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domingo, 11 de novembro de 2007

Enquanto Serra prepara venda de empresas públicas em São Paulo, no Brasil maioria é contra privatizações


Levantamento ‘Estado’/Ipsos indica que 62% do eleitorado é contra e apenas 25% é a favor

Carlos Marchi

A maioria do eleitorado brasileiro (62%) é contra a privatização de serviços públicos, feita por quaisquer governos, apontou a pesquisa Estado/Ipsos. Apenas 25% dos brasileiros a aprova. A percepção dos brasileiros é que as privatizações pioraram os serviços prestados à população nos setores de telefonia, estradas, energia elétrica e água e esgoto. As mais altas taxas de rejeição (73%) estão no segmento de nível superior e nas classes A e B.

Esses números contrastam com o momento das privatizações. Há 22 anos, os monopólios estatais se mostravam incapazes de responder aos desafios da globalização e da revolução tecnológica, em especial na telefonia. Em dezembro de 1994, uma pesquisa Ibope sobre privatização de bancos estaduais registrou que 57% eram a favor de privatizá-los total ou parcialmente e só 31% eram contrários. Em fins de março de 1995, outra pesquisa Ibope atestou que 43% dos brasileiros eram a favor das privatizações e 34% eram contrários.

DO VINHO PARA A ÁGUA

De lá para cá, isso mudou muito. Hoje, uma robusta maioria acha que a qualidade dos serviços prestados por empresas privatizadas piorou. Os mais criticados, segundo a pesquisa, são os serviços prestados pelas concessionárias de energia elétrica (pioraram para 55% e melhoraram para 31%) e água e esgoto (54% e 29%, respectivamente). As menos rejeitadas são as de telefonia (51% e 37%) e de estradas (47% e 36%).

Mas os brasileiros fazem um ressalva em seu julgamento. Se, por um lado, acham que cabe ao governo arranjar dinheiro para investir em tudo, como afirmam 74%, por outro, sentenciam pragmaticamente que é melhor privatizar do que prestar um mau serviço, como admitem 44%. Uma parcela minoritária (20%) concorda com a frase “serviços privatizados funcionam sempre mal”; e menos gente ainda (18%) concorda com a frase “serviços estatizados funcionam sempre bem”.

A análise do Ipsos frisou que a população brasileira se posicionou francamente contra as privatizações, mas, se os serviços forem bons ou trouxerem benefícios para as pessoas, essa postura pode ser revertida. Segundo a análise, os brasileiros não comparam o serviço prestado atualmente com o passado remoto - quando eles eram, em geral, de má qualidade -, mas com a expectativa que acalentaram de que as privatizações melhorariam a vida das pessoas.

Hoje, para privatizar, deduz a análise, os governos devem estar blindados pelo acúmulo prévio de popularidade advinda de outros fatores - FHC, por exemplo, menciona a análise, privatizou sob o guarda-chuva do início do Plano Real; Lula, agora, privatizou sob o manto protetor do bom momento da economia e dos programas sociais.

SEM COR E SEM PARTIDO

Ainda assim, a rejeição à privatização não tem cor partidária ou ideológica: ela atinge por igual as privatizações feitas no governo FHC, no governo Lula ou em governos estaduais ou municipais variados (caso das privatizações na área de água e esgoto). Enquanto 55% acharam que o governo FHC fez mal em privatizar a telefonia, apenas 33% disseram que fez bem.

Os números são negativos por igual para a privatização de estradas (53% contra e 33% a favor), energia elétrica (59% contra e 29% a favor) e água e esgoto (59% contra e 27% a favor). Da mesma forma, os brasileiros condenaram a recente privatização de estradas federais anunciada pelo governo Lula: para 49%, o governo fez mal; para 35%, o governo fez bem.

Uma maioria esmagadora da população condenou uma hipotética privatização das “jóias da Coroa”, o Banco do Brasil (77%), a Caixa Econômica Federal (78%) e a Petrobrás (78%), numa atitude animada, segundo a análise do Ipsos, pela retórica repetida por todos os segmentos políticos brasileiros .

Os que estão no alto da pirâmide de renda produziram as maiores taxas de aprovação das privatizações (35%, entre os que ganham mais de R$ 1.801), mas, entre os que ganham até R$ 300 mensais, apenas 15% aprovam a desestatização dos serviços básicos.

No outro extremo, a Região Nordeste evidenciou a maior rejeição às privatizações (16% a favor e 73% contra), seguida pela Região Sul (21% a favor e 67% contra), o Sudeste (30% a favor e 56% contra) e, por último, o Norte/Centro-Oeste (34% a favor e 51% contra).

A pesquisa Estado/Ipsos entrevistou 1.000 eleitores brasileiros, em 70 cidades e 9 regiões metropolitanas, entre os dias 24 e 31 de outubro, com uma margem de erro de 3 pontos porcentuais.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Eleitorado quer mais Estado e menos mercado

Por Alberto Carlos Almeida - Valor (para assinantes)

Há muitas evidências do caráter estatizante do eleitorado brasileiro. Quem não se lembra das manifestações de rua, muitas na frente da Bolsa de Valores do Rio, contrárias aos leilões de privatização? Não se tratava, ali, de uma simples minoria, mas sim de uma minoria militante e aguerrida que representava, de certa maneira, uma maioria silenciosa para qual o Estado tem papel fundamental no provimento de bens e serviços.


É assim que 51% dos brasileiros acham que o sistema bancário deva ser estatal. Imaginem-se os maiores bancos brasileiros controlados pelo governo. Meu Deus, algo completamente absurdo! Porém, se essa decisão fosse deixada na mão do eleitorado, em particular do eleitorado de baixa escolaridade, é possível que o nosso sistema bancário fosse bem menos privado e muito mais estatal.




Cheque em branco


Alguns vão indagar por que, se o eleitorado é tão estatizante, durante o governo Fernando Henrique foram realizadas tantas privatizações. A razão é que o eleitorado passou um cheque em branco, como em geral ele faz com qualquer governo, para que Fernando Henrique provesse bem-estar e melhoria do poder de compra. O raciocínio era simples e direto: "votei no governo para controlar a inflação, o que melhora muito a minha vida; assim, mesmo que ele faça coisas com as quais discordo, como privatizar, eu ainda assim apóio o governo." Veja-se, o apoio é condicional ao bom desempenho da economia.


No meu livro "A Cabeça do Brasileiro" eu abordo de forma detalhada em dois capítulos inteiros esta tendência majoritária de nossa sociedade: querer o Estado para produzir, regular e gerar bem-estar, mais Estado e menos mercado. É curioso perceber que esse aspecto do livro esteja sendo muito pouco debatido. Será que isso não merece atenção pública? Será que não é relevante saber que quanto menos escolarizada a pessoa, quanto mais pobre ela é, maior é a tendência de que ela queira mais Estado e menos mercado?


Símbolos nacionais


Não cabe aqui assumir uma posição intervencionista ou a favor do laissez-faire, mas apenas mostrar que os governantes brasileiros fazem, em grande medida, aquilo que o eleitorado espera que façam. A decisão de privatizar ou estatizar não depende apenas da opinião pública. Ela é muito relevante, porém, quando se trata de grandes símbolos nacionais. Melhor dizendo, antes disso, para que uma empresa estatal se torne um símbolo nacional é preciso que grande parte da sociedade apóie o controle estatal de muitas atividades econômicas.


É por isso que a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal são símbolos nacionais de suma importância para o povo. É também por isso que nenhuma força política brasileira se arriscaria, em sã consciência, a defender seriamente a privatização dessas empresas. A título de exemplo, veja-se o recente episódio que fez o ministro da Saúde recuar em sua defesa do aborto. Por que ele fez isso? Porque nossa população é majoritariamente anti-aborto. Caso ele continuasse insistindo na defesa da legalização do aborto, estaria pondo em risco sua permanência no cargo. Tudo isso para dizer o quê? Que a opinião pública importa.


Alberto Carlos Almeida, diretor de Planejamento da Ipsos Public Affairs e autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record).


E-mail: alberto.almeida@ipsos.com.br