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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O espantalho do terceiro mandato

Luiz Weis

O Estado de São Paulo

O terceiro mandato é uma invenção do PSDB. Serve para o partido empunhar a mais vistosa das bandeiras políticas - a defesa da democracia - a custo zero.

Se o presidente Lula for tomado por uma acesso de insanidade e, contra todas as evidências, embarcar nessa aventura que ele rejeita publicamente dia sim, o outro também, os tucanos terão um motivo real para fazer do que até hoje outra coisa não é senão a sua guerra particular uma legítima Batalha de Stalingrado pela santidade do princípio da alternância no poder. Já se a norma for mantida sem percalços, eles sempre poderão dizer que, não fossem as suas denúncias a tempo e hora, ela teria sido atropelada pelo chavismo da nação petista e do seu primeiro companheiro.

O PSDB começou a agitar o pano vermelho nos idos de janeiro, quando o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) ainda estava longe dos 15 minutos de fama com o seu nefasto projeto de emenda constitucional que daria ao presidente da República a prerrogativa de convocar plebiscitos sobre o que lhe desse na veneta, à revelia do Legislativo. Portanto, nove meses antes que saísse da obscuridade o "velho amigo íntimo" de Lula, como os tucanos e setores do comentariado político se apressaram a identificá-lo, foi posta a circular a versão de que o Planalto tratava de criar as condições para que o presidente começasse a "trabalhar por um terceiro mandato".

Naturalmente, era tudo muito iffy, como dizem os gringos. O motor começou a rodar não com uma acusação frontal, baseada em fatos, mas com uma especulação pontilhada de condicionais, que invocava a "lógica" - Lula não tem um sucessor natural capaz de herdar os seus 58 milhões de votos e tem toda a popularidade do mundo para fomentar um clamor popular pela re-reeleição, mediante um casuísmo que o Congresso não se furtaria a aprovar. Espantalhos não se fazem num dia, porém. Quanto mais gradual a sua montagem, maior o seu poder de assustar. Sem falar que teorias conspiratórias só têm compromissos com as intenções de seus autores.

O PSDB atou-se à teoria do terceiro mandato literalmente à falta de melhor. Seja para transformá-lo no mensalão do segundo - com a diferença de que o original foi um dado da realidade -, seja para mascarar o próprio apagão de idéias e ideais. Em agosto de 2005, quando Duda Mendonça, o marqueteiro do coração de Lula, contou ter sido remunerado com depósitos em conta secreta no exterior, faltou ao partido tutano para levar o presidente ao mata-mata de um pedido de impeachment. Faltou decerto porque um mês antes O Globo revelou os primeiros indícios do que ficou claro como o sol na semana passada - o mensalão tucano da campanha mineira de 1998.

Agora, trata de arar o terreno para a semeadura de uma crise mensalônica que poderia restaurar o seu patrimônio como oposição ao lulismo, dilapidado - desgraça pouca é bobagem - duas vezes. Na campanha de 2002, quando escondeu o presidente Fernando Henrique do horário eleitoral, e na seguinte, quando se envergonhou das privatizações no seu governo. Desta vez, é como se, perversamente, o PSDB desejasse que Lula incentivasse uma iniciativa terceirista, para armar o barraco. Mesmo sem isso, já faz desfilar a assombração no Senado, para impedir que alguns dos seus ajudem de caso pensado a aprovar a prorrogação da CPMF.

Curiosa família, a dos ranfastídeos. Tentam levar o povo no bico, apostando na sua proverbial desmemória. Fizeram em 1997 o que afirmam, horrorizados, que Lula quer fazer em 2007, apenas com um re a mais: aprovaram a emenda da reeleição, de quebra com uns votinhos comprados nos grotões, valendo já para o presidente de turno - senão, cadê a graça? No ninho, raras aves ousaram criticar a abolição da regra do impedimento com a bola rolando. Era para o bem, retrucavam os fernandistas no Congresso, na imprensa e na intelligentsia. Exatamente o que diriam os partidários do Lula-3. Eles existem, mas apitam o mesmo que aqueles poucos tucanos favoráveis à reeleição a partir de 2002.

O drama do PSDB, que deu no factóide que está aí, não tem mistério. O partido perdeu a pele social-democrata (leia-se: de esquerda modernizadora, à espanhola) com que veio ao mundo, em 1988, e a pele apefelada que a substituiu é o tipo da coisa fora de lugar diante desta sociedade que pode não ser mais justa, mas se "pensa mais justa", no fino registro do ex-ministro Delfim Netto, no Valor de segunda-feira. No mesmo jornal, a propósito, o repórter Caio Junqueira anotou dias antes as didáticas diferenças entre o primeiro programa tucano e o aprovado no congresso-convenção da última semana, em Brasília. O novo documento não contém nem o termo progressista, nem o nome Nordeste.

Mas o pior de tudo, como os tucanos só admitem na penumbra, é a sua respeitável dificuldade de combater um governo que cumpre essencialmente o seu, deles, programa. Assim como seria uma festa para o PSDB se Lula desse corda ao terceiro mandato - que não pegaria bem para ele nem no exterior, como sabe -, teria sido uma apoteose se Lula esquecesse o que assinou na Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002 - e no ano seguinte entregasse as chaves do Planalto ao velho PT. Tendo os fatos transcorrido como transcorreram, o PSDB continuou no poder, como emanação doutrinária. Virou um autor à procura de um enredo.

Ainda mais depois da invertida que levou, em pleno convescote, do procurador-geral da República, que tirou o chão sob os pés do partido nascido do manifesto repúdio dos seus fundadores aos "métodos quercistas" de fazer política e governar. Hoje se sabe que também grão-tucanos são chegados à ética de resultados, como a companheirada da trincheira em frente. Restaram, no atacado, a apelação do terceiro mandato; no varejo, os constrangedores ataques pessoais de Fernando Henrique a Lula. O debate público nacional podia passar sem uma coisa e outra.

Luiz Weis é jornalista

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Vamos ver se o bom (con) senso prevalece

Por que Lula prefere negociar

Luiz Weis

Um dia Lula comentou com Hugo Chávez o que, no seu entender, era a grande diferença no comportamento político de ambos. Eles falavam das relações dos respectivos governos com os Estados Unidos, e o brasileiro observou, talvez com menos palavras do que as que se seguem, que a formação militar deixara no seu interlocutor uma afinidade com a lógica do enfrentamento. Nela, a meta de cada uma das partes é necessariamente se impor à outra, transpondo para o terreno político o que os teóricos da guerra esperam que aconteça nos campos de batalha. Já ele, Lula, aprendera na escola do sindicalismo que a negociação é preferível ao confronto precisamente porque o seu resultado não é um jogo de soma zero, em que o vencedor fica com tudo.

Pois, se os trabalhadores de uma fábrica conseguissem deixar o patrão de joelhos, fazendo-o cumprir todas as exigências apontadas para o seu peito, correriam o risco de ser atingidos pelo efeito bumerangue, caso isso enfraquecesse a companhia a ponto de levar os seus dirigentes a não oferecer novos empregos, ou, pior ainda, a cortar pessoal. Decerto o pragmático ex-líder metalúrgico teve a delicadeza de não dizer ao coronel de Caracas o que tampouco precisou que algum “barbudinho da USP”, com o radicalismo temperado pelo conhecimento, lhe ensinasse: acomodação e conflito são faces da mesma moeda, e conflito fecundo é aquele que, por vias tortuosas, conduz a um desfecho mutuamente vantajoso, ainda que mais vantajoso para uns do que para outros.

Pouco importa o que ficou daquela conversa para o bolivariano. Para o Brasil, no entanto, esse flagrante da mentalidade política de Lula - repassado por um petista que não se perderia se deixado solto nos corredores do Palácio do Planalto - ajuda a entender por que Lula nunca rasgou nota de mil, embora muitas vezes agisse como se fosse fazê-lo em menos tempo do que gastou para vestir naquele dia a camiseta com a carrancuda inscrição “hoje não tô bom”. A propósito, os americanos têm uma fórmula preciosa para rebater avaliações catastrofistas que consideram desproporcionais à realidade dos fatos. “Considere as alternativas”, propõem aos assustados.

Considerem, pois, os críticos implacáveis de Lula a alternativa com que teriam de se defrontar se, com o prestígio que o homem acumulou, sem paralelo na História nacional, tivesse ele a cabeça de um valentão político, pronto a se servir de sua imensa popularidade como arma para golpear os seus adversários. É verdade que, no auge do mensalão e na reta final da campanha de 2006, principalmente, ele não se guardou de dar um sentido ameaçador à expressão marqueteira “com a força do povo”. Mas, no íntimo, ele nunca flertou com a idéia de virar a mesa, exatamente por se guiar, desde os tempos heróicos no ABC, pela lógica do custo-benefício, que tentou transmitir a Chávez.

Como a esmagadora maioria dos políticos, Lula tem mais de uma face, e não serão raros os seus companheiros e ex-companheiros com histórias nada edificantes a contar sobre a sua intolerância com o dissenso que ele perceba como ameaça à sua hegemonia. Mas a face do Lula negociador não é uma ilusão de ótica - e eis aí a que vem a historieta da aula que deu a Chávez sobre os benefícios de saber até onde ir em situações de antagonismo. Em primeiro lugar, a democracia brasileira deu sorte. Já lá se vão 12 anos que o Planalto tem ocupantes chegados a uma negociação. Digam o que queiram os tucanos e os petistas iracundos, essa é mais uma dimensão da continuidade que, literalmente, só não vê quem não quer, entre Fernando Henrique e Lula.

Cada qual a seu modo, vai sem dizer, ambos concebem a política como um processo de encurtamento de distâncias à primeira vista insuperáveis. Isso não faz de nenhum deles uma Madre Teresa de Calcutá (antes, bem entendido, da desconstrução de sua figura). Mas não vem ao caso aqui arrolar as culpas que lhes cabem, registradas em cartório, por não terem combinado liderança e persuasão para tornar mais respirável o ambiente político. (Lula, em especial, enfrenta a robusta acusação de que, na sua era e nem um pouco à sua revelia, a poluição política aumentou no Brasil.) O que leva ao segundo motivo por que se justifica tomar o episódio do seu diálogo com o presidente venezuelano como ponto de partida para ressaltar que o País está no lucro pelo fato de também Lula valorizar a construção de consensos como viga mestra da governança, embora a impressão que passa seja a da velha compra e venda de apoios.

A tal ponto chegou a repugnância dos setores mais vocais da opinião pública com as sessões contínuas de baixaria política que toda negociação é automaticamente percebida como corrupção disfarçada. A própria imprensa tem revelado, com os escândalos que noticia, a sua própria dificuldade em ajudar o leitor a distinguir acertos espúrios de acordos legítimos. Dificuldade compreensível porque não há uma cortina de ferro a separar as coisas. Mas algo se move. Ainda que, na África, Lula tenha reagido com um arreganho à resistência do DEM, o ex-PFL, à prorrogação da CPMF, não foi à revelia dele que os seus ministros procuraram a oposição para conversar, antecipando-se à tramitação formal, no Senado, da respectiva emenda constitucional aprovada na Câmara. De volta, mandou que seguissem em frente.

Claro que governo algum negocia por bom-mocismo, mas por necessidade, quando lhe falta chão firme para prevalecer no Legislativo. Isso, porém, é detalhe perto dos indícios animadores de que enfim se voltou a fazer política, em face de uma questão essencial como o destino do imposto do cheque. “Um espírito de negociação legítima começa a impregnar as discussões no Senado”, comentou a Folha de S.Paulo. É esse espírito, reminiscente do que Lula disse a Chávez, que pode ajudar a secar a mala sangre entre o governo e a oposição extremada.

Luiz Weis é jornalista