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domingo, 20 de janeiro de 2008

Museus e bibliotecas de Paris suspendem uso de Wi-Fi

Biblioteca François Mitterrand em Paris

Determinação atende ao princípio de precaução; funcionários se queixam de risco à saúde

Andrei Netto, PARIS

O uso de hotspots de internet sem fio (Wi-Fi) em museus e bibliotecas da capital francesa está suspenso até o mês de fevereiro. A moratória decretada pelo Conselho de Paris visa a esclarecer a origem de distúrbios de saúde declarados por funcionários das instituições, supostamente vinculados às emissões de radiofreqüência das estações de base.

A decisão reabre a controvérsia em torno dos riscos - ainda não comprovados, nem descartados - à saúde gerados pela exposição excessiva às ondas de internet, telefonia celular e microondas, entre outras.

Desde junho, 60 bibliotecas e museus mantidos pela prefeitura vinham sendo equipados com estações de base, aparelhos que emitem as ondas captadas pelos microcomputadores. Com o passar dos meses, funcionários de quatro bibliotecas pediram a intervenção da Federação Sindical Unitária (FSU) junto à prefeitura.

A moratória foi decidida pela Direção de Assuntos Culturais de Paris, a pedido do Comitê Higiene e Segurança, depois que mais de 40 funcionários públicos descreveram problemas de saúde como dor de cabeça, mal-estar, vertigem e dor muscular. Os supostos distúrbios chamaram a atenção por terem características semelhantes aos diagnosticados por pessoas que se sentiam prejudicadas por antenas de retransmissão de sinais de telefonia celular.

A causa foi encampada não apenas pelos sindicalistas mas também por ambientalistas e organizações não-governamentais (ONGs) que já haviam militado contra o que consideram “instalação indiscriminada” de antenas de telefonia celular. “O grande problema é que a questão segue em aberto. Não temos certeza sobre a existência ou não de riscos à saúde. O que há é um ‘risco potencial’ que precisa ser analisado. Daí a necessidade da moratória”, afirma Stéphen Kerckhove, da ONG Agir pelo Ambiente.

Outra ONG, a Priartem (na sigla em francês, para Regulamentação das Implantações de Antenas de Telefonia Celular) se vale de estudos em laboratório para embasar o temor. De acordo com Janine le Calvez, presidente da associação, com sede em Lion, há pesquisas acadêmicas que indicam o efeito genotóxico - alterações genéticas nocivas - provocado pelas ondas de radiofreqüência de 2.450 MHz, as utilizadas pelas redes sem fio de internet. “Esses resultados convergem com os estudos epidemiológicos sobre a telefonia móvel e mostram um aumento no risco de tumores”, diz.

INDICAÇÕES

Encerrado há dois anos, o relatório Reflex, estudo supervisionado pela Comissão Européia, baseou-se em quatro anos de experiências realizadas por 12 grupos de pesquisa em sete países, ao custo de 3 milhões (cerca de R$ 8 milhões). Segundo o texto, ondas eletromagnéticas podem, em tese, quebrar o DNA de células humanas expostas de forma sistemática e por longos períodos (18 horas) a raios de baixa freqüência, gerando alterações. A pesquisa, porém, não é conclusiva e ressalta que ainda não é possível afirmar que haja danos à saúde humana.

Outro estudo epidemiológico internacional, o Interphone, também estimula a discussão na Europa. Ainda em curso em 13 países, o levantamento - específico sobre telefonia celular - indica que a exposição excessiva à radiofreqüência pode dobrar o “risco relativo” de tumores cerebrais, como gliomas, meningiomas e neurinomas, entre outros.

Em Paris, o tom das discussões é ainda mais acalorado porque a cidade tornou-se a metrópole mais conectada por redes Wi-Fi da Europa. Bertrand Delanoë, prefeito de Paris, vem implantando um projeto de “cidade digital”, o Paris Wi-Fi, que consiste na implantação de hotspots (pontos de internet sem fio de livre uso), uma forma de democratizar o acesso à rede mundial.

No final de 2007, 260 pontos da cidade, como parques, monumentos, prefeituras distritais, museus, bibliotecas e centros associativos - entre os quais o Campo de Marte, onde se situa a Torre Eiffel, e o Hôtel de Ville, a sede do Executivo municipal - já contavam com 400 estações de base Wi-Fi.

Diante da incerteza, os cientistas apelam ao uso comedido de telefones portáteis. Quanto às redes sem fio de internet, a medida preventiva é o uso a uma distância mínima de 50 centímetros da estação de base.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Jogando com a saúde: Europa e EUA já focam em Wi-Fi, já SP nem tem estudo de riscos


Já SP nem tem estudo de riscos das antenas à saúde

Eduardo Reina - O Estado de São Paulo

Na Europa e nos Estados Unidos, a discussão sobre os riscos à saúde da radiação eletromagnética já passou há muito tempo das antenas de celular. O foco lá são as emissões nos locais onde existe a internet sem fio, ou wireless fidelity (Wi-Fi). Enquanto isso, em São Paulo, a Secretaria de Saúde começa agora a discutir, sem prazo definido, a realização de um estudo sobre o impacto da exposição a ondas eletromagnéticas em áreas de entorno das estações de radiobase (ERBs).

Os governos alemão e inglês já determinaram a realização de pesquisas para saber se as ondas de rádio do sistema Wi-Fi são prejudiciais à saúde. Estudos da Health Protection Agency, equivalente ao Ministério da Saúde inglês, concluíram que a radiação do Wi-Fi é muito baixa, mesmo quando uma pessoa trabalha com o laptop sobre as pernas - portanto, com o receptor de sinal próximo ao corpo. Na literatura médica, há artigos que fazem correlação entre as ondas e o surgimento de doenças, como o câncer, e outros que negam a possibilidade de ligação entre esses fatores.

Para o professor Vitor Baranauskas, da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Wi-Fi é mais uma forma de poluição invisível que precisa ser controlada. “A radiação eletromagnética tem a mesma seqüência do forno de microondas, e provoca problemas no cérebro.” A engenheira clínica Suzy Cabral disse que antenas instaladas perto de hospitais podem alterar a leitura de pressão arterial e desregular a bomba de infusão que administra medicamentos. Na capital, vários pontos já dispõem do sistema sem fio para acesso à internet, como cafés, bibliotecas, restaurantes e outros ambientes públicos.

De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), cabe aos municípios legislar sobre riscos à população por parte das antenas. A agência fiscaliza apenas se as torres operam sem criar problemas para a prestação de serviços de telefonia móvel.

Jogando com a saúde: MPE cobra que Prefeitura de SP fiscalize antenas de celular



Segundo Promotoria, Município não cumpre lei que regulamenta instalação de torres e prevê medição de ondas

Eduardo Reina - O Estado de São Paulo

O Ministério Público Estadual (MPE) cobra da Prefeitura de São Paulo o cumprimento da lei 13.756, de 16 de janeiro de 2004, que regulamenta a instalação e a fiscalização sobre o funcionamento das estações de radiobase (ERBs), as chamadas antenas de celular. A administração municipal não fiscaliza periodicamente esses equipamentos nem possui um mapeamento das torres em operação. “O que existe hoje é uma ação reativa. Só se averigua uma irregularidade se alguém denunciar. A lei não está sendo cumprida, o que resulta em improbidade administrativa”, disse o promotor de Habitação e Urbanismo José Carlos de Freitas.

A lei proíbe, por exemplo, a instalação de ERBs a menos de cem metros de hospitais e escolas e exige relatórios periódicos sobre irradiação de ondas e exposição à população vizinha, o que não é controlado pelo Município. Também não se sabe se o aglomerado de estações e as ondas emitidas por elas causam danos à saúde. Pelo menos oito procedimentos já foram abertos nas promotorias de Habitação e do Meio Ambiente.

Nem mesmo a quantidade de antenas de celular e as de serviço móvel especializado - transmissoras de sinais para aparelhos que funcionam como rádio e celular - em São Paulo é conhecida oficialmente. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), são 2.559, das quais 2.168 de celular e 391 de serviço móvel especializado. Isso sem contar as antenas de TV a cabo, cujo número não foi divulgado.

Pelas contas da Prefeitura, porém, há apenas 878 antenas. Esse número vem de um levantamento feito pelas 31 subprefeituras da capital entre o final do ano passado e setembro e depois entregue ao MPE . Os dados diferem dos registros da Secretaria Municipal de Habitação, que informou ter recebido 3.241 pedidos de licença para instalação de antenas desde o início da década.

NÚMEROS

Até mesmo a Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp), que reúne as operadoras, não possui números exatos. Segundo a TelComp, a estimativa é de que haja cerca de 1.600 antenas na cidade.

Para piorar a “dança dos números”, o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que a Câmara Municipal instaurou em 2003 sobre as antenas indicava que, naquela época, a Anatel já registrava 4 mil autorizações para funcionamento de estações de radiobase. Desse total, segundo a CPI, só 1.662 eram pedidos regulamentados; outros 586 haviam sido negados. Havia, ainda, cerca de 580 desconhecidas, em total clandestinidade.

Além da falta de regulamentação e fiscalização, a comissão descobriu torres instaladas dentro de áreas públicas, como no Estádio do Pacaembu, no Palácio das Indústrias (sede da Prefeitura até janeiro de 2004), no Autódromo de Interlagos e até mesmo no Hospital do Servidor Público Municipal e no Pronto-Socorro da Lapa, desrespeitando a lei de 2004. O artigo 6º proíbe a instalação de antenas em hospitais e prontos-socorros, entre outros locais.

A falta de controle leva as empresas a pedirem autorização à Prefeitura e, antes mesmo de receber a resposta, instalarem suas ERBs. O promotor do Meio Ambiente Carlos Alberto de Salles afirmou que a Anatel exige uma declaração de que a antena está regularizada pela legislação municipal, “mas,quando é informada que (a torre) é irregular, também não faz nada”. “A Prefeitura não tem capacidade técnica para desligar as antenas”, disse.

Outra promotora do Meio Ambiente, Márcia de Holanda Montenegro, disse que “a impressão que se tem é que a Anatel dá a licença de funcionamento e só depois começa a tramitar a regularização em âmbito municipal”. Márcia cita como exemplo uma antena localizada na Rua Professor João Arruda, em Perdizes, na zona oeste, que funciona sem licença e já é alvo de ação civil pública.

As operadoras reclamam da lentidão da Prefeitura na liberação dos pedidos de alvarás e alegam ter apresentado toda a documentação exigida, apesar de os processos não terem sido analisados. “Segundo nossos associados, 25% das 1.600 antenas têm alvará”, disse Luís Cuza, presidente da TelComp. “A Prefeitura não está informatizada o suficiente para apreciar todos os processos.” As empresas de telefonia móvel iniciaram a prestação de serviços na capital em 1992. Operam atualmente a Claro, Tim, Vivo, Unicel e Nextel.

MULTAS

A Prefeitura informou que já foram aplicadas 738 multas às operadoras de telefonia celular por causa de irregularidades flagradas nas ERBs. Em 2004, ano em que a lei 13.756 entrou em vigor, foram apenas duas autuações. No ano seguinte, 15. Em 2006, houve o registro de 337 infrações e, de janeiro até 19 de outubro, foram aplicadas 384 multas.

As Secretarias de Coordenação das Subprefeituras e de Habitação, responsáveis pela licença e fiscalização das antenas, não responderam à reportagem até sexta-feira.