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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Classe média tem ganho de renda

Depois de sucessivas quedas até 2005, rendimentos voltaram a crescer para todas as camadas sociais

Marcelo Rehder - O Estado de São Paulo

Depois de anos em queda, a renda da classe média dá sinais de recuperação. Praticamente todas as faixas de domicílios do País tiveram sua renda elevada em 2006, diferentemente do que aconteceu de 2002 a 2005, quando aumentos substanciais aconteceram só nas classes mais baixas, por conta de transferências promovidas por programas assistenciais, como o Bolsa Família, e dos fortes aumentos do salário mínimo.

A tendência é de que a renda continue a crescer de maneira generalizada nos domicílios de todas as classes sociais ao menos até 2008.

Nos domicílios 10% mais ricos (R$ 7.063,00, em média), por exemplo, o incremento de renda foi de apenas 1,3% entre 2002 e 2006 , enquanto nos 30% a 40% mais pobres (R$ 473,00) chegou a 18,9%, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. Já em 2006, o crescimento nessas mesmas faixas ficou muito próximo: 7,1% e 10,7%, respectivamente, em relação a 2005.

'Esse tipo de crescimento equilibrado é bastante saudável, pois indica que o aumento da renda não está se dando só por transferência do governo, mas também pelo próprio dinamismo da economia, o que tem impacto direto na classe média', diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, autor do estudo sobre renda no País. 'A classe média deve continuar a crescer sustentada pela evolução positiva do emprego qualificado.'

Pelos cálculos do economista, cerca de R$ 99 bilhões engrossaram a massa real de renda em 2006, que aumentou 10%, para R$ 1,1 trilhão. Este ano, o acréscimo deve ser de R$ 90,9 bilhões, o que representaria aumento de 8,5%. Para 2008, a previsão é de incremento de R$ 70 bilhões , que daria 6% de alta.

'O cenário é extremamente positivo e abre espaço para um consumo de maior valor agregado, por se dar agora também na classe média', diz Vale. Ele observa que a renda das classes mais baixas ainda tende a crescer, porque o salário mínimo deverá ter aumentos relevantes. Além disso, o comércio e os serviços estão em franca expansão e são demandantes de mão-de-obra menos qualificada.

Um exemplo de recuperação da classe média é no setor da construção civil. Até o início de 2006, o crescimento maior do salário no setor se dava nos empregos não qualificados. Depois que as obras deslancharam nos últimos dois anos, começou a faltar mão-de-obra qualificada e os salários dos engenheiros passaram a crescer mais do que a média.

O engenheiro Luiz Nobre de Lima, de 52 anos, trocou recentemente o emprego de gerente de obras de uma grande construtora na cidade de São Paulo pelo de gerente de projetos da Método Engenharia e passou a ganhar 30% a mais. Lima é um dos 14 profissionais que a Método foi buscar este ano no mercado para ocupar cargos executivos, cujos salários estão na faixa de R$ 15 mil a R$ 20 mil.

'Do pondo de vista familiar, a mudança possibilitou melhor qualidade de vida e aumento da capacidade de poupança, além do conforto de ganhar mais'.

Lima é casado e tem duas filhas, uma de 23 anos, formada em administração de empresas, e outra de 20 anos, estudante de propaganda e marketing. Sua mulher é dona de casa.

O aumento da demanda por profissionais qualificados como Lima já começa a aparecer nas estatísticas do emprego com carteira assinada do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. De janeiro a setembro de 2006, 98% dos empregos formais criados no País não pagavam mais que 1,5 salário mínimo (R$ 525). Hoje, a proporção já caiu para 88%.

Este ano, o emprego cresceu 16,1%, mas o número de postos de mais de 1,5 a 3 salários mínimos (até R$ 1.050) aumentou 30,1%. Já a quantidade de vagas de até 1,5 salário mínimo aumentou só 8,4%.

O perfil das contratações mudou porque as empresas passaram a investir mais, diz o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann. 'A demanda passou a ser por trabalhadores mais qualificados, pagando-se mais por isso'.

O metalúrgico José Aparecido Soares Fernandes, de 25 anos, trabalha há um ano na Caterpillar, fabricante de máquinas e equipamentos para construção pesada. Entrou como auxiliar de soldador, ganhando R$ 700. Passou por treinamentos internos e, em agosto, foi promovido a soldador, com salários de R$ 1,2 mil, quase o dobro do que ganhava quando foi contratado pela empresa.

domingo, 23 de setembro de 2007

Dilma: PAC leva país além da época do milagre

O GLOBO ENTREVISTA
Dilma Rousseff


Há mais de 12 horas trabalhando, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, recebeu O GLOBO na noite de quinta-feira, dia no qual divulgou o segundo balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Reclamou das olheiras, que a perseguem “há anos”, mas andam mais intensas. Não é à toa. Ela é a gerente do conjunto de 3.212 obras que formam o mais ambicioso plano de governo do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Cabe a ela, em última instância, prestar contas do PAC. Mostra que está com as garras afiadas para cumprir sua missão e continua fazendo jus à fama de durona.

Aos empresários que reclamam de insegurança regulatória, diz que o PT respeitou todos os contratos e que, se insistirem nesse “discurso ultrapassado”, vão perder o barco para os estrangeiros, pois o Brasil é o investimento da hora. Irritada, chama de conversa fiada de quem quer somente aumentar preços o discurso de que há risco de apagão energético.

Mas são rompantes. Na maior parte do tempo, Dilma mostrou que está mesmo é feliz e disposta a defender o PAC — que monitora, “obra a obra”, numa sala de situação nas cercanias de seu gabinete, no quarto andar do Palácio do Planalto.

Nem precisou consultar seus famosos power points para discorrer sobre sua visão da realidade brasileira. Acredita que está em curso um novo modelo de desenvolvimento, pautado pela criação de um amplo mercado de massa, onde consome uma nova classe média. E encheu a boca para dizer que muita gente ainda não enxerga, mas “o PAC é irreversível” e, em 2008, será inquestionável: “Nunca passamos por um processo similar a este. Mesmo na época em que houve o milagre econômico”.

Flávia Barbosa e Tereza Cruvinel

O GLOBO: O balanço do PAC trouxe o conceito de uma nova classe média. Por que essa ênfase e quais seus reflexos?

DILMA ROUSSEFF: É uma coisa crescente. Há um processo de mobilidade social.Antes não havia. Hoje, você está saindo da pobreza, indo para uma situação remediada, e depois para essa nova classe média que se forma. Estamos consolidando um mercado amplo de massa. Já tivemos crescimento, mas extremamente segmentado. Isto se torna um valor econômico fantástico, porque é diferente você ter um país com consumo de 20 milhões e outro de 100 milhões, nos dá mais robustez. Não há capitalismo sem que o cidadão vire consumidor.

A senhora considera isso um legado do governo Lula?

DILMA: De nossa parte, isso decorre não só da política macroeconômica, do crescimento, mas da política de salário mínimo, do Luz para Todos, do fato de termos tido cuidado de fazer do Bolsa Família um programa focado. Da difusão violenta do crédito. E tudo isso num momento em que estamos num novo ciclo de desenvolvimento.

Quando há mobilidade social, há uma evolução que beneficia os empresários, os mais ricos. Pois cria-se poder de consumo e de gerar emprego, renda e lucro, uma dinâmica mais favorável. Acho que nunca passamos por um processo similar. Mesmo na época em que houve o milagre econômico.

DILMA: O crescimento vai se acelerar a partir de agora de forma muito consistente.
O ano que vem será muito surpreendente.Mais do que foi 2007. Este foi o ano da consciência de que algo mudou. O próximo será da prova inquestionável de que mudou. As coisas vão ficar cada vez mais claras. Hoje alguns percebem, outros não, dizem “O PAC não existe, é uma obra de marketing”. O PAC será um dos fatores que vão transformar este país num canteiro de obras.

Leia mais no jornal O Globo (para assinantes)

Classe média

TEREZA CRUVINEL

A divulgação dos indicadores socioeconômicos favoráveis ao governo coincidiu com a revelação, pela pesquisa CNI-Ibope, de uma queda, ainda que ligeira e dentro da margem de erro, na popularidade do presidente Lula. Os 50% que em junho consideravam o governo bom e ótimo caíram para 48%, e os 66% que aprovavam a forma de Lula governar, para 63%. Mais uma vez, a oscilação negativa ocorreu dentro da classe média.

Não na “nova classe média” que o governo considera fruto de suas políticas, composta por pobres emergentes que estão entrando na sociedade de consumo, mas na velha e tradicional classe média, de gente com curso superior que ganha mais de dez salários mínimos e que, na campanha do ano passado, votou mais em Alckmin que em Lula.

Deve haver, na composição da variação negativa de agora, resquícios do apagão aéreo e respingos da crise do Senado, que envolveu um aliado importante como Renan Calheiros, ao lado de quem Lula nunca se recusou a aparecer.
O julgamento do STF também pode ter despertado a lembrança da decepção com os escândalos do PT.

A pesquisa mostrou elevada rejeição à CPMF. Mas se, na média, 54% defenderam o fim do imposto ainda este ano, na classe média o índice foi de 72%, contra 48% entre os que ganham de dois a três salários mínimos.

Se a aprovação média do governo foi de 48%, entre os pobres foi de 53% e na classe média, de 38%. Ainda é um bom índice, sinal de que a rejeição não é hegemônica, embora o contraste interclasses seja grande.

A rejeição da classe média a Lula era bem mais baixa no início do primeiro mandato, 11%, segundo o Datafolha de março de 2003. Em 2004, depois do caso Waldomiro, a aprovação ao governo Lula no segmento começou a cair. Com o escândalo do valerioduto, em 2005, a rejeição passou a dominar a classe média. Nessa época, o Datafolha registrou 46% de rejeição ao presidente nessa camada social, contra uma aprovação de 18%. Na campanha de 2006, Lula recuperou parte da classe média, sobretudo no segundo turno, neutralizando a preferência anterior de Alckmin, que perdeu 2,5 milhões de votos no segundo turno.

O governo continua querendo reconquistar a classe média, mas não encontra o discurso e a política certos.

Iniciado o segundo mandato, o grande estrago foi feito pelo apagão aéreo. Avalia que ela também vem se beneficiando do crescimento, embora os pobres é que estejam ganhando mais. E isso, de certa forma, indispõe os segmentos médios mais conservadores ou mesmo preconceituosos, que, receando perder alguma coisa, reagem a qualquer distribuição.

Detestam o Bolsa Família. A popularidade é alta entre os pobres, mas o governo sabe que, tendo a classe média contra, é sempre mais difícil governar. Continua querendo reconquistá-la. No pronunciamento do ministro Mantega, na sexta-feira, houve mensagens nesse sentido.

Por isso, entre as concessões tributárias que podem ser apresentadas para garantir a aprovação da CPMF no Senado, pode surgir uma nova mexida no Imposto de Renda. Uma correção do valor das deduções por dependente e gasto escolar cairia bem.

Leia a integra da coluna de Tereza Cruvinel no jornal O Globo (para assinantes)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

"A classe média alta é a classe mais baixa da população. Ela está tão desesperada que corre atrás de qualquer coisa que se diga."

por Ana Paula Sousa para Carta Capital

Edição 457

Uma cidade degenerada

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha ergue e destrói a paisagem urbana

Da janela do escritório de Paulo Mendes da Rocha vê-se o Edifício Copan, desenhado por Oscar Niemeyer. “É linda essa ponta do prédio, não?” É assim, meio ao acaso, que os mais destacados arquitetos brasileiros se encontram em São Paulo. Mendes da Rocha mantém, no centro da cidade, o estúdio amplo, com lâmpadas industriais, onde foram traçados o Museu de Arte Contemporânea da USP, o ginásio do Clube Paulistano (SP), o Estádio Serra Dourada (GO), a cobertura da Praça do Patriarca (SP) e mais incontáveis obras.

Ganhador do Prêmio Pritzker 2006, espécie de Nobel da arquitetura, Paulo Mendes da Rocha, de 79 anos, vive tempos de celebridade. Para tocar os projetos em andamento (um prédio de habitação “social” em Madri, o campus da Universidade de Vigo, também na Espanha, e a recomposição da antiga Santa Casa, no Rio, entre eles), tem sido obrigado a dizer não para convites vários, de entrevistas a júris internacionais. Mas, na segunda-feira 13, passará a noite a autografar os livros Projetos de 1999-2006 e Maquetes de Papel, editados pela CosacNaify. “Acho tão gentil terem feito os livros”, diz, como se pensasse em voz alta, enquanto gira um compasso no papel.

O arquiteto tem o hábito, entre um cigarro e outro, de desenhar círculos enquanto conversa. É também de grandes voltas que se constitui sua fala. Pensador das cidades, inventor dos espaços, ele anda serenamente aflito. Vê um desastre urbano. Mas não desacreditou das saídas.

CartaCapital: O senhor cansou de dar entrevistas?

Paulo Mendes da Rocha: Você fica num dilema. De um lado, acha que tem de falar porque é um prestígio para a arquitetura e uma forma de levá-la ao conhecimento do poder público. Por outro lado, há o pudor de ser abordado. Mas acho, no fundo, que eu devia me obrigar a dizer certas coisas, porque o que nos persegue, dia após dia, é a aflição com a cidade. Essa é uma questão técnica ligada à arquitetura e ao urbanismo. A rigor, devíamos ser mais ouvidos no plano político, nas questões de desenvolvimento das cidades. É uma pena que haja uma tendência de a arquitetura se tornar banal. Isso é decorrência da vertigem mercantilista do nosso tempo. Precisamos cuidar das cidades. Falamos em água, ar, mas o que pode acabar antes somos nós mesmos.

CC: O Pritzker teve algum efeito político ou o senhor se sente pregando no deserto?

PMR: Politicamente, o prêmio significa que o mundo se preocupa com as coisas das quais eu trato. A questão fundamental das cidades é política. São políticas públicas que direcionam as cidades para um destino ou outro. Quando olhamos da janela uma cidade como São Paulo, vemos uma coisa imensa construída. Acharmos que vemos um desastre é uma desmoralização da imagem que temos de nós mesmos. Trânsito, poluição, ostentação de riqueza e falta de esgoto, má distribuição da população pelas construções nos fazem ver que a arquitetura, sem querer, produziu a desmoralização da técnica. Somos um país onde todos são engenheiros, juristas, economistas e médicos. E o resultado é o desastre. A reflexão, portanto, deveria se dar no campo político. Também é perigoso adotar uma visão esnobe, evitando falar de trânsito por ser um lugar-comum. É importante repetir as reflexões sobre o desconforto nas cidades com outra visão, não superficial.

CC: Quais são os lugares-comuns sobre o trânsito, por exemplo?

PMR: É como se tivéssemos inventado uma máquina de produzir veneno e, todo dia, nos empenhássemos em aprimorá-la. A questão dos transportes é fundamental. Não se trata, puramente, de introduzir conforto. Trata-se de ver que, queimar petróleo para transportar uma pessoa de 60 quilos numa lataria de 700 quilos, que não anda, é um erro grave. É repugnante ver a cidade congestionada de carros que não andam. A questão não é fazê-los andar, é ver que isso não tem saída, o transporte individual é uma bobagem.

CC: Então é uma bobagem construir túneis e viadutos?

PMR: Vai se aprimorando a máquina do veneno. E já não importa que o carro não ande, porque você vê todo mundo lá dentro falando no celular, usando o laptop...

CC: Quando vê, já que os vidros estão pretos.

PMR: Sim, quando vê, porque as pessoas estão escondidas. É um pouco a rota do absurdo. Acho até que isso não é assunto pra mim, mas para Borges, Cortázar ou Rabelais. Quando ouço, no rádio, que são 157,8 quilômetros de congestionamento, penso na linguagem de descalabros do Rabelais. O absurdo pode ir a dimensões do desastre. As pessoas fingem que não são antropófagas, mas são. Está todo mundo caçando feras. Desenvolveu-se uma mentalidade extremamente agressiva nas pessoas, que, entretanto, acham que se comportam bem. Ricos ou pobres, parece que está um querendo matar o outro.

CC: O senhor sempre diz que não existe espaço privado, que todo espaço é público. Esse espírito agressivo está ligado à inversão dessa lógica, à tentativa de transformar a cidade em guetos privados?

PMR: Você já viu isso? Será que me repito muito? Por isso fico preocupado em dar entrevistas. Mas, sim, não há espaço privado. A arquitetura constrói espaços para amparar a imprevisibilidade da vida, não para determinar comportamentos. A cidade é o lugar da liberdade. Você não pode constranger as pessoas no espaço público com dificuldades. Caso contrário, elas desenvolvem a consciência de espaço no espaço imaginado dentro de si, num individualismo atroz.

CC: O que são os prédios que oferecem tudo, de piscina de 25 metros a churrasqueira, que vendem uma idéia de exclusividade?

PMR: É o desvio do conceito de urbanismo. Mas, como você vê, a própria piscina será pública, não de um morador só. Vou falar uma coisa indevida. Imagine uma mãe: quando o filho dela vai para a escola, ele é público. A saúde é uma dimensão pública. O conhecimento é uma dimensão essencial da nossa privacidade enquanto público. Mas estou falando de coisas para filósofo. Deixe exemplificar isso na arquitetura. A casa, enquanto coisa, é da cidade, não é de fulano ou beltrano. Ela se transforma conforme quem compra, vende, aluga. Imagine a crônica do Copan. Quanta gente morou numa casa projetada pelo Niemeyer? O resultado do nosso trabalho é eminentemente público. A água que sai da torneira é pública e está sob responsabilidade de gente que não conhecemos. O pilar do prédio é público: se o morador tira a viga, ele cai. Apesar disso, estamos alienando a consciência sobre nosso estado no universo. Por isso, insisto, as decisões sobre as construções, e nesse sentido a arquitetura, são ações políticas.

CC: Os arquitetos também perderam a dimensão do público?

PMR: Tenho a obrigação de dizer que não. Temos de ter confiança no futuro.

CC: Seu colega Jorge Wilheim perguntou, num texto, quantos arquitetos diriam não para um projeto de edifício neoclássico, tão em voga em São Paulo. Quantos diriam?

PMR: Todos diriam não. Mas, conformistas, vão e fazem. Pense no nazismo e no fascismo. Não aderiram todos? O mercado é um horizonte falso e, se ficar no comando do processo, só produzirá asneiras como a dos neoclássicos. Isso é um engodo de quem precisa continuar com o negócio.

CC: A classe média passou a gostar disso de fato ou, simplesmente, não tem mais gosto?

PMR: A classe média alta é a classe mais baixa da população. Ela está tão desesperada que corre atrás de qualquer coisa que se diga. Como ela é totalmente conformista desfrutante, a propaganda diz o que ela deve dizer e ela diz. O método de produzir a decadência para depois corrigir, a idéia do “quanto pior melhor”, é elaborado pela classe dominante. Aí você chega a um limite em que só a guilhotina resolve. Ninguém agüenta meia de seda, renda de florzinha, cabeleira postiça... Eles mesmos se matam. Mas vamos corrigir as palavras. A classe dominante, no Brasil, é a mais pobre. A exigência maior de uma cidade como São Paulo é habitação, transporte e saúde.

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Planalto admite desgaste e discute como reconquistar a classe média

Cristiano Romero

Jornal Valor (para assinantes)

Depois de recuperar, no ano eleitoral, parte do prestígio que havia perdido na classe média durante a crise do mensalão, o presidente Lula voltou a perder apoio nesse segmento da população por causa do apagão aéreo, agravado pela tragédia do vôo 3054 da TAM. A última pesquisa do Datafolha, realizada nos dias 1º e 2 de agosto, mostra que a classe média está dividida na avaliação do governo.

No grupo da população com renda mensal familiar superior a dez salários mínimos (R$ 3 mil), 32% consideram a gestão Lula ótima/boa e 32% a classificam como péssima/ruim, enquanto 36% julgam-na regular. Na pesquisa anterior, feita em março, o índice de rejeição estava em 26%, mesmo percentual do período pré-mensalão. Já o índice de aprovação caiu, no mesmo período, sete pontos - de 39% para 32%.

Esses números acenderam a luz amarela no Palácio do Planalto e mobilizaram o núcleo decisório do governo, que na semana passada começou a discutir o que fazer para mudar esse quadro. A avaliação inicial, segundo ministros e assessores ouvidos pelo Valor, é a de que a classe média tem sido "fortemente beneficiada" pela retomada do crescimento. Numa reunião, um ministro questionou, porém, se o crescimento não estaria demorando a chegar para esse segmento da população. Essa possibilidade foi imediatamente descartada. "Ao contrário. Está chegando. Não há mais engenheiros para contratar no Brasil, o que significa dizer que a mão-de-obra qualificada, típica da classe média, está se beneficiando da geração de empregos", explica um assessor do presidente.

Na mesma reunião em que o tema foi discutido, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mencionou iniciativas tomadas pelo governo para ajudar a classe média e os efeitos da política econômica que a teriam beneficiado - entre outras coisas, foram citados a correção da tabela do Imposto de Renda, a expansão do crédito e dos prazos de financiamento (hoje, assinala um ministro, é possível financiar a compra de um carro em sete anos), o recorde de saques de recursos do FGTS para aquisição da casa própria, o aumento da geração de emprego formal, a criação do ProUni.

Mantega ficou encarregado de reunir, num documento, todas as medidas pró-classe média adotadas pela gestão Lula. A idéia é usar esse material para balizar o discurso oficial. O governo, segundo um ministro próximo do presidente, não fará propaganda para melhorar sua imagem nem adotará medidas específicas para beneficiar esse segmento social. A disposição, revelou um auxiliar de Lula, é ir para o que ele chama de "disputa política", o que envolve embates com a oposição, a adoção de medidas na área de segurança, o fortalecimento do Estado onde ele está fraco ou inoperante - o caso da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que teria sido capturada por interesses privados, foi mencionado como exemplo.

"A disputa política se dá primeiro para a classe média perceber as conquistas econômicas. Em segundo lugar, é preciso ela perceber que o fato de outros setores da sociedade estarem tendo conquistas econômicas é bom e não ruim para ela. Isso é uma batalha política porque sempre haverá um sujeito incomodado com outro sujeito que está crescendo embaixo dele", argumenta um ministro do núcleo. "No fundo, a discussão é de um projeto de país. Um país em que o crescimento econômico se dá com democracia e inclusão social é melhor para a classe média."

Um exemplo dessa "disputa política", diz um assessor do presidente, foi travado no segundo turno da eleição presidencial, quando Lula, ao perceber que precisava reconquistar setores da classe média insatisfeitos desde a crise do mensalão, adotou discurso antiprivatização. A estratégia funcionou, facilitada pelo fato de seu adversário na disputa - o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) - ter se recusado a assumir o legado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, principal responsável pelas privatizações ocorridas nos anos 90.

De fato, as pesquisas mostram que, entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2006, o índice de aprovação de Lula na classe média cresceu 14 pontos percentuais e o de rejeição, caiu três pontos. Nos meses seguintes, a aprovação ficou estável e a rejeição diminuiu seguidamente até chegar, em março, a níveis pré-mensalão.

Quando iniciou o primeiro mandato, Lula tinha baixa rejeição na classe média - 11%, segundo pesquisa feita em março de 2003 pelo Datafolha. Esses 11%, explica o sociólogo Antônio Lavareda, dono da consultoria MCI , representam o segmento social que, historicamente, por motivos político-ideológicos, rejeita Lula.

Ao fim do primeiro ano de mandato, o índice de desaprovação cresceu seis pontos percentuais. Em 2004, graças ao primeiro escândalo de corrupção conhecido da Era Lula - o Caso Waldomiro Diniz, que eclodiu em fevereiro -, a popularidade do governo petista na faixa mais rica da população começou a declinar, embora, no fim daquele ano, tenha retornado aos níveis anteriores àquele episódio.

Em 2005, com o surgimento de escândalos em série a partir do mensalão, a classe média tornou-se, pela primeira vez, majoritariamente contrária a Lula. Em dezembro daquele ano, o Datafolha registrou, nesse segmento da população, o maior índice de rejeição desde que o líder petista chegou ao poder - 46%. Já o índice de aprovação nunca tinha chegado a um patamar tão baixo - apenas 18%.

No ano eleitoral, tendo sobrevivido ao mensalão, Lula recuperou apoio popular e reconquistou parte da classe média que andava de mau humor com ele, mas, por causa da crise ética de seu governo e de seu partido, o PT, ele jamais conseguiu recuperar, nesse segmento social, a popularidade do início do mandato. O caos aéreo e o acidente da TAM pioraram novamente a avaliação, mas, segundo pesquisadores de opinião ouvidos pelo Valor, dificilmente essa tendência persistirá.

"O governo, embora tenha demorado, reagiu à crise e nomeou um ministro ativo. Nelson Jobim tem credibilidade, vestiu-se de 'rambo' e saiu pelo país apontando soluções. Ele demitiu o presidente da Infraero. Ou seja, não se pode dizer mais que o governo está parado como espectador da crise", diz Lavareda. "O acidente da TAM, que provocou uma nota mais severa à crise aérea, do ponto de vista do governo está sendo agora razoavelmente administrado. Além disso, o governo está fazendo um esforço para repassar uma responsabilidade maior às empresas aéreas."

Lavareda acha que o empate entre aprovação e rejeição de Lula na classe média é aparente. Na sua avaliação, esse segmento está mais pró-Lula do que se imagina. Ao ler a última pesquisa Datafolha, o sociólogo pernambucano observou que, na classe média, 32% dos entrevistados deram nota abaixo de cinco, numa escala de zero a 10. Do total, 17% deram nota cinco e 52%, entre seis e 10. "Isso mostra que a maior porção da classe média está fazendo uma leitura algo positiva do governo porque seus segmentos mais prejudicados economicamente são minoritários", diz ele, referindo-se a médicos e professores da rede pública e a algumas categorias de assalariados, os mais insatisfeitos, na sua opinião, com a gestão petista.

Diante disso e da popularidade de Lula nas camadas populares, Lavareda, além do diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, e do dono do Instituto Sensus, Ricardo Guedes, acreditam que a classe média perdeu influência. "A classe média não consegue mais transferir suas opiniões ao restante da sociedade", diz Paulino, ressalvando, no entanto, que a situação do presidente não é confortável - afinal, alega ele, o 1/3 da classe média que o rejeita é o que mais se mobiliza e "faz barulho". "Existe uma parcela da população - 15% do total - que está descontente com o governo. Essa parcela está no topo da pirâmide."

Essa situação explicaria o comportamento crítico da mídia. "Na campanha eleitoral, já havíamos visto a limitação desse discurso, sobretudo da mídia impressa, de conseguir empolgar a maioria da população. A mídia, com esse discurso mais crítico, fica algo descolada da opinião da maioria da população", reconhece Lavareda, associando o sucesso de Lula ao desempenho da economia. "Há certos momentos que são assim. Na Argentina, a economia vai bem, pipocam escândalos e a candidata do presidente, sua mulher, deve ganhar no primeiro turno. Um outro exemplo: nos Estados Unidos, os republicanos, refletindo o clima da mídia, fizeram campanha com base no impeachment de Bill Clinton, nas eleições parlamentares de 1998, e deram com os burros n'água."

"Os analistas estão distanciados da verdadeira percepção da classe média", sustenta Guedes, argumentando que Lula não é um populista como Hugo Chávez, presidente da Venezuela. "Chávez faz um discurso de esquerda e um governo de direita. Com Lula, o Brasil está vivendo um clássico pacto social-democrata."