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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Setor têxtil quer modificar acordo feito com chineses


Rafael Rosas VALOR

As importações de países asiáticos, notadamente a China, continuam trazendo preocupações para o setor têxtil brasileiro. Para este ano, um dos objetivos das indústrias têxteis e de confecções é dar novos moldes ao acordo iniciado com o governo chinês em 2006 e que prevê a limitação do crescimento de importações de oito categorias de têxteis, o que significa teto de avanço anual para 72 produtos. Em 2007, as importações da China representaram 39% de tudo o que foi comprado pelo Brasil em produtos têxteis no exterior.


Ainda neste semestre chega ao Brasil uma missão chinesa que iniciará com o governo brasileiro e empresários do setor as tratativas para a adequação do acordo às novas condições de comércio. Em 2006, quando foi criado, o acordo, que tem validade até o fim deste ano, abarcava 65% da corrente de comércio de têxteis entre os dois países e previa tetos anuais de crescimento de 8% a 25% para os produtos. Atualmente, os itens discriminados representam apenas 20% dessa corrente de comércio.


"Pleiteamos a inclusão de novas categorias no acordo", diz Fernando Pimentel, superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Para Aguinaldo Diniz, presidente da Abit, uma das formas de reduzir o déficit da balança comercial de têxteis, que em 2007 subiu 1.864% e atingiu US$ 648 milhões, é buscar formas tributárias isonômicas em relação a países asiáticos.


"O dólar facilitou as importações. Mas não dá para questionar o dólar, que é definido pelo mercado. Devemos é ter tributos mais isonômicos. A carga tributária é um problema e é fundamental que haja uma reforma", afirma Diniz.


O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), Alessandro Teixeira, ressalta que o acordo com a China contribuiu para que o preço médio das importações de têxteis a partir da Ásia subisse de US$ 8 por quilo em 2006 para os atuais US$ 16 por quilo, fruto da redução do subfaturamento dos produtos vindos da região nas categorias incluídas no entendimento entre os dois países.


Teixeira é otimista em relação às negociações e diz que o governo chinês demonstra interesse em reduzir o subfaturamento, o contrabando e aumentar a qualidade dos produtos têxteis do país. Para ele, o governo chinês tem cooperado e novos tópicos deverão ser negociados para um novo entendimento.


"No cenário internacional isso causa problema à China. Os Estados Unidos têm feito um esforço enorme para limitar as importações a partir da China, alegando que são contrabandeadas ou subfaturadas", frisa o executivo.


Mas em um cenário de aumento das importações a partir da China, a Apex vislumbra possibilidades de aumentar as vendas para o país asiático. Segundo Teixeira, as empresas brasileiras devem tentar mostrar que "ser fashion na China é usar moda brasileira".

Déficit comercial de têxteis cresce 1.864%


Importação da China é o principal motivo do resultado ruim em 2007
Clarissa Thomé, RIO O Estado de São Paulo

A indústria têxtil registrou déficit na balança comercial de US$ 648 milhões em 2007 - um crescimento de 1.864% em relação ao ano anterior, quando o saldo negativo ficou em US$ 33 milhões. As exportações cresceram de US$ 2,1 bilhões para US$ 2,4 bilhões, mas foram em muito superadas pelas importações, que passaram de US$$ 2,1 bilhões para US$ 3 bilhões. Os dados foram divulgados ontem pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), na semana de moda outono/inverno carioca, o Fashion Rio, que começou na segunda-feira e amanhã.

Para o presidente da Abit, Aguinaldo Diniz, o crescimento do déficit comercial se deu basicamente por causa das importações, principalmente, da China. “Esse crescimento nos preocupa, é um número relevante, mas temos um setor sólido e vamos reverter essa curva.”

O acordo bilateral Brasil-China vigora desde 2006 e se encerra este ano. O setor têxtil quer garantias, como a desoneração fiscal da cadeia produtiva e o aumento da fiscalização alfandegária, para que o produto brasileiro possa competir em condições de igualdade. “Precisamos ter tratativas e métodos de controle para evitar subfaturamento, falsas classificações e triangulações na importação, que fazem o produto brasileiro ficar em desvantagem”, ressaltou o diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel.

Gestor do Programa Estratégico da Cadeia Têxtil Brasileira (TexBrasil), Rafael Cervone, afirmou que a indústria têxtil brasileira não quer “competir com a China com produtos de massa”. “Eles fazem isso bem. Queremos é negociar lotes menores, praticamente exclusivos, uma moda mais rápida, mais curta, e com a criatividade brasileira que eles não têm.”

O setor têxtil brasileiro é formado por 30 mil empresas, gera 1,65 milhão de empregos no País e é responsável por 17,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da Indústria de Transformação.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Têxteis buscam novas fronteiras


Concorrência chinesa e câmbio reduzem venda para EUA e estimulam entrada em países como Rússia e Turquia

Vera Dantas - O Estado de São Paulo

Países fora do circuito internacional da moda começam a virar o novo alvo de exportações da indústria têxtil brasileira. Os Emirados Árabes Unidos, com consumidores de altíssimo poder aquisitivo, a Rússia, que abrigou recentemente a feira para ricos Millionaire Fair, e até países nórdicos como a Dinamarca estão na lista de ataque de produtos com a etiqueta “made in Brazil”. O mercado latino-americano também é considerado uma opção atraente para investimentos.

O interesse em novos mercados, de classe média emergente e com consumidores endinheirados, é a salvação para muitas empresas que enfrentam dificuldades nas vendas para mercados mais tradicionais. A desvalorização do dólar em relação ao real e a invasão maciça de produtos chineses nos Estados Unidos vendidos a preços imbatíveis frente aos concorrentes têm desestimulado as exportações para os americanos.

“Não que os Estados Unidos não sejam importantes, mas a chegada dos chineses que oferecem um volume imenso de produtos com preços arrasadores dificulta as vendas”, diz o presidente da Sinditêxtil e diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Rafael Cervone Netto.

Os Estados Unidos são o segundo maior mercado de exportação para o Brasil, atrás apenas da Argentina. Mas vêm perdendo espaço nas vendas brasileiras. Os valores exportados para os americanos somaram US$ 338,9 milhões este ano até setembro. O resultado é 12% menor em relação a igual período em 2005. Em volume, na mesma comparação, as vendas caíram de 90,3 milhões de quilos em 2005 para 85,9 milhões em 2007.

No ano passado a Hering teve, no terceiro trimestre, 42% das exportações destinadas à América do Norte. Neste ano a participação caiu para 29%. A estratégia da empresa, conforme seu último balanço, é descentralizar as vendas aos EUA e diversificar mercados. Não é a única. A Dudalina, de moda masculina, por exemplo, até dois anos atrás distribuía seus produtos para 12 clientes nos Estados Unidos. No ano passado, ainda vendia para quatro e este ano abandonou o mercado. “É um ambiente muito competitivo, onde a mercadoria tem pouco valor intrínseco e as exigências técnicas são muito grandes”, diz o diretor de exportação, Rui Hess de Souza.

Ele também decidiu reduzir a produção de roupas com a marca de terceiros (private label) e valorizar a própria marca. “Em 2006, do total exportado, 80% era no private label e 20% nossas marcas. Em três anos, vamos reverter essa proporção”, diz o empresário. “O valor médio de uma peça private label é de US$ 11. Minha peça sai por US$ 23”, compara.

A empresa deu a largada também para a abertura de lojas na América Latina com sua marca. Este ano foram quatro no Paraguai. Em 2008, serão mais 11 lojas distribuídas por Venezuela, Paraguai, Equador, Costa Rica, Chile e Colômbia. A Rússia é outra possibilidade que começa a ser investigada.

A Poko Pano, exportadora de moda praia há 14 anos, entrou este ano em Dubai e tem a China como um de seus focos de venda para 2008. “São nos países emergentes, com uma classe de novos ricos, que posso reajustar o preço do biquíni e entrar com um produto mais sofisticado para quem compra luxo”, resume a diretora da empresa, Paola Robba.

Embora exporte para Estados Unidos, Europa e América do Sul, ela se queixa muito do prejuízo que teve com o câmbio. “Em Portugal, por exemplo, perdi 40% das vendas porque eles não aceitam reajuste de maneira alguma.” Ela fecha o ano com faturamento empatado com o ano anterior e uma redução de 10% no volume vendido.

Para ser bem sucedido nos países europeus é preciso investir muito na marca. “A Europa exporta moda. Entrar lá é mais complicado. Se a empresa não tiver recursos para marketing terá dificuldade”, diz o presidente do grupo Maria Bonita, Alexandre Aquino. A marca é vendida em Londres, em multimarcas, mas também em novos mercados como Dubai, Arábia Saudita, Cingapura e Rússia.

A Marisol foi uma das que resolveram apostar num dos centros do circuito da moda ao abrir uma loja em Milão, na Itália, com a marca infantil Lilica Ripilica na Via Della Spiga. “É nossa loja conceito na Europa para divulgar a marca para outros países”, diz o gerente de exportação, Marcelo Damm. A estratégia da empresa de internacionalização é a abertura de várias lojas no exterior.

Paris foi um ponto inicial de expansão para a Mabel, de moda feminina sofisticada. “Conseguimos contato com um distribuidor local que abriu portas para a Mabel nos países árabes”, diz o diretor financeiro da empresa, Francisco Otávio de Castro Magalhães.

“Competir na França com marcas como Prada e Armani é inviável. O investimento é muito pesado.” Na França, a empresa conseguiu três clientes e não tem mais o país como um alvo. O empresário diz que o europeu reconhece design, mas quer preços baixos porque imagina que a mão-de-obra brasileira é barata como a chinesa. “A negociação com os árabes é bem mais fácil e eles querem novidades”, diz Magalhães, que exporta 15% da produção de 20 mil peças ano.