tenha que trocar de partido. Pela CPMF, o governo que irritou o Exército esquece que Tuma comandou o Dops, onde Lula esteve preso.

Neste rodízio na Justiça, Biscaia sai como homem forte de Tarso Genro: comandará a FNS e coordenará o Pronasci.

NELSON JOBIM


foi o ministro da Defesa que criou as maiores expectativas quanto ao desafio de impor-se como tal, sujeitando os militares à sua autoridade. E foi ele mesmo, numa solenidade em que os outros oradores foram mais comedidos, que irritou os militares ao dizer que teriam resposta os que reagissem ao levantamento sobre mortos e desaparecidos na ditadura. Por outro lado, foi ele o primeiro a conseguir aumentos satisfatórios de verbas para a pasta, e isso o credencia. Mas a nota do comandante do Exército, um eco dos tempos em que a fala dos quartéis nos atemorizava, deixa um arranhão de autoridade, que terá de superar.

sábado, 4 de agosto de 2007

O passado bate

Tereza Cruvinel


O Globo (para assinantes)

Está ameaçada a iniciativa mais ousada do governo para modernizar a administração pública e livrá-la das amarras que comprometem a eficiência dos serviços prestados pelo Estado. A ironia está na concessão de uma liminar pedida ao STF pelo PT há mais de sete anos, quando combatia a reforma administrativa de FH. É incerto agora o destino do projeto enviado por Lula ao Congresso, permitindo a prestação de serviços por fundações que poderiam contratar servidores pela CLT.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, propôs a mudança em busca de um modelo de gestão que acabe com o caos hospitalar. O governo aderiu e incluiu outros serviços na lista dos que poderão ser explorados por fundações. Contratar pela CLT é apenas uma das flexibilidades que elas terão, ganhando com isso mais agilidade e eficiência. Poderão, por exemplo, oferecer salários diferenciados para atrair especialistas.

Como contratar um grande cirurgião com os salários que o serviço público paga?, pergunta Temporão. Mas o STF diz agora que no setor público, nas três esferas federativas, as contratações têm que ser pelo Regime Jurídico Único, que, ao garantir a estabilidade no emprego e uma infinidade de regalias, dificulta a exigência de metas de desempenho. O ministro da Saúde acha que o projeto não está ameaçado, embora houvesse ontem entendimento jurídico contrário no governo e no Congresso.

— Nossa proposta foi minuciosamente estudada, no aspecto jurídico. A decisão do Supremo afetará as fundações públicas, não as privadas, e são estas que estamos propondo. Se houver problema, uma base legal nova terá que ser criada para possibilitar a mudança do modelo de gestão hospitalar. O atual faliu, acabou. Agora mesmo estão ocorrendo demissões em massa de médicos, insatisfeitos com os salários e as condições de trabalho em Pernambuco, Alagoas e Espírito Santo — diz ele.

Esta não é a primeira nem será a última vez que uma iniciativa do governo é confrontada com a pregação ou a conduta do PT no passado.

Caso mais emblemático, e já tão surrado, o da política econômica. Embora ela venha beneficiando os banqueiros e todos aqueles que “nunca ganharam tanto dinheiro”, como disse o presidente esta semana, criticando os empresários do movimento “Cansei”, tem sido também fonte importante de sua popularidade, ao propiciar transferências de renda, inflação baixa, crédito abundante e consumo em alta.

Quando voltar a ser oposição, terá o PT uma chance de não semear espinhos para colher no futuro.

Mas ele não é o único a esquecer tudo quando muda de lado no balcão do poder.

Estão aí os tucanos, esquecidos de tudo o que fizeram e deixaram de fazer em São Paulo, contribuindo para a concentração de vôos em Congonhas, que hoje criticam como se inventada no atual governo — que de fato a tolerou e acentuou. O governador Mario Covas quis fazer o trem Centro-Guarulhos.

Ele morreu, Alckmin assumiu e arquivou o projeto.

Os governos tucanos atraíram para Guarulhos, com todo tipo de ofertas, a maioria dos vôos internacionais, esvaziando o Galeão e desfavorecendo o Rio. Enquanto isso, Congonhas inchava, ao gosto da classe média cansada demais para ter que ir a Guarulhos.

Leia na integra a coluna de Tereza Cruvinel no jornal O Globo (para assinantes)

terça-feira, 26 de junho de 2007

Os barcos de fogo

do Blog de Tereza Cruvinel

Pensando bem, este aí é um bom título para um romance.

Mas por ora, estamos escrevendo apenas um relato de viagem, a ida a Estância, com o governador Marcelo Déda, ver os folguedos juninos da cidade. O prefeito Ivan Leite nos leva a ver a quadrilha e me conta a origem dos barcos de fogo: o primeiro foi feito por um certo Chico Surdo, no início do século. A moda pegou e de lá para cá virou tradição, a criatividade só aumento. Vamos para o estádio, ou coisa que o valha, um grande espaço público onde milhares novamente dançam. Reencontro Alceu Valença, que nesta noite canta em Estância, ele e outros grupos. Numa outra parte desta grande áera acontecem as estripulias pirotécnicas deste povo que ama o fogo e seu brilho.Aqui a roda política está bem eclética: Déda, do PT, o prefeito Iva Leite, que é do PSDB, e o deputado e ex-governador Albanco Franco, também do PSDB. Mas são civilizados, estão ali para confraternizar com o povo.

(...)

Uma jóia barroca no sertão

Antes de Estância, fóramos a São Cristóvão, antiga capital, cidade colonial cheia de charme, com igrejas e prédios setecentistas razoavelmente conservadas, a sombra da história cortando as ruas. O barroco lembra o de Minas mas tem algo que o diferencia das edificações do ciclo do ouro. Algo nas torres, na cantonaria. Mas estão lá, sob o telhado, a eira, a beira e a tribeira. Discutimos muito isso, eu e Raimundo Costa, sem chegar a uma conclusão. Decidimos estabelecer - até que um historiador da arte nos corrija (alô, Virgílio Costa, preciso de seus préstimos!) - que a sutil diferença deve-se ao fato de serem aqueles prédios mais do final dos 1600 do que dos anos setecentistas.

D. Pedro II esteve lá, no final do reinado. Desembarcou no rio Sergipe, num ancoradouro que hoje fica no centro de Aracaju. A Ponte do Imperador, é como chamam, mas na verdade é um pier com um portal em arco. Ali a prefeitura instalou, há dois anos, uma grande maquete da cidade ainda jovem, no início do século passado. Obra pequena, baratinha, um mimo. Mas mexe com a memória e com a auto-estima, diz Déda. As pessoas estão mesmo sempre por lá, buscando a casa que era da avó, coisas assim.

Mas volto a São Cristóvão, pouco badalada mas não menos importante no circuito nacional das cidades históricas. Lá está, bem preservado ainda, o sobrado onde D. Pedro dormiu. Esperando minha comitiva, fiquei na velha praça a pensar nas voltas do mundo. Um governante saía do Rio, pegava um navio, depois um barco menor, subia um rio, entrava então numa carruagem, se é não montava um cavalo. Era preciso subir 70 km de agreste para chegar à capital de um pequeno estado do Nordeste. Hoje, o presidente pega um avião e no espaço de uma semana, visita três continentes, como fez Lula há duas semanas. Bem, ele teve que cancelar Marrocos, mas teria ido. Foi apenas à India e à Alemanha.

O IPHAN está fazendo algum investimento em São Cristóvão mas há muito ainda a recuperar ou conservar, e falta pôr a cidade no mapa do turismo cultural.

Energia do crescimento

Há um boom do turismo em Sergipe. Grupos estrangeiros estão fazendo grandes investimentos em hotelaria na orla. Giacomo di Lauro, do grupo Wyndham Resorts, gerencia a implantação de um grande empreendimento, o Viva Resort, na Ponta do Saco, que dizem ser lindíssima. Não fui, não deu tempo. Diz-me ele que é imenso o potencial de atrair para ali o turismo de familias europeu. Bem, muito melhor que o turismo sexual que assola outras capitais do Nordeste.

Déda e seu secretário de Turismo, João Augusto Gama, apostam muito nesta inserção do estado nos roteiros internacionais. No plano doméstico, precisam vencer dois gargalos rodoviários. Com duas pontes, todo o litoral poderá ser percorrido de carro, a partir da Linha Verde, que vem da Bahia, chegando-se depois a Maceió. Hoje, é preciso pegar a BR-101, que passa pelo meio do estado, para se chegar depois a Aracaju. O governo briga para incluir estes recursos no PAC. Li certa vez um artigo de Delfim Netto onde ele dizia que Sergipe é o estado que mais cresce no Brasil. Segundo Déda, o Nordeste está crescendo mais que o Brasil, e Sergipe mais que o Nordeste. Soa estranho, mas é preciso ir lá para sentir a energia do crescimento. É tangível. Leia a integra do relato no Blog de Tereza Cruvinel

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Barcos de fogo, Forrocaju e outras paixões


do Blog de Tereza Cruvinel

O Brasil é mesmo um país fantástico, com sua diversidade física, étnica e cultural, com este povo que é ao mesmo tempo único e ao mesmo tempo muitos. Disso resulta nossa cultura singularíssimamente rica. Meu amigo Miguel Sousa Tavares, o escritor português que nos deu livro tão belo como o Equador, disse-me há algum tempo que, a seu ver, só dois países - Brasil e India - terão identidade próprias num futuro em que as culturas terão se tornado uma grande geléia. Riquezas e potenciais econômicos à porte, somos portadores do futuro também por conta desta pluralidade, deste olhar tão nosso sobre o mundo, de nossa forma tão própria de viver a vida. Tenho procurado, nos últimos anos, conhecer todas as grandes manifestações culturais do Brasil. Neste final de semana fui conhecer o festejo junino nordestino num dos estados onde esta tradição é mais rica e forte: Sergipe. Vou-lhes contar um pouco.

Vi o Forrocaju em Sergipe, vi a Caceteira de São João em São Cristóvao, vi o campeonato de barcos de fogo e a maratona de espadas em Estância. Há mais, muito mais por lá, mas era curto o tempo para tanta festa. Vi o São João moderno e o tradicional e todos são de impressionar.

Na sexta-feira, 22, rumo a Sergipe, passei a noite entre o aeroporto de Brasilia, o céu, a pista de Salvador e novamente o céu. Caos aéreo. Isso significa que o vôo de 8.40 da noite chegou lá às 5.30hs do sábado. Mas passou, e valeu à pena.

Sábado, 23. Eu e meu colega Raimundo Costa, do jornal Valor Econômico, não contivemos o Oh! de espanto quando contemplamos, do alto do camarote, o mar de gente dançando, agarrados ou sozinhos, se amassando, fazendo qualquer coisa no centro da grande praça do mercado. Cento e cincoenta mil pessoas nas contas oficiais da PM. Gente a perder de vista. Nesta época aquele espaço se transforma no forródromo, a arena do Forrocaju. Com este nome e esta forma foi inventada há seis anos pelo agora governador Marcelo Deda, quando se tornou prefeito de Aracaju. É como se fosse um proloooonnnngado carnaval, embora o que se cante e dance seja o forró, acompanhado de tudo aquilo: bebidas, comida, fogueiras, fogos, bandeirinhas etc. Leia mais no Blog de Tereza Cruvinel