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sábado, 26 de janeiro de 2008

Crise USA: um novo "NEW DEAL" ou recessão

Filas de desempregados na crise de 1929 até o "New Deal" de F.D. Roosvelt


Vale a pena ler o artigo de Paul Krugman, sobre o plano Bush para enfrentar a recessão no Estados-Unidos.

Tenho postado aqui no blog vários artigos sobre a crise que insistem num ponto central: só um incremento considerável do gasto público em saúde, educação, distribuição de renda aos mais pobres e ajuda aos Estados e Municípios, pode diminuir ou evitar a recessão da economia norte-americana.


A situação exige um novo "New Deal", inspirado no seu predecessor implantado por Roosvelt.

Mesmo com o enorme déficit público e o endividamento gigantesco da economia US, o sumiço do crédito e do dinheiro exige injeção massiva de recursos em obras, escolas, hospitais e no bolso dos consumidores.


A alternativa é deixar o mercado se acertar, fazer um PROER para o sistema bancário falido e aguentar os custos da recessão. Um drama social em cernes e um recuo da economia mundial, eis o resultado das orientações que por hora prevalecem nas autoridades monetárias dos Estados-Unidos.

O candidato democrata que encarar o desáfio terá um grande eco na população do país. Mas pelo que diz Paul Krugman o "consenso" leva agua ao moino Republicano.

Luis Favre


ARTIGO

O equívoco do plano

PAUL KRUGMAN
DO "NEW YORK TIMES"

OS DEPUTADOS democratas e a Casa Branca chegaram a um acordo sobre um plano de estímulo econômico.
Infelizmente, o plano -que essencialmente consiste em nada mais que cortes de impostos e dá a maior parte desses cortes para pessoas em situação financeira bastante boa- parece defeituoso.
Especificamente, os democratas parecem ter recuado diante da rigidez ideológica do governo Bush, abandonando as exigências de medidas que teriam ajudado os mais necessitados. E seriam essas mesmas medidas que poderiam realmente ter tornado eficaz o plano de estímulo. São palavras duras, por isso deixem-me explicar o que está acontecendo.
Além dos descontos fiscais para empresas -que são uma história triste, para outra coluna -, o plano dá a cada trabalhador que ganhe menos de US$ 75 mil por ano um cheque de US$ 300, mais quantias adicionais para pessoas que ganham o suficiente para pagar valores substanciais de imposto de renda.
Isso garante que o grosso do dinheiro vá para pessoas que estão bem financeiramente -o que é um grande equívoco.
O objetivo de um plano de estímulo seria sustentar os gastos gerais, de modo a evitar ou limitar a profundidade de uma recessão. Se o dinheiro que o governo distribui não for gasto -se for apenas depositado nas contas bancárias das pessoas ou usado para pagar dívidas-, o plano falhará.
E mandar cheques para pessoas em boa situação financeira faz pouco ou nada para aumentar os gastos gerais. As pessoas que têm boa renda, bom crédito e emprego seguro tomam decisões de gastos com base em seu poder aquisitivo em longo prazo, e não no tamanho do último contracheque. Se você der alguns dólares a mais para essas pessoas, elas apenas os colocarão no banco.
Na verdade, isso parece ser o que aconteceu principalmente com as reduções fiscais que os norte-americanos afluentes receberam na última recessão, em 2001.
Por outro lado, o dinheiro distribuído a pessoas que não têm boa situação financeira -que estão com pouco dinheiro e vivem do salário mensal- presta um duplo serviço: alivia as dificuldades e também estimula os gastos de consumo.
É por isso que muitas das propostas de estímulo que ouvíamos até alguns dias atrás se concentravam na expansão de programas que ajudam especificamente as pessoas em dificuldades, especialmente o seguro-desemprego e o auxílio-alimentação. E foram essas as idéias de estímulo que receberam as notas mais altas em uma recente análise do Escritório de Orçamento do Congresso, apartidário.
Também se falou entre os democratas em fornecer ajuda temporária aos governos estaduais e locais, cujas finanças estão sendo massacradas pelo enfraquecimento da economia.
Como a ajuda para os desempregados, isso teria prestado um duplo serviço, evitando as dificuldades econômicas e os cortes de gastos que poderão piorar a tendência de declínio.
Mas o governo Bush aparentemente conseguiu matar todas essas idéias, em favor de um plano que dá dinheiro principalmente para os que têm menor probabilidade de gastá-lo.
Por que o governo desejaria fazer isso? Não tem nada a ver com eficiência econômica: nenhuma teoria econômica ou evidência que eu conheça diz que famílias de alta classe média tenham maior probabilidade de gastar cheques de devolução de imposto do que os pobres e desempregados.
Pelo contrário, o que parece estar acontecendo é que o governo de George W. Bush se recusa a assinar qualquer coisa que não possa ser chamada de "redução fiscal".
Por trás dessa recusa, por sua vez, está o compromisso do governo de cortar as alíquotas de impostos dos ricos enquanto bloqueia a ajuda para famílias em dificuldades -um compromisso que exige manter a mentira de que os gastos do governo são sempre ruins.
E o resultado é um plano que não apenas deixa de ajudar onde há mais necessidade, como provavelmente falhará como medida econômica.
Lembro as palavras do presidente Franklin Delano Roosevelt: "Sempre soubemos que o interesse próprio desconsiderado era moralmente ruim; agora sabemos que é economicamente ruim".
E o pior de tudo é que os democratas, que deveriam estar em uma posição forte -este governo ainda tem alguma credibilidade em política econômica?-, parecem ter cedido quase completamente.
Sim, os democratas obtiveram algumas concessões, aumentando os descontos para pessoas de baixa renda, enquanto reduziam os brindes para os afluentes. Mas basicamente permitiram que os forçassem a fazer as coisas do jeito do governo Bush.
E isso poderá ser uma coisa muito ruim.
Não sabemos com certeza quão profunda será esta próxima recessão, ou mesmo se preencherá a definição técnica de uma recessão. Mas existe uma probabilidade real de que não apenas será um grande declínio, como que a reação habitual à recessão -cortes das taxas de juros pelo Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos)- não bastará para reerguer a economia.
E, se isso acontecer, lamentaremos profundamente o fato de que o governo de George W. Bush insistiu, e os democratas aceitaram, um chamado plano de estímulo que simplesmente não vai funcionar.


PAUL KRUGMAN, economista, é colunista do "New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES - FOLHA DE SÃO PAULO

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Crise nos USA: Dessa vez, os velhos remédios não funcionarão


Harold Meyerson*

Numa recessão normal nos EUA, a lista de afazeres é clara. Tira-se a poeira dos livros de Keynes, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) baixa as taxas de juros e o presidente e o Congresso cortam impostos e aumentam gastos. Depois de algum tempo, as compras, a produção e os empréstimos se recuperam e Keynes volta para a prateleira. Nossa economia não sofre nenhuma alteração maior, pois é essencialmente sólida, afora os solavancos ocasionais.

Esse tem sido o roteiro em toda recessão desde a 2.ª Guerra Mundial.

Republicanos e democratas divergem sobre quem deve ser mais beneficiado pelos cortes de impostos e quais projetos devem ser financiados, mas, sob pressão do público para que façam algo, normalmente encontram um meio-termo e aprovam um pacote de estímulo.

Mesmo na Washington hiperpartidária de hoje, um acordo desse tipo continua provável.

Dessa vez, contudo, a história não deverá acabar aí, pois a recessão que se aproxima não será normal e nossa economia não está essencialmente sólida.

Agora, a nação terá de criar novas versões de algumas das reformas promovidas por Franklin Roosevelt para sair da Grande Depressão - não porque uma grande depressão se aproxima, e sim porque nossa economia foi abalada por dois eventos que não ocorriam desde os tempos de Roosevelt.

O primeiro é a estagnação da renda do americano comum, fenômeno iniciado nos anos 70 que as famílias compensavam com o trabalho de ambos os cônjuges e a valorização de suas residências.

Com os valores das residências em queda, sem mais cônjuges para trabalhar e com os preços do gás, da faculdade e da saúde continuando a subir, os consumidores estão exauridos.

Dezembro foi o mês mais cruel em muitos anos para os varejistas americanos. E, como Michael Barbaro e Louis Uchitelle informaram segunda-feira no jornal New York Times, os índices de inadimplência em cartões de crédito, financiamentos de veículos e hipotecas aumentaram dramaticamente no último ano.

O alarmante é que essa queda abrupta do poder de compra não parece ser meramente cíclica. Os salários encontram-se estagnados há bastante tempo, a bolha habitacional não será inflada novamente num futuro próximo e a pressão de alta sobre o petróleo só aumentará. Como na época de Roosevelt, precisamos de uma política que estimule a renda e encontre novas soluções para nossas necessidades energéticas.

Os remédios a longo prazo de Roosevelt para a renda incluíram a Seguridade Social, a Lei Wagner (que permitiu a sindicalização de muitos trabalhadores) e obras públicas - entre elas a instalação de redes elétricas no meio rural.

Hoje, um conjunto comparável de soluções incluiria a aprovação da Lei da Livre Escolha do Empregado, que permitiria a sindicalização dos trabalhadores do setor de serviços não exportáveis sem temer a demissão. Incluiria um vasto programa, com financiamento federal, para modernizar os EUA, criando vários milhões de “empregos verdes” no processo.

Nessas questões, há uma clara divergência entre os dois partidos.

Barack Obama, Hillary Clinton, John Edwards e os congressistas democratas apóiam essas medidas; os republicanos são contra (embora John McCain tenha pelo menos começado a falar na criação de empregos verdes).

O que os republicanos defendem é simplesmente cortar mais impostos, o que nada faria para solucionar nossos problemas mais profundos de distribuição de renda e dependência energética.

O segundo aspecto da atual baixa a ecoar a depressão é o papel desempenhado por nosso setor financeiro desregulamentado. Hoje, como naquela época, os alicerces financeiros de nossos principais bancos e outras instituições de crédito mostram-se frágeis.

Hoje, como naquela época, essa notícia surge como uma surpresa terrível não só para os consumidores, mas para grande parte dos próprios bancos.

Hoje, como naquela época, os bancos criaram veículos financeiros tão complexos e deliberadamente obscuros - todos concebidos para gerar lucro em cada operação de swap (troca de indexadores) - que perderam há tempos a referência do valor real dos papéis.

Em sua época, Roosevelt, por meio da Lei de Mercado de Capitais e outras iniciativas, obrigou os bancos a ser mais prudentes e transparentes.

Ao longo dos últimos 30 anos, contudo, Wall Street criou uma série de instituições (como as companhias de gestão de investimentos privados) e dispositivos (como a precipitada e desastrada revenda de hipotecas para grupos de investimento cada vez maiores)desregulamentados.

Agora é hora de cobrar transparência e prudência das instituições financeiras que vêm especulando com o dinheiro e a vida dos outros.

Mas, quando a questão é controlar Wall Street, os democratas têm estado quase tão ausentes quanto os republicanos. Entre outras coisas, seus candidatos presidenciais recebem muito dinheiro de Wall Street.

Recusando-se a impor esse controle, no entanto, eles abandonam uma questão potencialmente importante na campanha eleitoral e preparam o terreno para mais uma recessão.

*Harold Meyerson, editor da revista ‘American Prospect’ e do jornal ‘L.A. Weekly’, escreve para o ‘The Washington Post’. Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo