Mostrando postagens com marcador Iets. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Iets. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Desigualdade até na pobreza

Nordeste reduz percentual de pobres menos que estados mais ricos.
No Rio, melhoria é recorde

Liana Melo, Cássia Almeida, Letícia Lins e Adriana Baldissarelli*

RIO, RECIFE e FLORIANÓPOLIS Apesar de cerca de seis milhões de pessoas terem ultrapassado a linha da pobreza em 2006, deixando de figurar entre as famílias que ganhavam, mensalmente, menos de R$ 125 per capita, o Brasil continua sendo um país de contrastes, com um Sul rico e um Nordeste pobre. Justamente em alguns dos estados que registram os menores índices de pobreza, a redução do problema foi mais acentuada. Depois de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina foi o estado onde a taxa de redução relativa da pobreza foi maior: 26,3%.
No extremo oposto, está o Maranhão, com a menor queda da miséria (-9,73%), apesar de ter sido o estado com o maior ganho de renda no último ano (33,74%).

A conclusão é do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV-RJ), que produziu o estudo “Miséria, desigualdade e políticas de renda: o Real do Lula”, de autoria do economista Marcelo Neri. O levantamento foi feito com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2006), divulgada na semana passada pelo IBGE. O aumento do emprego formal e do salário mínimo e a expansão do programa Bolsa Família foram os responsáveis pelo incremento de 7,2% na renda do brasileiro, um dos indutores da redução da pobreza, juntamente com a queda da desigualdade.

O que surpreende é Santa Catarina estar entre os que mais reduziram a pobreza.
No estado, o percentual de pobres é de apenas 4,68% da população, o mais baixo do país. Enquanto isso, o Maranhão tem quase metade da população (44,23%) abaixo da linha de pobreza.

— O Nordeste não teve o resultado esperado (seis dos nove estados da região reduziram a pobreza numa intensidade menor que a média brasileira). Uma hipótese possível é que a alta do salário mínimo não teve tanto impacto. Lá, grande parte da população ganha menos que o mínimo — explicou Neri.O economista acredita que uma combinação de capital social e humano e pequenos produtores favoreceu Santa Catarina.

Sonia Rocha, estudiosa de pobreza e desigualdade do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), diz que houve um desematé penho desigual no Nordeste. E atribui a queda da pobreza ao mercado de trabalho, que teve papel fundamental para diminuir a pobreza no Brasil: — Talvez, o que tenha acontecido no Nordeste esteja relacionado ao Bolsa Família, que teve um impacto menor na redução da pobreza no ano passado, já que o valor do benefício foi mantido. Ou seja, perdeu poder de compra. Mesmo com pouca inflação, houve corrosão.

Morador de Ipojuca, em Pernambuco, Clóvis Vitorino Rosa, 40 anos e quatro filhos, sente em casa a melhoria do rendimento, embora seja um pobre trabalhador do corte de cana. Ele afirma que hoje consegue comprar mais do que antigamente, e que o salário que recebe, embora não seja alto, tem sido suficiente para o sustento da família, o que antes não ocorria.

— Hoje, consigo comprar mais mercadoria do que antigamente.

Tem sempre feijão, arroz, farinha e desematé carne em casa. Isso antes não acontecia — afirma ele, cujo salário cresceu 15,72% nos últimos dois anos.
Além disso, Rosa, a mulher e os filhos engordam sua renda com os R$ 95 do Bolsa Família, benefício social que tem um grande peso na economia do Nordeste, principalmente nas áreas rurais.


Ganho de renda no Rio só perde para o de Belo Horizonte

No Sul do país, para a catarinense Fabíola Silva Leite, a passagem da situação de miséria não está marcada na carteira de trabalho nem em extrato de conta bancária. Esses documentos ainda lhe faltam. A prova de que conseguiu romper a linha estatística é o carnê de uma loja de departamentos. Há quatro meses, pela primeira vez na vida, ela conseguiu obter crédito formal. Acertou seis parcelas de R$ 30 e comprou o sonhado aparelho de DVD para o lazer da família.

— Só faltam duas prestações.

Nunca imaginei que iria conseguir. Fabíola faz a triagem de materiais recicláveis da Associação Recicladores Esperança (Aresp) há um ano e oito meses. Quando chegou à equipe, conseguia uma renda de R$ 35 por semana. Nos últimos meses, fatura mais, em torno de R$ 400 por mês: — Todo o dinheiro é para a comida. A gente pensa primeiro na barriga dos filhos, não sobra para comprar roupa.

Outro desempenho regional que chamou a atenção foi o do Rio de Janeiro. Segundo André Urani, do Iets, a Região Metropolitana do Rio, que concentra 75% da população fluminense, reduziu em 19,28% o número de pobres.

O que significou menos 600 mil pessoas ganhando até R$ 183 (a linha de pobreza do Iets é diferente da usada pela FGV). Na indigência (R$ 92 de ganho domiciliar per capita), a queda foi ainda maior: 24,8%. No ganho de renda, o Rio, com alta de 12,23%, só ficou atrás de Belo Horizonte.

— O Rio saiu-se melhor que o Brasil, na renda, na pobreza e na indigência. E a Região Metropolitana, em crise há mais de dez anos, renasceu. Cresceu mais que o resto do estado nesses indicadores, invertendo tendência de quase uma década — disse Urani.

(*) Especial para O GLOBO

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Governo Lula: Pobreza teve queda recorde em 2006

Número de pobres caiu 13,4% e o de indigentes, 17%, mas as regiões mais pobres tiveram as menores reduções

Fernando Dantas, RIO

O Estado de São Paulo (para assinantes)

A pobreza no Brasil diminuiu 13,4% no ano passado, passando de 29,5% para 25,6% da população. A extrema pobreza teve redução de 17%, caindo de 11% para 9,1%. Com isso, cerca de 7,3 milhões de brasileiros deixaram de ser pobres e 3,5 milhões saíram da indigência (extrema pobreza). Nos dois casos, foram as maiores quedas desde 1996.

Em 2006, porém, a pobreza e a indigência caíram de forma mais intensa nas regiões mais ricas. A pobreza diminuiu 10,4% na Região Norte e 10,2% na Região Nordeste, menos que a média nacional, de 13,4%. Nas regiões mais ricas, Sudeste, Centro-Oeste e Sul, a pobreza caiu mais que a média nacional - respectivamente 18,8%, 21,5% e 15,8%.

O mesmo fenômeno aconteceu com a indigência, que caiu 14,2% na Região Norte, 14,7% na Nordeste, e, respectivamente, 24,4%, 24,2% e 17,2% nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul. A média nacional foi 17%.

O Nordeste tinha o maior porcentual de pobres em 2006 (46,4%) e de indigentes (19,8%). Os melhores números foram os do Sudeste, com, respectivamente, 14,8% e 3,9%.

A queda menor da pobreza e da indigência nas regiões mais pobres é um sinal, segundo Mauricio Blanco, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), no Rio, de que a aceleração do crescimento econômico pode estar trazendo de novo os impactos negativos da falta de educação na distribuição de renda.

Assim, em regiões onde a população pobre tem deficiências mais sérias de educação, os mais ricos tendem a se beneficiar mais do crescimento.

Os números foram calculados pelo Iets, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2006, usando linhas de pobreza e de indigência (atualizadas) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A linha de pobreza média do Brasil (ela varia por região) corresponde a uma renda familiar per capita de R$ 167, e a de indigência, de R$ 83.

Não é possível determinar qual foi a queda específica de 1994 e 1995 porque não houve Pnad em 1994. Mas a redução do número de pobres e indigentes em 2006 foi maior que a média anual de 1994 e 1995, quando os efeitos do Plano Real provocaram uma forte melhora nos indicadores sociais.